Sinceramente,
tem horas – e não são poucas – que invejo o Daniel Francoy, a
quem basta sair de casa e tomar o rumo certo – sentido bar da
esquina –, e tem grandes chances de, nem que seja de relance, ver sua
idolatrada chinesinha. Se tiver tempo e alguns poucos reais, pode
ainda desfrutar do seu aroma, ao comprar uma água tônica, ou um
pacote das suas ainda mais idolatradas jujubas, com o que não apenas
alivia a modorra do trabalho burocrático, como preenche diariamente
seu facebook.
Eu, de minha parte, mesmo que morasse próximo, e não
distante dez quilômetros da farmácia de Ruth, de nada adiantaria
acertar o rumo, já que o referido estabelecimento não é
escancarado para a rua, e pior: não me bastam alguns reais, preciso
também de uma receita para poder ir até lá, tentar a sorte de ser
atendido por ela – para, quem sabe, ela encetar
novamente o papo sobre final de semana do nosso primeiro encontro, e,
finalmente, acabar me convidando pra sair. Infelizmente, não
tenho sequer a oportunidade de freqüentar a farmácia com
freqüência, o que dizer da sorte do que viria a seguir.
Não
precisar ir sempre à farmácia já é alguma sorte, não?
Perguntará alguma desavisada leitora que desconhece em absoluto os encantos de
Ruth, e que há de pensar que estou sendo irônico em minha queixa de
não ter uma receita sempre à mão. Meu lamento é, contudo,
sincero: doente crônico, o remédio me é uma constante durante o
mês, o passeio na farmácia que não o é: saio do médico e vou
logo à botica, “fazer o rancho” pro mês, como se diz nas terras
que me pariram – tal qual faziam meus pais outrora, na época dos
dragões gordos, mal recebiam o salário, numa demonstração de falta
de criatividade e de comunhão nacional.
Pois
lá estava eu, saindo do Aílton, o homeopata que há mais de meia
década me assiste, e rumando, não precisava dizer, rumo à farmácia
da Ruth, ou melhor, onde ela trabalha. No caminho, ia imaginando mil
situações, ensaiando n frases de efeito, planejando como seria
nossa lápide – isto para o último quarto do século, não que eu
queira abreviar qualquer coisa.
Ao
chegar lá, receita em mãos – depois me questionei, por que a
pressa? – passo o olho pela farmácia: cadê ela? Onde está Ruth,
a balconista? Será seu dia de folga e eu não sei? Saiu de férias?
Banco de horas? Foi demitida? Estará doente? Teria morrido? (e nossa
lápide, como fica?) Casou e foi viver com o marido, me deixando ali,
com a receita na mão, como uma noiva com o buquê em pleno altar?
Pois
não? Pergunta outra atendente,
na verdade farmacêutica – bonitinha, até, com um jeitinho
delicado, merecedora de um olhar mais atento, não trabalhasse na
mesma farmácia que Ruth, pobrecita. Queria este remédio.
Ela vai em busca do remédio, quando vejo Ruth saindo de uma sala no
fundos da loja, carregada de caixas, que quase a cobrem. Ah, Ruth é
tão bela! Deixa as caixas sobre o balcão, conversa algo com duas
colegas, e retorna à sala. Tem um sorriso nos lábios – é pena que
não me viu, senão diria que era por ter me visto que sorria. A
farmacêutica volta com o remédio que me cabe, diz quais são as
ofertas para mim naquele dia. Agradeço, vou até o caixa: o cartão
enrosca para passar, a caixa se atrapalha, pede desculpas. Imagina,
digo, com extrema sinceridade,
quase pedindo para que se atrapalhe um pouco mais – ou que peça
ajuda para aquela atendente que naquele momento não atende ninguém,
apenas carrega caixas. Ainda
me demoro um tempo mais para digitar a senha do cartão, na esperança
de Ruth aparecer uma vez mais. Nada.
Saio de lá um tanto decepcionado. No caminho, encontro um amigo, que
me informa que minha outra paixão platônica – aquela que minha
amiga disse que dava futuro (ao que tudo indica, tanto quanto papéis
da dívida grega) – entrou para a banda de um amigo que toca cover
do Morphine. Legal!, pensei num primeiro momento. Então me dou
conta: nos últimos seis shows da banda, cinco eu soube só depois de terem acontecido, o outro fiquei sabendo tão
em cima da hora que não pude aparecer – e de nada adiantou
xingá-lo por não ter me avisado, ele segue sem me avisar.
Decido, por fim, que é melhor achar um jeito de planejar como voltar
à farmácia de Ruth em menos de um mês – e sem precisar ficar
mais doente nesse ínterim.
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dAniel gOrte-dAlmoro
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Na teoria a prática é simples.
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"A alienação do espectador em favor do objeto contemplado se expressa assim: quanto
mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas
imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria
existência e seu próprio desejo. É por isso que o espectador não se
sente em casa em nenhum lugar, pois o espetáculo está em toda parte."
Debord