Calças
curtas, nunca mais!
Manoel Peres Sobrinho
A infância
guarda segredos que jamais poderão ser revelados, porque ao crescer, perdemos a
sensibilidade inocente e a tão característica maneira de ver o mundo e de
organizá-lo à nossa volta. Esse mundo está povoado de sonhos e de seres
fantásticos que só nesse espaço de tempo existem, e não migram jamais, para nenhuma
outra de nossas esferas etárias, nem comungam com nossas novas maneiras de
experimentar o cotidiano. São criaturas que idealizamos, reféns de uma
realidade que jamais será reinventada em nossas vidas. Com o tempo deixamos de
ser crianças, mas, ironicamente, não nos tornamos inteiramente adultos. Vez por
outra, tentamos revisitar nosso paraíso perdido; mas, sem nenhum sucesso. Só o
que sentimos é a nostalgia de algo que se foi e não volta nunca mais.
Como amigos, M.
Kov tinha uns 6 ou 7 meninos que residiam na vila da Chave. Fiéis escudeiros de
sonhos e travessuras. Sempre buscando novas atividades pueris que pudessem lhes
dar um imenso prazer de momentos indizíveis e só deles, assim, como também, uma
pequena dose de desafio masculino.
A vida e o tempo,
na vila da Chave eram medidos ao som da sirene da fábrica de tecidos. Das 4:15h
às 22:00h o ritmo das duas grandes vilas de operário, Barra Funda, também, sentia
a cadência daquele esborrifar sonoro, agudo e estridente, que jorrava ouvidos a dentro de cada trabalhador.
Para M. Kov e
seus amigos a vida corria na mesma fluidez de sempre, assim como as brincadeiras eram quase sempre as mesmas:
bolinha de gude, peão, pipa, ou alguma outra, o que raramente acontecia, com as
meninas. A sobriedade masculina era mantida a toda prova e com implacável
contenção.
O fato é que M.
Kov, em seu segundo estirão, deu uma espichada surpreendente, e seu tamanho
quase que dobrou de extensão. Muito embora a sua voz permanecesse ainda aguda e
indefinida, como qualquer criança normal, seu tamanho desmentia a sua
aparência, e em sua cabeça, algumas ideias novas começaram a crescer.
Já não se sentia
mais à vontade com as calças curtas. Via-se com alguma distinção juntos aos demais,
seus amigos. Até, começou a observar, que alguns dos seus colegas de
brincadeiras, mesmo sendo menores que ele, já usavam calças compridas. Aquilo
já o incomodava, e muito. Assim, resolveu falar com a mãe pra ver o que ela
dizia daquilo tudo. E o veredito foi simples: — Vou comprar calças compridas
pra você!
Aquilo caiu com
uma bomba em sua mente. Ficou entusiasmado ao absurdo de não conseguir dormir
aquela noite de tanta felicidade. Finalmente, pensava ele, agora sim, vou
conquistar minha liberdade. Já sou um adulto. Vou poder andar por aí, fazendo
coisas de adultos.
Os dias se
passaram e nada das calças compridas. A explicação dada por sua mãe era que ela
precisava pagar algumas contas anteriores, que eram mensais, e depois de quitar
essas dívidas, aí sim, vinham as suas sonhadas calças compridas. A estimativa
era que ele devia esperar ainda uns três ou quatro meses.
Ele não
aguentava mais esperar “tanto tempo”. Aquilo o angustiava e o fazia se sentir
até um pouco incrédulo, quanto às promessas de sua mãe. Mas, até que enfim, o
dia chegou. Num pacote que ela trouxera, entre outras coisas, estavam as suas
sonhadas calças compridas.
Não esperou
mais. Foi até o quarto, tirou suas calças curtas, vestiu as calças novas. Como
estava com os pés no chão, calçou também os sapatos, mesmo com os pés sujos de
poeira. O que interessava mesmo, eram as calças. Colocou também a cinta que
acompanhava seu novo traje, e pôs-se plantado na porta da sala que dava pra
rua.
Estava ridículo!
Magrinho como
era teve que apertar demais a cinta e por isso a cintura ficou toda amontoada,
pois as calças eram um pouco largas pra ele, naquela idade. Mas o que era
importante mesmo, pra ele, é que finalmente estava de calças compridas.
Junto à porta,
permaneceu solenemente, meia hora, sem que ninguém aparecesse para vê-lo
vestido naquela novidade. Entrou, foi para o espelho e se arrumou
meticulosamente, e voltou para a porta da rua. Tinha necessidade de ser visto;
queria ser elogiado; queria saber qual era a opinião dos seus amigos, dos seus
vizinhos. Afinal, a primeira calça comprida a gente nunca esquece!
Mas nada.
Ninguém havia aparecido pra dar a sua opinião. Meio chateado, e sem saber ao
certo o que fazer, tirou suas calças, dobrou-as, guardou-as embrulhadas no mesmo
papel que vieram, e foi brincar.
No seu coração
uma certeza: calças compridas não fazem homens. É necessário muito mais!
Con la gracia de Dios - M. Peres S.