Fiquei curioso em saber qual foi o argumento seu amigo.
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"Crer em Deus não resolve problema algum, pelo contrário, é aí que os problemas começam. Pois não crer é que resolve muitas coisas de maneira definitiva, pois pelo menos sabemos com que estamos lidando. As coisas ficam mais fáceis de se compreender assim, e indubitavelmente isso gerará satisfação e mais felicidade."
| Mas caro amigo Janos, como você consegue ver no cristianismo algo que não seja um profundo humanismo... O Deus cristão é, a meu ver, uma projeção do que o homem é, ou principalmente, do que gostaria de ser. Entendo até que se pode pensar em Deus, mas o cristianismo não parece nem muito conciliável com o que se propõe aqui no grupo. Esses dias eu estava lembrando de ti e pensando: um cara como o Janos, como pode estar "encantado" com a Bíblia! Desculpe amigo, mas não consigo muito conceber ainda isso. Janos, até entendo que você ache isso bem pessoal, mas você acha que consegue desvincular sua fé das discussões que trava aqui. Há um que discute aqui e outro que acredita em Deus e que tem fé e que pode estar à parte destas discussões. Dizem no popular que política, religião e futebol não se discutem. Primeiro: política se discute sim, não discúti-la, critícá-la ou mesmo justificar o porquê de estar à margem da política partidária é fugir de encarar o fato de que, queira ou não, ainda está de alguma forma vinculado ao que entendemos por grupos sociais. Na questão de religião e futebol, há tanto sentimento e paixão envolvidos que acaba por inviabilizar a discussão saudável. É por algo assim que há tanta dificuldade de tocar no assunto? Acho que não vais concordar com isso... mas tudo bem, Janos. Confesso que seu caminho me deixa perplexo e também mais pessimista quanto às nossas possibilidades de termos uma vivência mais satisfatória. --- Em dom, 22/11/09, Janos Biro <janosb...@gmail.com> escreveu: |
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Olá a todos, gostaria de dar minha pequena contribuição ao debate. Acho que o ponto de partida do debate deveria ser o da universalidade da religião. No século 19 havia uma esperança vã, baseada no cientificismo, de que a religião era uma ilusão oriunda de épocas primitivas da humanidade. O próprio anvaço do conhecimento seria suficiente para superar este estágio inicial de consciência. O que vemos hoje é algo completamente distinto. Não se tem notícia de nenhuma sociedade humana sem religião. Mesmo as sociedades modernas ocidentais não são totalmente atéias. Eu penso, que a sociedade livre proposta pelos anarquistas incluiria liberdade religiosa e de culto. Acho que em muitos momentos, nós confundimos a luta anticlerical, ou seja, contra a autoridade dos sacerdotes, da instituição religiosa com um combate da religião. Interessante perceber também, que a religiosidade pode ser politizada, como foi o caso desta comparação entre Paulo e Jesus. Na américa latina temos a teologia da libertação, na tradição "anarquista" temos tostoi e gandhi. Talvez uma das contribuições da espiritualidade ao socialismo, seja a clareza de que sem transformação interior não vai adiantar nada destruir as grandes estruturas. Quem fala em socialismo (social), comunismo (comum), apoio mútuo num fundo está falando de partilha, de irmandade. Este é um modo possível de ler esta relação. Eu penso que as tradições religiosas podem e devem ser lidas criticamente, mas penso que é necessário reconhecer nelas mesmas um potencial crítico. Especialmente num pais religioso como o brasil, a politização da religião pode ter uma força mobilizadora que nem imaginamos. Não falo em instrumentalizar a religião, falo de consequências inevitáveis de uma certa vivência religiosa. Penso também que seria necessário sair um pouco da esfera do cristianismo para discutir religião. As sociedades primevas possuiam forma de religiosidades muito imediatas, baseadas na relação de respeito e conexão com a natureza, o cosmo, a totalidade. O xamanismo, o uso de plantas de poder, etc. Esta seria uma questão interessante para um debate anticivilização: quem oferece mais elementos para uma relação livre com a natureza a ciência moderna objetiva ou as práticas religiosas? São questões... abraços, Thiago |
Olá Janos, não sei o que pode estar acontecendo com o link do jornal, porque posso abri-lo. Tenta entrar por este endereço abaixo, que é a página do google onde aparece o endereço que enviei (www.asnegras.net). Se não der certo avisem, porque gostaria muito que o nosso jornal seja lido. http://www.google.com.br/#hl=pt-BR&q=asnegras+soma+oaxaca&meta=&aq=&oq=asnegras+soma+oaxaca&fp=b1d51fe20f36371 Entendo suas ponderações sobre o xamanismo, de fato, é muito difícil, mas não impossível reconstruir a vida das sociedades arcaicas. Uma das estratégias é tentar compreendê-las por analogia com os povos originários atuais. O xamanismo arcaico é inacessível, mas há várias formas de manifestação desta religiosidade. Sugeri este tema para ampliar o debate sobre anarquismo e religião e tentar conectá-lo com a questão do anarco-primitivismo. Acho que o tema anticivilização é amplo, mas permite debates pontuais. As vezes penso que tomar pequenos textos como referência poderia orientar melhor os debates. Vi o histórico do grupo e percebi que isto foi feito algumas vezes. Bom com relação a questão da autoridade colocada pelo Janos na resposta ao Eduardo eu tenho uma reflexão. Antes de entrar nela quero dizer que concordo com o argumento geral de Eduardo sobre as diferenças entre Paulo e Jesus. Um texto muito interessante sobre isso é o livro "Jesus cristo antes do Cristianismo" de Albert Nolan publicado pela Editora Paulus. Ele tentat indicar as transformações da interpretação da mensagem de jesus e marca a importância de paulo na formação do cristinismo. Voltando a questão da autoridade, há dois autores que defendem a possibilidade de diferenciar autoridade de poder: Hans-Georg Gadamer e Hannah Arendt. Nos dois casos, eles apontam para os romanos, que teriam diferenciado poder (potestas) de autoridade (auctoritas). A autoridade não reside na coerção, na força, no uso do poder, mas sim no reconhecimento da superioridade da visão do outro. Um melhor exemplo são os especialistas: quem nós procuramos quando estamos doentes? com certeza não o padeiro, mas o médico. Porque? Porque reconhecemos nele uma autoridade em assuntos de saúde. E mesmo quando questionamos a medicina ocidental, farmacêutica, procuramos outra autoridade alternativa sobre assuntos de saúde. Em geral, a relação com a autoridade implica obediência, mas não imposta. Todos nós obedecemos aos médicos, podendo a todo tempo não seguir as prescrições como muitos fazem. O Gadamer diz que em função desta relação entre autoridade e obediência aos poucos fomos identificando autoridade e autoritarismo, mas na verdade só aplicarmos o poder, ou seja, violência, coerção e força, quando a autoridade falha. O melhor exemplo são os pais numa família patriarcal burguesa. De início, aconselham, explicam indicar na esperança de que sua autoridade moral seja suficiente, quando não dá certo, ou seja, quando a autoridade falha, entra o poder, a ameaça de punições ou a própria punição. Penso que existem várias formas de autoridade que poderíamos individualmente ou coletivamente encarar como legítimas: a autoridade religiosa seria uma delas. Não estou falando de sacerdotes, padres, bispos ou do papa, estou falando daquela autoridade que emana de consciências iluminadas como Gandhi. Como negar que foi através da sua autoridade espiritual que a Índia derrubou o império britânico? Um mestre de capoeira verdadeiro também seria um exemplo de autoridade legítima. Talvez as lideranças seriam outro exemplo Claro, evidente, que em função da sua proximidade com o poder, toda autoridade merece atenção crítica para que não erijeça numa hierarquia fixa, mas que permaneça móvil. É claro que tudo aqui é uma questão de palavras e conceitos e de como definimos esses conceitos. Enquanto anarquistas detestamos a "autoridade", a "obediência", mas para quem quer apreender, por exemplo capoeira, como não obedecer ao mestre, ou seja capoerista muito experiente, quando ele diz: "Olha, este movimento deve ser feito assim e não como você vez antes" Claro que posso desobedecer, mas isso implicaria não apreender. Nesse sentido, ao obedecer nesse contexto estou exercendo minha liberdade ao escolher apreender e ao reconhecer que tem gente que joga muito melhor do que eu e que merece ser ouvida. Imagino que essas distinções gerem um pouco de polêmica, mas esta é a intenção do debate. abraço a todos, Thiago |
Sua mensagem foi bastante pertinente e seu exemplo se encaixou bem no
que eu gostaria de expressar. Para aprender algo, é preciso confiança
na autoridade de outro, isto é, aquele que possui conhecimento maior
que o seu naquela área. Fazemos isso sem pensar quando somos crianças,
e é a própria educação civilizada que nos leva a questionar isso. Não
que não devamos questionar, mas é preciso fazê-lo com muito
discernimento.
Estou completamente de acordo em discussões pontuais, que citem
fontes. Esta é a idéia do grupo. Acho que eu já havia citado Arendt.
Gostei da relação que você fez com Gadamer, que eu comecei a ler
apenas recentemente.
Baixei seu jornal, mas não consegui ler, porque o formato de jornal
atrapalha. Você tem ele num formato menor?
Para que todos se localizem, visitem o site do grupo:
http://groups.google.com/group/civilizacao?pli=1
Vocês verão que nas mensagens, existe um destaque para o tópico "Amor
Líquido". Este representa a primeira proposta de debate temático: a
fragilidade dos laços humanos na vida em civilização. Este tema foi
proposto para discutir um problema fundamental da civilização, que é a
mecanização das relações, e ao mesmo tempo tentar corrigir um problema
sério que acompanhava o grupo: a falta de afeto entre os membros,
indicada pela falta de consideração nas mensagens.
Mas, ao olhar nas páginas, vão ver uma chamada "Verdade". É que antes
de iniciar o debate sobre amor líquido, surgiu um tema que pareceu
mais urgente: a questão dos critérios de verdade. A página é uma
tentativa de resumir o começo da discussão, e acho que essa discussão
gerou bons resultados, chegando a algum acordo. Sobre ela, eu ainda
pretendo terminar uma reflexão sobre o filme "O último samurai".
Acho que poderíamos fechar o tópico sobre a verdade relendo, editando
e finalizando a página "Verdade" com nossas conclusões. Pois ao longo
da discussão acho que chegamos a conclusões que fazem a relação com o
tema do amor líquido: a consideração pelo outro. É claro que a
discussão sobre a mentira ainda vai estar presente. No tópico sobre
verdade, também ficou indicada uma discussão sobre a autoridade,
aquela que se fundamenta na tradição.
Agora que eu consegui ter acesso ao livro Amor Líquido, posso começar
a trazer trechos ou capítulos dele digitalizados para prosseguirmos a
discussão nesse sentido. Eu também indiquei um tema relacionado, o
medo, que também é objeto do Bauman, em medo líquido, e que se
relaciona com a aletofobia, o medo da verdade. Tudo isso acredito
poder nos levar a uma crítica diferenciada da civilização, mas eu
estou pensando em termos de uma discussão muito lenta, que precisa
estar muito bem fundamentada para gerar bons frutos.
O que não exclui, de forma alguma, que as pessoas façam outras coisas
enquanto isso, é claro. E aí surge a discussão sobre religião, por
exemplo. Eu introduzi discussões sobre o humanismo, e estou atualmente
preparando um texto sobre a escola, que entra no foco da discussão
sobre a verdade, as relações, a autoridade e a crítica à civilização.
Fora daqui eu tenho dado aula, estudado e escrito sobre jogos:
http://infoblarg.blogspot.com/
Espero que isso sirva de alguma coisa.
Abraços
Janos