Sempre que escuto os termos “bispo” e “escola” ou “educação” juntos n'
A voz do Brasil (sim,
acreditem!, escuto o programa com alguma freqüencia, principalmente os
jornais dedicados às casas legislativas), me arrepio imediatamente e já
me preparo para o pior. Felizmente não foi o que aconteceu quando
escutei a proposta do bispo Crivella (PR-RJ). A intenção do senador é
boa – educação alimentar nas escolas –, porém abusa da boa vontade e
evita a raiz do problema: como um rabanete, escondido na seção de
verduras e – a depender do senador – nos livros escolares, pode competir
com o um BigMac, estampado em toda a cidade, em todo lugar, gritando a
toda hora na televisão? Se o bispo Crivella tivesse assistido a
Super Size Me,
filme de 2004 de Morgan Spurlok, teria se dado conta de que sua
proposta é inócua sem proibir a propaganda de alimentos industrializados
– algo que os congressistas suecos fizeram já há um bom tempo.
Menos esperançoso das boas intenções, o senador Wellington Dias (PT-PI)
resolveu tratar do maior problema de drogas do país da maneira mais
sensata: no relatório final da Subcomissão Temporária de Políticas
Sociais sobre Dependentes Químicos de Álcool,
Crack e Outros,
encaminhado ao executivo, propôs que fosse proibida a propaganda de
bebidas com teor alcoólico acima de 0,5% – o que impediria a propaganda
de cervejas e bebidas ice. A relatora do trabalho, Ana Amélia (PP-RS) se
opôs à idéia: disse ela que a autorregulamentação, tanto das indústrias
de bebida quanto das agências de publicidade, dão conta de alertar os
problemas do álcool e evitar maiores danos aos cidadãos. Sem dúvida, a
frase “se beber não dirija” acaba por ofuscar todas as gostosas da
propaganda de cerveja vinculadas imediatamente antes. Inclusive poderiam
começar uma outra, de eficácia equivalente, também voltada para o
problema de violência no trânsito: “se for bater não dirija”.
Queria estar errado, contudo, aposto um BigMac com cerveja que a
proposta do bispo Crivela passa, e a de Wellington Dias, não. Primeiro
porque apela para a educação, essa grande panacéia brasileira; segundo,
porque não mexe no sagrado direito de expressão das empresas de
publicidade – as quais, junto com a mídia, não conseguem entender por
que ainda não tem uma cláusula pétrea na Constituição garantindo esse
seu direito. Afinal, proibir propaganda afeta não apenas o produto
anunciado, como toda a cadeia de produção da imagem a ser vendida, em
especial, as emissoras de tevê.
E não há porque proibir propaganda: a criança obesa, o adolescente com
diabetes precoce, o jovem que volta da balada dirigindo embriagado e
avança contra seis pessoas no ponto de ônibus, o pai de família que bate
na mulher ao voltar do bar bêbado, tudo isso pode ser resolvido com
educação – uma época dir-se-ia “amor”, mas vivemos num tempo mais
realista.
Campinas, 18 de janeiro de 2012.
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Não sabia da história de “menos Luiza, que está no Canadá”. Devo culpar
meus contatos no facebook, que passam o dia a compartilhar coisas dos
mais diversos matizes, de denúncias sérias, artigos bons, a piadas de
segunda, denúncias furadas e bobagens mil, e deixaram passar essa. Foi
só hoje pela manhã, quando pipocaram nas atualizações dos amigos vídeo
com Carlos Nascimento, no Jornal do SBT de ontem (19), que fui ver do
que se tratava – isso após alguém ter comentado que era bom dar certa
liberdade aos âncoras, feito por algum amigo que certamente não ouve
BandNews FM, com o Boechat enchendo a voz para soltar diariamente seu
senso comum de classe-média-fascistóide-indignada travestida de opinião
séria e independente.
Assisti ao vídeo do Nascimento. Fui, então, atrás do que ele se referia:
a reportagem no mesmo dia 19, no Jornal Hoje, e a propaganda em que era
dita a famigerada (dizem) frase “menos Luiza, que está no Canadá”. A
propaganda, de um apartamento de alto-padrão (alto-custo, para sermos
corretos) em João Pessoa, é banal e boçal: não tenho dúvidas que a frase
se encaixa bem melhor no contexto do comercial do que o apartamento no
contexto urbano. A reportagem da rede Globo é constrangedora:
conseguiram utilizar quatro minutos do jornal do meio-dia para falar
abobrinhas quaisquer sobre Luiza, e o fato de ser a última notícia
mostra a que veio: para ser o assunto comentado da edição – espectadores
de tevê, pelo próprio meio, têm memória curta, vão lembrar mesmo da
última notícia antes do intervalo.
Dito e feito, textos sobre o caso do estupro no BBB, que jorravam como o
ouro a sair da bolsa de Peter Schlemihl, desapareceram. Que não tenha
havido estupro, isso é de menos, a oportunidade de seguir discutindo
problema seríssimo estava dada. Entretanto, a polêmica em torno do
programa da Globo – e a conseqüente discussão sobre o estupro – estava
encerrada, a questão agora era Luiza, que voltou do Canadá e foi notícia
no Jornal Hoje. E no sistema da indústria cultural, funcionando
justamente como sistema, até mesmo a crítica serve positivamente àquilo
que teoricamente está depreciando.
Me irrito com minhas crônicas conclusivas – até porque, dizia Pessoa, a
única conclusão é morrer –, porém me parece evidente que a Globo sabe se
mexer no terreno da comunicação de massa, para muito além de televisão e
seu portal na internet. Redes sociais incomodam, podem até acabar
impondo uma pauta ou outra, mas, no Brasil, quem ainda manda é ela. E
não é o facebook que vai contestar seu poderio. Não é xingar muito no
tuíter que mudará algo. É ocupar (de verdade e não só a passeio) a rua, o
espaço-território, real, o que ainda tem força: a ocupação da USP pode
ser tida como exemplo: se manteve em evidência por tempo considerável
graças à ação radical – inteligente ou não, se mostrou oportuna – de
alguns grupos extremistas.
Quem acredita no poder revolucionário da internet, das redes sociais, deve ver esta tirinha de André Dahmer:

Campinas, 20 de janeiro de 2012.
ps: não há erro de português no título.
Na teoria a prática é simples.