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Olhar de sobrevoo de um cientista da informacao sobre novas areas de conhecimento como celulas tronco e as pesquisas geneticas
Fui convidado colaborar com o Projeto Ghente que, nesta semana, realiza um seminário sobre “Pesquisa genética na Área da Saúde: a Visão dos Cientistas do Direito e da Bioética” (https://www.facebook.com/niltonbdossantos/posts/1227708513909633?pnref=story). No início a demanda seria falar sobre a Internet das Coisas, mas quando começamos a conversar sobre genoma e celulas troncos, lembrei que ambas, podem ser pensadas como processos de informação e comunicação e isto levou à proposta feita por Sílvio Valle, um dos organizadores do seminário, de que eu esboçasse qual seria o olhar de um Cientista da Informação sobre o assunto e qual poderia ser sua contribuição em relação às terapias genéticas.
Vamos tentar colocar de maneira breve e simplificada, pelo espaço e tempo que terei, qual poderia ser este olhar. Os estudos
do Grupo de Pesquisa “Tecnologias, Culturas e Práticas Interativas e Inovação em Saúde” e do seu laboratório de experimentação, o Núcleo de Experimentação em Tecnologias Interativas (Next), da Fiocruz, que teve início no Icict e que continua atualmente na Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), e os avanços científicos e tecnológicos que vivenciamos nas últimas décadas, apontam para mudanças radicais em todos os campos da vida, que nos obrigam a refletir sobre práticas e conceitos teóricos usados há muito tempo.. Quando nosso grupo de pesquisa se voltou para pensar a informação e a comunicação em sistemas complexos e interativos, fomos forçados a repensar conceitos, agenciamentos e formas de processamento de informação que utilizamos, e percebê
-los como um processo particular e específico de comunicação: a “comunicação humana”. Acontece que, no momento em que entramos em um estágio de reflexão da vida, do conhecimento, da ciência e do questionamento sobre a possibilidade de novas formas da produção de conhecimento nas sociedades complexas, quando emergem novas sociabilidades e redes sociais; ao desenvolvermos pesquisas em ambientes complexos como ocorre com a Internet e em outros locus de complexidade (sem limites de tempo e espaço); ao mergulharmos em processos complexos e submergimos em ambientes onde convivemos com não humanos (coisas e máquinas até o momento); quando vemos que o processo de comunicação está presente na biologia (por exemplo, entre células) e em todos os campos, constatamos que a comunicação humana não nos oferece recursos e modelos para pensar e enfrentar os problemas que passamos a vivenciar. Isto nos obriga a pensar a possibilidade de uma teoria da informação
e da comunicação universal, ou no mínimo a tecer uma série de reflexões que criem um referencial comum para pensar como elas se verificam e se materializam nas diferentes disciplinas; Uma reflexão sobre teorias da informação e da comunicação de modo mais amplo que respondam os problemas de sistemas abertos e distribuídos, onde habitam além dos homens, coisas, máquinas e organismos de todo o tipo; e onde dominam a interação e a emergência, conceitos que resgatam, respectivamente, o valor da periferia das redes e das ações distribuídas e, talvez, estes sejam os aspectos mais significativos, as características mais universais, o que em si já nos obrigaria a repensar nossos conceitos. É claro que este é um assunto difícil de se tornar explicito em um punhado de linhas, mas tentaremos dar uma ideia do que seria um outro olhar para os assuntos deste seminário, à luz da ciência da informação. Para simplificar e clarear o caminho, usaremos c
omo ponto de partida o que passou a ser conhecido como o “Número de Dunbar” (http://niltonbahlisdossantos.tumblr.com/post/3422980223/facebook-alem-do-numero-de-dumbar). Conforme Angelitas Cardua (https://angelitascardua.wordpress.com/2011/03/12/o-cerebro-e-o-numero-de-dunbar-os-sentidos-da-amizade-moram-no-abraco/), “Robin Dunbar, um antropólogo e psicólogo evolucionista da Universidade de Liverpool, na Inglaterra (…), estudando macacos, percebeu que há uma relação significativa entre o tamanho do cérebro e o número de integrantes do grupo. Ou seja, um grupo numeroso de macacos costuma ser formado por indivíduos com córtex mais volumoso”. Dunbar terminou por chegar a
conclusão “de que a evolução do cérebro humano seria dependente do desenvolvimento de estruturas sociais” (“Social Brain” é como a hipótese de Dunbar é conhecida -
Quando se passa este número as estruturas de comunidades, clãs e tribos ja não são capazes de se sustentar e começam a nascer estruturas de cidades…
). Gostaríamos, no entanto, de ressaltar um outro lado do problema. Para o homem, isto ocorre devido à maneira particular que ele desenvolveu para se estruturar socialmente, isto é, de se agrupar a partir do que chamamos de “comunicação humana”, estruturada em relações intersubjetivas e que organiza e aciona relações entre sujeitos, através de uma cadeia de intermediários e mediadores. Isto significa dizer que a “comunicação humana” se estrutura em um sistema de informação especifico para relação entre homens, com suas características particulares (sistemas fechados, divisão entre emissor e receptor e entre os que sabem e os que não sabem, narrativas centralizadas, hierarquização de saberes, Broadcast, etc). Conforme a Wikipídia (https://pt.wikipedia.org/wiki/N%C3%BAmero_de_Dunbar): “O número de Dunbar define o limite cognitivo teóric
o do número de pessoas com as quais um indivíduo pode manter relações sociais estáveis. Nesse tipo de relação o indivíduo conhece cada membro do grupo e sabe identificar em que relação cada indivíduo se encontra com os outros indivíduos do grupo. Esse número teórico fica entre 100 e 230 pessoas, entre parentes e amigos. Deve-se reparar que as pequenas comunidades - tribos, aldeias, grupos de interesse comum - costumam ficar mais ou menos nessa faixa”. Segundo Angelina Cardua (idem link anterior), este limite existe porque “quanto mais indivíduos num grupo, mais informações há para serem processadas. Num grupo numeroso há um grande volume de pensamentos, ideias, sentimentos, ações, etc., que precisam ser identificados, classificados e assimilados para que o convívio social possa se efetivar”. Quando se sobrepassa o número de Dunbar, estes sistemas não conseguem se manter através de redes centralizadas (onde todos os elementos se relacionam
com o centro), e são obrigados a lançar mão do recurso de intermediação, se transformando em redes descentralizadas através de estruturas baseadas em intermediários e mediadores. Podemos arriscar em uma estimativa que, se desconsiderarmos as redes articuladas pela Internet, provavelmente 99% dos sistemas de informação que os homens usam hoje em dia (rádios, tvs, jornais, bancos de dados e sistemas informáticos, Livros e Bibliotecas), ainda são sistemas fechados, baseados em relações inter-subjetivas. Mas, esta expansão, possível através de uma rede descentralizada, tem seus limites quando o número de elementos do sistema cresce tendendo ao infinito pois, quando isto ocorre, o número de mediadores e estruturas de intermediação tende a crescer proporcionalmente, e os “galhos” da árvore se tornam tantos, e essa estrutura de intermediação se torna tão pesada, que o seu peso termina por derrubar a árvore e o sistema desaba. O sis
tema capaz de suportar esta tendência no sentido do infinito é o terceiro dos sistemas apresentados abaixo, no organograma de Baran (1964): o sistema distribuído. Organograma de Baran  Mas, aqui alguém poderia se perguntar: “o que isto tem a ver com pesquisas de células tronco e experiências genéticas?” Ocorre que os seus estudos se situam, irremediavelmente, em ambientes abertos que trabalham com um número de elementos infinitos. Nesse sentido, as lógicas e conceitos atuais de informação e da comunicação humana não são capazes de dar conta de seus problemas. Temos de pensá-los a partir da lógica de sistemas distribuídos. Quando nosso grupo de pesquisa começou a pensar a Internet e os sistemas interativos (abertos) que as tecnologias interativas criavam, ele foi obrig
ado a repensar os conceitos de comunicação e informação dentro desses sistemas e a aprender a lidar com eles. Percebemos então que a visão corrente de informação e comunicação, como um processo de transmissão de mensagens e de comunicação entre sujeitos (“através” de “canais e mídias”), o que pode ser imaginado em sistemas fechados, com um número de componentes finitos, não é capaz de entender as lógicas de sistemas infinitos com grande número de agentes, como é o caso em inúmeros processos. Nestes sistemas, o processo de comunicação se dá através da sincronização, de ajustamentos e adaptações entre os seus múltiplos agentes e não através de “acordos” que seriam resultado de uma “negociação simbólica”. Quando se aborda um sistema fechado pode-se ter a esperança (melhor seria dizer a ilusão) de que sejam levadas em consideração todas as variáveis e elementos do sistema e que seja possível definir a posição de c
ada um, para assim poder “controlá-lo”. Ao trabalhamos com um sistema aberto é inimaginável controlá-lo porque tudo está em constante movimento, em fluxo, e vários pontos de vista podem coexistir. Mas a vida segue seus próprios caminhos… No início das pesquisas sobre o genoma humano, tinha-se esperança (e temor) de que teríamos uma “receita” para “fazer o homem” e portanto “melhorá-lo”. Hoje, já se sabe que o genoma é um sistema aberto e que não existe a possibilidade de tanto controle sobre os rumos que a manipulação genética poderá tomar. Sim, tínhamos uma receita. Mas esta produzia coisas diferentes, conforme as situações concretas em que ela era realizada. Ao que parecia, o genoma só poderia ser entendido quando se considerasse uma outra variável: a informação do ambiente onde ele habitasse. No momento em que começamos a pensar a biologia a partir da lógica da Informação, usando referências da Ciência d
a Informação e de estudos e teorias que a pensam na comunicação mais além da comunicação humana, novos elementos são considerados para entender e pensar processos como os que envolvem as células troncos e as terapias genéticas. Conceitos como interatividade, sincronização, emergência, sistemas abertos e distribuídos podem ajudar a abrir novas abordagens e responder alguns dos problemas com os quais nos debatemos. Por exemplo, já parece óbvio pensar as células troncos como um processo de comunicação entre a célula e o ambiente, onde elas desenvolvem uma ou outra de suas potencialidades conforme a “demanda” do ambiente. Isto é o chamamos, nos estudos de ciência social, de “emergência”. Nossos estudos dizem que este processo é uma característica dos sistemas abertos e distribuídos. Será que pensar as características dos processos de emergência em diversas outras áreas, não ajudaria o estudo das células troncos? Ou talvez pensar o ca
so dos transgênicos, como se pudessem ser contidos em um sistema fechado, e considerando o processo de sincronização com o meio ambiente, como no caso da semente exterminador (referencia a característica introduzida em sementes transgênicas pela Monsanto cuja plantação se torna estéril e as suas sementes não podem ser replantadas, com o objetivo de obrigar o camponês comprar novas sementes.
).
Para além das lógicas internas dos sistemas, é preciso pensar como ocorrerá a sincronização com o seu entorno. Existem estudos e metodologias na área de informação que pensam as características destes processos. Certamente o seu estudo poderá reduzir tantos temores de reações incontroláveis por tratarem os processos como se fossem um ambiente fechado, e introduzir uma lógica externa à natureza (no caso citado, uma preocupação econômica), cujos resultados a longo prazo não podem ser observados empiricamente na vida, e que podem trazer consigo consequências imprevisíveis e inimagináveis.
#Células Tonco
#Pesquisa Genética Teoria da Incformação Sistemas distribuidos
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