Começo
a rever meus conceitos, me questionar se os deuses estão realmente a
meu favor, ou apenas tirando uma com a minha cara. Precisava novamente ir à Campinas, apresentar o resultado
de exames ao médico. Consegui horário apenas no início da noite,
às seis e meia – o que acarretava em chegar atrasado ao evento de
lançamento do livro de poesias Pontualmente ao encontro ou pomos,
um adão cada, do meu amigo André Nogueira, lançado pela Medita
Editora, e no qual eu ansiava encontrar minha paixão platônica “com
futuro”. Não obstante o horário tardio da consulta, eu
necessitava antes buscar os tais exames, o que deveria ser feito até
às cinco da tarde, o que implicava em sair de casa antes das quatro.
Vendo
que a tarde estaria toda comprometida nisso, decidi antecipar um
pouco meu roteiro, para ter tempo de passar na farmácia da Ruth num
horário em que ela, provavelmente, ainda estivesse atendendo.
Depois
de pegar um ônibus guiado por um troglodita armado de CNH e volante–
vulgo um típico motorista campineiro –, peguei os referidos exames
e me pus em marcha para as tão necessárias vitaminas. No caminho,
hesitava se deveria mesmo ir ao encontro da Ruth: aquele envelope
enorme com timbre de hospital, que não cabia na minha mochila,
talvez me emprestasse um aspecto de doente: o que pensaria Ruth de
mim? Me imaginaria um jovem acabado? Entretanto, ponderei: estou
prestes a voltar para Pato Branco, talvez esta fosse a última
oportunidade de rever Ruth e, conseqüentemente, dar chances ao
destino. Entraria assim mesmo!
No
caminho, planejava deixar os novos cartões da Casuística na
portaria do prédio de uma amiga, ver se convencia a ela ou sua irmã
a participarem da revista. Não sei qual o estilo da irmã, mas essa
amiga escreve muito bem, um estilo gracioso, que eu imaginava inato,
até ela me contar que escrevia já há anos escondida – uma
verdadeira Lucienne L'accord, eu diria hoje –; além de ter um
forte quê heterodoxo, como pude conferir em sua monografia.
Coincidentemente essa amiga é minha ex, que coincidentemente mora ao
lado da farmácia em que Ruth trabalha. Nova coincidência: não
precisei deixar os cartões na portaria, nos trombamos na rua, mesmo
– creio que a segunda vez na vida. Simpática como sempre, ficamos
ali um tempo, conversando. Trabalho, vestibular – ela também
resolveu começar nova faculdade –, férias, não-férias,
mestrado. Nos
estendemos bem uns quinze, vinte minutos nesse bate-papo, e eu teria
me alongado mais, não tivesse atrasado para um compromisso:
encontrar Ruth.
Logo
descobri que poderia ter me prolongado na conversa: ao chegar na
farmácia, notei aquela habitual movimentação de quando se está
começando o turno, e vi que Ruth não estava. Para esta minha nova
saída de mãos abanando, interpretei que havia esquecido a receita –
achei que repetir a do celular poderia levantar suspeitas. Quem sabe
o médico, dali três horas, não me receitasse qualquer nova
oportunidade, para na terça-feira eu voltar à farmácia?
Não
maldisse minha ex, não penso que tenha feito propositadamente, até
porque sei que não tem o hábito de ler minhas crônicas – quando
muito meus prolixos e-mails –, e mesmo que as estivesse
acompanhando, não acho que esteja a fim de Ruth, para me ter como um
concorrente. Apesar que Ruth, encantadora do jeito que é, melhor não
duvidar de nada...
Campinas, 19 de dezembro de 2011
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dAniel gOrte-dAlmoro
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Na teoria a prática é simples.
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"A alienação do espectador em favor do objeto contemplado se expressa assim: quanto
mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas
imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria
existência e seu próprio desejo. É por isso que o espectador não se
sente em casa em nenhum lugar, pois o espetáculo está em toda parte."
Debord