As Consequências da Domesticação e do Sedentarismo
Por Emily A. Schultz e Robert H. Lavenda
O sedentarismo e a domesticação, separados e juntos, transformaram a vida humana em proporções que ainda nos afetam atualmente.
"Nossa terra"
Sedentarismo e domesticação não representam apenas uma mudança tecnológica, mas uma mudança do modo de ver o mundo. A terra não é mais um bem livre, disponível para qualquer um, com recursos espalhados aleatoriamente pela paisagem; A terra foi transformada em territórios particulares, sendo possuída coletiva ou individual, onde as pessoas cultivaram cereais e animais. Portanto, o sedentarismo juntamente com um alto nível de extração de recursos (seja pela coleta ou pela agricultura) leva os conceitos de propriedades que por sua vez eram raros em sociedades coletoras nômades. Cavernas, habitações permanentes, equipamentos de processamento de grãos, assim como as plantações e o gado, conectou pessoas a lugares. O impacto humano no ambiente foi grande e ainda mais obvio depois do sedentarismo e do surgimento da agricultura; as pessoas transformaram o ambiente da maneira mais dramática possível - construindo plataformas ou muros para se proteger de inundações.
Fertilidade, sedentarismo e dieta
Um dos efeitos mais dramáticos do sedentarismo foi a mudança na fertilidade feminina e o aumento populacional. Um numero de diferentes efeitos, juntos, estimulou o crescimento populacional.
O Espaço de tempo entre duas gestações
Entre os coletores-caçadores atuais, a gestação de uma mulher tende a ter um espaço de três a quatro anos, devido ao extenso período de amamentação , característico destas sociedades. Extenso período de gestação não significa que a criança deixa de amamentar aos três ou quatro anos de idade, significa que as crianças amamentam sempre quando tem vontade, frequentemente muitas vezes durante uma hora (Shostak 1981,67). Esta amamentação estimula a produção de um hormônio que anula a ovulação (Henry 1989, 41)
Henry coloca que "O significado de adaptação de tal mecanismo é obvio num contexto de coleta e mobilidade. Uma única criança, que deve ser carregada por alguns 3 ou 4 anos, cria uma pesada responsabilidade para a mãe, uma secunda ou terceira criança num intervalo de tempo poderia criar um difícil problema para ela e também colocar a sua saúde em risco.”
Existem muitas razões para que a amamentação continue por durante três ou quatro anos em sociedades de coletores e caçadores. A sua dieta é rica em proteína, e baixa em carboidratos, e são poucos os alimentos de fácil digestão para crianças de pouca idade. De fato, Marjorie Shostak observa que entre o povo JU/´hoansi (!Kung), um povo de coletores-caçadores contemporâneos que habitam o deserto de Kalahari, o alimento de vegetação rasteira geralmente é rude e de difícil digestão: "para sobreviver com este alimento a criança deve ter mais de dois anos - preferencialmente com mais idade" (1981, 66). Por ter que amamentar sua criança exclusivamente por seis meses, uma mãe não precisa ter que procurar alimento para a criança como algo a mais em sua rotina comum. Entre os Ju/´hoansi, para crianças acima dos seis meses são dadas alimentos sólidos em forma de comida pré-mastigada ou amassada, um suplemento que inicia a transição aos alimentos sólidos.
A distancia de tempo entre o nascimento de crianças nas sociedades de coletores-caçadores serve para manter mulher um equilíbrio de energia a longo prazo durante seus anos reprodutivos. Em muitas sociedades coletoras-caçadoras, adicionando as necessidades calóricas da amamentação às necessidades físicas da mobilidade, e os cuidados da coleta de alimentos num contexto de uma dieta rica em proteína e pobre em carboidratos podem manter o nível de energia da mãe baixo. Onde as circunstancias nutricionais possuem barreiras, o período de gestação e a amamentação podem constituir uma rede de gasto de energia, resultando numa nítida queda na fertilidade. Em tais circunstancias, irá levar um longo tempo para que a mulher recupere suas condições de fertilidade. Desta forma, o período em que a mulher esteja grávida ou amamentando frequentemente é essencial para construir seu equilíbrio energético para futuros nascimentos.
Mudanças no índice de fertilidade
Em adição aos efeitos da amamentação, Ellison observou, que a idade, condição nutricional, equilíbrio energético, dieta, e exercícios afetam a fertilidade feminina de uma maneira gradual.
Ou seja, exercícios intensos podem levar a perda do ciclo menstrual (amenorréia), porem, menos exercícios intensos pode estimular a fertilidade de maneira significativa.
Estudos recentes em mulheres norte americanas que praticam elevadas quantidade de exercícios pesados (corredoras de longas distancias e jovens bailarinas, por exemplo) demonstram vários reflexos na gestação.
Este dado é relevante para a transição ao sedentarismo, porque os níveis de atividades das mulheres estudadas se aproximam aos níveis de atividades das mulheres em sociedades coletoras-caçadores modernas.
Foram observados dois diferentes tipos de efeitos na fertilidade. Jovens dançarinas de ballet estudadas por Warren (citado em Henry 1989) tiveram sua primeira menstruação em media aos 15 anos, bem mais tarde do que um grupo controle de jovens garotas que não praticavam dança, cuja primeira menstruação ocorreu próximo aos 12 anos. Altos índices de exercícios também parecem afetar o sistema endócrino, reduzindo o tempo durante o qual a mulher fica fértil em até um terço.
Somando os efeitos da vida primitiva na fertilidade feminina, Henry observa:
"Pode parecer então que um numero de fatores inter-relacionados associados com a estratégia de mobilidade das sociedades coletoras são plausíveis em fornecer um controle natural da fertilidade e possivelmente explica a pouca população humana do paleolítico. Em sociedades coletoras nômades, mulheres são passiveis de experimentar longos intervalos de amamentação assim como altos níveis de consumo de energia associado com as atividades de subsistência e mudanças periódicas de acampamento. Adicionalmente , suas dietas, sendo relativamente ricas em proteínas, pode ter contribuído para manter os baixos níveis de gordura, deste modo diminuindo significativamente a fertilidade." (1989, 43)
Com uma coleta cada vez mais complexa e o aumento do sedentarismo, estes freios da fecundidade feminina podem ter sido anulados. A duração do período de amamentação pode ter decaído, assim como o consumo de energia na mulher (uma mulher Ju/´hoansi , por exemplo, anda cerca de 1,500 milhas por ano, carregando equipamentos, alimento coletado, e sua criança pequena). Isto não quer dizer que a vida sedentária seja fisicamente "fácil". A Agricultura requer seu próprio trabalho pesado, ambos do homem e da mulher. A diferença parece ser no tipo de atividade física envolvida. Andar longas distancias, carregar lenha e crianças foi substituído por semear, cavar terra, ceifar, armazenar, e processar os grãos. Uma dieta crescentemente rica em cereais pode ter mudado significativamente a relação entre a proteína e o carboidrato na dieta. Isto mudaria o os níveis de prolactina, aumentando os níveis de energia, levando a um crescimento mais rápido das jovens e a primeira menstruação aparecendo cada vez mais cedo.
A disponibilidade de cereais moídos, pode ter permitido as mães alimentarem suas crianças com um alimento mais macio, mingau rico em carboidrato. A análise de matéria fecal infantil recuperada do sítio arqueológico Wadi Kubbaniya no Egito parece demonstrar que uma prática similar estava em uso ao longo do Nilo, com cultivo de raízes em uma localidade que pode ter sido funcional o ano todo, há 19000 anos (Hillman 1989, 230). A influencia dos cereais na fertilidade foi observado pelo antropólogo Richard Lee nos assentamentos de povos Ju/hoansi , que recentemente começaram a comer cereais e experimentaram um marcante aumento na fertilidade. Renee Pennington (1992) notou que o aumento do sucesso reprodutivo entre os Ju/´hoansi parece estar relacionado com a redução dos índices da mortalidade infantil.
O declínio da qualidade da dieta
Os ocidentais tem visto a agricultura como um avanço evolucionário em relação à coleta, um sinal do progresso humano. Simplesmente, de qualquer modo, os primeiros agricultores não se alimentavam tão bem quanto os coletores. Jared diamond escreveu:
"Enquanto os fazendeiros se concentram em colheitas de alto teor de carboidratos como o arroz e batatas, a mistura de plantas e animais selvagens das dietas dos sobreviventes caçadores-coletores oferecem mais proteína e um melhor equilíbrio de outros nutrientes. Em um estudo, a ingestão média diária de alimento do bosquímano (durante um mês, quando a comida era abundante) era de 2.140 calorias e 93 gramas de proteína, consideravelmente maior que a ração diária recomendada para as pessoas de seu porte. É quase inconcebível que os bosquímanos, que comem 75 ou mais plantas silvestres, possam morrer de fome da mesma maneira que centenas de milhares de fazendeiros irlandeses e suas famílias morreram durante a escassez de batata da década de 1840."
Evidências de ossadas sustentam a hipótese. Esqueletos da Grécia e da Turquia no fim do período paleolítico indicam uma altura média de 1,75 m para os homens e 1,65 m para as mulheres. Com a adoção da agricultura, a altura média declinou acentuadamente; há cerca de 5000 anos, o homem médio tinha aproximadamente 1,60 m de altura, a mulher média, 1,52 m. Até os gregos e turcos modernos não são, em média, tão altos quanto as pessoas do fim do Paleolítico da mesma região.
O aumento da incerteza
No curto prazo, a agricultura foi provavelmente desenvolvida no antigo sudoeste da Ásia, e talvez em outras partes, para aumentar os suprimentos de comida para sustentar uma população crescente em uma época de sérios problemas com recursos. Com o passar do tempo, contudo, conforme a dependência de cultivos sofisticados aumentou, também aumento a incerteza geral do sistema de suprimento de comida. Por quê?
Proporção de plantas domesticadas na dieta
Existem muitas razões do porque que os primeiros agricultores dependiam cada vez mais de plantas cultivadas. Devido a agro-ecologia ter criado um ambiente favorável às plantas, possibilitava o agricultor cultivar terras anteriormente não utilizáveis. Quando necessidades vitais coma água podiam ser levados para as terras entre os rios tigre e Eufrates na mesopotâmia, a terra no qual o trigo e cevada não eram nativos, poderiam sustentar grandes extensões de grãos domesticados. Plantas domesticadas, também forneciam mais e maiores partes e eram fácil de colher, processar e digerir. Existem evidencias de que também possuíam um melhor sabor. Finalmente, o grande lucro das plantas domesticadas por unidade em terra também levou a uma grande proporção de plantas cultivadas na dieta, mesmo quando plantas selvagens ainda eram comidas e eram tão abundante quanto antes.
Relação com um numero pequeno de plantas
A relação com um numero cada vez menor de plantas aumenta muito mais o risco de que a plantação falhe. De acordo com Richard Lee, os Ju/'hoansi, que vivem no deserto do kalahari, usavam mais de 100 variedades de plantas, 14 frutas e castanhas, 15 bacíferas, 18 espécies de gomas comestíveis, 41 raízes e bulbos comestíveis, e 17 folhagens, feijões , melões, e outros alimentos; 1992b, 48). Em contraste, os agricultores modernos se dedicam em não mais que 20 plantas, e das quais 3 - trigo, milho, e arroz - alimenta a ampla maioria da população mundial. Historicamente, eram apenas um ou duas safras de grãos que eram de grande importância para um grupo de pessoas. Uma diminuição desta safra teria efeitos catastróficos na população.
Reprodução seletiva , monocultura e variedade genética
A reprodução seletiva de qualquer espécie de planta diminui a diversificação de suas informações genéticas, eliminando variedades com resistência natural a pestes sazonais, doenças e ameaçando suas chances de sobrevivência a longo tempo, aumentando os riscos de perdas severas em tempos de seca.
Novamente, quanto mais um povo depende de espécies de plantas particulares, mais riscos surgem no futuro. Monocultura é a pratica de cultivar apenas uma espécie de planta numa área, apesar de um crescimento de ganhos em eficiência a curto prazo, a monocultura expõem um campo inteiro a destruição por doenças ou pragas. A conseqüência seria a fome.
O Aumento da dependência de plantas
Com as plantas cultivadas exercendo um papel cada vez maior na dieta, as pessoas começaram a depender das plantas e as plantas por outro lado começaram a depender das pessoas - ou do ambiente criado pelas pessoas. Mas as pessoas não podem controlar completamente tal ambiente. Chuvas de granizo, enchentes, seca, infestações, geadas, calor, ervas daninhas, erosões, e outros fatores poderiam destruir ou afetar significativamente a safra, ainda que se disponha do controle externo humano. O risco de fracasso e fome crescem.
Aumento das Doenças
Conectado com a evolução da domesticação das plantas está o aumento das doenças, especialmente das variedades epidêmicas, pelo qual existem muitas razões. Primeiro, devido ao sedentarismo, os dejetos humanos eram depositados próximos às áreas de convivência. Um crescente numero de pessoas começaram a morar próximos uns dos outros em assentamentos relativamente permanentes, a disposição dos dejetos humanos se tornou cada vez mais problemático: grande quantidade de material fecal tem potencial para transmitir doenças, e os dejetos de animais e plantas te potencial de alimentar pestes, das quais muitas são vetores de doenças.
Segundo, um grande numero de pessoas morando próximos uns aos outros servem como deposito de doenças. Uma vez que a população seja grande o suficiente, a probabilidade de transmissão de doenças aumenta. No tempo em que uma pessoa se recupera de uma doença, uma outra entra num estagio infeccioso , podendo então re-infectar a primeira. Consequentemente a doença nunca deixa a população. A rapidez com que as crianças espalham resfriados, gripes, e piolhos ilustram como populações aglomeradas e os germes interagem.
Terceiro, povos assentados não podem fugir das doenças; em contraste, se alguém num bando de coletores adoece, os outros podem se distanciar, reduzindo a probabilidade da doença se espalhar. Quarto, a dieta agricultora pode ter reduzido a resistência a doenças. O Crescimento na população humana fornece uma grande oportunidade para que germes parasitem humanos. Se fato, existem evidencias de que o desmatamento para a pratica agricultura na áfrica sub-saariana criou um excelente ambiente para os mosquitos transmissores de malaria.
Degradação ambiental
Com o desenvolvimento da agricultura, humanos começaram a intervir mas ativamente no ambiente.
Desmatamento, perdas de solo, assoreamento e perda de nutrientes, e a extinção de diversas espécies nativas seguiu a domesticação. No baixo vale do Rio Tigre e Eufrates, as águas para irrigação usadas pelos primeiros agricultores carregaram autos níveis de sal, contaminando o solo e o tornando inutilizável nos dias de hoje.
Aumento do Trabalho.
Cultivar plantas e animais domésticos requer muito mais trabalho do que a coleta e a caça. As pessoas precisam limpar a terra, plantar as sementes, moldar as plantas jovens, protege-las dos predadores, ceifar, processar as sementes, armazena-las, e selecionar as sementes para as próximas plantações; similarmente, as pessoas precisam proteger os animais domesticados, selecionar os indivíduos, tosquiar, alimenta-los, é um continuo trabalho.
Tradução: Erva Daninha - iniciativa anti-civilização
Ótima tradução. Este texto foi muito instrutivo. Fazia um tempo que eu
não via um texto tão bom. Resolveu uma velha dúvida minha quanto ao
controle de natalidade e crescimento populacional. Gostaria de ver um
texto nesta linha que resolva minha dúvida sobre o "aumento da
expectativa de vida", um dos argumentos mais comuns a favor da
civilização.
Janos