sigo repondo o atraso
Combinei
de encontrar um desconhecido às 13h na estação Santa Cecília. Ele
vinha de Barão e tinha um presente que uma amiga me dera: babosa –
desde que a Anvisa proibiu a comercialização de derivados da
planta, anda difícil achar o concentrado que tomava, e o último que
encontrei estava com ágio de 50%. Me entregou o pacote e fomos a um
restaurante ali perto, almoçar e conversar um pouco –
brasilianista, faz doutorado e é professor (no sentido português do
termo) na Universidade de Nova Iorque. Conversamos sobre São Paulo,
viagens e algumas questões acadêmicas, políticas, marxistas –
ele conhece meu orientador da monografia.

De
lá fui à Pinacoteca do Estado, onde vi as exposições de Eliseu
Visconti, Joaquín Torres Garcia e “Percursos e Afetos –
Fotografias, 1928/2011” – a única que realmente me interessou, em especial as fotos do fotógrafo Boris Kossoy –,
além do trabalho Mausoléu, de Carlos Bunga, que me trouxe algumas
reflexões.
Da
Pinacoteca, aproveito o ensejo para saciar minha índole consumista,
e dou um passeio pela famigerada região da Luz, em busca de um fone
e uma extensão para ele, na Santa Ifigênia. Antes, uma rápida
volta pelo Parque da Luz, que eu nunca tinha ido – me lembrou o
passeio público, em Curitiba, mas não tão bem cuidado.
Cruzo
a Estação da Luz, o piano, como sempre, sendo tocado, com uma
pequena platéia em volta – não páro, e de passagem não consigo
identificar o que está sendo tocado. Do outro lado, noto menos mendigos à
porta da estação - mas seguem lá. Enquanto transito pela região, não
tem como não lembrar do polêmico projeto da Nova Luz e
seus últimos desdobramentos: a política higienista para limpar a
área dos nóia e do populacho, para deixar o terreno livre à
especulação imobiliária. Dizem que se trata de "revitalizar".
Realmente, há locais ermos e mortos, mas em uma boa parte possui
vida – e muita – pulsando nas ruas. Passeio pelas galerias da av.
Santa Ifigênia, em busca dos tais fones, mas pensando que eu bem
poderia ter dinheiro pra comprar umas câmeras de segurança pra
fazer o filmete que uma vez tive idéia – a câmera de segurança
apenas pela questão estética. Noto que se coço a barbicha ao
entrar nos locais me abordam com mais freqüência: abandono o
expediente. No caminho, uma senhora trova um policial militar, que a
trata de uma maneira bem diferente da imagem que a PM paulista tem
conseguido passar – conversam sobre o Big Brother, se bem entendi.
Na loja onde vou comprar o fone, a mulher conversa sobre seus planos
de fazer lipo e pôr silicone – com o médico da Mulher
Samambaia, sabe. Comenta que já
teve dois filhos, agora pode se dedicar a isso. Seu interlocutor diz
que tem um contato melhor, que ao invés de 16 faz tudo por
12 mil, e ainda parcela em seis vezes.
Saio
da Santa Ifigênia, pela Av. Ipiranga chego à São João. Ali páro
pra tomar um mate e descubro onde comprar erva-mate argentina – a
um preço nada argentino. Não compro porque acredito ainda ter um
pacote na casa dos meus pais.
Meio perdido de onde estou – sei que
em algum canto eu devo dar na Consolação, que vai dar na casa do
Cássio –, decido tentar chegar à Sé, como sempre. Sigo em frente
e me deparo com a Galeria Olido, ao lado a Galeria do Rock, que uma vez entrei e nunca mais
achei. Desta vez não acho a camisa do Paraná Clube a preço
interessante, mas descubro que ela fica bem mais perto da Sé do que
eu imaginava – e saio de lá desconfiado de que da próxima vez vou ter
dificuldade em encontrá-la de novo, se não pesquisar no mapa antes.
Já
no centrão de São Paulo, me vem aquele espanto de sempre: como a
cidade é bonita! Ao menos enquanto tem gente – e acho que é isso
que faz a beleza de São Paulo –, pois a vez que passei ali já
depois do expediente, soava quase uma cidade deserta, não era bonita. Decido ir até
o Patéo do Colégio – nunca passara por lá. No caminho, uma
pedinte, já com mais de sessenta anos, cabelos brancos, me chama
atenção pela beleza e garbosidade. Atrás da Sé, enquanto espero o
sinal pra pedestre abrir, um homem berra num megafone que foi roubado
pelo Bradesco, isso pode acontecer com você também.
Uma prostituta compra café de um vendedor ambulante de bolos e
afins.
Na
Liberdade, entre a Galvão Bueno e a São Joaquim, uma mocinha, seus
dezessete, dezoito anos me abora, está vendendo canetas. Já a
imagino voluntária de alguma instituição de recuperação de
drogados. Na verdade é voluntária do CAIC – não, não se trata
da escola inspirada nos CIEPS da dupla Brizola-Darcy Ribeiro, e sim
de uma instituição que quer salvar os valores da família. Não,
obrigado, não concordo com os valores da família –
lembrei da minha babosa na hora: será que em breve serei eu um novo
drogado a atentar contra os valores da família e da sociedade? Quer
dizer que não concorda com os valores normais? Então tá,
e já se vira para oferecer caneta a outro passante – me arrependo de
ter sido tão breve, poderia ter enrolado um pouco mais a moça, só
para deixá-la em contradição.
Passo pelo Centro Cultural São Paulo, ver a programação. Na
entrada, um homem me lembra o Hugo, que mora comigo, mas um pouco
mais maduro – na casa dos seus trinta anos. Descubro a parte de
teatro que está fechada para reforma. Presencio a cena de um senhor
em “roupas de aposentado”, que dava pinta de morar pela região
do Paraíso, Aclimação, jogando xadrez com um hippie – um
fazedor/vendedor ambulante de artesanato.
Atravesso
a ponte da 23 de março. Pouco à frente, rio com um namorado que
beijava insistentemente sua garota, e dá uma pequena pausa, apenas
para ver se não vai trombar em poste algum e se depara com uma loira
bronzeadíssima, de belas formas que andava na minha frente, e não
consegue disfarçar a olhada. Antes de voltar aos beijos insistentes
na namorada, ainda a observa de rabo de olho. Espero o sinal abrir
para atravessar a rua e chegar, finalmente, à Paulista. Dali escuto de
algum canto sinos badalando as dezoito horas. Uma madame, num carrão,
acompanhada de um homem e um cachorrinho, resolve não esperar pelo
próximo sinal e pára em cima da faixa de pedestre. Me dou conta de
que só corro perigo se a mulher estiver disposta a sacrificar seu
carro, não acredito na hipótese, e enquanto serpenteio pelo carro
pra atravessar a rua, singelamente a cumprimento com o dedo médio –
tomo apenas cuidado para ver se não vai mesmo jogar o carro pra cima
de mim, não presto atenção em nada mais dela: uma boa
desfeita deve ser feita sem se preocupar com a reação.
Atravesso a Paulista quase inteira, desço a Haddock Lobo, cruzo com
algumas mulheres bonitas no caminho, nenhuma parecida com a Carla
Bruni.
São Paulo, 15 de fevereiro de 2012.
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Apenas havia visto, no sábado, que haveria ópera do Villa-Lobos, no
Teatro Municipal, esta quinta, nas comemorações dos noventa anos da
semana de arte moderna de 1922, e resolvi comprar o ingresso. Vi o
título – Magdalena –, não a conhecia, não fui atrás de me
informar. Comprei o ingresso mais barato – porque as contas na
capital andam ariscas –, e me dispus a aproveitar São Paulo
naquilo que não tinha em Campinas.
Talvez eu devesse ter assistido à ópera sem ter lido antes a
apresentação. Ou talvez devesse ter lido sobre a ópera antes de
ter comprado o ingresso – e deixado para conhecer o Municipal em
outra oportunidade: Magdalena é uma ópera-musical, ou
musical-opéra, feito especialmente para a Broadway, em 1947.
No intervalo, já não sendo grande fã de ópera – dia desses ouvi
Iris, de Mascagni, e essa eu gostei!, ao menos de ouvir –, cansado
daquele pot-pourri (ou remix, se for usar um jargão mais modernex)
de Villa-Lobos feito por ele próprio, com um libreto muito fraco, e
com coreografias até que bacaninhas, mas bem no estilo musical,
decidi ir embora - ouvir Vivaldi ou Dirié, que ganhava mais. Em casa, mais tarde, li o resumo da ópera, e vi
que o chavão que se desenhava era de fato o que aconteceria.
Era pouco mais de nove da noite. Cheguei ao Anhangabaú e resolvi ir
até a República, para não ter que fazer baldeação. No meio do
caminho, decidi dar uns giros por aquela região central de São
Paulo, desta feita sem a companhia do Cássio, como sói acontecer.
Decisão não digo sábia, mas a única a ser tomada, uma vez que me
perdi e não achei – senão bem mais tarde – a praça da
República:: São Paulo não é uma cidade racional.
Nas calçadas, sacos de lixo e pessoas se amontoavam – dali a pouco
devia ser hora do lixeiro passar. Achei curioso, talvez pelo
guarda-chuva pendurado no ombro, não sei, ninguém me ter me
abordado para pedir dinheiro – quando caminho com o Cássio, mais
ou menos na mesma hora, invariavelmente alguém nos pára, mesmo que
tenhamos dado uma volta rápida. Passo por prédios ocupados pela FLM
(Frente de Luta por Moradia). Passo por prédios desocupados, e que
mereciam um fim mais nobre: não apenas serem ocupados, mas serem de
fato resididos – por pessoas como as que militam no FLM, por
exemplo, cujo interesse vai ao encontro do da cidade. Do outro lado
da Av. São João, um grande grupo de moradores de rua:
auto-proteção? pedra? sopa?

Reparo que se seguisse em frente, a avenida ermava, resolvo dobrar
uma rua um pouco mais movimentada. Passo por um restaurante
aparentemente chique – ao menos guardava um ar portenho –, e logo
me deparo com o Largo do Arouche, ao menos com a placa – porque
depois, vendo no mapa, noto que mal tangeciei o famigerado Largo. Me
vêm à mente a música do Criolo, "Freguês da meia-noite":
Em pleno Largo do Arouche, em frente ao Mercado das Flores, Há um
restaurante francês. Não sei por quais quebradas me meto e logo
estou frente a frente com o Elevado Costa e Silva – o Minhocão. Me
sobe aquele medo na espinha,
fodeu – talvez o nome daquele
monstro citadino seja uma justa homenagem ao assassino que governou o
Brasil de 1967 a 1969, deveriam fazer outras do gênero. Por qualquer
mania que tenho, decido não voltar pelo mesmo caminho; viro à
esquerda, e na segunda rua, vendo que há um grande número de
transeuntes, entro nela, na esperança de dar com algum lugar
conhecido. Pessoas malham numa academia, carros passam, travestis
caminham para seus pontos. Dois mendigos conversam, sentados na
sargeta:
quem tem medo de cagar não come.
Olho para trás, tenho vontade de voltar e cumprimentá-lo pela
frase, quem sabe até lhe dar um dinheiro – quanto custa um livro
de auto-ajuda? Não o faço e me arrependo depois: quem tem
medo de cagar não come, posso
ter perdido alguma outra pérola do homem. Que não tivesse outra,
essa valeu a noite. Depois de errar outra entrada, ao invés
de entrar na Consolação, acabo na República. Só dali chego à Av.
da Consolação.
Contorno a Praça Roosevelt e subo a Augusta. Um homem me chama, que
tal tomar uma breja com a mulherada. Agradeço. Domingo, quando
passei por lá, voltando da casa do Cássio, imaginei como não seria
a tal mulherada, a se tomar como base as que estavam na porta. Nesse
mesmo domingo, exatamente ao lado, por conta de um barzinho, uma
grande aglomeração de adolescentes e jovens vestidos de preto. Duas
belas garotas gargalham, e quase esbarram no mendigo que dorme ao seu
lado.
Quinta é diferente, ou ao menos a hora ainda não é apropriada, não
há jovens darks e emos ao lado do inferninho, e os mendigos ainda
não se aconchegaram sob as marquises. Sigo em meu passo rápido –
se tem uma coisa que sou paulistano de nascença é a velocidade de
caminhar, principalmente se estou sozinho –, mas logo preciso
parar: um mendigo pede dinheiro pra pinga para três jovens que
descem em direção ao centro, e os quatro ocupam toda a calçada.
Não lhe dão atenção, e eu passo assim que possível. Obrigado
de qualquer forma, desculpa o incômodo.
Parece que pedir dinheiro pra pinga é a moda entre pedintes. Me soa
hipócrita: uma garrafa de pinga custa R$ 3,00, não precisam esmolar
tanto se é pra beber. Mas esse o segredo para sobreviver numa
sociedade hipócrita: diga o que querem ouvir que lhe darão
dinheiro. Se disser que é pra comida, vão dizer que está mentindo,
se for pra cigarro... melhor que beba, porque cigarro faz mal.
Passo por um rapaz que parece o
Mário (não, não é uma piada para perguntar que Mário),
duas vezes calouro meu na Unicamp. Qual enésimo curso terá ele
começado (ou recomeçado) este ano? Num bar, um homem usa uma boina,
que não controla a vasta cabeleira encaracolada, grisalha e
desagruvinhada, metido numa espécie de manto colorido. Parece saído
de algum filme B que passa à tarde, sobre vagabundos nas florestas
da Inglaterra – faltou uma flauta. Lembro da discussão que tivera
com o Cássio, há quatro dias, e me pergunto uma vez mais: quem não
está fantasiado? Que não está encarnando uma persona
na cidade? Num dos inferninhos mais acima, ao invés de mulheres
semi-nuas, homens sem camisa e com salientes barrigas descarregam
cerveja – e recordo questão que pusera ao Wlad, há um tempo: por
que todo maitre de inferninho precisa lembrar o Ratinho?
Caminho um pouco mais e cruzo com
outro homem que soa conhecido, esse lembrando algum ex-colega de
escola, de Pato Branco – era o Norton ou o Pelicano? Um homem em
roupas psicodélicas expõe seu artesanato na calçada, está com
óculos escuros: enxerga alguma coisa com aqueles óculos à noite? O
Cine-Unibanco ainda não terminou de ser fechado. Quase chegando na
Paulista, reparo de canto de olho um rapaz que vem na direção
contrária hesitar. Por fim, acaba me abordando, já quando estamos
lado a lado. Amigo. Tarde
demais, não diminuo o passo e finjo que não ouvi, concentrado que
estou na minha futura crônica.
Desço a Haddock Lobo. Pela hora, não tenho esperanças de encontrar
com nenhuma Flávia que lembre a Carla Bruni. E realmente não cruzo
com ninguém. No barzinho da esquina de casa havia uma mocinha
bonitinha, mas não se parecia com a Carla Bruni. Em casa estão o
Hugo e o Gabriel.
São Paulo, 23 de fevereiro de 2012.
ps: ao entrar no sítio da FLM [
www.portalflm.com.br], desconfio que
o grupo que se ajeitava sob a marquise, do outro lado da Av. São
João, devia estar em busca de auto-proteção, mesmo.
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dAniel gOrte-dAlmoro
www.comportamentogeral.blogspot.com [página pessoal]
www.casuistica.tk [artes antiartes heterodoxias]
www.deunohebdomadario.blogspot.com [blogue de humor]
Na teoria a prática é simples.
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"A alienação do espectador em favor do objeto contemplado se expressa assim: quanto
mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas
imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria
existência e seu próprio desejo. É por isso que o espectador não se
sente em casa em nenhum lugar, pois o espetáculo está em toda parte."
Debord