Um amigo meu, o Wlad – que é também meu editor, diga-se de passagem e
sem propósito outro que disfarçadamente dizer que em breve lançarei um
livro –, pediu pra dormir aqui em casa: tinha reunião de serviço e
depois iria para uma festa na FAU-USP. Me chamou pra ir junto (à festa),
o que aceitei sem muito titubear – até porque era recepção aos
ingressantes, e eu poderia conferir in loco o que estava perdendo, por ter ido, como sempre, mal na prova de aptidão.
Não chegou a ser uma “festa estranha com gente esquisita”, como o
Festival de Apartamento, ao qual eu fora – o Wlad também – no final de
semana, em Campinas. Na verdade, estava uma festa universitária banal,
com o diferencial de que tocava uma banda ruim e havia alguns cartazes, fora Rodas, fora PM, GREVE! A
outra diferença, mais marcante, foi não trombar com ninguém conhecido
lá – o Wlad ainda encontrou dois, que estavam trabalhando no bar. Uma
sensação estranha, que a mim incomodava, e o Wlad tentava encarar com a
receptividade dos velhos tempos. Tentava, mas não conseguiu. Nem duas
horas depois de chegarmos, tomávamos o caminho de volta: que tal flanar pela Paulista e Augusta, convidou-me. Convite que aceitei de pronto.

Descemos
na estação Consolação. Na plataforma de embarque, uma mulher na casa
dos seus trinta e poucos, muito elegante – de uma elegância que lhe
assentava muito bem – passou por nós. Não havíamos sequer saído da
estação quando cruzamos com duas gurias bonitas. Na rua, mal adentramos a
Augusta, um mendigo anunciava,
Acabou o show, agora é hora d'eu ir catar lixo. No caminho, um rapaz, acompanhado de mais dois, nos abordou pedindo dinheiro pra pinga –
não vou mentir que é pra comer. Demos,
por conta até da inferioridade numérica – apesar do tom não ter sido
ameaçador. Mal passaram por nós, dois PMs atravessaram a rua em direção a
eles – e de outros dois que estavam na mesma calçada que nós.
Fodeu, lá vem truculência, pensei.
Os três seguiram seu caminho sem titubear e a polícia não os incomodou.
Eu, em compensação, não tive como não deixar escapar um
puta, que medo!, diante de uma metralhadora que um policial entregava a outro.
Que ignorância, comentou meu companheiro de passeio, pouco depois. Uma breve pausa num bar,
gol!, onde assistimos ao segundo tento do Palmeiras. Prosseguimos. Mais à frente questionei:
as pessoas que faziam ponto ali, eram mulheres ou travestis. Dúvida compartilhada pelo Wlad.
No caminho de volta para a Paulista, uma prostituta nos avisou que a Augusta termina naquela esquina. Também nos contou que fazia direito e que queria ser promotora: nada é pro curto prazo, é preciso ser persistente.
Mais pedintes – esses sozinhos –, pessoas se apertando nas áreas para
fumantes dos barzinhos, uma garota que esperava o ônibus, e do outro
lado da rua um rapaz munido de guitarra e amplificador tocava um
pop-rock romântico qualquer – tenho a impressão de que não daria certo, a
moça estava suficientemente irritada ao celular, e alguém pra
atrapalhá-la era tudo o que ela não devia querer.
Na Paulista, um mendigo dormindo não com o cofrinho, mas com a bunda
exposta. Sob o vão do MASP, dois carros da PM estacionados; próximo a
eles, num canto, um homem vendia artesanatos. Se punha ao lado dos seus
produtos, peito estufado, como orgulhoso da sua mercadoria. Questionei
ao Wlad expunha, vendia a quem, se praticamente ninguém passava
lá àquela hora. E não seria louco de vender drogas na cara da polícia,
se acaso aquilo fosse só um disfarce – não parecia. No meio do caminho, o
Wlad ainda encontrou um conhecido da cidade dele, que interrompeu sua
manobra de skate para convidá-lo para uma festa do vinil em Socorro. Cola lá, leva as bolachas!
Passamos no mercado e voltamos para a Augusta – agora mais movimentada
–, comer um pedaço de pizza. Diante da frieza da rede de fast-food, nos
animamos mais com uma “pizza de padoca” de um bar. Um homem ainda não
bêbado, mas já suficientemente chato, insistia que a cerveja estava
quente: molha e põe no freezer, junto com aquela que você vai beber depois. Ali terminamos com poucas palavras a última conversa que vínhamos tendo, sobre questões existenciais e afetivo-existenciais.
No caminho de casa, na parte de auto-atendimento de uma agência do Itaú,
três mendigos dormiam o sono dos justos (zelado pelo vigia do banco?).
Na FAU, a festa era prometida até às cinco.
São Paulo, 09 de fevereiro de 2012.