Quinta-Feira, 25 de Outubro de 2012
(Artigo publicado no O Globo a Mais do dia 23/10/2012)
Por Monica Baumgarten de Bolle - 25 de outubro de 2012 9:33

A noite avançara, já era tarde, quase madrugada. Mas os dois continuavam o duelo verbal com o qual haviam iniciado a noitada, confortavelmente instalados em suas poltronas e bebericando um bom conhaque. Todas as noites faziam isso. Muitas vezes os debates adentravam, também, o dia. Isso era natural, até normal. Afinal, na situação em que estavam, nada mais havia a fazer do que debater ideias, analisar os fatos correntes, as mudanças que o mundo atravessava, tão alheias aos dois. Um nascera quinze anos antes do outro, mas isso não mais importava. Havia muito que, para eles, a decadência física estacionara. Curiosamente, o que nascera primeiro era, agora, vinte e quatro anos mais moço.
O primeiro, o Sr. Keynes, esperara trinta e oito anos pelo segundo, o Sr. Robbins[1]. Trinta e oito anos para que retomassem as suas discussões e tentassem resolver, ou atenuar, suas diferenças. Dispunham, agora, de toda a eternidade para isso, toda a sucessão de passados, presentes e futuros. Não só isso. Suas consciências exaltadas agora lhes permitiam enxergar, também, todos os passados, presentes e futuros que não seriam observados, mas que, ainda assim, não deixariam de existir, como imaginavam aqueles que ainda estavam presos ao outro mundo. Acomodados na vasta biblioteca de passados, presentes e futuros, tendo em mãos tudo o que já fora escrito e tudo o que seria escrito, podendo citar qualquer um para fundamentar seus argumentos, o Sr. Keynes e o Sr. Robbins destilavam o seu conhecimento e engajavam-se numa esgrima retórica repleta de ironia. Uma ironia cuja sutileza pairava acima de outra, mais visível no mundo que antes habitaram. Uma crise econômica. O dissenso entre os líderes políticos e os economistas sobre o que fazer. “Mais austeridade”, apregoavam uns. “Menos austeridade”, insistiam outros. O contrassenso de várias reuniões inúteis das instituições de Bretton Woods, que ambos viram nascer, para discutir os mesmos assuntos. Seu mundo de outrora já estava há anos preso neste impasse e não havia a menor possibilidade de que fosse resolvido. O Sr. Keynes era frequentemente evocado para defender a posição de alguns, o que lhe rendia boas risadas. Só mesmo daquela biblioteca para enxergar o quão diferentes eram algumas coisas, o quão semelhantes eram outras.
No momento em que observávamos o Sr. Keynes e o Sr. Robbins, ambos discutiam a decisão de uma jovem brasileira de leiloar a sua virgindade na internet. O Sr. Keynes dizia “olhe só no que deu a sua insistência de que a Economia é apenas a ciência que estuda o comportamento humano e a relação entre os fins e os meios escassos. Estes seres unidimensionais que povoam os modelos matemáticos dos economistas treinados na tradição do Sr. Jevons[2], tal qual o senhor, acreditam que isto seja perfeitamente normal. A jovem catarinense tem algo a oferecer, alguém quer pagar por isso, portanto todos melhoram. Os modelos econômicos e os mecanismos de mercado agora servem para explicar tudo. Era isso o que o senhor pensava quando disse que a Economia lida com fatos verificáveis, enquanto a ética aborda valores e obrigações? Continua a acreditar que os dois campos de análise do comportamento humano residem em planos ortogonais de investigação? Há algum tempo o Sr. Samuelson[3], um de meus discípulos, me contava aqui nesta biblioteca que o Sr. Friedman[4], que deve estar perambulando entre os livros, foi visitar o Chile durante a ditadura de Pinochet. Voltou maravilhado. O Sr. Samuelson chamava isto de Fascismo de Mercado. Fascismo, fascínio, palavras parecidas…”.
O Sr. Robbins nada dizia. Pensava no que dissera, recentemente, um eminente Professor Afiliado da instituição acadêmica cuja reputação internacional ajudara a construir no início do século XX, a London School of Economics and Political Science. Sir Anthony Atkinson, o acadêmico que ocupava as reflexões do Sr. Robbins, insistira que as Ciências Econômicas haviam abandonado o estudo do bem-estar social, dos critérios envolvidos na sua avaliação, que muitas vezes tinham de transcender o utilitarismo e o conceito de eficiência alocativa, a noção de que se alguém saiu melhor de uma transação econômica sem prejudicar financeiramente o outro, atingira-se o ponto máximo de satisfação. Este brilhante Professor, também britânico, também um nobre – recebera o knighthood em 2000 e o título de Chevalier de la Légion d’Honneur em 2001 – citara Amartya Sen, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 1998. Sen dissera certa vez que “sociedades podem ser perfeitamente eficientes do ponto de vista alocativo, mas, ao mesmo tempo, absolutamente repugnantes”. Um silêncio opressivo instalou-se entre os dois.
O Sr. Robbins, então, quebrou a ausência de comunicação ao dizer, “me recordo de uma carta sua para o Sr. Harrod[5], outro nobre habitante de nossa biblioteca, na qual disse que discordava de minhas posições, de que a Economia era uma Ciência essencialmente moral, pois, afinal, exigia introspecção e julgamentos de valor. Parece que há pouca ou nenhuma introspecção e que os julgamentos de valor foram deixados de lado por grande parte dos economistas. Será isso que o Sr. Sen chamou de sociedade repugnante?”.
O Sr. Keynes e o Sr. Robbins refletiram longamente sobre a repugnância. Decidiram, tacitamente, deixar o tema para a próxima discussão, na noite seguinte. Afinal, o assunto era polêmico. E, imaginaram, em apenas uma noite entre as infinitas noites da eternidade que os envolvia, já tinham abordado temas carregados de controvérsia. Sobretudo para os economistas, que, em vez de consertarem os problemas do mundo como eles, o Sr. Keynes e o Sr. Robbins, haviam tentado fazer na sua época, insistiam em estudar coisas estranhas, como o “mercado de matrimônios” ou os “métodos de speed dating”.
Terminaram seus conhaques, levantaram-se e esticaram as pernas. Viram que alguém os ouvia com grande interesse, o Sr. Carneiro[6], um grande economista e pensador brasileiro que há muito acreditava que o Prêmio Nobel de Economia tornara-se ideológico, uma busca por algo sinistro, o “desenho de sociedades”. Cumprimentaram-no com um leve aceno de cabeça.
Depois, despediram-se na biblioteca, satisfeitos, cada um a seu modo, de que o seu mundo, agora, era bem mais simples, profundo e erudito. E cheio de gente interessante.
[1] John Maynard Keynes, 1883-1946. Lionel Robbins, 1898-1984.
[2] William Stanley Jevons, 1835-1882, economista e matemático.
[3] Paul Samuelson, 1915-2009, Prêmio Nobel de Economia em 1970.
[4] Milton Friedman, 1912-2006, Prêmio Nobel de Economia em 1976.
[5] Sir Roy F. Harrod, 1900-1978, biógrafo de Keynes, autor de inúmeras contribuições para o entendimento do crescimento e do desenvolvimento econômico. Nunca recebeu o Prêmio Nobel de Economia.
[6] Dionisio Dias Carneiro, 1945-2010, economista e Professor da PUC-Rio.
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