BRASIL ECONOMICO / entrevista Jim O'Neill, criador do acrônimo Bric : "Brasil só cresce 5% se mudar política monetária"

2 views
Skip to first unread message

arthur garbayo

unread,
May 10, 2012, 12:04:00 PM5/10/12
to
BRASIL ECONOMICO
10/05/2012

Brasil só cresce 5% se mudar política monetária,  diz O'Neill

Economista não acredita em guerra cambial e afirma que altas taxas de juros do país dificultam investimentos

Gustavo Machado

Caso o Brasil não reveja sua política fiscal e monetária, dificilmente será capaz de crescer mais do que 4% ao ano.

Ao mesmo tempo, já possui fundamentos econômicos sólidos e desenvolvidos para conseguir atingir o seu potencial e até alcançar a gigante China.

Embora ambos os argumentos pareçam conflitantes, eles pertencem ao mesmo economista, o presidente do Goldman Sachs, Jim O"Neill, criador do acrônimo Bric (sigla que agrega as quatro maiores economias emergentes - Brasil, Rússia, Índia e China), e cujo nome tem sido cotado para dirigir o Bank of England - o Banco Central britânico.

Numa conversa exclusiva com o BRASIL ECONÔMICO, O"Neill afirmou:"O maior problema brasileiro são os juros. O país precisa urgentemente reduzir as taxas de juros." . Ou seja, pelo argumento de O"Neill, a "guerra contra juros altos" promovida pelo governo federal - que arrefeceu a pressão para a redução das taxas bancárias tanto via discursos da própria presidente Dilma Rousseff, quanto de seus principais interlocutores na economia, que são o ministros da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini -, parecem estar na direção correta.

Para o economista, são os juros o principal empecilho do desenvolvimento nacional, pois eles travam os investimentos públicos - ao exigir montantes suntuosos para a rolagem da dívida federal - e desestimulam o setor privado a investir, já que o financiamento bancário acaba se tornando inviável. Além disso, avisa, caso as reformas necessárias não sejam feitas, não haverá investimos suficientes para alavancar o crescimento.

Essa situação, no entanto, pode melhorar rapidamente caso a guerra contra o juro seja vencida pela presidente Dilma.

Potencial de crescimento

Caso o país conquiste taxas de juros condizentes com as praticadas no mercado internacional, o Brasil poderá crescer acima de 5%, até mesmo 6% ao ano, anima-se O"Neill.

As condições para sustentar esse ritmo de expansão anual são facilmente alcançadas principalmente pelas variáveis macro e microeconômicas que colocam o país à frente de qualquer outro Bric.

Indicadores que analisam desde inflação e déficit público até uso de internet e corrupção apontam para um índice de ambiente de crescimento de 5,5 pontos.

O segundo na lista do seleto grupo de emergentes é a potência China, com 5,4 pontos. Embora o Brasil se destaque nos indicadores macroeconômicos, alguns de ordem política atrasam o desenvolvimento do país.

Segundo O"Neill, todos os países emergentes deveriam se basear na experiência coreana para alcançar patamares mais elevados no indicador.

A Coreia do Sul tem uma pontuação muito alta, diz o economista.

O pequeno país asiático alcançou 7,7 pontos, maior que todos os países do Bric ou latino americanos. "Muitas coisas têm que mudar, como a corrupção, que é o que impede muitas vezes um país de se desenvolver. Mas o Brasil está indo melhor do que Índia, Rússia e China, por exemplo. Muitas variáveis fazem com que a Coreia esteja muito acima do Brasil. Se o país deseja atingir este nível de riqueza, terá de mudar muitos aspectos políticos para alcançá-lo."

Crise

Especializado no mercado internacional de câmbio, Jim O"Neill é taxativo quando questionado sobre o posicionamento brasileiro frente ao volume de capital estrangeiro que ingressa no país. "Não existe qualquer guerra cambial em curso!" Novamente ele diz que uma das soluções é a redução dos juros. "É necessário criar condições para que o sistema possa baixar as taxas. Isso significa que é preciso manter a inflação baixa e ter uma forte disciplina fiscal."

O argumento utilizado para desmontar a tese da guerra cambial é a preocupação com a demanda interna dos países imersos na crise financeira - a qual, aliás, não é entendida por O"Neill como uma crise mundial. "O problema não é global, nem financeiro. A China cria uma Grécia a cada 11 semanas e meia. Os quatro países do Bric criam uma nova Espanha todo ano. O que é preciso entender é que o mundo não é mais dominado pelos EUA e pela Europa."

Com um conhecimento desses, não foi nada difícil para O"Neill desmerecer economistas que preveem uma década perdida até a Europa se recuperar. "O PIB mundial crescerá esta década, provavelmente, 4%. Nos últimos 30 anos ele cresceu 3,4%. As pessoas que dizem que haverá uma década perdida não entendem o que está acontecendo com o mundo.

Ele está ficando mais forte e não mais fraco. Vemos brasileiros e chineses por toda a Europa comprando artigos de luxo e isso está acontecendo em todo o mundo."

Sobre o desaquecimento brasileiro e a perda de fôlego da indústria, O"Neill entende que o câmbio pode ajudar, mas não deve ser tratado como uma panacéia para todos os males. "Hoje o real está sobrevalorizado e a indústria manufatureira necessita que a moeda seja mais fraca, mas é preciso entender que a principal diretriz de uma economia não é a moeda e sim oferta e demanda. Neste caso, o Brasil precisa ter companhias mais competitivas, mais produtivas. É por isso que Alemanha e Coreia do Sul continuam bem com suas exportações, mesmo com a cotação de suas moedas não ajudando", conclui o Chairman da Goldman Sachs.

 

ENTREVISTA JIM O"NEILL

Economista do Banco Goldman Sachs

 "O mundo está mais forte e não mais fraco"

 Para O"Neill, a economia global não é mais dominada por Estados Unidos e Europa, e países como o Brasil e a China podem sustentar a recuperação

 

Em um período de crise dos principais centros econômicos, como o sr. vê o Brasil?

É preciso notar que algumas economias importantes estão acelerando, como a dos Estados Unidos.  Também penso que a desaceleração chinesa é gradual, o chamado soft landing (pouso suave). Não penso que os humores externos podem influenciar tanto o Brasil. Além disso, existem quase 200 milhões de brasileiros, o que faz com que o país não dependa do mundo.

Quais os riscos que põem em xeque o crescimento do Brasil?

Os riscos são os juros. Eles precisam cair. A economia não sustentará um crescimento acima de 4%ao ano sem um grande volume de investimentos. Para crescer cerca de 5% ou 6% é preciso reduzir as taxas de juros.  Provavelmente, este é o pior problema do Brasil.O que puxará o desenvolvimento serão os investimentos, não o comércio internacional de commodities.

O câmbio também é entendido como um problema. É uma solução desvalorizar o real?

Isso realmente é um problema. Hoje o real está sobrevalorizado e a indústria manufatureira necessita que a moeda seja mais fraca, mas é preciso entender que a principal diretriz de uma economia não é a moeda e sim a oferta e demanda.  Neste caso, Brasil precisa ter companhias mais competitivas e mais produtivas. É por este motivo que Alemanha e Coreia do Sul continuam bem com suas exportações, mesmo com a cotação de suas moedas não ajudando.

 ministro Guido Mantega afirma que há uma guerra cambial em curso. Como contornar essa situação?

Não existe qualquer guerra cambial em curso neste momento. Acho que os argumentos que fundamentam a tese da guerra cambial não estão bem colocados.                       As prioridades da maioria dos países em crise estão relacionadas à demanda doméstica. Veja os Estados Unidos, a União Europeia e o Japão. Isso fez com que eles colocassem suas taxas de juros extremamente baixas. Assim como os preços altos das commodities. Por isso que investidores veem o real de forma muito atrativa. É necessário criar condições para que o sistema possa baixar as taxas de juros. Isso significa que é preciso manter a inflação baixa e ter uma forte disciplina fiscal. É um trabalho conjunto das políticas monetária e fiscal muito difícil de ser feito.

Há uma solução à vista para a crise mundial?

Penso que a situação europeia é muito complicada. Ainda não há uma solução permanente. Muitos países adentraram a zona do eurocom perfis econômicos muito diferentes.  Continuaremos a ter fases com crise e outras sem.  Eventualmente, em alguns anos, teremos chance de fazer reformas estruturais e a situação melhorará. Mas hoje, percebemos que a crise europeia é o maior risco para a economia global. O problema, no entanto, não é financeiro.  A China cria uma Grécia a cada 11 semanas e meia. Os quatro países do Bric criam uma nova Espanha todo ano.

Então o sr. não acredita quando dizem que teremos uma década perdida?

Nem um pouco. O PIB mundial crescerá esta década, provavelmente, 4% por ano. Nos últimos 30 anos ele cresceu 3,4% ao ano.  As pessoas que dizem que haverá uma década perdida não entendem o que está acontecendo com o mundo. Ele está ficando mais forte e não mais fraco. O mundo não é mais dominado pelos Estados Unidos e Europa. O PIB da China crescerá mais que o dos países desenvolvidos juntos.

As pessoas que focam neste tipo de argumento não têm em suas mentes que o mundo está mudando. Isso é tão claro para mim. Vemos brasileiros e chineses por toda a Europa comprando artigos de luxo. Isso está acontecendo no mundo todo.

Estive no Reino Unido há algumas semanas e percebi que os britânicos não estão tão preocupados com a crise. Vejo muitas investidores em Londres preocupados com a crise. Mas uma coisa que precisamos entender é que o mundo não está em crise, ele apenas está mudando muito rapidamente, e como já disse: Europa não é o mundo.

O que existe é a sensação de satisfação por que o Reino Unido não faz parte da zona do euro, o que fornece uma independência monetária maior. A economia britânica está frágil, mas pode passar por uma aceleração mais cedo por causa dessa independência.

O sr. defende a criação de um grupo menor que o G20. O Brasil tem espaço nele?

Com certeza. Por causa desse aspecto multicultural penso que o Brasil é único no G20 e tem muito a oferecer. Nem China, ou Estados Unidos, Europa e muito menos a Rússia têm esse tipo de diversidade. Isso faz com que o brasileiro seja tolerante quanto a escolhas, algo muito importante. O Brasil é tolerante não só consigo, mas com outros países. Existe um papel muito importante para o Brasil.

Por muitos anos, o G20 foi algo fantástico, mas hoje é muito grande para lidar com assuntos estratégicos.  Cada vez mais faz sentido ter um grupo como o G7. Alemanha, França e Itália seriam combinados em um só e abririam espaço para o Bric. Brasil definitivamente tem espaço neste grupo, além de ser das maiores economias, tem muito a oferecer.

Dez anos atrás, o sr. disse que seríamos a quarta economia em 50 anos. Hoje, somos a sexta. Sua projeção foi revista?

O Brasil chegou à sexta posição 10 anos, mais rápido do que pensei. A evolução do Bric está sendo mais rápido do que qualquer um imaginou. Será difícil o Brasil alcançar a quarta posição, pois não é possível descartar Estados Unidos, China e Índia. Então seria necessário ultrapassar todas as outras economias desenvolvidas. Não é impossível e ficarei muito satisfeito de ver isso se concretizar.

Brasil tem demografia muito favorável comparada a esses países.  Alemanha, por exemplo, terá cada vez mais dificuldades devido ao perfil demográfico.

Então, quando o Brasil e outros emergentes poderão ser considerados desenvolvidos?

É por isso que falo tanto da Coreia do Sul. Hoje, ela já alcançou o mesmo nível de riqueza da Espanha.  Por isso ela deve ser um modelo para o Brasil, que precisa melhorar seu ambiente de crescimento para alcançar esses países. De fato, ele necessita se aperfeiçoar suas bases produtivas.

Para isso, o Brasil não depende mais de elementos políticos do que econômicos?

Muitas coisas têm que mudar, como a corrupção, que é o que impede muitas vezes um país de se desenvolver. Mas, nesta área, o Brasil está indo melhor do que Índia, Rússia e China. Existem variáveis que fazem com que a Coreia esteja acima.

...



--

Para ter mais informação acesse estes portais:  www.desenvolvimentistas.com.br e http://www.joserobertoafonso.ecn.br/


Reply all
Reply to author
Forward
0 new messages