Olá Fernando,
Estou retomando tópicos que eu não pude responder, e por isso a demora. Eu vi a exposição e achei alguns pontos interessantes sobre a análise da contemporaneidade. Nós já tocamos nesses pontos antes, mas vale a pena comentar:
1. A oposição Eficiência X Moralidade. A ideia é que num mundo competitivo e líquido, não há tempo para fazer reflexões sobre valores morais. É preciso correr para não ficar para trás. Como numa partida de Counter-Strike (ou outro jogo do tipo), se você parar para pensar no que está fazendo você morre. O truque é treinar seus reflexos para reagir o mais automaticamente possível aos estímulos, de modo que um labirinto se torna uma linha reta. Você age primeiro e pensa depois. Para Bauman, o domínio da eficiência é a morte da ética, porque não tem como ser ético sem parar para ponderar o sentido da sua ação. Mas ele não diz que se tornou impossível ser ético. Ele acredita que isso possa ser resgatado, só não acredita no discurso dos comitês de ética, porque neles a "ética" é somente um nome. O que eles fazem não envolve ética, mas sim burocracia ou manutenção da imagem social.
2. O direito de buscar a felicidade, garantida na constituição dos EUA, se tornou um direito universal graças ao domínio da cultura global. A ONU diz que a busca da felicidade é um objetivo humano fundamental, por isso deveria ser fator de elaboração de políticas públicas e medidor de desenvolvimento social (
http://www.onu.org.br/politicas-publicas-devem-ser-voltadas-para-felicidade-e-bem-estar/). Mas essa liberdade concedida ao indivíduo para buscar aquilo que ele chama de felicidade trouxe a fragilidade dos laços humanos, porque você nunca sabe quando seu parceiro vai te abandonar para procurar a felicidade em outro lugar. E por mais que queiramos negar, sentimos a necessidade de segurança, de ter com quem contar. Mas a questão principal, conectando com aquela discussão sobre o dinheiro (premissa doze do Jensen), é que talvez seja possível reproduzir o mesmo modelo que temos hoje substituindo o capital dinheiro por capital felicidade ou capital bem-estar. Quando as pessoas perguntam se dinheiro traz felicidade, estão dizendo que o interesse por felicidade é o verdadeiro fator de movimentação da economia. Uma economia da felicidade ou um mercado global baseado num ideal civilizado de bem-estar poderia ser um desenvolvimento do capitalismo, o que, do ponto de vista da crítica à civilização, seria um aprofundamento do problema.
3. Um termo interessante que ele usou para caracterizar a modernidade é o "capitalismo civilizado e sob controle do Estado". Significa que na pós-modernidade o capitalismo se torna incivilizado e sai do controle do Estado. Isso tem implicações para a crítica à civilização, que em grande parte deriva do anarquismo, que por sua vez se pautou numa crítica ao Estado, ao capitalismo, à autoridade e às instituições. Não se trata apenas de um "capitalismo selvagem", no sentido usual de competição sem regras, mas de um capitalismo que assimila elementos da crítica à razão e à autoridade, e critica não apenas o controle político do Estado sobre a economia, mas o controle de toda e qualquer instituição sobre as escolhas e desejos individuais. Um capitalismo que valoriza aspectos da "comunidade primitiva" e do paradigma das redes, por exemplo.
4. A visão do mundo como um espaço vazio, sem referências. Zerzan também usa essa metáfora, e eu pessoalmente penso que ela é muito boa e precisamos pensar mais nela. Principalmente por causa da seguinte questão: se o mundo está vazio, o que o preenchia antes? Eram ficções úteis criadas pela mente humana, ou eram coisas reais, que foram esvaziadas de sentido de modo que nos tornamos cegos para elas?
5. É uma questão interessante, principalmente para os membros que têm filhos, pensar sobre essa ideia que parece estar se tornando cada vez mais comum, principalmente entre as mães: a ideia de que meu filho não tem o direito de me impedir de buscar minha felicidade. Pelo menos é o que eu percebo no discurso das mães da minha geração. Uma delas disse: "Eu já sacrifiquei muito pelo filho, agora é hora dele se sacrificar por mim também", e outra disse: "Eu tenho que pensar em mim em primeiro lugar para poder pensar no melhor para o meu filho. Não posso negar a mim mesma por ele porque é errado negar-se por alguém, em qualquer situação. O amor que exige abnegação não é saudável, gera neurose". Em grande pare, é para serem convencidas disso que as mães fazem psicanálise. O contexto é um ideal de felicidade que compreende o trabalho como indispensável para a auto-realização, independente da remuneração. O simples trabalho doméstico não é valorizado porque não produz status social, por mais vital que ele seja nessa sociedade. As pessoas sentem que precisam trabalhar fora para ter dignidade e cidadania. E trabalhar fora significa perder grande parte do tempo de convivência com os filhos. Quando se trata de um pai solteiro ou uma mãe solteira, também pode significar que a criança será criada por estranhos, com os quais não pode estabelecer laços de afeto duradouros. Ou por avós, que quase sempre não sabem dizer não aos netos. Assim, ela já começa a ser educada para se conformar a um modo de vida doentio.
6. Se você não está ocupado, então há algo errado com você. Mais do que isso, se você está desocupado, você é uma ameaça a este modo de vida, porque você provavelmente vai começar a pensar criticamente sobre ele. Por isso nossa cultura dá importância à liberdade de circulação de informações, e a internet é uma grande aliada na tarefa de manter as pessoas entretidas 24 horas por dia. Antigamente, quando só havia a televisão, as madrugadas não eram cheias de atividades. Agora as madrugadas são ciberculturais, repletas de discussões filosóficas ou piadinhas inteligentes. Se você está desocupado, você sempre pode entrar no Facebook e checar as atualizações dos outros. Nós não percebemos o que está sendo roubado de nós nesse processo.
7. A melhor maneira de acabar com a autoridade é multiplicá-la. A pulverização da autoridade é um fenômeno interessante. Apresentei um trabalho sobre autoridade líquida num colóquio de biopolítica, mas não gerou nenhum comentário. Quem sabe depois eu compartilhe ele aqui.
8. Para que um valor seja legítimo, não pode ser invenção. Mais do que isso, não pode ser resultado de argumentação e contra-argumentação, o que está pressuposto no diálogo, na negociação, no contrato, no arranjo, na votação e na deliberação. Enfim, valores não podem ser legitimados democraticamente. Porque um sistema de valor depende de autoridade, e como disse Hannah Arendt, onde há argumentos não há autoridade, mas sim desempenho discursivo. O problema é que quase ninguém hoje em dia acredita que possa haver qualquer valor que não seja inventado. Então, rejeitar os valores fictícios seria cair no niilismo. Mas o niilismo é mais coerente do que aceitar que tudo é uma ilusão e ainda assim há ilusões mais aceitáveis que outras.
9. Outro fenômeno pós-moderno é a crítica ao materialismo clássico. A espiritualidade pós-moderna tenta assimilar aspectos da experiência com o sagrado e da transcendência, deificando pessoas e mercadorias, associando conceitos eclesiásticos a estilos de vida urbanos (um exemplo é o uso do termo "sabático"). Isso me lembra a ideia de um romance muito legal do Neil Gaiman, Deuses americanos. Pois um dos veículos dessa crítica ao materialismo, ao meu ver, é o paradigma informacional e computacional.
10. Uma comunidade criada pela escolha livre e individual de um grupo de indivíduos jamais poderá reproduzir o mesmo modo de vida que surgiu nas comunidades que foram criadas sem este tipo de escolha, porque foram criadas antes do homem, e o homem apenas se adaptou a elas. Isso significa o fim de qualquer pretensão de retorno "intencional" ou "racional" ao modo de vida primitivo. Projetos como o bolo'bolo estão fadados ao fracasso por este motivo. Eles partem da suposição de que o homem pode reproduzir por vontade própria o que foi criado sem a sua vontade. E mais, se não negamos o modo de vida civilizado por completo, não podemos suportar a vida em outro modo de vida. Mas a civilização está tão arraigada em nós que negá-la é como negar a nós mesmos.
Agora, eu gostaria de dizer algo sobre o Luiz Felipe Pondé. Acho que ele, como muitos leitores do Bauman, usa o diagnóstico da pós-modernidade como modo de conformar-se a esse processo e justificar suas próprias disposições. O mais fácil a fazer é afirmar que se as coisas são assim e dificilmente irão mudar, então as coisas devem ser assim e não vale a pena tentar mudá-las. Para Pondé, chegamos a este estado por causa do desenvolvimento do pensamento humano, e por isso devemos rejeitar as disposições em contrário, que são ilusões e também são desumanas. Estamos inevitavelmente sozinhos, e devemos encarar isso por pior que seja, porque é a realidade. Mas que realidade? É uma ideia que vem de Nietzsche: a verdade dói. Mas essa posição é insustentável.
Para Pondé, o ser humano é por definição um ser perdido, angustiado e com medo. Para ele a virtude está em simplesmente aceitar esta imagem como sendo a imagem do homem como ele realmente é, o verdadeiro caráter humano. Eu não concordo. Estar perdido não pode ser a condição humana, porque só podemos estar perdidos em relação a algo que não está definitivamente perdido. Algo em relação ao qual é possível não estar perdido. Embora eu concorde com a ideia de que não podemos construir um paraíso na terra, não acho que isso condena permanentemente o ser humano à angústia e ao medo. Estamos condenados, mas não poderíamos entender o significado existencial disso se a ausência de condenação não fosse uma possibilidade real da experiência humana, ainda que isso não dependa exclusivamente do homem ou não possa mais ser plenamente realizado na terra. Só podemos desejar algo que é possível, em termos de possibilidade lógica. Pondé não pode simplesmente rejeitar essa possibilidade sem usar um critério que ele mesmo nega.
O que eu pergunto a quem pensa assim é o seguinte: Se o único motivo para viver é enfrentar os desafios do cotidiano, o que restará quando a idade eliminar essa possibilidade? Quando o cotidiano não mais for maior que você mesmo? Quando os defeitos do corpo superarem a capacidade de agir efetivamente, e por conta própria, em relação aos pequenos desafios do cotidiano? Não espere a velhice para perceber que sua vida é sem sentido.
Abraços
Janos