Bauman e a pós-modernidade

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fernando schuck

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Nov 12, 2011, 3:11:38 PM11/12/11
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Gostaria de indicar a vocês no link abaixo uma exposição bastante interessante feita no café filosófico por Luiz Felipe Pondé sobre o pensamento de Zygmunt Bauman e a pós-modernidade. Está dividido em 8 partes, o som está muito baixo, mas vale a pena colocar um fone de ouvido ou nas caixas acústicas, pois a exposição pode proporcionar reflexões interessantes. 

Um abraço a todos,
Fernando

Janos Biro

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Dec 22, 2011, 2:14:00 AM12/22/11
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Olá Fernando,

Estou retomando tópicos que eu não pude responder, e por isso a demora. Eu vi a exposição e achei alguns pontos interessantes sobre a análise da contemporaneidade. Nós já tocamos nesses pontos antes, mas vale a pena comentar:

1. A oposição Eficiência X Moralidade. A ideia é que num mundo competitivo e líquido, não há tempo para fazer reflexões sobre valores morais. É preciso correr para não ficar para trás. Como numa partida de Counter-Strike (ou outro jogo do tipo), se você parar para pensar no que está fazendo você morre. O truque é treinar seus reflexos para reagir o mais automaticamente possível aos estímulos, de modo que um labirinto se torna uma linha reta. Você age primeiro e pensa depois. Para Bauman, o domínio da eficiência é a morte da ética, porque não tem como ser ético sem parar para ponderar o sentido da sua ação. Mas ele não diz que se tornou impossível ser ético. Ele acredita que isso possa ser resgatado, só não acredita no discurso dos comitês de ética, porque neles a "ética" é somente um nome. O que eles fazem não envolve ética, mas sim burocracia ou manutenção da imagem social.

2. O direito de buscar a felicidade, garantida na constituição dos EUA, se tornou um direito universal graças ao domínio da cultura global. A ONU diz que a busca da felicidade é um objetivo humano fundamental, por isso deveria ser fator de elaboração de políticas públicas e medidor de desenvolvimento social (http://www.onu.org.br/politicas-publicas-devem-ser-voltadas-para-felicidade-e-bem-estar/). Mas essa liberdade concedida ao indivíduo para buscar aquilo que ele chama de felicidade trouxe a fragilidade dos laços humanos, porque você nunca sabe quando seu parceiro vai te abandonar para procurar a felicidade em outro lugar. E por mais que queiramos negar, sentimos a necessidade de segurança, de ter com quem contar. Mas a questão principal, conectando com aquela discussão sobre o dinheiro (premissa doze do Jensen), é que talvez seja possível reproduzir o mesmo modelo que temos hoje substituindo o capital dinheiro por capital felicidade ou capital bem-estar. Quando as pessoas perguntam se dinheiro traz felicidade, estão dizendo que o interesse por felicidade é o verdadeiro fator de movimentação da economia. Uma economia da felicidade ou um mercado global baseado num ideal civilizado de bem-estar poderia ser um desenvolvimento do capitalismo, o que, do ponto de vista da crítica à civilização, seria um aprofundamento do problema.

3. Um termo interessante que ele usou para caracterizar a modernidade é o "capitalismo civilizado e sob controle do Estado". Significa que na pós-modernidade o capitalismo se torna incivilizado e sai do controle do Estado. Isso tem implicações para a crítica à civilização, que em grande parte deriva do anarquismo, que por sua vez se pautou numa crítica ao Estado, ao capitalismo, à autoridade e às instituições. Não se trata apenas de um "capitalismo selvagem", no sentido usual de competição sem regras, mas de um capitalismo que assimila elementos da crítica à razão e à autoridade, e critica  não apenas o controle político do Estado sobre a economia, mas o controle de toda e qualquer instituição sobre as escolhas e desejos individuais. Um capitalismo que valoriza aspectos da "comunidade primitiva" e do paradigma das redes, por exemplo.

4. A visão do mundo como um espaço vazio, sem referências. Zerzan também usa essa metáfora, e eu pessoalmente penso que ela é muito boa e precisamos pensar mais nela. Principalmente por causa da seguinte questão: se o mundo está vazio, o que o preenchia antes? Eram ficções úteis criadas pela mente humana, ou eram coisas reais, que foram esvaziadas de sentido de modo que nos tornamos cegos para elas?

5. É uma questão interessante, principalmente para os membros que têm filhos, pensar sobre essa ideia que parece estar se tornando cada vez mais comum, principalmente entre as mães: a ideia de que meu filho não tem o direito de me impedir de buscar minha felicidade. Pelo menos é o que eu percebo no discurso das mães da minha geração. Uma delas disse: "Eu já sacrifiquei muito pelo filho, agora é hora dele se sacrificar por mim também", e outra disse: "Eu tenho que pensar em mim em primeiro lugar para poder pensar no melhor para o meu filho. Não posso negar a mim mesma por ele porque é errado negar-se por alguém, em qualquer situação. O amor que exige abnegação não é saudável, gera neurose". Em grande pare, é para serem convencidas disso que as mães fazem psicanálise. O contexto é um ideal de felicidade que compreende o trabalho como indispensável para a auto-realização, independente da remuneração. O simples trabalho doméstico não é valorizado porque não produz status social, por mais vital que ele seja nessa sociedade. As pessoas sentem que precisam trabalhar fora para ter dignidade e cidadania. E trabalhar fora significa perder grande parte do tempo de convivência com os filhos. Quando se trata de um pai solteiro ou uma mãe solteira, também pode significar que a criança será criada por estranhos, com os quais não pode estabelecer laços de afeto duradouros. Ou por avós, que quase sempre não sabem dizer não aos netos. Assim, ela já começa a ser educada para se conformar a um modo de vida doentio.

6. Se você não está ocupado, então há algo errado com você. Mais do que isso, se você está desocupado, você é uma ameaça a este modo de vida, porque você provavelmente vai começar a pensar criticamente sobre ele. Por isso nossa cultura dá importância à liberdade de circulação de informações, e a internet é uma grande aliada na tarefa de manter as pessoas entretidas 24 horas por dia. Antigamente, quando só havia a televisão, as madrugadas não eram cheias de atividades. Agora as madrugadas são ciberculturais, repletas de discussões filosóficas ou piadinhas inteligentes. Se você está desocupado, você sempre pode entrar no Facebook e checar as atualizações dos outros. Nós não percebemos o que está sendo roubado de nós nesse processo.

7. A melhor maneira de acabar com a autoridade é multiplicá-la. A pulverização da autoridade é um fenômeno interessante. Apresentei um trabalho sobre autoridade líquida num colóquio de biopolítica, mas não gerou nenhum comentário. Quem sabe depois eu compartilhe ele aqui.

8. Para que um valor seja legítimo, não pode ser invenção. Mais do que isso, não pode ser resultado de argumentação e contra-argumentação, o que está pressuposto no diálogo, na negociação, no contrato, no arranjo, na votação e na deliberação. Enfim, valores não podem ser legitimados democraticamente. Porque um sistema de valor depende de autoridade, e como disse Hannah Arendt, onde há argumentos não há autoridade, mas sim desempenho discursivo. O problema é que quase ninguém hoje em dia acredita que possa haver qualquer valor que não seja inventado. Então, rejeitar os valores fictícios seria cair no niilismo. Mas o niilismo é mais coerente do que aceitar que tudo é uma ilusão e ainda assim há ilusões mais aceitáveis que outras.

9. Outro fenômeno pós-moderno é a crítica ao materialismo clássico. A espiritualidade pós-moderna tenta assimilar aspectos da experiência com o sagrado e da transcendência, deificando pessoas e mercadorias, associando conceitos eclesiásticos a estilos de vida urbanos (um exemplo é o uso do termo "sabático"). Isso me lembra a ideia de um romance muito legal do Neil Gaiman, Deuses americanos. Pois um dos veículos dessa crítica ao materialismo, ao meu ver, é o paradigma informacional e computacional.

10. Uma comunidade criada pela escolha livre e individual de um grupo de indivíduos jamais poderá reproduzir o mesmo modo de vida que surgiu nas comunidades que foram criadas sem este tipo de escolha, porque foram criadas antes do homem, e o homem apenas se adaptou a elas. Isso significa o fim de qualquer pretensão de retorno "intencional" ou "racional" ao modo de vida primitivo. Projetos como o bolo'bolo estão fadados ao fracasso por este motivo. Eles partem da suposição de que o homem pode reproduzir por vontade própria o que foi criado sem a sua vontade. E mais, se não negamos o modo de vida civilizado por completo, não podemos suportar a vida em outro modo de vida. Mas a civilização está tão arraigada em nós que negá-la é como negar a nós mesmos.

Agora, eu gostaria de dizer algo sobre o Luiz Felipe Pondé. Acho que ele, como muitos leitores do Bauman, usa o diagnóstico da pós-modernidade como modo de conformar-se a esse processo e justificar suas próprias disposições. O mais fácil a fazer é afirmar que se as coisas são assim e dificilmente irão mudar, então as coisas devem ser assim e não vale a pena tentar mudá-las. Para Pondé, chegamos a este estado por causa do desenvolvimento do pensamento humano, e por isso devemos rejeitar as disposições em contrário, que são ilusões e também são desumanas. Estamos inevitavelmente sozinhos, e devemos encarar isso por pior que seja, porque é a realidade. Mas que realidade? É uma ideia que vem de Nietzsche: a verdade dói. Mas essa posição é insustentável.

Para Pondé, o ser humano é por definição um ser perdido, angustiado e com medo. Para ele a virtude está em simplesmente aceitar esta imagem como sendo a imagem do homem como ele realmente é, o verdadeiro caráter humano. Eu não concordo. Estar perdido não pode ser a condição humana, porque só podemos estar perdidos em relação a algo que não está definitivamente perdido. Algo em relação ao qual é possível não estar perdido. Embora eu concorde com a ideia de que não podemos construir um paraíso na terra, não acho que isso condena permanentemente o ser humano à angústia e ao medo. Estamos condenados, mas não poderíamos entender o significado existencial disso se a ausência de condenação não fosse uma possibilidade real da experiência humana, ainda que isso não dependa exclusivamente do homem ou não possa mais ser plenamente realizado na terra. Só podemos desejar algo que é possível, em termos de possibilidade lógica. Pondé não pode simplesmente rejeitar essa possibilidade sem usar um critério que ele mesmo nega.

O que eu pergunto a quem pensa assim é o seguinte: Se o único motivo para viver é enfrentar os desafios do cotidiano, o que restará quando a idade eliminar essa possibilidade? Quando o cotidiano não mais for maior que você mesmo? Quando os defeitos do corpo superarem a capacidade de agir efetivamente, e por conta própria, em relação aos pequenos desafios do cotidiano? Não espere a velhice para perceber que sua vida é sem sentido.

Abraços

Janos

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Marcus Vinicius Candido

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Dec 22, 2011, 7:05:25 AM12/22/11
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Achei muito relevantes suas colocações e muito bons seus exemplos, Janos. Prima!
 
 
 
Mais uma vez você fecha com algo digno de novos comentários discussão: nossa civilização não tem lugar para os velhos. Os conhecimentos e as vivências muitas vezes fazem parte de um lado da realidade que não importa mais. Como você disse, num mundo líquido, em que os valores e referências estão ameaçadas, a autoridade e a admiração anteriormente destinadas aos anciãos não têm sentido. 
 
Ainda por cima, é comum que necessitem de cuidados especiais ou não sejam capazes de trabalhar (leia-se conseguir emprego) para seu próprio sustento, fazendo com que se sintam um peso morto. Ou são condenados à solidão ou internados em instituições por seus parentes. Por outro lado, em muitas casas no Brasil a aposentadoria do idoso é a única renda fixa da família.
 
 
 
Nas sociedades primitivas, só os mais velhos tinham experiências de antigas soluções para catástrofes reincidentes como grandes secas ou tsunamis. O que fazer? Quais as alternativas alimentares disponíveis? etc. Estas pessoas eram fundamentais para a sobrevivência do grupo num momento de crise.
 
(Além disso, especialmente as mulheres ajudavam no cuidado dos seus netos, aumentando suas próprias chances de deixar descendentes. Em sociedades atuais com modo de vida primitivo, verificou-se que a capacidade de coletar ou preparar alimentos das velhas é em média superior ao das mulheres jovens. Com o avanço da idade, a gestação e o parto se tornam progressivamente mais perigosos. A menopausa é uma especificidade humana que evoluiu nesta conjuntura.)
Marcus Vinícius Cândido
Médico Veterinário CRMV-SC 2237
Especialista em Biologia UFLA
Mestre em Ciências Veterinárias UFPR
Professor Concursado Medicina Veterinária FURB
Membro da Comissão de Animais Silvestres e Exóticos CRMV-SC

fernando schuck

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Dec 22, 2011, 9:09:50 AM12/22/11
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Caro Janos, 
interessantes seus comentários. Li rapidamente, então tenho que reler para comentar algo com mais refletido. E nestes dias demos férias para a babá das crianças (tenho 3 filhos). Estou me preparando para passar roupas, há uma pilha... hehehe.
Eu, pessoalmente, não visualizo muito além de enfrentar os desafios cotidianos, dentro dos muros da minha casa as coisas parecem leves e bacanas, por isso o mundo para além destes muros me choca e invade esta circunstancial tranquilidade. Diante disso, sou levado a um certo pessimismo. Minha casa é um refúgio de sobrevivência enquanto não vejo muitas alternativas... por isso desejo um mundo menos ameaçador que cada vez mais parece uma quimera. 
Vivemos na esperança de saídas para as principais angústias humanas, da qual a velhice, a doença e a morte são as maiores. Esta angústia talvez venha da consciência de que passaremos inevitavelmente por isso e nos perdemos por não sabermos como enfrentar adequadamente esta situação. Filosofias de vida amenizam, mas não curam a ferida do existir. A religião ameniza, mas com "ilusões" de uma salvação futura.
Caro amigo, se tivéssemos uma referência de um momento na história em que não estivemos "perdidos", seria interessante, pois teríamos parâmetros. A diferença é que antes eles estavam perdidos mas pensavam ter achado um caminho por meio de crenças confortadoras e de mitos. Hoje não conseguimos mais um retorno a tal situação, pois sabemos muito mais do que eles souberam. Quando a informação cresce, cresce com ela a dimensão dos problemas.
Você citou Nietzsche, e o Pondé também, como uma referência nestes dilemas da pós-modernidade, realmente Nietzsche visualizou o problemão que isto é, e por isso em vários momentos disse que os mitos faziam falta, pois eles estimulavam o homem a viver e enfrentar seus desafios. O "além do homem" (übermensch), eu vejo como um mito inspirador, ou seja: fruto de um desejo nietzschiano de que houvesse no futuro um homem mais forte para enfrentar os desafios da existência. Mas o próprio Nietzsche parece abandonar isso depois de tê-lo expresso de maneira alegórica no Zaratustra, ele não retoma esta perspectiva em sua filosofia final. Nietzsche é contra o cristianismo não porque considera o cristianismo um mito, mas porque considera que é um mito que não ajuda muito a enfrentar os desafios, levando à passividade e à espera de que Deus enfrente os desafios por nós, vive à espera de um milagre, de uma salvação pós mundana (e a Bíblia está cheia de referências que apontam isto e que descartam um estar bem neste mundo).
Eu ainda vejo a condição humana como trágica, quando nos distraímos disso, somos "felizes". 
Você acha que há uma maneira de resolver a condição humana (não a emancipação do sistema simplesmente, mas a resolução das angústias que vão para além disso) que não passe necessariamente pela religião?
Um abraço,
Fernando



De: Janos Biro <janosb...@gmail.com>
Para: civil...@googlegroups.com
Enviadas: Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2011 5:14
Assunto: Re: [Civilização] Bauman e a pós-modernidade

Janos Biro

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Dec 24, 2011, 1:12:27 AM12/24/11
to civil...@googlegroups.com
Marcus,

Concordo com você, e acho que tem muito a ver com uma conversa que eu tive recentemente com o Felipe Beltrão. Ele me mandou um artigo chamado Ressignificação existencial do pretérito e longevidade humana. Li, gostei e destaquei alguns pontos interessantes:

1. A substituição do ideal de construção do patrimônio familiar pela ideologia do projeto individual e a relação disso com a transformação das famílias numerosas em famílias nucleares. O interessante é que os libertários criticam o modelo familiar que eles chamam de tradicional, e o relacionaram à dominação, quando essa relação é mais complexa do que parece. Há pelo menos dois tipos de dominação disputando domínio nesse processo. Uma se funda na solidez do casamento, na profusão da aquisição de bens, na posição de chefe de família responsável e na grande quantidade de filhos para herdar a herança. Outra se funda no contrário disso, tendo como exemplo o personagem do George Clooney em Amor sem escalas.

2. Há uma contradição entre sentir que sua vida tem sentido por causa de uma contribuição, por meio do seu trabalho, ao avanço desta sociedade, e ao mesmo tempo perceber que o progresso destrói as condições primárias de vida. Sentir que você errou com seu filho mas pelo menos com seu neto você procederá melhor (algo que o Zerzan disse uma vez) gera algum conforto, mas não é suficiente quando vai se estendendo de geração em geração. Não dá para aprender tudo de novo em cada geração. É preciso ter um sentido não apenas para enfrentar tempos difíceis, mas que vá além da sobrevivência da civilização. 

3. A ressignificação do passado é terapêutica, mas se o significado existencial está em último grau na relação com o outro, então o individualismo é uma barreira para isso. Embora alguns autores digam que o individualismo está em decadência na pós-modernidade, podemos entender de outra forma: o individualismo se desenvolveu tanto que invadiu o espaço anteriormente reservado às relações comunais, alterando o sentido delas. Novamente, ressignificar o passado é um conforto, mas é preciso que em algum ponto sejamos capazes de alterar significativamente nossas perspectiva de futuro, isto é, a direção para onde estamos rumando.

4. O futuro é indefinido, ele está continuamente em construção, de modo que o passado não determina definitivamente o futuro. Essa afirmação vai se tornando irrelevante na medida em que envelhecemos. Na juventude pensamos em tudo que ainda vamos fazer. Na velhice pensamos em tudo que fizemos e tendemos a ver a doença e a morte quando olhamos para frente. É preciso criticar o determinismo e afirmar que a história não composta somente de processos inevitáveis. Mas ao mesmo tempo é preciso tomar cuidado para não substituir o determinismo por um indeterminismo igualmente prejudicial, no qual tudo é governado pelo risco, pela sorte e pelo acaso, pois então também não teríamos liberdade de ação. Não sabemos o que vai acontecer, mas não podemos ficar completamente perdidos no escuro, dando tiros a esmo. Deve existir um norte, uma orientação, uma fonte de luz, ainda que fraca e vacilante como a chama de uma vela.

5. Não creio que um conjunto de políticas públicas em relação aos idosos muda muita coisa. Se a mudança não começa nos valores culturais que estão sendo passados desde cedo na educação, pouca coisa irá mudar. O que significa que o problema dos idosos é o problema da educação básica também. Embora seja importante não destruir as crenças que sustentam uma pessoa marcada por um passado complexo, o sistema de crenças começa a ser invadido por crenças letais muito antes de velhice.

Eu conheço uma senhora que deseja morrer porque sua idade tirou aquilo que ela mais valorizava: sua capacidade de se virar sozinha. E fico pensando, com este valor cada vez mais enraizado, como será a velhice da atual geração? Recorrerão à espiritualidade para encontrar algum conforto e sentido na vida, como sugere o artigo Espiritualidade: desejo de eternidade ou sinal de maturidade? É triste que as pessoas precisem chegar a este ponto para então perceber que precisam de algo mais significativo do que aquilo em que acreditavam. Se no final vamos achar que tudo ou quase tudo foi perda de tempo, é melhor revisar sua vida a partir de agora.

Isso também me lembra um post do Felipe: A morte da Intimidade, em que ele cita a frase "Tudo é vaidade", que está presente tanto em Eclesiastes 1:2 quanto na filosofia da Schopenhauer. Aliás, Eça de Queirós fez essa relação num conto chamado, vejam só, Civilização: "E era então que ele se refugiava intensamente na leitura de Schopenhauer e do Eclesiastes. Porquê? Sem dúvida porque ambos esses pessimistas o confirmavam nas conclusões que ele tirava de uma experiência paciente e rigorosa: "que tudo é vaidade ou dor, que quanto mais se sabe, mais se pena, e que ter sido rei de Jerusalém e obtido os gozos todos na vida só leva a maior amargura..."

Alguém me corrija se eu estiver errado, mas parece que para Schopenhauer viver é desejar, e todo desejo é desejo por algo que nos faz falta, e tudo que nos faz falta gera dor. Quando satisfazemos um desejo, ou partimos para outro desejo, ou a vida se torna tediosa e insuportável, vazia e sem sentido. Segue-se daí que viver é sofrer.

A questão não é somente como sair desse labirinto, mas também como não entrar nele.

Abraços

Janos

Janos Biro

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Dec 30, 2011, 3:16:12 PM12/30/11
to civil...@googlegroups.com
Fernando,

É no cotidiano que compreendemos e mudamos nossas crenças. Eu tenho criticado a civilização com uma crítica ao sistema de crenças. Isso tem muitas implicações, mas por algum motivo isso não é muito questionado. Será que é porque porque todo mundo concorda ou porque ninguém refletiu muito bem sobre isso ainda?

O que eu costumo a dizer é que a expectativa de continuar vivendo na civilização é a maior das ilusões. Dentro dos muros da nossa casa as coisas podem parecer estar em paz. Nossa casa nos dá a sensação de que estamos refugiados das ameaças do mundo exterior, mas os processos se movem pelo subterrâneo. Tal como naquela cena do filme Instinto, o que perdemos ao sermos perturbados no nosso espaço privativo é apenas nossa ilusão de segurança. As paredes da nossa casa servem para criar a ilusão de que existe uma separação entre o que está dentro e o que está fora. A paz que experimentamos em casa é mais ilusória do que a paz que desejamos experimentar no mundo, porque a primeira não precisa ser mais do que uma sensação temporária que nos ajuda a aliviar a dor, mas a segunda é indispensável para nossa vida. Não poderíamos chegar a viver se não houvesse possibilidade de viver saudavelmente. A vida não pode ser dor, doença ou sofrimento por si mesma, como não pode ser prazer, saúde ou felicidade em si mesma. A crença de que podemos viver bem no fundo é a crença de que o bem é uma realidade experimental, e não somente uma ilusão. Eu tento fazer as pessoas substituírem a dúvida de que seja possível viver bem pela dúvida de que seja possível continuar vivendo do modo como vivemos, de que seja possível estar bem com isso. Temos que escolher entre vida e civilização, e esta escolha é um processo  longo, difícil e doloroso, que envolve compreender o que cada coisa significa, e mudar de acordo com essa escolha. Mas o que importa não é finalizar o processo, o que importa é iniciá-lo. O que importa é querer caminhar para outra direção e saber que isso é impossível se a estrutura na qual caminhamos se dirige para o lado errado . O resto é consequência.

A questão é: se estivéssemos bem de frente a uma referência de um momento na história em que não estivemos "perdidos", nós a reconheceríamos? Para isso, precisaríamos conhecer o que é estar perdido e o que é não estar perdido, mas parece que estamos perdidos inclusive em relação a essa distinção. Curiosamente, você colocou "perdidos" entre aspas, sugerindo que até isso é difícil definir.

Você me parece estar de algum modo reafirmando a ideia de que não há outra condição humana possível senão estar perdido. Estão não-perdido seria necessariamente uma ilusão. Uma ilusão talvez benéfica, senão inevitável, mantida por crenças confortadoras e mitos. Mas o mistério seria: de onde vem nossa esperança de superar as angústias inevitáveis à vida? Por que não alimentamos a mesma esperança em relação a outras coisas inevitáveis? Caberia perguntar por que a angústia é angustiante, por mais que isso soe estranho. Eu repito que não entendo como podemos estar perdidos se não é possível estar não-perdido, isto é, estar encontrado. Nem tudo que conforta é criado para confortar. Nem tudo que conforta é ilusório. Sofrer é uma possibilidade real porque não sofrer também é uma possibilidade real. A verdade pode doer, mas ela não fere, ela cura. Ao contrário daquilo que dói e fere e daquilo que fere e dá prazer, ela também pode dar prazer e curar. Se a angústia do existir é uma ferida, qual a cura? A existência é necessariamente absurda e doentia como um todo?

Você acredita que sabemos hoje mais sobre a realidade do que sabíamos ontem? O conhecimento esclareceu o que antes estava obscurecido nas crenças e mitos primitivos, de modo que se rasgou gradualmente o véu da ilusão, nos fazendo perder a inocência? Não podemos deixar de ver aquilo para o qual agora nos tornamos conscientes? Não acredito nisso. O século das luzes não apenas iluminou a idade das trevas, mas também ofuscou a visão. O modo como eu vejo é mais ou menos como nesta tira do Quino. Em certo ponto é preciso colocar o próprio método em dúvida. Se você acredita que a ciência ou o conhecimento empírico desvendaram a verdade sobre as crenças e mitos primitivos, coloque isso em questão também. Pode haver algo além daquilo que serve somente para amenizar a dor da existência? Qual a realidade do sentido da vida? 

Você parece ainda usar os termos "crença" e "mito" como opostos à verdade ou à realidade primária. Por um lado, não há como viver sem mito. A ciência não se opõe ao mito, ela instituiu um mito, uma visão de mundo que tem uma aura fascinante, mas que não deixou de ser especulativa, criativa e imaginativa. Por outro lado, eu não concebo como algo pode ser uma necessidade básica sem ser real. Não há como tudo ser ilusão. Se podemos dizer que algo é uma ilusão, é porque conhecemos algo que não é ilusão.

A consciência dos problemas têm crescido não porque nossa consciência se expandiu para compreender melhor o mundo, mas porque ela, em si mesma, se complexificou. A civilização não compreendeu melhor a complexidade do mundo, mas complexificou os processos de percepção, interpretação e conceituação da realidade.

Diferente de Nietzsche, eu não acho que o valor do mito seja estimular o homem a buscar a vida. O mito civilizado talvez comece na ideia de que somos fracos diante dos outros seres, e por isso precisamos da racionalidade para nos fortalecer. Essa ideia de que o mito pode ser bom se nos estimular a buscar a vida pressupõe que buscar a vida seja uma coisa absolutamente correta, por ser absolutamente necessária. Mas que vida? Aqui estou fazendo muitas conexões com o tópico anterior, sobre o Objetivismo de Ayn Rand.

A fé cristã é contrária à passividade de esperar pela ação de Deus porque Cristo já fez o devia ser feito. O milagre da ação salvífica já aconteceu, o caminho para redenção já foi mostrado. Tendo aceito isso, o que é preciso agora é mover-se, e não ficar parado. Eu concordo com a crítica de Nietzsche em vários pontos. Pela via negativa, ele parece ter se aproximado mais da verdade sobre Cristo do que os cristãos da sua época, como alguns costumam a dizer. Negando um conceito arraigado de Deus, ele pode ter feito um favor ao teísmo. Mas no final eu acho que ele se perdeu totalmente, como aliás muitos se perdem, porque estava ausente um elemento primário de sustentação.

Eu também descarto um estar bem nesse mundo, mas isso depende do que significa "estar bem" e "nesse mundo". De certo ponto de vista, a condição humana é realmente trágica. É desesperadora. A felicidade realmente consiste em virar as costas para isso. Mas não precisamos de felicidade para viver, precisamos de esperança, alegria e paz. Isso não é ilusório, porque viver não é ilusório. Me lembra um pouco a discussão sobre a idealização dos povos indígenas. Não podemos dizer que eles estão "bem" nesse "mundo", de acordo com nossos próprios conceitos. Uma visão descomplexificada da vida nos faz enxergar que os problemas que tratamos com incomensuráveis são coisas sem importância. Essa visão não é ilusória, a não ser que o ser humano seja um fruto da ilusão. Se é, significa que essa ilusão estava presente na realidade na qual se formou a condição humana, e nesse caso a ilusão seria um modo da realidade ao invés de uma ausência de realidade.

Não há realmente como "resolver" a condição humana. E a questão não é se temos que passar pela religião para curar a ferida da angústia existencial, porque se ela é existencial, ela sempre vai existir, não está somente impregnada à existência como é inerente à existência, e assim não pode ser uma doença ou uma ferida. A Bíblia diz que a criação como um todo se angustia, e até Deus em certo ponto teria "gemido" ("gemidos inexprimíveis"). O que eu penso é que não há como viver a condição humana sem passar pela negação da religião. Não há vida plena para o ser humano, nem aqui nem em nenhum outro plano de existência. O que há é sentido e viabilidade. A religião existe para ser negada. A negação da religião pode afirmar dialeticamente o verdadeiro sentido da reconciliação entre céu e terra. Toda lágrima será enxugada, mas isso não significa resolver aquilo que chamamos de questões existenciais, e sim parar de chorar por elas, porque existe algo maior pelo que se alegrar, e tudo que realmente precisava ser feito terá sido feito.

Abraços

Janos

Janos Biro

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Jan 25, 2012, 3:33:33 PM1/25/12
to civil...@googlegroups.com
Olá,

Uma entrevista com Zygmunt Bauman que me parece muito interessante: http://www.youtube.com/watch?v=POZcBNo-D4A.

Eu acho que vi um trecho de uma entrevista na televisão, em que o Bauman dizia que hoje em dia as pessoas só sentem que participam efetivamente do mundo se elas estão na internet. Achei muito interessante, mas não achei isso na internet, hehe. Parece que nem tudo está na internet. Aliás, para quem lê em inglês, tem um site interessante sobre isso: http://www.internetisshit.org/.

Abraços

Janos

Renato Corrêa

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Nov 24, 2012, 12:02:56 AM11/24/12
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