Desde o fim da Ditadura somos democraticamente convocados às urnas, de dois em dois anos. Agora vamos às eleições de 2016 em 5.570 municípios brasileiros em meio à crise global e ao golpe parlamentar de Brasília.
No Município é onde o sapato aperta de verdade sob pressão das necessidades de muitas crianças, adolescentes, jovens, idosos, mulheres e homens. Por isto, o mundo está sufocado de graves problemas econômicos, sociais e ecológicos suspirando pela segurança e sustentabilidade financeira e socioambiental de cidades mais humanas.
Isto reclama geração de empregos e renda a par de políticas públicas democráticas, que não podem de forma nenhuma acontecer por mágica ou manipulação de alguma providencial “mão invisível”. Mas, ao contrário, pelo concurso de muitas mãos de carne e osso em mutirão permanente. Democracia custa tempo e dinheiro, uma democracia por mais fraca que ela seja não deverá sobreviver só de eleições. Um regime democrático é para todo dia e lugar. Exige trabalho colaborativo, paciência de uns para os outros e participação efeiva de todas cidadãs e de todos cidadãos do Município.
De fato, você não vê ninguém morar na esfera mundial, nem na área federal ou estadual: o mundaréu de gente somando 7 bilhões de habitantes do planeta Terra mora em muitas cidades, povoados, aldeias, lugarejos e zona rural de países ricos, medianos e pobres. Até o Papa e a Cúria romana precisam morar em uma urb, no caso a antiga cidade de Roma, onde algumas quadras dão lugar ao estado do Vaticano. A ONU se acha hospedada em Nova York e tem agências em Paris, Genebra e Haia. As pessoas que assumem os respectivos papeis das Nações Unidas tem que conviver com usos e costumes das cidades que os abrigam. Com isto quero frisar a natureza particular e identidade cultural de cada uma das cidades e lugares do mundo. Seja lá em São Paulo de Piratininga ou São Paulo de Olivença, em Cachoeira do Arari ou Cachoeiro de Itapemirim.
A “república” do Marajó de 104.140 km² de superfície e 530 mil habitantes, com sua capital geoestratégica localizada na cidade de Breves, suas três microrregiões ricas em biodiversidade e diversidade cultural (Arari, Breves e Portel) e dezesseis municípios diferenciados (Afuá, Anajás, Bagre, Breves, Cachoeira do Arari, Chaves, Curralinho, Gurupá, Melgaço, Muaná, Ponta de Pedras, Portel, Salvaterra, Santa Cruz do Arari, São Sebastião da Boa Vista e Soure reconhecidos pelo IBGE), mais Oeiras do Pará (marajoara de fato) e o distrito de Icoaraci (“ocupado” tradicionalmente por marajoaras do município de Belém) reclama unidade nunca dantes vista.
O germe da união desta res pública foi plantado, há 357 anos, pelo acordo de paz do rio Mapuá, entre colonizadores portugueses, guerreiros tupinambás e caciques marajoaras confederados. Convém que os novos eleitos ao sair das urnas tomem decisão humanitária de zerar o analfabetismo em seus municípios. A competir saudavelmente para ver qual será o primeiro município do Marajó Livre do Analfabetismo. Eu já estou torcendo a favor de Melgaço, para ver a histórica aldeia de Aricará escapar do último lugar da lista do IDH dos municípios brasileiros.
Eu acredito que um povo que acredita em si mesmo, a exemplo das grandes árvores da floresta, alcança lugar ao sol. Não creio que uma andorinha só faça verão, que um salvador da pátria tenha condições de levantar um país que insiste em se deixar adormecido. Só posso desejar boa sorte aos eleitores primeiramente; aos candidatos que façam o melhor para apresentar suas propostas respeitando lealmente a seus adversários. Que os eleitos tenham sucesso em conquistar o respeito e reconhecimento da população. Os não eleitos, sejam felizes em suas vidas e não aceitem tornar a política uma profissão. Nada é pior a um país que políticos profissionais. Todo cidadão é político e deve estar pronto para exercer qualquer cargo público eletivo.
Por último gostaria de reiterar o sonho de muitos, dentre os quais me acho há muito tempo, de que a comunidade dos municípios do Marajó e o prefeito de Belém ser eleito no próximo mês de outubro, venham a firmar convênio para criação da Casa da Cultura Marajoara, se possível junto ao Ver O Peso. A história do Pará ensina como Belém e Marajó são as duas faces da amazonidade. Os eleitores de 2016, dando adeus aos 400 anos, deveriam mandar recado ao mundo da democracia representativa lhes refrescando a memória sobre a soberania do voto popular.