ENTREVISTA:
LUCIANO DOS ANJOS
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LUCIANO: "Espírito pseudo-sábio se caracteriza principalmente pela presunção de que sabe mais do que realmente sabe, como ensina O Livro dos Espíritos. Ora, relativamente aos subsídios técnico-científicos inseridos em Evolução em Dois Mundos e Mecanismos da Mediunidade, André Luiz os recolheu de outros autores (vide a seguir a resposta 18). Resta a tese que, fosse ainda de um pseudo-sábio, é simplesmente extraordinária. Vamos lá. Façam outra igual para a gente ler!" |
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01 CA: Luciano, é sempre um prazer
conversar com você. Como está?
-
Deslumbrado com minhas netinhas. E ensinando-lhes, ao lado dos pais e sempre
que oportuno, o Evangelho e a nossa doutrina. É importante evangelizar as
crianças no lar, como recomendam Emmanuel e Joanna de Ângelis. Jamais
irão parar numa escolinha de evangelho.
02
CA: Quais as novidades? Há algum livro novo em perspectiva?
-
Sobre o movimento espírita (que prossegue com maiúsculas...), às vezes rio, às
vezes choro. Por exemplo: num centro aqui do Rio, bem freqüentado e rotulado de
kardecista, existe agora um gato fluídico, que permanece na coleira, junto à mesa,
enquanto os oradores falam. O médium da casa explicou – e o presidente
endossou – que o bichano tem a faculdade de absorver os fluidos negativos
do ambiente. Já sugeri, considerando que estamos em temporada febril de hinos
espíritas, a elaboração de mais um: Atirei o Pau no Gato. E também que
sejam compradas mais duas coleiras, uma para o médium e outra para o
presidente, a fim de que não andem soltos por aí.
Essa novidade faz rir. Mas para chorar conto que caminhamos destrambelhados
para a total igrejificação. As consciências se deixam dominar com incrível
facilidade e as cúpulas (que adoram mandar e dar ordens) fazem o que bem
querem. Ninguém pergunta, ninguém contesta, ninguém reage. Os espíritas estão
acoelhados e acham que vai tudo muito bem e que, embora seguindo os passos da
igreja católica, esse é o caminho. Não percebem que tomaram um atalho cujo fim
é o abismo.
Sobre meus livros, há quatro para saírem: Carma e Livre-Arbítrio, Quem
foi Quem, Fora do Centro Espírita não há Salvação e Jean-Baptiste
Roustaing – O Missionário da Fé. O primeiro mostra como funciona a
lei de Deus; o segundo é uma relação de conhecidas personalidades com suas
diversas reencarnações; o terceiro é uma crítica ácida à mentalidade que
frutificou dentro do movimento espírita (açulada pelos dirigentes) no sentido
de que é imprescindível freqüentar centro espírita; o quarto é a biografia do
missionário de Bordeaux, com documentos inéditos e uma árvore genealógica
montada por mim e que nem as instituições culturais da sua cidade natal conheciam.
03 CA: Luciano dos Anjos continua polêmico?
- Que foi que você achou da duas respostas anteriores? Nada obstante, é bom recordar que preeminentes figuras do espiritismo passaram à história exatamente como grandes polemistas, qualidade que até hoje é ressaltada nos textos de apresentação de suas obras: Bezerra de Menezes, Guillon Ribeiro, Leopoldo Machado, Carlos Imbassahy, Eurípedes Barsanulfo, Caírbar Schutel, Fred Fígner, Ismael Gomes Braga, Manuel Quintão, Sousa do Prado, Deolindo Amorim...
04 CA: Temos visto
ultimamente na imprensa espírita, notadamente no Jornal Espírita da
FEESP, acusações contra a FEB e contra você, sem verificar, contudo, uma reação
maior de sua parte. Por quê?
-
Sou um incorrigível defensor da liberdade de imprensa, dada a minha
irresistível vocação democrática. Acho que os órgãos de divulgação espíritas
têm todo o direito de me criticar e às minhas idéias. Lamento apenas que, não
sendo profissionais, desconheçam completamente a filosofia da boa e moderna
imprensa, preocupada em informar com segurança e honestidade. Nesse sentido são
sempre ouvidas as partes interessadas nos assuntos divergentes ou nos quais há
citações nominais. Isso não implica omissão da opinião do órgão de comunicação,
que deve se posicionar segundo sua linha editorial. Assim, sou assiduamente
atacado enquanto nem se preocupam em ouvir minha versão ou ponto de vista. Como
jornalista profissional lamento a falta de honestidade; como espírita tenho
pena; como cidadão retiro-lhes a minha credibilidade. Mas um dia descobrirão
que muitas vezes a razão esteve comigo e perderam a oportunidade de divulgá-la;
e também que não conseguiram nem um pouco provocar a minha ira.
05 CA: Pode
explicar por que o ódio explícito ao roustanguismo no meio espírita?
- Todo
ódio é fruto da involução. Há três tipos de anti-rustenistas, que partem da
falsa premissa de que Os Quatro Evangelhos são contrários a O Livro
dos Espíritos. O que nunca estudou a obra (nem a leu sequer) e odeia porque
outros lhe disseram que é uma mistificação. Esse tipo é um pobre coitado que
merece compaixão e deve ser aconselhado a ler mais Kardec. Há o que leu e não
entendeu nada do que leu. Apesar do ódio que baba, vale a pena talvez dar-lhe
mais chances. E existem os que leram e pensam que entenderam. Acho que para
esses só numa outra encarnação. No entanto, há ainda os que não entenderam, ou
que pensam que entenderam, mas não odeiam os rustenistas. São pessoas sensatas,
respeitáveis, dignas do nosso apreço. Afinal, ninguém é obrigado a pensar igual.
06 CA: Luciano,
como você vê o atual panorama espírita brasileiro?
- Quanto
ao espiritismo, vejo-o com entusiasmo. Embora poucos, há livros muito bons que
têm surgido, há estudos proveitosos, aprofundamento de pontos importantes feito
por autores sérios; ao lado disso, vejo a ciência caminhando cada vez mais na
direção de Deus e das verdades espíritas. Isso é alentador. Mas quanto ao
movimento espírita, o panorama é de tragédia. Fortalecem a organização, otimizam
a estrutura hierárquica, sedimentam a obediência aos que aparecem no ápice da
pirâmide. E, então, tudo o que vamos pregueando no campo doutrinário vai se
esgarçando porque vai sendo deturpado e se tornando de pouca importância. A
massa está sendo manipulada e convencida, por exemplo, de que a freqüência ao
centro espírita (como a dos católicos à igreja) solucionará todos os problemas
e trará a salvação. Por isso estou para lançar o Fora do Centro Espírita não
há Salvação.
07 CA: O movimento
espírita prossegue no “atalho”?
- Em
ritmo doidamente desembestado. Têm-me comunicado bizarrias ridículas e
promoções fricoteiras. Está valendo tudo para atrair o incauto e sustentar os
caprichos. Porém o mais grave, o mais sério, o mais deletério é essa estratégia
mistificadora dos que estão no poder para dominar as consciências,
principalmente através do chamado ensino sistematizado. Uma triste réplica da
escolástica, que sufocou os cristãos durante séculos.
08 CA: Quem é, ou
quem são os responsáveis?
-
As instituições cupulares que, a rigor, já são proprietárias do movimento, a
título de unificação. E, no seu papel, trabalham para ampliar e aprofundar a
tragédia, censurando, advertindo, ameaçando e até punindo quem não quer ser
enquadrado. Quem esboça qualquer estranheza é acusado de fazer movimento
paralelo e, obviamente, isso não pode ser tolerado, pois é risco para quem
detém o poder.
09 CA: Espiritismo
é falar ou fazer?
- “Meus
irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras?
Porventura a fé pode salvá-lo?” (Paulo, epístola a Tiago, cap. 2, v. 14.) “Procurai
os verdadeiros cristãos e os reconhecereis pelas suas obras.” (O
Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVIII, nº 16.) “As palavras
morrem no espaço sem chegar ao Senhor, quando não têm por apoio os atos.”
(Os Quatro Evangelhos, vol. II, nº 108.)
DIVALDO PEREIRA FRANCO
10 CA: Você é amigo
de Divaldo Pereira Franco. Pode nos falar dele, de sua vida e obra, sob o seu
ponto de vista?
- Amigo
pelo menos há quinhentos anos. No século XVII eu era um vinagreiro muito
carente e foi ele quem mandou providenciar o meu enterro, com toda a melhor
celebração. Reencontro-o nessa lida maravilhosa, que poucos conhecem bem. Ouvem
falar por exemplo da Mansão do Caminho, que ele e o Nílson criaram. Mas sequer
lhe imaginam o primor. Trata-se de instituição sensacional. Já dormi lá.
Desperta-se ao som de melodias doces que chegam até os aposentos oferecendo o
primeiro bom-dia às crianças. Contudo, não é isso o mais importante. Acima de
tudo está o caráter extraordinariamente moral e pedagógico que norteia todos os
trabalhos. A Mansão do Caminho é um exemplo de obra beneficente, um
empreendimento modelar, uma realização que encanta, um testemunho de amor que
credencia o Divaldo ao nosso respeito e à nossa admiração.
Acrescente-se que a vida do Divaldo é a prática da doutrina espírita. É para
ela que ele vive. E vive sob permanente pressão, tanto de espíritos trevosos
(inteligentíssimos), que querem destruí-lo e à sua obra, como de espíritas
invejosos que não são capazes de apresentar um único trabalho implementado pelo
mesmo ideal.
11 CA: Divaldo
Pereira Franco é “superstar”?
-
Nós, jornalistas, lidamos com dois modelos de superstar: o artista de
grande popularidade, exímio ou canastrão, e o rotulado. No meio espírita só
existe o segundo, que se exibe por aí, de preferência fazendo turismo em
festivais congressistas borrifados de muita purpurina. Divaldo não se inclui no
elenco. É um homem sério, um espírita sincero, um médium correto. Se às vezes
dá presença em certas montagens extravagantes é porque foi apanhado de surpresa
ou não teve a menor chance de escapar. Mas então ele dá o recado e cai fora.
Agora, se querem censurá-lo por ser o centro das maiores atenções quando
aparece em algum lugar, então terão de censurar todas as figuras carismáticas
da humanidade, a começar por Allan Kardec e terminando por Jesus.
12 CA: Como é
Divaldo na intimidade?
-
Em primeiro lugar é de uma saborosa simplicidade. É muito gostoso conversar com
ele. Nos momentos dos assuntos graves podemos ouvir-lhe comentários
inteligentes e ponderados; nas ocasiões mais descontraídas rimos bastante com
algumas anedotas de espíritos que ele conta. Aliás, é bom lembrar que essas
ocasiões, com muito riso e muita alegria, estão presentes também na biografia
do austero Allan Kardec. Aos domingos, ele reunia os amigos íntimos na Villa
Ségur para jantarem. Então, todos riam muito com as anedotas que o mestre
contava. Leymarie depôs: “Muito fez rir a assistência.” É assim
mesmo que devemos ser. Sérios na hora da seriedade; alegres na hora da alegria.
Por outro lado, o Divaldo não é nenhum tolo, mas sendo francamente generoso às
vezes levam-no na conversa. Pode-se dizer o mesmo do Chico. Nunca foi tolo. Mas
com jeitinho chegaram até a colocá-lo de vela acesa na mão dentro de uma
banheira para uma foto pedida por repórteres de O Cruzeiro. Pior é que
quem pediu foi meu colega e amigo, já desencarnado, David Nasser. (Um dia conto
como aconteceu e o que ele pensava sobre o espiritismo no final da vida.)
13 CA: Divaldo é criticado
severamente pelos livros que produz. Afinal de contas, Joanna de Ângelis é ou
não é espiritismo?
-
Atacam seus livros. Deve ser porque são livros imorais, destrutivos,
pornográficos, contrários a Kardec, negadores de Jesus. Mas, vivendo como vivo
há mais de cinqüenta anos no movimento espírita, posso informar que já disseram
– e ainda dizem – o mesmo de livros do Chico Xavier, da Yvonne
Pereira, da Zilda Gama, da Aura Celeste. Quando saiu a chamada série André
Luiz, a Federação Espírita Brasileira registrou reações ferinas sobre a
obsessão do Chico. Sobre o livro De Coração para Coração, da Maria
Celeste (leia-se Elisabeth Barret Browning), chegou a ser dito que ocultava
certa lascívia na disfarçada relação de mãe e filho (afinal, o médium Waldo Vieira
é a reencarnação do poeta Robert Browning...). Sexo e Destino – e
a essa época a grande maioria já havia aceitado a série – foi duramente
criticado por sua tendência lúbrica, não faltando quem afirmasse que nem era do
André Luiz. Desobsessão, também do André Luiz, quase não foi publicado
(um dia conto por quê). Léon Tolstoi, pela Yvonne Pereira, foi considerado um
escárnio. Gente indignada fez análise estilística do texto e assegurou que do
autor de Guerra e Paz o livro da médium nada tinha. Ora, o pobre do
Divaldo iria escapar dessas mesmas assacadilhas...?
Censura-se agora a Joanna de Ângelis porque resolveu ditar uma série sobre
psicologia transpessoal visando ao autodescobrimento, à satisfação e ao
controle emocional diante das circunstâncias cármicas. O humanismo está no
cerne dessa série, que faz links freqüentes com a doutrina espírita, com os
ensinamentos do Cristo. Qual, pois, o busílis? Enfoca mais os ajustes
psicológicos da criatura enquanto encarnada e menos as situações dela
desencarnada? Bolas! Porventura não é importante saber vencer dificuldades
terrenas para assegurar aqui uma vida de relativa paz e equilíbrio, a fim de
melhor laborar no campo do amor e da caridade? Ou será que no fundo os
reproches são por conta da carapuça que acaba lhes enterrando até às orelhas?
Ademais, é bom não esquecer que Joanna de Ângelis ditou vários outros livros
completamente fora dessa temática. Não contam? E só para meditarmos: Sexo e
Vida, de Emmanuel, é ou não é espiritismo?
14 CA: O Jornal
Espírita declarou recentemente que Divaldo abandonou o roustanguismo,
finalmente, reconhecendo-lhe a distorção. Perguntamos: antes disso o que era o
Divaldo, já que roustanguismo não é espiritismo?
- Divaldo
Pereira Franco sempre foi e continua a ser adepto de Roustaing, como registrei
em meu livro Os Adeptos de Roustaing. Tenho com ele intimidade bastante
para saber disso. Numa época em que a física quântica caminha veloz na direção
de paradoxos incríveis, seria uma incrível cupinização neurônica do Divaldo
repudiar Roustaing. (Ainda há pouco tempo o Hernani Guimarães Andrade, um
verdadeiro cientista do espiritismo, me assegurava por telefone que diante dos
últimos avanços da física não via nenhuma impossibilidade na constituição do
corpo fluídico de Jesus.) Mas não me chocam essas publicações levianas. Um
jornal de São José do Rio Preto também se saiu com o anúncio indireto dessa
defecção, causando rebuliço. Em entrevista, o Divaldo concordava com as
palavras elogiosas de Kardec à obra de Roustaing na Revue Spirite e, ao
mesmo tempo, com as ressalvas feitas em A Gênese. Concluíram que o
Divaldo era contra Roustaing. Logo expliquei que a ressalva de A Gênese
tinha também o meu endosso, meu, que sou rustenista completo. Mas endosso nos
termos da transcrição feita pelo Divaldo, que tratou de suprimir o último
parágrafo, mantendo apenas a crítica de Kardec a uma eventual farsa do Cristo
diante da dor. Com aquela supressão eu e todos os rustenistas apoiamos o que
Kardec escreveu. Para nós, a dor de Jesus seria de fato uma farsa se ele não a
tivesse sofrido. Até aí morreu Neves; ou melhor, Jesus. (Logo que saiu a
matéria eu e o Divaldo nos falamos por telefone.)
Também viveram choramingando que o Chico não aceitava Roustaing, até ser
publicado o Testemunhos de Chico Xavier, da Suely Caldas Schubert, com
as cartas que ele enviou ao presidente da FEB. Foi uma ducha de zero graus
célsius. Da Yvonne não disseram menor patetice, pois um dito-retro-cujo
escreveu ter ouvido dela a confissão de que não era rustenista; porém, acrescentou
que estava com um gravador a tiracolo mas... esqueceu de gravar a sensacional
confissão!
Enfim, já cansaram igualmente de provar que Bezerra de Menezes havia renegado
Roustaing antes de desencarnar (superna mentira), ou que ele chegou do lado de
lá e mudou de idéia. Nessa hipótese posso também acreditar que todos os
adversários de Roustaing chegaram do lado de lá e mudaram de idéia... Assim,
esses argumentos contorcionistas não me surpreendem nem me abalam. Fazem parte
do jogo dos malandros quando nada mais têm para acrescentar de verdadeiro em
relação a justos e evoluídos posicionamentos doutrinários.
CHICO XAVIER, EMMANUEL E ANDRÉ LUIZ
15 CA: Chico Xavier
não escapa, igualmente, da ira dos “puristas”. Onde enquadrar,
portanto, Emmanuel e André Luiz?
- Nunca
escapou. Emmanuel é estereotipado por muitos como melosamente religioso, ainda
influenciado pelo clericalismo do passado; André Luiz é ficcionista e adepto de
noções orientalistas, a despeito de haver buscado terminologia diferente para
falar das mesmas coisas. Ora, Emmanuel tem por missão, acima de tudo,
cristianizar. E nesse objetivo ele vai ser repetitivo, vai historiar com
emoções acentuadas, vai usar a linguagem do pastoreio, mas tudo sem deixar de
ser duríssimo quando analisa os escândalos e os vandalismos da igreja católica.
André Luiz, por seu turno, não poderia desprezar algumas sensatas explicações
do orientalismo, cujo conhecimento, escanhoado de certas complicações
visivelmente desarrazoadas, é milenar e deve ser aprendido. Mas e daí? Quem não
gostar que vá em busca desse sarrabulho mediúnico que tem aparecido a granel,
narrado por ETs, por seres da quinta dimensão, por espíritos-espelhos, por
interlocutores da transcomunicação e numerosos outros. Cada um escolhe o que
lhe serve ao paladar. Especificamente sobre Emmanuel, André Luiz e Joanna de
Ângelis, temos de resignar-nos com as limitações de cérebros enferrujados que
só aceitam idolatricamente Allan Kardec. Tudo bem. Mais tarde voltamos para
resgatá-los.
16 CA: Um
jornalista declarou recentemente no Jornal Espírita e também no Portal
Millenium News (Internet) que André Luiz é um espírito pseudo-sábio. O que
pensa disso?
- Li
o artigo. O autor não é insipiente, bem se vê. Mas sua crítica é claudicante.
Ele não se deu conta de que muitas palavras empregadas por André Luiz, na hora
de costurar a tese (o que importa é a tese, não informações explicativas do
conhecimento científico, que André Luiz foi buscar em livros especializados),
valem por conotação habitualmente encontrada nas obras mediúnicas do Chico. O
que às vezes parece errado ou contraditório de fato nunca o foi porque o
vocábulo que aparece na contextualização tem valor semiótico pessoalizado ou
doutra época. Veja como exemplo a questão 355 de O Livro dos Espíritos,
tradução do grande vernaculista Guillon Ribeiro. Onde se lê vitais quer
a pergunta significar viáveis. Mas viáveis com valor semiótico de
passível de sobrevivência só com o tempo recebeu o aval dos filólogos e
passou a ser dicionarizado. (Já sugeri ao presidente da FEB que fizesse a
atualização ou apusesse uma nota de rodapé.)
Espírito pseudo-sábio se caracteriza principalmente pela presunção de que sabe
mais do que realmente sabe, como ensina O Livro dos Espíritos. Ora,
relativamente aos subsídios técnico-científicos inseridos em Evolução em
Dois Mundos e Mecanismos da Mediunidade, André Luiz os recolheu de
outros autores (vide a seguir a resposta 18). Resta a tese que, fosse ainda de
um pseudo-sábio, é simplesmente extraordinária. Vamos lá. Façam outra igual
para a gente ler.
17 CA: Carlos
Chagas ou Oswaldo Cruz? Afinal de contas você deve saber algo a respeito...
- Nem
Carlos Chagas, nem Oswaldo Cruz, nem Miguel Couto, nem Francisco de Castro e
muito menos a hipótese aventada de que André Luiz nunca existiu, sendo uma
falange de espíritos dado o seu amplo conhecimento. Sei, sim, quem ele foi e,
quando trinta anos atrás eu ainda fazia minhas pesquisas e meus contatos,
cheguei inclusive a ser procurado por membros da sua família durante palestra
que eu proferia num centro de Botafogo. Depois, na década de 90, li o anúncio
de uma missa pela morte de certo parente.A indicação mais divulgada de que
seria Carlos Chagas nasceu de um episódio curioso. O Chico psicografava
mensagem de André Luiz na presença da médium psicopictógrafa Dinorah Simas
(médium por sinal respeitável). Enquanto acontecia a captação ela viu o Carlos
Chagas junto ao Chico. Desenhou-lhe a figura. E a partir dali ninguém mais
conseguiu desmanchar a versão. Ora, aparecer ao lado do médium no momento duma
comunicação não quer significar autoria. E basta ler a vida do sanitarista para
conferir que não há nenhum ponto de sustentação. O Chico, por sua vez, jamais
virá a público confirmar ou desmentir. Se perguntado em conversa particular,
abrirá largo sorriso e não descartará qualquer nome que lhe seja suscitado. Já
o Waldo Vieira, que não é mais espírita, deverá ser refugado como boa fonte,
pois atualmente renega sua produção mediúnica e não terá escrúpulo em dizer que
André Luiz nunca existiu, nem como encarnado nem como desencarnado. O que sei sobre
André Luiz está num envelope lacrado e destinado a meu filho, também espírita.
Há ali fotos microfilmadas de um médico brasileiro, alguns documentos em xerox
e páginas fotocopiadas de um livro. Trata-se de alguém sobre quem ninguém até
hoje falou. (Numa cidade longe do Rio deparei, certa vez, com uma referência
precisa, mas preferi não comentar nada.) Meu filho saberá agir a respeito,
quando o tempo e a hora forem próprios à identificação pública. Assim o fiz por
recomendação do próprio Chico, ou seja: enquanto algumas pessoas estivessem
encarnadas nada deveria ser divulgado.
Sobre esse assunto, transcrevo resposta que o inesquecível tribuno Newton
Boechat deu ao Anuário Allan Kardec – 79, lançado em dezembro de
1978:
“N.B. – Aqui respondo o que posso e até onde sei. Ignoro quem
tenha sido historicamente André Luiz, todavia, sei que o jornalista Luciano dos
Anjos, através de exaustivas pesquisas em instituições e acervos, cotejando
dados extraídos dos próprios livros de André Luiz, convergentes, indutivos e
dedutivos, aliando tudo isso a busca de notícias e avisos de velhos jornais
empoeirados em arquivo de redação, chegou àquilo que pode e deve ser a prova
crucial. Para completar, xerografou documentos e extraiu filmes, guardando
tudo zelosamente, sem até agora dizer o que fará com o resultado do seu
exaustivo labor. Sou mesmo propenso a acreditar que dificilmente o identificará
publicamente, dadas certas implicações de natureza íntima a que se envolvera
André Luiz na leviandade de outrora, numa despoliciada vida física, segundo ele
mesmo esclareceu nos livros. A tal ponto chegou a pesquisa que Luciano dos
Anjos apurou também a desencarnação de outras pessoas da família do ex-médico,
agora escritor espiritual, servindo-se do Chico Xavier. Entrou, de resto, em
contato telefônico com membros da família, daí talvez a razão por que não pôde
ou não quis até agora falar a respeito. Muitos espíritas admitiram e admitem
ser André Luiz um nome coletivo todavia isto parece sem fundamento, pois
entidade perispirítica materializada pela mediunidade de Peixotinho e Fábio
Machado, os dois mais conhecidos médiuns de materializações e efeitos físicos,
em reuniões especializadas, dirigiu-se aos assistentes e identificou-se como
sendo o autor de Nosso Lar, além do que existem nas obras de André Luiz
elementos de identificação pessoal. De uma coisa estou certo: Ele não
foi Oswaldo Cruz, Miguel Couto, Carlos Chagas ou Francisco de Castro,
como também cientifiquei-me de que 211 médicos foram pesquisados entre 1920/30
no Rio e adjacências, segundo me informou Luciano dos Anjos.”
Devo anotar, agora que meu amigo Newton Boechat partiu: ele era muito,
muito, muito íntimo de Chico Xavier e, na verdade, também sabia quem era André
Luiz... Por outro lado, anoto também que há em Nosso Lar uma importante
informação que não confere. Suponho que André Luiz fez de propósito.
18 CA: Qual a
explicação para o conhecimento enciclopédico do médico André Luiz?
- Vou
resumir matéria que escrevi para a edição de outubro de 1977 do Jornal
Espírita, p. 3, na qual expliquei que o que André Luiz conhece bem é
medicina. Tendo sido médico, prosseguiu no espaço a aplicar seus conhecimentos
e até os aprimorou. Mesmo assim, no próprio campo da medicina ele se valeu de
trabalhos de colegas e mestres, o que é muito normal. Toda matéria tem
especializações, pesquisas pessoais, etc. Saber tudo ex-cathedra sobre todos os
assuntos é pretensão, truque ou supergenialidade. Acreditar que alguém conheça
em profundidade a sua especialidade e várias outras altamente heterogêneas é
perfilhar a fantasia. Não é o caso de André Luiz. Em princípio ele não poderia
dominar o campo da medicina e mais o da física, da química, da eletrônica, da
biologia, da genética, da sociologia, da psicologia, da pedagogia, enfim, de
ramos tão variados quanto complexos da cultura universal. Seria um
enciclopedismo fantástico. É óbvio que, mormente para escrever livros como Evolução
em Dois Mundos e Mecanismos da Mediunidade, ele se socorreu de outros
autores. E antes que algum padre ou pastor o digam de má-fé, eu mesmo direi:
sei, inclusive, de que livros André Luiz retirou os elementos contidos nesses
trabalhos. Digo mais: ele nem se preocupou em alterar os textos copiados; quase
usou as mesmas palavras. Eu, por exemplo, teria modificado um pouco mais,
dentre outras razões para evitar problemas de direitos autorais, já que ele
sequer usou aspas. Mas isso prova apenas que André Luiz não estava preocupado
em esconder o que fez. E para acentuar bem essa despreocupação, escreveu no
intróito de Mecanismos da Mediunidade, p. 19 da 3ª edição:
“Prevenindo qualquer observação da crítica construtiva, lealmente
declaramos haver recorrido a diversos trabalhos de divulgação científica do
mundo contemporâneo para tornar a substância espírita deste livro mais
seguramente compreendida pela generalidade dos leitores, como quem se utiliza
da estrada de todos para atingir a meta em vista, sem maiores dificuldades para
os companheiros de excursão.”
“Assim, as notas dessa natureza, neste volume, tomadas naturalmente ao
acervo de informações e deduções dos estudiosos da atualidade terrestre, cabem
aqui por vestimenta necessária, mas transitória, da explicação espírita da
mediunidade, que é, no presente livro, o corpo de idéias a ser apresentado.”
E Emmanuel, na p. 15 do mesmo livro, advertia em forma de Prefácio:
“Compreendemos, assim, a validade permanente do esforço de André Luiz,
que, servindo-se de estudos e conclusões de conceituados cientistas terrenos,
tenta, também aqui, colaborar na elucidação dos problemas da mediunidade, cada
vez mais inquietantes na vida conturbada do mundo moderno.”
Isto posto, o que conta na obra de André Luiz não é o conjunto de
informações, possível de ser encontrado em compêndios de outros autores. O que
conta é a sua tese, a sua colocação notável no contexto do espiritismo.
Finalmente devo dizer que acho Evolução em Dois Mundos e Mecanismos
da Mediunidade as duas melhores obras da série André Luiz.
19 CA: Os Espíritos
que se comunicam e ditam livros devem identificar-se completamente, para evitar
aborrecimentos tanto para si quanto para os médiuns que os transmitem?
- Eis
uma questão que há de ser da alçada exclusiva dos espíritos. Em qualquer
circunstância pode haver desdobramentos imprevisíveis. Veja o caso de Humberto
de Campos. Ditou alguns livros com seu próprio nome e deu no que deu. A família
entrou na Justiça exigindo os direitos autorais (se fossem mesmo textos do
Humberto) ou indenização moral (se não fossem). Ainda bem que a Justiça deu
ganho de causa à Federação Espírita Brasileira, sem entrar no mérito filosófico
da demanda. Mas o próprio espírito, para não magoar a família, passou a
assinar-se Irmão X (em vida, Humberto de Campos usava o pseudônimo Conselheiro
XX). Outra questão é que os espíritos em geral costumam manter seu canal
mediúnico por variadas razões técnicas e pessoais. Todavia, se por qualquer
motivo desejarem ou precisarem utilizar outro canal é muito provável que
assinem nome diferente. Afinal, para que criar problemas de dúvidas quando o
objetivo é construir? Às vezes pensa-se que algum médium ou algum espírito está
plagiando e, no entanto, o autor espiritual foi o mesmo, apenas utilizando
outro nome ou um titlônimo qualquer.
MEDIUNIDADE
20
CA: Há, no meio espírita, uma tendência a se dar mais credibilidade ao escritor
encarnado que ao desencarnado. É o começo do fim do exercício mediúnico?
- A
tendência é explicável, ainda que tanto um como outro possa ser honesto ou
mistificador. Não faltam, é verdade, os que se mantêm armados contra escritores
do Além porque podem estar mentindo, fantasiando, usando nome falso. Mas as
mesmas dúvidas cabem em relação aos autores encarnados. Tudo portanto vai
depender – como ensinou Kardec – do conteúdo do texto, submetido à
nossa razão. Porém isso não implica absolutamente o fim do exercício mediúnico,
que de repente nos oferece obras como o Parnaso d’Além-Túmulo,
como o Párias em Redenção, como o Memórias de Um Suicida. Diante
desses monumentos literários quem irá descartar o crescente valor da
mediunidade?
21
CA: Pode o espiritismo sobreviver sem mediunidade?
- “Para
que o fenômeno se produza, faz-se mister a intervenção de uma ou muitas pessoas
dotadas de especial aptidão, que se designam pelo nome de médiuns.” (O
Livro dos Médiuns, Segunda Parte, cap. II, nº 61.)
Toda e qualquer manifestação necessita de um médium. Com a evolução da
humanidade é provável que os contatos venham a acontecer de mente a mente, mas
apenas devido à potencialização da própria mediunidade. Estaremos, então
– concedo –, diante do chamado channelling (comunicações sem
a conhecida incorporação, emanadas de espíritos de altíssima evolução) que,
entretanto, não exclui a faculdade mediúnica; muito ao contrário, torna-a mais
potente e mais intelectualizada. A concepção se aproxima bastante das noúres
(correntes de pensamento), de Pietro Ubaldi, que aceito e estão explicadas em
sua magnífica obra As Noúres – Técnica e Recepção das Correntes de
Pensamento. Os channelles (médiuns) captariam inclusive entidades
extraterrenas, incorpóreas. Vá lá que seja, mas – como ressalvo em meu
livro O Atalho, cap. V, tópico 31 – nessa curva não quero entrar
senão em marcha reduzida, com muita cautela. Receio derrapar diante dum
venusiano ou dum jupiteriano perdido por aí. Prefiro enxergar melhor a estrada
antes de acelerar... Estamos pois falando do futuro bem futuro. Por enquanto, e
ainda por longo tempo, ET não passa com certeza de espírito galhofeiro
ludibriando a boa-fé dos ingênuos.
Porém a pergunta fala em sobrevivência do espiritismo sem mediunidade.
Respondo: o espiritismo sobreviverá sempre porque a mediunidade não precisa da
autorização dos homens para ocorrer, tal como acontecia antes de 1857; mas
ainda que o espiritismo por esse ou qualquer outro motivo pudesse morrer, a
doutrina espírita sobreviverá ab aeternum porque independe do fenômeno.
22
CA: O que é mediunidade, em sua opinião?
- A
definição é de Allan Kardec: “Medianimidade – Faculdade dos
médiuns. Sinônimo de mediunidade.” “Médium – Pessoa que pode
servir de intermediária entre os espíritos e os homens.” (O Livro
dos Médiuns, cap. XXXII.).
No entanto,
há aspectos que requerem estudos. Por exemplo: o médium clarividente ou de
desdobramento que visita e observa o plano espiritual estará agindo como
médium? Mas não existe nenhum espírito se comunicando por ele. Então, cumpre
hoje em dia ampliar o conceito de mediunidade, definindo-a como a faculdade que
permite estabelecer relações com o plano espiritual independente de haver ou
não um espírito comunicante. Generalizando: é médium todo aquele que possui
alto desenvolvimento psíquico e consegue fazer qualquer tipo de contato com o
mundo espiritual, abstração é claro dos contatos que fazemos durante o sono e
que são acessíveis a qualquer pessoa. Há a respeito trabalhos interessantes,
como o do Hermínio C. Miranda A Diversidade dos Carismas, editado pela
Publicações Lachâtre. A certa altura o autor aborda precisamente essa questão.
Apenas para juntar outros detalhes: mediunidade é carma, é missão, e é
tecnicamente o desvio do eixo do perispírito em relação ao corpo físico.
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CA: Discute-se muito, ultimamente, no meio espírita, o desaparecimento gradual
dos trabalhos de desobsessão nos centros espíritas, por falta de médiuns e
doutrinadores. É uma tendência natural ou simples acomodação?
- Os
trabalhos de desobsessão nos centros espíritas são, em grande número,
desastrosamente conduzidos. O plano espiritual é muito misericordioso, muito
paciente, e, considerando as boas intenções dos grupos, vai suprindo da melhor
maneira possível as barbaridades que fazem aqui por baixo durante as reuniões.
Já vi de tudo, principalmente o despreparo absoluto de doutrinadores que não
sabem o que é uma doutrinação. Brigam com os espíritos, ameaçam, se
impacientam, não os deixam falar, ironizam, “amarram” (?!) os
espíritos, aplicam choques em forma de passes, mandam voltar noutro dia, enfim,
uma antidoutrinação que nada vale. Os espíritos vêm e vão sem nenhuma
conquista. Ou então tapeiam o doutrinador dando graças a Deus e em dez minutos
de conversa abandonam o ódio pelo amor. Um lindo engodo, uma linda mágica. Eles
querem é cair fora e o ingênuo doutrinador acredita na milagrosa transformação.
Haja paciência dos mentores para contornar esses desconchavos. Assim, não é a
falta de médiuns que deve preocupar. Às vezes, um ou dois são mais eficientes
do que um batalhão deles. Aliás, essa tem sido a mentalidade dos nossos dias:
multiplicar o número de médiuns. Há aqui no Rio um centro, na ilha do
Governador, que trabalha com 250 médiuns! E o centro se orgulha disso. Todo
mundo quer ser médium. Ora, o centenário Grupo Ismael, da Federação Espírita
Brasileira, do qual fiz parte, nunca teve mais do que um ou dois médiuns. No
meu Grupo dos Oito, apenas dois médiuns funcionam. A quantidade, portanto, nada
significa. Assim, talvez devido a essas distorções que acontecem por aí, os
mais sensatos vão de fato desanimando, parecendo que se acomodam. Entretanto,
isso é fase. Vai passar. Nesse campo há muito trabalho pela frente e os médiuns
cordatos e estudiosos, mesmo em pequeno número, acabarão impondo a sua
confiabilidade.
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CA: No entanto, é grande a afluência aos centros de pessoas potencialmente
médiuns e de criaturas francamente necessitadas de terapêutica desobsessiva. O
que dizer disso?
- É
verdade. Os médiuns em potencial (os que o são mesmo!) deveriam receber boa
orientação, o que raramente acontece. A falta de conhecimento vem de cima e a
orientação é péssima. Mas é bom notar que não existe tanta afluência como
apregoam os centros. Na verdade está havendo uma banalização por conta das
distorções dos dirigentes. Se alguém procura o centro porque está triste, está
nervoso, está depressivo, logo lhe asseguram que é médium e que tem de praticar
a mediunidade... Surgem então médiuns que nunca o foram, ou outros despreparados,
cheios de cacoetes, de exibicionismos, de posturas extravagantes.
Bem, isso é mesmo muito mau e mostra um quadro geral extremamente negativo.
Estará tudo perdido? Busquemos um paralelo. Não é assim que no momento vemos
acontecer em nossos hospitais? Médicos despreparados, desinteressados,
diretores incapazes, falta de leitos, falta de profissionais, de atenção, de
tudo? Se o Alto suporta essas mazelas, que não podem ser superadas da noite
para o dia, por que não suportaria as outras, no campo da desobsessão? Afinal,
todos são pacientes, tanto encarnados como desencarnados. Há, pois, que
estudar, estudar muito para modificar essa realidade cruel que assinala o
momento terrestre. Não obstante, tudo no futuro terá valido como um grande
aprendizado, explicável naturalmente como circunstâncias em que múltiplos e
dolorosos carmas foram resgatados. Nada é perdido nos planos da
espiritualidade.
25
CA: Existe dentro do movimento espírita, mesmo que de forma sub-reptícia, a
esperança de que surja um novo médium, nos moldes de Chico ou Divaldo, para
reacender o entusiasmo e a euforia de outrora. Perguntamos: o espiritismo não
pode sobreviver sem grandes figuras, ou grandes médiuns?
-
Pode e sobreviverá. Esses pretensos continuadores e legítimos macaqueadores que
se exibem por aí fazem papel circense. Deveriam exercer sua faculdade com mais
dignidade, deixando que suas obras lhes indiquem o quilate. Afora isso, não
vejo no momento ninguém à altura de Chico Xavier, Divaldo Pereira Franco e
Yvonne Pereira. Acredito mesmo que durante muito tempo não contaremos com
médium algum dessa qualidade. Prosseguirão os que aí estão nos oferecendo bons
trabalhos, mas jamais comparáveis aos daqueles três. Com a desencarnação deles
estará encerrado um importante capítulo na história do espiritismo e o que nos
caberá – assim espera o Alto – é que doravante estudemos o
manancial maravilhoso que então nos terão deixado. Será a hora do estudo, da
assimilação. As obras aí estão. Vamos ler e praticar as lições recebidas. Convém
lembrar que depois dos grandes médiuns do apostolado de Jesus somente após
dezoito séculos foram-nos ofertados novos trabalhos realmente de peso e dentro
dum planejamento especial.
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CA: Falando nisso: o movimento espírita tem-se mostrado ultimamente apático, decepcionante.
O que deve ser feito, urgentemente, para que se lhe restaure o vigor?
- Apático
está, realmente, dada a submissão total ao comando dos que lideram. Com os
fiéis orientados para que cegamente baixem a cabeça e obedeçam, essa situação é
boa para os dois lados. Os espíritas copiam a acomodação dos católicos,
convencendo-se (e enganando-se) de que os dirigentes, os cupulares é que têm o
dever de salvá-los. Com isso se livram de toda a responsabilidade. Tal como
aconteceu sempre com os católicos. Para que se preocupar com a auto-reforma se
os líderes é que sabem e resolvem tudo? Eles estarão cuidando da salvação do
rebanho, fazendo reuniões, congressos, simpósios, seminários, massificando a
aplicação do passe, agitando os centros espíritas com atrações artísticas,
engessando o interesse cultural dos jovens, ofertando balinhas para as
crianças, impondo o ensino sistematizado, decidindo o que deve ser lido,
dogmatizando o que é e o que não é doutrina espírita, etc., etc., etc.
O adequado vigor do movimento espírita somente será restaurado quando lhe
retirarem as indecentes maiúsculas e devolverem aos espíritas a liberdade de
agir e de pensar. (Sugiro a leitura de meu opúsculo Maiúsculas em Movimento
Minúsculo, edição do Grupo dos Oito.)
27
CA: Luciano, o espaço é seu, para o que deseje acrescentar aqui.
- Talvez
valha a pena acrescentar algo sobre meu ânimo interior diante de todo esse
quadro, que vislumbro desastroso. Será o fim da linha? Em meu livro O Atalho
procuro analisar criticamente os fundamentos e desdobramentos do movimento
espírita, inspirando-me no pensamento do notável filósofo inglês Arnold
Toynbee. Disse ele, no que respeita à morte das civilizações, que “qualquer
civilização perece se não dá resposta adequada ao desafio mortal em que sua época
a coloca”. Procurei ajustar essa sentença de ordem universal ao
pequeno mundo do movimento espírita. Acho então que ou os espíritas dão
resposta adequada ao desafio mortal em que sua época os coloca, ou o movimento
perece. Assim, se houver uma resposta adequada a tudo isso que vem acontecendo,
então nossa esperança vai reacender e a chance de recuperação é quase total.
Mas se continuarmos nesse atalho sem nada fazer, sem reagir, sem querer ser
livres, sem protestar contra os comandantes que, no poder, não querem um
espiritismo nos termos em que Allan Kardec codificou – nesse caso
mergulharemos noutro longo período de obscurantismo e o Codificador terá de se
impor o sacrifício de nova encarnação para começar tudo de novo. De qualquer
forma, minha esperança não está morta. Confio especialmente nos jovens, cuja
rebeldia respeitosa tem força revolucionária. Ainda é possível fazer alguma
coisa, a começar por uma reação verdadeira contra essa lavagem cerebral em
andamento, contra o sistema de ensino que foi implantado sem consulta a
ninguém, na base de apostilas, cursos, currículos, aulas, avaliações, exagerado
didatismo, escolas, salas de aula, seriações, ano letivo, etc. Tudo o que só
convém a quem ensina e a quem manda, mas não levará ninguém a ser livre e espírita
de verdade, transformando-se moralmente e buscando o comprometimento com o bem
e o amor autêntico, à luz dos ensinamentos cristãos.
Lori Marli dos Santos
Jornalista
profissional, Luciano dos Anjos (lucian...@uol.com.br), trabalhou em "O Radical", "Gazeta de
Notícias", "Diário de Notícias", "Visão", "O
Cruzeiro", "O Mundo Ilustrado", "A Notícia" e outros
órgãos, exercendo desde a função de repórter, de redator, editorialista, até a
de secretário de redação e assessor de direção. Autor de obras de cunho
literário, religioso, filosófico, foi sempre respeitado pelo profissionalismo e
lisura com que há mais de 40 anos atua na imprensa, destacando-se sempre por
suas posições firmes favor das liberdades democráticas. Essa intransigente
postura lhe valeu, durante os regimes totalitários, três processos judiciais.
Nas pesquisas de regressão da memória a que se submeteu com Hermínio C. Miranda,
aflorou-lhe a personalidade do jornalista francês que, em 1789, conclamou o
povo às armas para a tomada da Bastilha.
As provas desse fato estão
narradas em sua obra "Eu sou Camille Desmoulins".
(Biografia gentileza da Editora LACHÂTRE http://www.lachatre.com.br)
Atenciosamente,
Brunno Alencar
(84)8849-9686/9904-1242
@_brunnoalencar_

"Quando Deus tira algo de você, Ele não está punindo-o,
mas abrindo suas mãos para receber algo melhor"
Chico Xavier
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