Imaginei
que os deuses haviam sorrido para mim esta semana, e sem ironias
me
permitiriam um passeio até a farmácia de Ruth. Sem ironias porque
eram médicos marcados de antemão, e não que tiveram que aparecer
às pressas, por conta de uma cólica renal, que está à espreita,
mas ainda não veio – e espero que não venha. Mas que nada, nenhum
dos dois médicos me receitou receita que a farmácia da Ruth
vendesse. Aílton me receitou dois medicamentos homeopáticos, e
ainda que a filha da dona da farmácia homeopática seja bonitinha,
não é a Ruth – o que não espanta, afinal, a Ruth...
Entretanto,
na sexta consegui um bom pretexto para ir ao centro – leia-se sair
de Barão destino Campinas: buscar os novos cartões de visita e os
marca-páginas da Casuística. Só chegariam no meio da tarde, de
forma que eu precisaria ser preciso nos meus horários, a tempo de
buscar a encomenda e ter tempo de encontrar Ruth ainda em serviço.
Esperança extra para o pacote com os cartões, feitos a partir de
duas belas fotos de Vinícius Libardoni, para que o cartão colado
nele chamasse a atenção da Ruth, e assim conseguíssemos encetar
mais facilmente um assunto qualquer, para podermos, finalmente,
chegar aos assuntos interessantes.
Pacote
sobre o braço, suando em bicas, a barba por fazer (não tive tempo
de me arrumar direito), adentro a farmácia onde Ruth trabalha e
logo
me deparo com o delicado frescor do ar-condicionado. Vejo duas
balconistas, as duas ocupadas: comemoro minha sorte e fico no
aguardo
de Ruth aparecer para me atender. Reparo, então, que não reconheço
as atendentes: não são as mesmas do horário de Ruth. Um tempinho
mais de espera, e nada da Ruth dar o ar da graça, sendo que um dos
clientes dava pintas de estar concluindo sua compra.
Penso
rápido e resolvo atender meu celular desligado. Como sou uma
pessoa
educada, saio da loja para não perturbar outras pessoas com minha
conversa imaginária – até porque minha ascendência italiana pode
me tornar um tanto inconveniente nessas horas, digo, nas com
interlocutores verdadeiros do outro lado da linha. Ainda me quedo
um
tempo na entrada da loja, celular no ouvido. Definitivamente, Ruth
não estava mais àquela hora. Caminho distraidamente, sempre ao
celular, e trato de ir embora logo dali: me resta ainda um motivo
para nova tentativa de encontrar Ruth, algum outro dia. Não terei
um
pacote com um cartão bonito colado, porém sou capaz de elogiar a
decoração de natal da loja, se preciso for, para conseguir
conversar algo mais do que queria este remédio,
ou no caso, queria estas vitaminas.
Contudo, o maior problema, o de convidá-la, queria
sair
contigo, esse ainda segue
sem
uma boa estratégia.
Campinas,
16 de dezembro de 2011.
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dAniel gOrte-dAlmoro
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Na teoria a prática é simples.
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"A alienação do espectador em favor do objeto contemplado se expressa assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria existência e seu próprio desejo. É por isso que o espectador não se sente em casa em nenhum lugar, pois o espetáculo está em toda parte."
Debord