O
Jardim das Aflições
Manoel Peres Sobrinho
Não há nada mais
aprazível do que vasculhar os profundos escaninhos da nossa memória, para
buscar e descobrir estilhaços temporais em forma de lembranças, daquilo que
ocorreu conosco em tempos bem longínquos do nosso passado. A ternura de nos
vermos novamente como crianças, com suas travessuras geniais, com suas
ingenuidades angelicais, com suas liberdades absolutas e nenhuma consciência
das responsabilidades de atos soltos e sem censura. Assim, vez por outra, como
que rompendo a teia das impressões fortemente arranjadas em nosso
subconsciente, afloram lembranças, que nos levam novamente a situações há muito
esquecidas e armazenadas na caixa forte de nosso esquecimento. Alguma coisa
semelhante a isso, vez por outra, ocorria com M. Kov, em seus momentos de absortas
incursões.
Numa dessas
insólitas viagens mentais, lembrou-se de algo terrível que lhe sucedeu, como
também a seus irmãos.
Ele e sua
família moravam, nessa época, na Rua Monte Alegre, em uma casa simples, geminada,
com três cômodos corridos e com portas alinhadas na mesma direção. De sorte que
um transeunte da rua conseguia ver todo o quintal. Mas para M. Kov em seu tempo
de criança, tudo era um mar de rosas. Sem consciência do mundo adulto de seus
pais, nem da política local, e muito menos do país ou do exterior, viver era só
o que M. Kov queria. Por isso quando ocorria alguma anomalia acidental, sua
estranheza era visceral, pois não compreendia, como que num mundo tão bem
organizado, o que ele idealizava, poderia acontecer tal coisa. Sua família
consistia de cinco pessoas: pai e mãe e mais dois irmãos. Ele era o do meio.
Era um dia
qualquer. A tarde estava quente, e o sol já declinava no horizonte, como uma
bola incandescente, tudo tingindo de um vermelho forte amarelado. Uma bela
pintura que o Criador proporcionava naquele instante. A escura noite lentamente
já começa a se pronunciar.
Em sua casa,
naquele momento, M. Kov só tinha a companhia dos dois irmãos. A mãe trabalhava
na fábrica de tecidos e só chegaria perto das 23:00h e o pai não havia ainda
chegado. Parecia que tudo estava bem, e seria mais um final de dia, numa
família normal. Até que seu pai chegou. Alcoolizado e nervoso, falando alto, às
vezes gritava, e sem parar esbravejava como se quisesse denunciar alguma
injustiça com a qual ele, de jeito algum, não concordava.
Percebendo a
situação ameaçadora, o irmão mais velho tomou o mais novo, no colo, e foram
para o quarto, fazendo dele a sua provisória fortaleza. Os três tremiam de medo
e ansiedade por que alguma coisa pior poderia acontecer.
Lá na cozinha
seu pai urrava de bravo como um animal inquieto na jaula e, violento, insinuava
golpes a inimigos invisíveis, mas ameaçadores. Deitado num banco comprido,
improvisado como cama, não deixava de vociferar impropérios contra Deus, os
homens e o mundo todo. Ali ficou, por muito tempo, até se cansar, não sem
antes, fazer voar pela janela, tudo o que encontrava à mão, como pratos,
xícaras, panelas e outros utensílios domésticos. La no quarto as crianças
tremiam de medo e horror, angustiadas com aquela situação quer insistia em não
acabar.
Não satisfeito
com a situação, e querendo responsabilizar fisicamente alguém por perto pelo
que o importunava, exigiu a presença do filho maior, com ele, ali na cozinha.
Tirou a sua cinta e deu uma surra na criança, sem mais nem menos e a dispensou
para o quarto, junto aos irmãos. Depois, vociferou o nome de M. Kov. Vendo este
o que ocorrera com seu irmão maior, compareceu na presença do pai já chorando e
suplicando que ele não o surrasse.
Mas nada mudou a
atitude do seu iracundo pai.
M. Kov apanhou
tanto que chegou urinar nas calças. Sem possibilidade de trocar de roupa,
aquela noite foi dormir molhado, entre soluções de medo e lancinantes dores nas
pernas e nas costas, pelas cintadas que levou. O único que foi poupado foi o
menor de todos, que nessa época tinha só um ano.
Porque seu pai
fizera aquilo, M. Kov nunca ficou realmente sabendo. O coração dos adultos
guardam segredos indevassáveis que provocam atitudes as mais estranhas,
provocando dores, tragédias e rancores que podem durar a vida toda. Infelizes,
são aqueles que não podendo se defender, sofrem indefesas com as atitudes
irresponsáveis dos seus algozes que podem ser exatamente seus pais.
Con la gracia de Dios - M. Peres S.