13/02/2012 por mansueto
O número elevado de gestores de fundos estrangeiros que estão visitando Brasília, Rio e São Paulo neste mês de fevereiro tem me chamado atenção. Para quem não é do mercado, essas visitas funcionam mais ou menos assim. Esses analistas e gestores de fundos de investimento pedem a um banco, normalmente que presta algum serviço a eles, para marcar reuniões com representantes do governo e com alguns analistas independentes.
A lista de instituições oficiais visitadas incluem, geralmente, Ministério da Fazenda, Secretaria de Politica Econômica, Tesouro Nacional, Banco Central e BNDES. Às vezes, dependendo do perfil dos investidores, entra na lista Ministério das Minas e Energia e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
Em alguns casos, o Congresso Nacional entra na lista e os investidores procuram líderes de partidos aliados ao governo e antes procuravam líderes da oposição. Hoje, aqueles com quem converso não se mostram muito animados para conversar com políticos da oposição e talvez isso seja reflexo da percepção desses investidores que a oposição, no Congresso Nacional, perdeu a influência que costumava ter na definição da agenda parlamentar.
Além das instituições oficiais, esses investidores procuram conversar também com analistas independentes, que inclui consultorias econômicas em São Paulo e Rio, consultorias políticas em Brasília e pessoas físicas. Entro nesta última categoria. Normalmente, quando posso, aceito almoçar com esses investidores e duas coisas têm me chamado atenção. Primeiro, o interesse cada vez maior desses gestores de fundo em investir no Brasil e América Latina. Segundo, o volume de recursos das carteiras dos fundos de investimento na América Latina e/ou mercados emergentes.
Quando vão marcar entrevistas, esses gestores informam o volume de recursos que aplicam na América Latina e a carteira total dos seus fundos. Apenas no mês de fevereiro, notei que os gestores de fundos com quem almocei e que vou ainda almoçar administram mais de US$ 100 bilhões de investimentos em mercados emergentes. Sempre levantam aquelas preocupações com os indicadores de longo-prazo, a agenda parada de reformas, etc., mas em geral estão otimistas e procurando oportunidades de investimento no Brasil.
O que tenho destacado para todos eles é o seguinte: (i) não me preocupo com a economia brasileira nos próximos três anos. A discussão do que vai acontecer neste período é se a inflação média será mais próxima de 5% ou mais próxima de 6% ao ano ou se o Brasil vai crescer 3,5% ou algo próximo a esse valor; (ii) não vejo risco de crise fiscal no Brasil nesse período e explico que o debate fiscal hoje está relacionado aos impactos dos gastos do governo na demanda agregada e a intenção do governo de trazer e manter a taxa de juros em um dígito; (iii) destaco que o governo terá que abraçar agenda de concessões, pois será a única forma de conciliar a manutenção das políticas sociais com crescimento do investimento público sem precisar aumentar a carga tributária; e (iv) mando eles esquecerem ramos da indústria trabalho intensiva, e investirem nos setores ligados à commodities, serviços e infraestrutura.
Adoraria poder recomendar investimentos na indústria no Brasil, mas quando vejo o custo de se produzir aqui vis-à-vis ao custo de produção em outros países, não há como recomendar investimento na indústria, a não ser naqueles ramos muitos específicos ligados à indústria de petróleo e gás, e agropecuária.
Apesar do debate intenso no Brasil se há ou não desindustrialização, os investidores estrangeiros passam à margem desse debate e querem apenas ter certeza que os indicadores macro estão em ordem para que eles possam investir no Brasil.
É claro que ficam apreensivos com medidas protecionistas, mas se acalmam quando digo que o Brasil não tem como crescer sem ajuda da poupança externa e, assim, não deve tomar medidas que afugentem o investimento externo apesar da retórica do nosso querido Ministro da Fazenda que, no lançamento da plano Brasil Maior fez a observação indevida que: “o mercado brasileiro deve ser usufruído pela indústria brasileira e não pelos aventureiros que vêm de fora”.
Para ter mais informação acesse estes portais: www.desenvolvimentistas.com.br e http://www.joserobertoafonso.ecn.br/