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Manoel Peres Sobrinho

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Apr 14, 2016, 9:39:13 AM4/14/16
to + Fragmentos, Artigos, Manoel Peres Sobrinho, Pastores Presbiterianos, Cristianismo Guarapuava
Calças curtas, nunca mais!
Manoel Peres Sobrinho
 
 
A infância guarda segredos que jamais poderão ser revelados, porque ao crescer, perdemos a sensibilidade inocente e a tão característica maneira de ver o mundo e de organizá-lo à nossa volta. Esse mundo está povoado de sonhos e de seres fantásticos que só nesse espaço de tempo existem, e não migram jamais, para nenhuma outra de nossas esferas etárias, nem comungam com nossas novas maneiras de experimentar o cotidiano. São criaturas que idealizamos, reféns de uma realidade que jamais será reinventada em nossas vidas. Com o tempo deixamos de ser crianças, mas, ironicamente, não nos tornamos inteiramente adultos. Vez por outra, tentamos revisitar nosso paraíso perdido; mas, sem nenhum sucesso. Só o que sentimos é a nostalgia de algo que se foi e não volta nunca mais.
Como amigos, M. Kov tinha uns 6 ou 7 meninos que residiam na vila da Chave. Fiéis escudeiros de sonhos e travessuras. Sempre buscando novas atividades pueris que pudessem lhes dar um imenso prazer de momentos indizíveis e só deles, assim, como também, uma pequena dose de desafio masculino. 
A vida e o tempo, na vila da Chave eram medidos ao som da sirene da fábrica de tecidos. Das 4:15h às 22:00h o ritmo das duas grandes vilas de operário, Barra Funda, também, sentia a cadência daquele esborrifar sonoro, agudo e estridente, que jorrava  ouvidos a dentro de cada trabalhador.
Para M. Kov e seus amigos a vida corria na mesma fluidez de sempre, assim como as  brincadeiras eram quase sempre as mesmas: bolinha de gude, peão, pipa, ou alguma outra, o que raramente acontecia, com as meninas. A sobriedade masculina era mantida a toda prova e com implacável contenção.
O fato é que M. Kov, em seu segundo estirão, deu uma espichada surpreendente, e seu tamanho quase que dobrou de extensão. Muito embora a sua voz permanecesse ainda aguda e indefinida, como qualquer criança normal, seu tamanho desmentia a sua aparência, e em sua cabeça, algumas ideias novas começaram a crescer.
Já não se sentia mais à vontade com as calças curtas. Via-se com alguma distinção juntos aos demais, seus amigos. Até, começou a observar, que alguns dos seus colegas de brincadeiras, mesmo sendo menores que ele, já usavam calças compridas. Aquilo já o incomodava, e muito. Assim, resolveu falar com a mãe pra ver o que ela dizia daquilo tudo. E o veredito foi simples: — Vou comprar calças compridas pra você!
Aquilo caiu com uma bomba em sua mente. Ficou entusiasmado ao absurdo de não conseguir dormir aquela noite de tanta felicidade. Finalmente, pensava ele, agora sim, vou conquistar minha liberdade. Já sou um adulto. Vou poder andar por aí, fazendo coisas de adultos.
Os dias se passaram e nada das calças compridas. A explicação dada por sua mãe era que ela precisava pagar algumas contas anteriores, que eram mensais, e depois de quitar essas dívidas, aí sim, vinham as suas sonhadas calças compridas. A estimativa era que ele devia esperar ainda uns três ou quatro meses.
Ele não aguentava mais esperar “tanto tempo”. Aquilo o angustiava e o fazia se sentir até um pouco incrédulo, quanto às promessas de sua mãe. Mas, até que enfim, o dia chegou. Num pacote que ela trouxera, entre outras coisas, estavam as suas sonhadas calças compridas.
Não esperou mais. Foi até o quarto, tirou suas calças curtas, vestiu as calças novas. Como estava com os pés no chão, calçou também os sapatos, mesmo com os pés sujos de poeira. O que interessava mesmo, eram as calças. Colocou também a cinta que acompanhava seu novo traje, e pôs-se plantado na porta da sala que dava pra rua.
Estava ridículo!
Magrinho como era teve que apertar demais a cinta e por isso a cintura ficou toda amontoada, pois as calças eram um pouco largas pra ele, naquela idade. Mas o que era importante mesmo, pra ele, é que finalmente estava de calças compridas.
Junto à porta, permaneceu solenemente, meia hora, sem que ninguém aparecesse para vê-lo vestido naquela novidade. Entrou, foi para o espelho e se arrumou meticulosamente, e voltou para a porta da rua. Tinha necessidade de ser visto; queria ser elogiado; queria saber qual era a opinião dos seus amigos, dos seus vizinhos. Afinal, a primeira calça comprida a gente nunca esquece!
Mas nada. Ninguém havia aparecido pra dar a sua opinião. Meio chateado, e sem saber ao certo o que fazer, tirou suas calças, dobrou-as, guardou-as embrulhadas no mesmo papel que vieram, e foi brincar.
No seu coração uma certeza: calças compridas não fazem homens. É necessário muito mais!

 
Con la gracia de Dios  - M. Peres S. 
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