CONTO: O Jardim das Aflições...

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Manoel Peres Sobrinho

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Apr 7, 2016, 11:02:07 AM4/7/16
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                          O Jardim das Aflições
Manoel Peres Sobrinho

 
Não há nada mais aprazível do que vasculhar os profundos escaninhos da nossa memória, para buscar e descobrir estilhaços temporais em forma de lembranças, daquilo que ocorreu conosco em tempos bem longínquos do nosso passado. A ternura de nos vermos novamente como crianças, com suas travessuras geniais, com suas ingenuidades angelicais, com suas liberdades absolutas e nenhuma consciência das responsabilidades de atos soltos e sem censura. Assim, vez por outra, como que rompendo a teia das impressões fortemente arranjadas em nosso subconsciente, afloram lembranças, que nos levam novamente a situações há muito esquecidas e armazenadas na caixa forte de nosso esquecimento. Alguma coisa semelhante a isso, vez por outra, ocorria com M. Kov, em seus momentos de absortas incursões.
Numa dessas insólitas viagens mentais, lembrou-se de algo terrível que lhe sucedeu, como também a seus irmãos.
Ele e sua família moravam, nessa época, na Rua Monte Alegre, em uma casa simples, geminada, com três cômodos corridos e com portas alinhadas na mesma direção. De sorte que um transeunte da rua conseguia ver todo o quintal. Mas para M. Kov em seu tempo de criança, tudo era um mar de rosas. Sem consciência do mundo adulto de seus pais, nem da política local, e muito menos do país ou do exterior, viver era só o que M. Kov queria. Por isso quando ocorria alguma anomalia acidental, sua estranheza era visceral, pois não compreendia, como que num mundo tão bem organizado, o que ele idealizava, poderia acontecer tal coisa. Sua família consistia de cinco pessoas: pai e mãe e mais dois irmãos. Ele era o do meio.
Era um dia qualquer. A tarde estava quente, e o sol já declinava no horizonte, como uma bola incandescente, tudo tingindo de um vermelho forte amarelado. Uma bela pintura que o Criador proporcionava naquele instante. A escura noite lentamente já começa a se pronunciar.
Em sua casa, naquele momento, M. Kov só tinha a companhia dos dois irmãos. A mãe trabalhava na fábrica de tecidos e só chegaria perto das 23:00h e o pai não havia ainda chegado. Parecia que tudo estava bem, e seria mais um final de dia, numa família normal. Até que seu pai chegou. Alcoolizado e nervoso, falando alto, às vezes gritava, e sem parar esbravejava como se quisesse denunciar alguma injustiça com a qual ele, de jeito algum, não concordava.
Percebendo a situação ameaçadora, o irmão mais velho tomou o mais novo, no colo, e foram para o quarto, fazendo dele a sua provisória fortaleza. Os três tremiam de medo e ansiedade por que alguma coisa pior poderia acontecer.
Lá na cozinha seu pai urrava de bravo como um animal inquieto na jaula e, violento, insinuava golpes a inimigos invisíveis, mas ameaçadores. Deitado num banco comprido, improvisado como cama, não deixava de vociferar impropérios contra Deus, os homens e o mundo todo. Ali ficou, por muito tempo, até se cansar, não sem antes, fazer voar pela janela, tudo o que encontrava à mão, como pratos, xícaras, panelas e outros utensílios domésticos. La no quarto as crianças tremiam de medo e horror, angustiadas com aquela situação quer insistia em não acabar.
Não satisfeito com a situação, e querendo responsabilizar fisicamente alguém por perto pelo que o importunava, exigiu a presença do filho maior, com ele, ali na cozinha. Tirou a sua cinta e deu uma surra na criança, sem mais nem menos e a dispensou para o quarto, junto aos irmãos. Depois, vociferou o nome de M. Kov. Vendo este o que ocorrera com seu irmão maior, compareceu na presença do pai já chorando e suplicando que ele não o surrasse.
Mas nada mudou a atitude do seu iracundo pai.
M. Kov apanhou tanto que chegou urinar nas calças. Sem possibilidade de trocar de roupa, aquela noite foi dormir molhado, entre soluções de medo e lancinantes dores nas pernas e nas costas, pelas cintadas que levou. O único que foi poupado foi o menor de todos, que nessa época tinha só um ano.
Porque seu pai fizera aquilo, M. Kov nunca ficou realmente sabendo. O coração dos adultos guardam segredos indevassáveis que provocam atitudes as mais estranhas, provocando dores, tragédias e rancores que podem durar a vida toda. Infelizes, são aqueles que não podendo se defender, sofrem indefesas com as atitudes irresponsáveis dos seus algozes que podem ser exatamente seus pais.
 
Con la gracia de Dios  - M. Peres S. 
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