Fwd: José Varela - Minha avó Antônia e a “invisibilidade” dos índios do Marajó.

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José Varella Pereira

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Dec 19, 2017, 10:59:02 AM12/19/17
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---------- Mensagem encaminhada ----------
De: Carlos Augusto Ramos <pantoj...@gmail.com>
Data: 5 de novembro de 2017 21:45
Assunto: José Varela - Minha avó Antônia e a “invisibilidade” dos índios do Marajó.
Para:


Para conhecimento e rfelexão-ação.


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Minha avó Antônia e a “invisibilidade” dos índios do Marajó.

As intermináveis discussões do Grupo Executivo Interministerial de acompanhamento de ações no Arquipélago do Marajó (GEI-Marajó) entre autoridades federais, estaduais, municipais e representantes da comunidade, nos anos de 2006 e 2007, para elaborar o Plano de Desenvolvimento Territorial Sustentável do Arquipélago do Marajó (PLANO MARAJÓ), foram particularmente complexas, contraditórias e pedagógicas no sentido de como não se deve fazer coisa igual nunca mais. Claro, em teoria o planejamento participativo é coisa boa. O diabo é a prática com a gente assim apanhada de supetão. Há casos em que carece a autoridade ter noção de emergência e agir primeiro e discutir depois: melhor parecer populista que perder o precioso tempo para quem tanto esperava algum socorro. O povo marajoara, por exemplo.

No entanto, hoje, depois daquela euforia há dez anos passados mergulhamos outra vez em incerteza e depressão... Mas, de todo modo, não se deve deixar cair no esquecimento esta gente descendente do famigerado Diretório dos Índios, da segunda metade do século XVIII, transformados em “caboclos” por decreto ultramarino. Urge denunciar a colonialidade e pegar à unha o touro da exclusão! Sobretudo, daquelas milhares de famílias ribeirinhas de “moradores”, antes comparáveis a párias entregues ao bel prazer de “donos” de terreno; que foram contempladas com títulos de autorização de uso (TAU) de terras da União, vulgarmente chamadas “terra de marinha” que alguns ainda confundem com terra da Marinha.

No Marajó, a regularização fundiária de terras da União é apenas o primeiro passo no caminho da inclusão socioambiental da Criaturada grande de Dalcídio (populações tradicionais: cabocos, quilombolas e índios...). Índios? Sim. Contavam pelos corredores daquelas audiências que em Breves existia um cidadão conhecido como Índio do Mapuá, único a se declarar índio durante o Censo do IBGE. Este caboco fora de série teria sido um dos primeiros a mobilizar a comunidade para reivindicar a criação pelo governo federal da Reserva Extrativista Mapuá. Pena que, por deficiência de Educação inclusiva; as iniciativas e pequenas conquistas desta gente ainda sejam muito fragmentárias, como a emblemática história dos “cacos de índio” que deram início ao sonho de renascença da antiga Cultura Marajoara, com a criação do Museu do Marajó. Vivemos em ilhas grandes e pequenas que, de fato, constituem “arquipélago” social, demográfico, político, econômico, ecológico...

O PLANO MARAJÓ não pode ir para o museu das boas intenções, das quais o Inferno está cheio; sem antes dar lugar a outra coisa aderente à Agenda 2030 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), de compromisso do país com a ONU. Em três séculos e meio, desde o histórico e esquecido acordo de paz de Mapuá (Breves) de 17 de agosto de 1659, entre caciques marajoaras e o superior das missões (delegado da coroa portuguesa para assuntos indígenas, em conformidade com a lei abolição dos cativeiros dos índios, de 1655), padre Antonio Vieira; nunca houve nada parecido à mobilização popular para o PLANO MARAJÓ na história desta pobre gente, porém rica região da periférica Amazônia.

Tudo aquilo, a bem dizer, teve início a partir de documento eclesial da Quaresma de 1999, quando os dois bispos católicos do Marajó, o da Diocese de Ponta de Pedras, Dom Angelo Rivatto; e da Diocese do Marajó, Dom Frei José Luís Azcona; chamaram atenção do governo e da sociedade sobre a extrema pobreza do povo marajoara. Sem resposta efetiva durante sete anos, voltaram os dois bispos (agora Dom Alessio Saccardo substituindo Dom Angelo Rivatto) a reclamar. Desta feita foram eles bater à porta do Palácio do Planalto pedindo atenção para aquele povo remanescente de cinco mil anos de ocupação das terras baixas da América do Sul e dos antigos construtores das aldeias suspensas sobre tesos de Cultura Marajoara de mais de mil anos de idade. Isto de que trata o teimosíssimo Museu do Marajó inventado por Giovanni Gallo.

Está claro que parte da comunidade havia ido se queixar não a um, mas aos dois bispos. Como membro do Grupo em Defesa do Marajó (1994-2014) e voluntário do Museu do Marajó (2003-2010) tive a honra de participar das tratativas do PLANO MARAJÓ. O Presidente Lula estava lá havia três anos e a gente cutucando o governo por causa do museu do Gallo e do patrimônio arqueológico... Então, em nome da Criaturada grande de Dalcídio o GDM se mexeu mais um pouquinho tendo em mente a Carta do Marajó-Açu, do encerramento do décimo e último Encontro em Defesa do Marajó, realizado em Ponta de Pedras, em 30 de abril de 1995.

A burocracia palaciana reagiu à maçada com a pressa e competência habitual. É bom que o povo saiba que, seja PSDB ou PT no comando, a máquina burocrática é quem manda no tempo de execução das ordens superiores e até inferiores ou colaterais. Que, dependendo da maré dos interesses pessoais, poderá ir mais devagar ou mais depressa... Lula viria cá sim graças a Deus, como de fato em 2007 ele chegou a Breves acompanhado da Governadora Ana Júlia Carepa para lançar o tal Plano. Entrementes, diversas conversas em idas e vindas de Brasília, Belém e Marajó e as reuniões se sucediam. O povinho a bom esperar na margem da História. Foi no meio duma destas parolagens que nem a tal torre de Babel, que Dom Azcona se levantou e me perguntou diretamente frente aos presentes se eu, por acaso, sabia da existência de índios no Marajó (o caso é que aparecia no quadro de orçamento em discussão certa dotação prevista para suposta comunidade indígena aos cuidados da FUNAI na mesorregião Marajó).

Aquilo nos causou admiração a todos, pois é sabido – desde o fim do Diretório dos Índios (1757-1798) – que não há mais índios no Marajó: todos “bárbaros” foram declarados “civilizados” pela graça de Deus e vontade de El-Rei de Portugal... Então, do alto de sua autoridade eclesiástica, Dom Azcona me distinguia com a pergunta curiosa, dizendo ele frente ao auditório bovinamente interessado: “Senhor Varella, ainda existem índios no Marajó? Respondi-lhe prontamente: “Sim, Senhor... Mas eles não sabem” (que são índios de fato). Agradeceu-me o Bispo do Marajó minha pronta resposta e nada mais foi dito nem perguntado a respeito de semelhante assunto.

CABOCOS SÃO ÍNDIOS COM AMNÉSIA

Em preparação à audiência pública (e sabemos como as audiências públicas são direcionadas na periferia da Periferia, ou seja regiões amazônicas de alta exclusão social e analfabetismo), participei de reunião informativa na simpática cidade de São Sebastião da Boa Vista pleno de entusiasmo com o futuro. Ao encerrar a minha fala perguntei ao auditório, como de praxe, “Alguma pergunta?”. Na primeira fila uma professora disse-me que ela havia sim uma pergunta a me fazer: “O senhor é parente do doutor Drauzio Varella?”... Compreendi o quanto meu discurso tinha servido para tirar as dúvidas da sociedade local sobre o “plano participativo” em gestação. Menti de cara limpa, respondendo, secamente: “Primo”, por parte de Adão e Eva é claro... Terminei, então, por dizer que minha avó era índia marajoara (pura verdade): porém escutei uma jovem de inconfundível feição indígena cochichar com outra, rindo, dizer “Com essa cara, mana!...” Ou seja, com a minha cara pálida é bacana me declarar neto de índia, difícil é para alguém cuja sangue de índio está na cara passar entre os “brancos” da freguesia.

Na vila da Mangabeira, onde nasceu minha avó Antônia Silva estava eu com parentes tais que não sabem mais que somos índios, a tomar cerveja e curtir a brisa que vinha da baía. Comecei a falar das origens indígenas da família e do lugar... Notei o silêncio dos parentes crescendo até que um primo, provavelmente, neto de minha tia-avó Joana, desabafou: “Zé, mano, não tem mais índio hoje somos todos civilizados”... Ele tem razão. Sempre fomos civilizados e nunca índios, isto foi equívoco de Cristóvão Colombo. Na verdade, nem mesmo fomos “nheengaíbas” (falantes da “língua ruim”) mas sim Aruãs, Anajás, Tupinambás, Guaianás, Muanás, Aracarus, Aricarás.... Fosse lá eu dizer isto! Estragaria a cerveja e talvez a camaradagem.

Eram três indiazinhas da aldeia da Mangabeira que iam estudar em Ponta de Pedras: Antônia, Serafina e Joana. Naquele tempo, por suposto, o lugar chamado Itaguari pelos nativos ainda era distrito da Vila da Cachoeira e tinha apenas uma escola primária para atender a filhos dos moradores. A vila de Ponta de Pedras foi emancipada como município em 1877 e instalada a Câmara Municipal no dia 30 de abril de 1878. Por coincidência, meu avô Alfredo Nascimento Pereira nasceu neste dia, ano de 1849, na vila de Benfica (Benevides), portanto, tinha ele 29 anos de idade quando houve a instalação da nova Vila de Ponta de Pedras. Ignoro se ele já era professor nesta vila ou ainda se achava em Muaná. Certo é que ele casou com a índia Antônia “magra de canela piririca”... Quer dizer com cicatrizes de piodermite nas pernas, no dizer da idosa senhora Semíramis, viúva do prefeito João Cabral Noronha (Janja), que foi colega de Antônia, Serafina e Joana. Semíramis era filha do presidente da Câmara, Antônio Pereira de Moraes; ela e outras moças de Ponta de Pedras sentiam inveja da índia Antônia pois gostariam de namorar e casar com o professor Alfredo. Era raro vir crianças dos sítios nas redondezas estudar na vila, ainda mais em se tratando de meninas indígenas. Restavam poucos índios, todos catequizados e falando mais ou menos português, Mangabeira ficava mais distante que agora pela rodovia asfaltada nos seus 10 km. Antes do prefeito major Djalma Machado, filho de Cachoeira, o caminho da Mangabeira começava no Campinho (hoje a rua Belém), a vila era uma ilha bem definida cercada pelo rio Armazém e o Igarapé Arapinã ligados através do Dixiú), passagem difícil sobre estiva de troncos de açaizeiro, escorregadio com o tijuco da maré... Muita vontade daquelas três índias em aprender as primeiras letras: se meus bisavós não mandassem e se minha avozinha fraquejasse eu não estaria agora no computador a contar história.

O nome de batismo cristão dela era Antônia, talvez porque foi batizada no dia do santo português casamenteiro. Deram-lhe por sobrenome, provavelmente, o do padrinho fulano de tal Silva... Então, a pequena se chamou Antônia Silva, indígena remanescente da antiga aldeia da Mangabeira: sabe Deus se aquela família da qual meu pai se gabava de ter sangue cabano em suas veias, não conservaria ainda o antigo costume dos índios de ter o nome verdadeiro em segredo que nem judeus, chamados cristão-novo; obrigados a ser católicos à força.

Minha avó Antônia ficou como figura sem rosto no álbum da família. Dela só me falaram por insistência minha quando comecei a crescer. O branco Alfredo da vila de Benfica e Antônia da aldeia da Mangabeira se casaram e tiveram a primeira filha, Sophia Tautonila (a única avó que eu conheci pois Antônia morreu no dia 22 de agosto de 1904, no parto de nascimento de meu pai, Rodolpho Antônio Pereira, do nome do padrinho alemão compadre de meu avô Alfredo e lembrança da índia morta). Sophia adotou Rodolpho como filho, ela havia 18 anos de idade e ficou solteira. Então a primeira filha do casal nasceu em 1886, dois anos antes da Lei Áurea e três da Proclamação da República.

Não me recordo dos meus primeiros dias de vida no bairro do Fim do Mundo logo após meu nascimento na Santa Casa e batismo na igreja da Santíssima Trindade, em Belém. Minhas primeiras recordações são da casa da rua Lauro Sodré vizinha à casa do Otávio e da Petita Pereira pelo lado da frente e da dona Vitória pelo lado dos fundos. Para ir a casa da vó Sophia a gente precisava contornar a esquina da casa de dona Conceição, mãe do Tomé Cabecinha. A casa de meu avô Alfredo Pereira com sua mulher dona Isabel Trindade ficava no quarteirão adiante a caminho do Campinho, confronte à casa do primo de papai, o Lindolfo Bandeira, afilhado de vovó Sophia. Meu avô Alfredo morreu com a idade de 106 anos e sua terceira viúva vendeu o terreno para a COSANPA em vista do manancial de água que havia.

ORGULHO CABOCO.

Caboco (do nheengatu, caa, vegetal, mato; e bok, tirado, saído). Caboclo é o índio domesticado pelos diretores iluministas da escola colonial do Marquês de Pombal. Eu já disse que não sou ‘caboclo’... O Brasil somente dará certo quando se orgulhar da sua mestiçagem na rica diversidade étnica e cultural dos povos indígenas, afrodescendentes e a patuleia branca misturada de ralé judia, massagada árabe e degredados da Europa madrasta.

Não carece repudiar a civilização Ocidental, só precisa respeitar e considerar as nossa mais origens humanas em pé de igualdade. Somos o maior país amazônico do mundo e ao mesmo tempo maior país afrodescendente. Isto sim é que faz do nosso Brasil brasileiro o verdadeiro país do futuro. Já tínhamos civilização há mais de mil anos na Ilha do Marajó. Não devemos por isto nada a ninguém mais que aos profetas caraíbas da utopia selvagem dita a Terra sem Mal (Yby Marãey).

Utopia brasílica, doravante, a ter concretude pelo justo trabalho libertador da Ciência e Tecnologia a serviço de toda Humanidade: onde não há Fome, Trabalho escravo, Doenças, Velhice e Morte. A bença mea vó tapuia Antônia Silva, que mora em meu coração e me faz escrever estas coisas com amor e paixão pela Criaturada grande de Dalcídio.


https://www.facebook.com/notes/mangabeira-ber%C3%A7o-de-ponta-de-pedras/minha-av%C3%B3-ant%C3%B4nia-e-a-invisibilidade-dos-%C3%ADndios-do-maraj%C3%B3/1541113356001964/




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“Não se pode viver em um permanente estado de exílio...

Os seres humanos compartilham da necessidade de ter raízes.

Não é possível flutuar ao redor de um mundo virtual.

Não é surpreendente que os membros das comunidades tradicionais

atribuam um valor particular à sua terra, que em sua opinião lhes pertence,

e eles por sua vez pertencem à sua terra...”.

 

                Juiz Cançado Trindade, da Corte Interamericana de Direitos Humanos.

                (Trecho do Livro de Eliane Moreira - Justiça Socioambiental e Direitos Humanos:

                Uma análise a Partir dos Direitos Territoriais de Povos e Comunidades Tradicionais)

 

 


Livre de vírus. www.avast.com.

Albertinho Leão

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Dec 20, 2017, 10:01:56 AM12/20/17
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José Varella Pereira

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Dec 22, 2017, 9:34:51 AM12/22/17
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Obrigado pela divulgação.
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