A
dinâmica de Jesus (Mateus 9:35-38)
Faltava
ao povo consolo e confiança, fé, amor e esperança. Entretanto, isso a maioria
não via. O imitador de Cristo, contudo, precisa ter esse feeling. Não se trata
de sentir dó ou pena das pessoas ao seu redor, mas sim compaixão, o que é bem
diferente.
Geralmente as reflexões que ouvimos fundamentadas neste
texto estão relacionadas com missões. O pedido de Jesus para que mais pessoas
possam botar a mão na massa e sair anunciando as boas novas da salvação em
Cristo. Pretendo, com essa meditação, ressaltar esta necessidade também, porém
gostaria de me aprofundar um pouco mais no primeiro versículo. Nele vemos, por
exemplo, quatro verbos (que em algumas traduções eles estão no gerúndio) que
nitidamente mostram as ações de Jesus, ou seja, a sua dinâmica, o seu movimento.
Olhando para o texto sob essa perspectiva, gostaria de considerar as
ações que fazem parte da dinâmica do Mestre.
1. O movimento
(v.35)"Jesus ia passando por todas as cidades e povoados,
ensinando nas sinagogas, pregando as boas novas do Reino e
curando todas as enfermidades e doenças."a) caminhava pela
região"Jesus ia passando por todas as cidades e
povoados..."Ele procurava as pessoas lá onde estavam em casa. Em
todas as cidades e aldeias há pessoas em casa. Jesus não espera que as pessoas
venham a ele (como era o casal de João Batista), contudo vai até elas e as
procura, por mais estranhos e escondidos que possam ser em seus hábitos . Ele
realiza "visitas domiciliares", como diríamos hoje. Samuel Keller afirmou certa
vez:
"A chave para as almas das pessoas está pendurada em sua casa. Por isso
é necessário ir até elas, procurá-las em sua vida cotidiana em suas aflições, em
suas doenças, em sua solidão."Guando adentramos a casa de alguém,
estamos explorando, ainda que de forma pequena, a intimidade do indivíduo.
Estamos passando a conhecer o seu espaço. Muitas vezes o local onde ela faz as
suas refeições, a cama onde ela se deita, o banheiro onde ela faz a sua higiene
etc. Era isso que Jesus fazia; ele adentrava a casa das pessoas e
posteriormente, com seus ensinamentos , penetrava seus corações. Uma estratégia
razoavelmente simples.
b) ensinava "...ensinando nas
sinagogas..."Ensinar refere-se à instrução dada ao povo (exploração
da Palavra de Deus), e também a uma controvérsia aos ensinamentos proclamados
pelos fariseus e escribas. O objetivo é que o povo seja ensinado a partir da
autoridade, e não dos "estatutos humanos". A Palavra poderosa do Bom Pastor é
quem iria ressoar nos ouvidos das pessoas. Aliás, de que outra maneira este
alcançaria seu rebanho, senão fazendo ressoar a sua voz mansa e serena?
c) evangelizava"...as boas novas do
Reino..."Ao lado do ensino acontece, como segunda característica o
"anúncio", a proclamação da alegria proveniente do Reino. Quem ouviu esse
chamado do arauto, essa proclamação que conduz a uma nova vida, deve saber que
está convocado a se tornar cidadão desse Reino, o qual existirá de eternidade a
eternidade. Você consegue ouvir a mensagem de boas notícias proferida por Jesus?
Se sim, quero incentivá-lo a render-se a ela. Se não, atente para aquilo que o
Mestre está falando.
d) curava "...todas as enfermidades e
doenças."Doenças e sofrimentos de todos os tipos, empobrecimento
econômico e domínio estrangeiro nem sequer eram os males piores. O mais terrível
era que o povo estava enfermo da alma. Ensino e proclamação são acompanhados da
ação simultânea. Pois o reino está em "vigor". Quando o Senhor diz a sua
palavra, caem as amarras do pecado, os castelos de mâmon, as fortalezas da
doença, os laços da morte; a alma é curada, o coração é transformado e o caráter
mudado.
Jesus nos proíbe deixar de lado a grande miséria física, social,
e econômica das multidões, como se não tivéssemos nada a ver com ela, como se
fosse possível ouvir e aceitar o evangelho do Reino de modo desligado dela.
Cristo não nos permite considerar essa miséria como algo sancionado por Deus.
Pelo contrário, ela faz parte da realidade sem Deus (não que aqueles que
entregam suas vidas a Jesus não passam por situações adversas) à qual fomos
incumbidos de penetrar como sal e luz (Mateus 5:13,14).
2. O
sentimento (v.36)"Ao ver as multidões, teve compaixão delas, porque
estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor."Do
versículo 35 ao 36 acontece uma mudança na nar ração de Mateus. Numa comovente
figura sobre seus sentimentos, Jesus nos mostra sua sincera compaixão para com o
povo. Ele viu o povo, mais que isso, ele o enxergou. Nem todos veem. Outros
veem, mas não enxergam. O poeta romano Horácio dizia:
"Odeio o povo simples e
mantenho-me longe dele." Os fariseus afirmavam:
"...essa ralé (se
referindo ao povo) que nada entende da lei é maldita." (João 7:49). Jesus,
no entanto, viu o povo e tinha compaixão dele. Essa compaixão profunda fazia com
que o seu coração se retorcesse em seu corpo, tal como acontece na parábola do
filho pródigo no evangelho de Lucas 15:20 (conforme afirma Fritz Rienecker no
livro Evangelho de Mateus).
Faltava ao povo consolo e confiança, fé,
amor e esperança. Entretanto, isso a maioria não via. O imitador de Cristo,
contudo, precisa ter esse feeling. Não se trata de sentir dó ou pena das pessoas
ao seu redor, mas sim compaixão, o que é bem diferente. Ao sentir dó ou pena,
nos colocamos acima do indivíduo e olhamos para ele de cima para baixo, isto é,
com desprezo. Todavia, ao sentir compaixão tomamos o seu lugar. Percebemos que o
que acontece com ele poderia também ocorrer conosco.
3. A percepção
(v.37)"Então disse aos seus discípulos: ‘A colheita é grande, mas os
trabalhadores são poucos.’"É de uma certa esperança que fala o
versículo 37. O tempo de angústia é na verdade é na verdade o período anterior à
colheita. Justamente por ser tão grande a miséria, o campo está maduro para a
safra. O olhar do Salvador constata:
"A colheita é grande..." Cristo o
diz para o seu povo e para todos os povos. Afirma-o naquele tempo e hoje. É
tempo de colheita porque a promessa de Deus se cumpriu e o Messias veio.
"A própria safra é figura recorrente para o juízo vindouro.
Inversamente, porém quando a Palavra de Deus é poderosamente anunciada, já agora
são feitas decisões do juízo final. Na posição diante de Jesus, de fato já agora
se decidem vida e morte, salvação e condenação", comenta Fritz.
O
pensamento de Jesus exterioriza-se numa emoção forte e profunda, num contraste
impactante. Ao erguer os olhos para o Deus o Pai, profere a sentença: A colheita
é grande e está madura. Ao olhar em profundidade para a humanidade, surge o
lamento sobre o rebanho exausto e prostrado e a falta de operários para a safra.
Daí, então, é que vem:
4. O clamor (v.38)‘Peçam, pois, ao
Senhor da colheita que envie trabalhadores para a sua colheita’".A
tensão e a profunda emoção do coração é solucionada pela oração; a oração séria
e persistente:
"Roguem ao Senhor da colheita que lance para fora operários na
sua colheita", como diz o texto no original.
No tempo de safra o
proprietário procura, além dos seus auxiliares permanentes, ainda trabalhadores
especiais, para jogá-los na sua colheita, assim como um general lança suas
forcas de reserva na batalha decisiva. Há grande necessidade de discípulos de
Jesus, impelidos pelo espírito de Deus, plenos de uma fé firme, animados por um
amor sagrado, dotados do olhar de Jesus, a saber, o olhar da compaixão e da
esperança, que queiram ajudar na construção do reino de Deus. Precisam saber-se
vocacionados pelo próprio Deus. Somente ele pode dar essas pessoas. Ele as dá
quando se ora por elas. São frutos de muitas orações. É maravilhoso, e ao mesmo
tempo assustador, o quanto Deus coloca em nossas mãos as responsabilidades! Até
o emprego de seus colaboradores -
"Roguem , pois, ao Senhor da colheita que
envie trabalhadores..." - a intercessão autêntica realiza obras grandes no
reino de Deus. Abre corações, bocas e mãos para a gratidão e o serviço.
Impulsiona-nos para a missão e o serviço em geral. Ela, ainda, nos dá a palavra
certa e a ação correta (conforme Munchmeyer).
Clame ao Senhor, ele jamais
fará ouvidos moucos para o seu clamor.
Deus abençoe a
todos.