| Recebi
hoje o resumo de postagens do dia na
rede de Culturas Populares, no qual
li três encaminhamentos sobre a
questão indígena, que me deixam mais
angustiada do que com a sensação de
que temos uma mobilização em curso.
A primeira angústia é mais uma
vez com o apelo do nosso
companheiro Tupinambá da Bahia. Há
pelo menos dois anos venho
acompanhando os apelos
desesperados desse povo, vítima da
truculência policial, enquanto
luta por reconhecimento de suas
terras. Certamente mínimas terras
como costumam sê-las as terras
indígenas do nordeste, onde os
índios são obrigados a procurar
trabalho em terras de vizinhos,
naturalmente casando-se algumas
vezes lá por fora, e trazendo de
volta para o seio de sua cultura,
esses novos membros e gens.
Processo que não nos tornou menos
brasileiros... o fato de meu avô
ter se casado com filha de alemães
ou meu avô materno ser de origem
africana não identificável não me
torna menos brasileira, mas quando
se trata de índios, todas as
lógicas são diferentes, menos a
lógica para compreender a
diferença que faz o índio como
meio de fuga a tudo aquilo que o
capitalismo em sua expansão veio
destruindo Brasil adentro... a
começar pelo apoio que deram á
formação dos quilombos, único
recurso de fuga à escravidão e seu
banzo..
Mas, o que me preocupa não é
essa falha na lógica pública, que
até hoje não conseguiu perceber
que eles é que estão devendo
demarcações de terras e não os
índios que estão devendo provar
que são índios e que estão na
terra, que aliás, por sinal, é
deles. Engraçado, não é? Índio tem
tanta terra? Por que? Pensei que
só gente rica tivesse esse
direito. Pelo menos, pela lógica
desse nosso estado lusitano, é
assim: todos têm direito à
terra... os índios ás terras que
sempre ocuparam... aqueles que
foram transformados de índios ou
posseiros em indigentes... reforma
agrária... aqueles que receberam
historicamente todas as concessões
de terras governamentais, a
manutenção de suas propriedades
atuais, dentro dos limites legais
de utilização das mesmas. Bem,
acaba que como prevê o Estado de
Direito, com sua corrupção
estrutural e outras
características intrínsecas, quem
já tinha terra, toma mais terra de
quem estava esperando, continua
descumprindo todas as leis quanto
às formas de utilização das
mesmas, mas tudo isso se justifica
porque temos que continuar
crescendo, expandindo nossa
economia. Estamos expandindo
tanto que boa parte do nosso solo
já foi parar em siderúrgicas
japonesas e agora, segue rumo às
chinesas. Expandimos demais. E
como a gente compreende muito bem
a troca entre o mundo material e o
mundo espiritual, a gente exporta
matéria e importa espírito.
Espírito de porco, como diria
minha falecida mãe.
Mas, o motivo de eu expressar
minha angústia com essa situação
continuada dos Tupinambá é o
silêncio em que vejo caírem seus
distantes e isolados lamentos e
sofrimentos. É sempre assim...
algumas campanhas emplacam...
Raposa Serra do Sol, Guarani
Kaiowá, Belo Monte... mas enquanto
isso, o cerco vai se fechando,
territórios vão sendo tomados e o
Congresso Nacional se prepara para
dar mais um golpe nas leis jamais
cumpridas desse campo também.
Então, vamos ver onde é que
poderiam estar sendo ouvidos esses
clamores dos Tupinambá. Vejo neste
mesmo boletim, informes sobre duas
outras questões indígenas.
Uma delas é do querido Marcos
Terena que nos anuncia o
lançamento de um livro do André
Trigueiro, que ele apresenta como
alguém que tem dado visibilidade
às questões indígenas. Não sei.
Quando escrevi ao André Trigueiro
comentando algo de um livro seu
que li no passado, ele me
respondeu. Quando escrevi
novamente pedindo visibilidade
para a questão de Maraiwatsede na
Globo, ele nem respondeu e anos
depois a Globo lançou uma matéria
em rede nacional informando
grandes mentiras sobre
Maraiwatsede. Escrevi cobrando
correção dos fatos, com cópia para
André Trigueiro, e não recebi
qualquer resposta, novamente. (A
Globo disse que estava
encaminhando a algum departamento
que preferiu nem comentar mais.)
Então, não sei bem quem é André
Trigueiro, nem que interesses ele
representa. Falar em produtos de
linha ecológica está na moda e o
nicho de mercado é grande. Sei que
deve ser um grande prestígio para
ele ter Marcos Terena entre os
autores de seu livro.
Mas, aí, o Marcos Terena nos
remete à Karioka, evento que
ocorrerá durante o Rio+20 e vejo
em seguida um apelo da ABIB -
Articulação dos Povos Indígenas do
Brasil - em outro texto postado
nesta rede no boletim de hoje, que
afirma o seguinte:
ressalvando o
respeito aos
nossos irmãos e irmãs que ali
comparecerão, não reconhecemos
que a Karioca II
seja o espaço de discussão da
agenda global da Rio + 20 e de
outras questões
que nos afetam enquanto povos,
pois trata-se de uma
iniciativa claramente de
caráter oficial desvinculada
da realidade social e
política, dos problemas
concretos dos nossos povos e
comunidades.
Quinto – Reafirmamos perante
todos os nossos irmãos e
irmãs, os diferentes
órgãos governamentais,
organizações não
governamentais e as mais
diversas
organizações políticas,
sociais e populares do Brasil
e do mundo que o espaço
de discussões da agenda global
e da pauta específica dos
povos e comunidades
indígenas será o Acampamento
Terra Livre (ATL), pelo Bom
Viver e Vida Plena, no
Rio de Janeiro, no contexto da
Cúpula dos Povos e da
Conferência das Nações
Unidas.
E por outro lado, em
outros meios, ouço falas de
membros de outro acampamento, o
Acampamento Revolucionário
Indígena, deslegitimando também
esse Acampamento Terra Livre a
que a ABIB se refere acima.
Então, nesse contexto,
vejo uma certa dificuldade para
que o apelo desesperado do nosso
companheiro Tupinambá, que
denuncia agressões e expulsões
de tupinambás na Bahia, seja
devidamente ouvido e receba a
devida atenção, porque
naturalmente, todas essas
divergências internas de um
movimento já por sua vez
bastante monitorado, passam a
ser mais relevantes do que a
luta em si. E isso, eu digo por
experiência própria. É tudo tão
tortuoso e confuso que eu até
agora não consigo saber como é
que os diferentes militantes e
representantes fazem para
conseguir se orientar em meio à
neblina.
Veja bem... quando eu
falo por exemplo em monitoria
desses movimentos, eu me refiro
a monitoria por meio de
instrumentos governamentais e
não governamentais com pernas no
governo. Então, não sei onde se
apóiam esses que querem
independência em relação a
políticas federais. Se vc fala
tanto em partidos quanto em
ONGs, vc fala em financiamentos
de empresas. E muitas vezes as
mesmas empresas que estão também
por trás de governos... Se vc
fala em ONGs, vc fala muitas
vezes também em financiamento
governamental. Se vc fala em
ONGs, atualmente, vc fala em
governo porque elas estão dentro
do governo também,
principalmente na questão
indígena.
E quando vejo algumas
lideranças pretenderem se opor a
isso com um discurso de
autonomia, vejo que o fazem sem
compreender o que seja
autonomia, recorrendo de forma
bastante dependente, novamente
aos mesmos apoios, cuja atenção
eles disputam entre si, assim
como os atenciosos disputam
entre si campos aos quais dar
atenção... enquanto outros
campos, tais como os Tupinambá,
continuam às moscas. De vez em
quando, algum profissional, de
forma altruísta e
individualizada, resolve se
dedicar a alguma causa indígena,
prestando um serviço de ponte de
compreensão entre um sistema
burocrático do qual se pretende
arrancar algum direito, nem que
não sejam todos os previstos em
lei, mas pelo menos um prêmio de
consolo após uma vida de lutas e
perdas, e a vida cotidiana e
iletrada de uma aldeia indígena.
Não existe algo em fluxo
para articulação de movimentos
indígenas, tenham eles moldes de
organização burocrática
institucional para lidar com o
Estado, ou tenham eles moldes
próprios e mais eficazes. Um
cidadão indígena não tem muito a
quem recorrer, embora tenha
hábito de recorrer mais a
poderes públicos do que seus
irmãos que passaram mais ou
menos recentemente da condição
indígena para a condição
indigente ou favelada. E apesar
de índio ser considerado meio
que fora, fora até do direito a
direitos, ele certamente entende
melhor como funciona o Estado de
Direito do que muitos que são
obrigados a sentar num banco
escolar para obter uma bolsa
família e desaprender isso.
Mas, aos nossos
companheiros Tupinambás, fica a
minha solidariedade, que não
posso expressar de maneira mais
do que pelos símbolos com que um
deles nos comunicou seu
desespero, porque realmente nos
faltam outros meios, além de
ficar nesse constante denunciar.
Mas, se nossa presidente diz que
não pode controlar falhas em
outras instituições de outras
instâncias de governo, sejam
elas municipais ou estaduais,
sejam elas judiciais etc. No
que eu também concordo com
ela... aliás, o que nós temos de
melhor na política
indigenista, apesar dos pesares,
é o governo federal, que estamos
bombardeando de críticas,
enquanto poupamos ou nos
omitimos sobre os poderes que
realmente estão atirando para
matar. E quando falo de política
indigenista me refiro a política
governamental... entranhada de
políticas não governamentais
nacionais e internacionais...
Mas, claro, sempre a gente pode
continuar atacando o governo
federal, omitindo os ruralistas,
os poderes locais, como esses
que agridem os Tupinambá da
Bahia ou matam cacique de uma
aldeia acampada na beira de uma
estrada no Mato Grosso do Sul...
e nossa impunidade realmente tem
dimensões continentais... e
tantos outros, e quando
finalmente o governo federal
estiver inteiramente
desmoralizado nessa questão, os
ruralistas aprovam todas as
alterações que quiserem no
Congresso.
Mas, se Dilma aponta
como caminho institucional, a
denúncia desses desmandos ao
sistema judiciário... o que é
que se pode fazer
institucionalmente? Isso.
Denunciar. Institucionalmente.
Para que depois de dezenove anos
se resolva arquivar a denúncia,
como aconteceu com a denúncia do
assassinato a queima roupa de
líder sem terra amarrado no
chão, no Paraná, por presidente
de entidade dos ruralistas que
está por aí até hoje, sendo
ouvido em seus direitos
democráticos.
Eu conheço esse caminho.
Esse, dito institucional. Esse
de denúncias, com todas as
provas. É um caminho de papéis e
interlocuções com autoridades
que costuma levar vinte anos até
chegar no arquivo. É bom para
fazer algumas carreiras
políticas decolarem. E ai, tem
a vantagem de que os
quilombolas, os índios e todos
os setores desfavorecidos
historicamente vão se sentir
representados. Um membro da
própria comunidade vai poder
explicar a todos direitinho
porque aquele direitinho que
eles queriam ver atendido teve
que ser adiado por mais dois
séculos. É bom. Capilarização
da democracia participativa.
Enquanto a sexta economia do
mundo não cresceu o suficiente
para dividir suas terras,
conforme previsto no seu
estatuto máximo em vias de
transformação modernizante, a
gente senta para participar nas
reuniões em que nos explicam
quantos por cento de juros vão
ter que ser baixados para que os
investimentos sejam estimulados
para que se gere mais renda
taxável para que mais dez mil
famílias de sem terras acampados
em beira de estradas ao lado de
Tupinambás e Kaiowás recebam
bolsa família. Enquanto isso,
com o novo programa de Bolsa
Família, as criancinhas deles
podem ir para a escola comer
merenda, porque ali na poeira da
estrada não dá comida e a terra
continua sendo do gado e do
trator importado do dono da
terra, aquele que expulsou com
título falso todo mundo que
estava naquela terra. Lá, nessa
escola, à qual eles têm direito,
desde que a professora tenha
sido contratada no começo do
ano, eles vão aprender o que é
um Estado de Direito e o que é
um operário padrão. E se mesmo
com bolsa segura na escola, eles
decidirem que não entenderam
nada daquilo tudo que estão
papagaiando ali na frente dele
quando ele aprende muito mais
com o Zorra Total. vão saber
porque eles são burros demais e
indisciplinados demais para
conseguirem evoluir para o
estágio de um operário padrão e
obter direitos de um Estado de
Direito à terra dos outros
comprados no cartório público de
registro de terras mais próximo.
Mas, quem sabe colocando esse
aluno na escola o dia todo,
desde a mais tenra infãncia, ele
muda de caráter.... Eu também
acho que a educação é a
prioridade. Isso, aliás, é
unânime. O problema do Brasil é
mesmo o seu povo ignorante.
Consenso. Bom mesmo é a Rede
Globo.
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