De-civilização: O Manifesto Dark Mountain

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Janos Biro

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Feb 19, 2019, 12:24:11 PM2/19/19
to Civilização

https://contraciv.noblogs.org/de-civilizacao-o-manifesto-dark-mountain/

Publicado em 2009 por Paul Kingsnorth and Dougald Hine, este é um manifesto literário e artístico, um chamado para escritores e artistas que queiram produzir sentido à beira do fim da civilização.

Tradução: Buva. Revisão: Contraciv.

Fonte: https://dark-mountain.net/about/manifesto/

Diferente de outras publicações, o que se segue abaixo não é o texto do manifesto, mas uma resenha do mesmo e uma proposta.

Apesar de ser basicamente um movimento literário, o projeto Dark Mountain tem aberto espaço para escrita criativa sobre crítica à civilização há cerca de 10 anos. O manifesto que deu início a esse movimento não tem uma pretensão política, mas dá um papel central à criação de narrativas. Ele apresenta o panorama da crítica eco-anarquista à civilização. O que se segue é um resumo e uma apreciação desse texto.

Os autores do manifesto descrevem um mundo no qual a civilização não é mais uma base sólida e confiável na qual podemos cultivar e preservar nossos valores mais caros. A civilização é extremamente frágil. Viver na cidade é como caminhar sobre um chão de lava que acabou de solidificar. A crosta é rígida, mas quando se racha revela um interior instável. Tudo que é sólido se desfaz no ar[1].

O manifesto procura um espaço criativo para além da ilusão de estabilidade, que torna muitas de nossas atividades possíveis. Ele procura referências para caminhar adiante apesar da civilização e de seu iminente fim, porque compreende que a arte e a literatura nos moldam e nos dão sentido para caminhar.

Embora essa visão pareça ser incompatível com alguns argumentos de teóricos anticivilização como John Zerzan, é importante notar que Zerzan é bastante citado no Dark Mountain, tendo inclusive uma participação no volume 4. Além disso, eco-anarquistas como Jesús Sepúlveda, que é amigo de John Zerzan, não negam a importância da arte na crítica à civilização. Em seu livro Jardim das peculiaridades, Sepúlveda, apesar de resumir a crítica de Zerzan à linguagem, diz mais adiante: “A linguagem cumpre uma dupla função: padroniza e impõe significados, mas também libera. Através da linguagem o sujeito resiste à objetivação que produz a razão instrumental mediante suas práticas padronizadoras”[2]. A arte de-civilizada é inclusive um meio para a crítica à linguagem simbólica.

A civilização é um sistema de crenças insustentável

A base da civilização são suas crenças. O que acontece quando essa crença começa a desmoronar? Em primeiro lugar, se desfaz o muro que nos separa do selvagem. A realidade civilizada começa a “experimentar um influxo do selvagem e do oculto”, na medida em que tomamos contato com a realidade não domada. As reações a esse contato, como a reação do europeu chegando à América, podem ser as mais variadas. Como um mecanismo de defesa, o civilizado busca restabelecer seu controle.

Nós acreditamos que nossas ações não terão consequências. Todos os esforços são focados em evitar o colapso econômico, enquanto o colapso do sistema de crenças civilizacional prossegue, produzindo consequências humanas significativas[3].

O mito do progresso

O moderno mito do progresso é o motor da civilização e herda seu poder de mitos anteriores, como o mito romano da proeza guerreira e o mito cristão da salvação eterna. O mito do progresso é a versão secular de mitos religiosos.

Na medida em que nosso conhecimento sobre a história humana avança e o eurocentrismo dos colonizadores é questionado, o mito do progresso se abala. Esta crise de fé produz instabilidade social e psicológica.  A insanidade civilizacional, outrora canalizada para a produção, não mais se encontra sob controle. O mito nos cegou para algo que começa a ser vislumbrado novamente agora, e este vislumbre é aterrorizante[4].

O mito da natureza

“O mito do progresso é fundado sobre o mito da natureza. O primeiro nos diz que nós somos destinados à grandeza; o segundo que a grandeza não tem um custo”.

O mito civilizacional nos convence de que triunfamos sobre a natureza. Mas quem de fato triunfou, e sobre o que? As evidências de que a civilização deve durar para sempre começam a desvanecer. Alguns sugerem que elas nunca existiram, e que nossa gigantesca crença na civilização foi alimentada por mecanismos parecidos com a crença que os medievais tinham na igreja católica. Evidências antropológicas nos levam a crer que a suposta grandeza da civilização não passa de uma incrível arrogância. Ao invés de superar a natureza, nós nos alienamos dela, e está é a verdadeira origem da crise humana, ecológica e social.

Criamos uma história na qual nós podemos nos isolar da fonte de nossa existência. Essa história nos permitiu avançar independente do custo ambiental, criando uma crise ambiental que ninguém até pouco tempo atrás poderia imaginar que seria possível. As soluções propostas para essa crise são ingênuas: acordos políticos e novas tecnologias que prometem mais do que podem entregar. Criamos uma gigantesca expetativa em torno dessas soluções. “Ainda haverá crescimento; ainda haverá progresso: tudo isso continuará por que isso tem que continuar, então não há nada que isso possa fazer além de continuar. Não há nada para se ver aqui. Tudo ficará bem.”

Nada ficará bem

E será que as coisas deveriam ficar bem? Bem para quem? A que custo? Talvez possamos viver numa bolha autossustentável, totalmente isolada do resto da natureza… Mas essa bolha é, afinal, a própria civilização.

Ela foi construída com base em combustível fóssil, energia barata, que em breve não estará mais disponível. Nós pensamos que basta criar uma nova tecnologia para reverter tudo isso, para impedir o horror que desencadeamos sobre o resto do mundo de atingir nosso castelo de areia. Mas nada pode impedir as consequências de uma violência desse tamanho. O preço irá ser pago em algum momento, e ele não é pequeno.

Nós temos exigido soluções viáveis para preservar o modo de vida no qual nos acomodamos. Esperamos que pequenas mudanças nos nossos hábitos sejam suficientes: reciclagem, alimentação orgânica ou vegetariana, caridade, inclusão social… Tudo isto é ótimo, mas NADA DISSO pode solucionar a crise em que a civilização colocou o mundo e o ser humano. O ecocídio não é algo que políticos e cientistas possam evitar. Por mais difícil que seja acreditar nisso, nós conseguimos de fato colocar o planeta inteiro em risco[5].

Crise axiológica

A modernidade não ocorre sem uma profunda crise axiológica. Enquanto ambientalistas participam de conferências corporativas sobre “sustentabilidade” e “consumo ético”, os valores intrínsecos à civilização, aqueles jamais questionados, aprofundam uma crise que não tem uma solução técnica, econômico ou mesmo ecológica. Os ambientalistas caíram na armadilha da institucionalização.

A propaganda civilizacional nos deixa em estado de negação quanto à realidade da crise. O tamanho do buraco é inimaginável quando se compra a ideologia do progresso, mesmo a versão mais ambientalista dela. As pessoas têm uma enorme dificuldade em ouvir coisas que não se encaixam na visão de mundo delas. Encarar diretamente as coisas que desafiam a nossa compreensão fundamental do mundo pode ser mais doloroso que uma luta física.

Nós negamos o colapso que já está acontecendo. Nosso desafio não é técnico, é axiológico. Nossa sobrevivência não depende de uma ideia criativa para uma nova tecnologia, mas da nossa capacidade de superar séculos de arrogância que nos convenceram que somos superiores. Nossas crenças nos deixam cegos e surdos para aquilo que questiona nossos privilégios.

Nós acreditamos que o futuro é uma versão aperfeiçoada do presente. Como uma vítima de abuso que ainda crê que seu abusador vai melhorar, nós apostamos nossa vida nas mãos de uma cultura que escravizou continentes inteiros e, sem nenhum bom motivo, confiamos que essa cultura vai melhorar.

Como um vício crônico, a força dessa crença nos leva a comportamentos autodestrutivos. Não suportamos a ideia de perder tudo que fizemos. A realidade dura é que nada disso é durável. Um pequeno grupo de privilegiados teve, ao custo das vidas de muitos outros, acesso a coisas realmente incríveis, mas tudo depende de condições que, como podemos ver agora, são temporárias. É um esquema de pirâmide, e está chegando ao fim. Em breve a base estará esgotada demais para manter o topo, e tudo ruirá.

Tudo isso gera depressão, ansiedade e outras condições associadas ao stress. Nós lidamos com isso nos drogando, ou trabalhando muito, ou ajudando pessoas, enfim, nos focando numa atividade. Quando algo ou alguém nos força a olhar para baixo e perceber que não há chão, a reação é negação, raiva, depressão, barganha e, algumas vezes, aceitação.

Mas será que encarar a montanha escura é tão ruim assim quanto nós imaginamos? Será que não há nada de bom que pode ser produzido a partir dessa experiência assustadora?

Criando novas histórias

Saia do seu cubículo e passe um tempo em contato com o mundo que essa civilização negou. Suba numa árvore, ouça o que ela tem a dizer. Entre num rio, ouça o que ele tem a dizer. Deite-se numa pedra, e ouça. Ela tem uma voz também, se tiver paciência de ouvir. O que esses seres estão dizendo? Será que estão sugerindo a colonização de outro planeta? Ou talvez estejam dizendo: “Por onde você andou? Sentimos sua falta”. Você pode pensar na natureza como um demônio que quer te matar, ou pode pensar nela como indiferente. E pode pensar nela de um modo bem mais complexo, como uma casa que nós abandonamos.

Retornar para casa é um exercício de maturidade incrivelmente difícil. Criamos histórias religiosas, seculares, científicas, econômicas e místicas. “Mas todas elas falam da transcendência original da humanidade de seu princípio animal, do nosso domínio crescente sobre a ‘natureza’ a qual nós não pertencemos e do glorioso futuro de abundância e prosperidade que irá chegar quando esse domínio for completo”.

Essa história está nos matando. Cambaleamos perturbados tentando nos convencer que ela faz sentido, como um mentiroso afundado na culpa, temendo e se escondendo da verdade o tempo todo. Com medo de perder o amor que não merece da pessoa que traiu. Inventamos teorias muito elaboradas para justificar nossa crença, mas no fundo sabemos que é tudo tentativa de ganhar tempo. Amanhã eu falo. Por fim, esquecemos que essa história é inventada. Ela foi contada tantas vezes que se tornou verdade para nós.

O mito da civilização se esconde por trás de uma fachada científica e racional. Hoje em dia a escrita se tornou mero entretenimento. “É difícil de imaginar que a palavra de um poeta já foi temida por um rei”. As histórias hoje visam apenas nos distrair. Porém, elas ainda têm o poder de mudar o mundo se forem ‘desdomesticadas’.

As histórias contadas pelos profissionais da civilização são apresentadas como se fossem descrições neutras de como o mundo é. Há muita discussão sobre os detalhes, mas o plano geral encontra aceitação massiva. Todos concordam com a centralidade humana, o controle sobre a “natureza”, o nosso direito de perpetuar o crescimento econômico e a nossa habilidade de transcender todos os limites.

A narrativa civilizatória é o Titanic prestes a afundar. Sem escritores, artistas, poetas, e contadores de histórias, o projeto da civilização é inconcebível. “É hora de retomar o que largamos e renovar as histórias”.

Um chamado artístico

Artistas gostam de quebrar tabus. O último tabu é o mito da civilização. O manifesto faz um chamado para artistas que queiram explorar essa possibilidade, que ele compara a uma montanha escura. Significa que o caminho não é fácil, mas pode ser belo e inspirador. “O ecocídio exige uma resposta”. A de-civilização seria uma resposta artística ao ecocídio. Uma forma de escrita que desafia a própria civilização. “Uma resposta artística ao desmoronamento dos impérios da mente”.

Isso significa sair da bolha, pelo menos criativamente. Somos primatas que construíram um mito de sua própria importância para sustentar seu projeto civilizatório. Tentamos civilizar as florestas; os desertos; as terras selvagens e os mares, e no processo nós erodimos o fio que no liga à teia da vida. Para fortalecer esse fio, é preciso mergulhar no universo não humano, que nos esforçamos para ignorar.

A escrita de-civilizada não é uma escrita ambiental, preservacionista, que ainda é profundamente antropocêntrica. Não é uma escrita sobre a natureza, o que já implicaria numa separação. Não é também uma escrita política, pois não reconhece uma organização política que a represente. A escrita de-civilizada é o questionamento de uma visão de mundo. Alguns autores o fizeram, ao seu próprio modo, mesmo não recebendo nenhum reconhecimento, que é o que se poderia esperar.

Esse redirecionamento da ênfase do homem para o não homem não é nem misantrópica nem pessimista. Essa desumanização é reumanizadora, como olhar para o outro ajuda o egoísta a se reencontrar enquanto ser humano. Não é uma rejeição da humanidade, mas uma ressignificação. Nós tentamos governar o mundo e falhamos miseravelmente. O tempo da civilização já passou. A de-civilização reconhece os erros e procura um caminho adiante que não seja uma negação.

Os princípios do movimento

O movimento de-civilizacional acredita profundamente na beleza dos campos abertos, longe das grandes cidades. E acredita na escrita que vem desses lugares. Mora nesses lugares, e não apenas está de férias nele. Os oito princípios da de-civilização são:

  1. Nós vivemos em uma era de colapso social, econômico e ambiental. Tudo a nossa volta nos indica que a nosso modo de vida já está desaparecendo e entrando para a história. Nós vamos encarar essa realidade honestamente e aprender a conviver com ela.

  2. Nós rejeitamos a fé que prega que as crises convergentes da nossa era podem ser reduzidas a uma série de “problemas” que necessitam de “soluções” técnicas ou políticas.

  3. Nós acreditamos que as raízes das crises estão nas histórias que nós temos contado para nós mesmos. Nós pretendemos desafiar as histórias que sustentam a nossa civilização: o mito do progresso, o mito da centralidade humana e o mito da nossa separação da “natureza”. Esses mitos são mais perigosos pelo fato de nós termos esquecido que eles são mitos.

  4. Nós iremos reafirmar o papel das histórias como algo mais do que mero entretenimento. É através das histórias que nós tecemos a realidade.

  5. Seres humanos não são o objetivo e propósito desse planeta. Nossa arte irá começar com a tentativa de pisar para fora da bolha humana. Através da atenção cuidadosa, nós vamos nos reaproximar no mundo não humano.

  6. Nós vamos celebrar a escrita e a arte que estão enraizadas em uma noção de espaço e tempo. A nossa literatura tem sido dominada por tempo demais por aqueles que habitam as cidadelas cosmopolitas.

  7. Nós não iremos nos perder na elaboração de teorias e ideologias. Nossas palavras são elementares. Nós escrevemos com terra debaixo de nossas unhas.

  8. O fim do mundo como nós conhecemos não é o fim do mundo como um todo. Juntos, nós encontraremos a esperança além da esperança, os caminhos que nos levarão a um mundo desconhecido além de nós.

O projeto Dark Mountain já caminhou bastante desde a publicação do manifesto. 14 volumes bastante densos com colaborações de centenas de autores e artistas do mundo inteiro. Nós tivemos o prazer de traduzir o manifesto deles para português, e queremos aproveitar essa oportunidade para convidar artistas, escritores e criadores anarquistas (ou com afinidade com a anarquia), que criticam a civilização, a se juntar a essa ideia e nos enviar textos, imagens, vídeos, jogos e qualquer outra forma de produção que possa desafiar a lógica da civilização também no campo das artes e da cultura.

Se você gostou dessa ideia, entre em contato pelo e-mail cont...@riseup.net

Notas:

[1] A famosa frase do Manifesto comunista também é usada nesse sentido por Zygmunt Bauman em sua crítica à modernidade líquida. A frase original é: “Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas” (MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto comunista. Boitempo Editorial, 2015).

[2] O texto de Jardim das Peculiaridades, de Jesús Sepúlveda está disponível em PDF e em texto.

[3] Daniel Quinn, autor de Ismael, também se focou no poder das crenças, mitos e histórias tanto para o estabelecimento quanto para a crítica à civilização.

[4] A crítica ao progresso se relaciona também à crítica de-colonial de Aníbal Quijano e Walter Mignolo.

[5] Para uma discussão mais aprofundada, ver: ROTONDARO, Tatiana Gomes et al. Riscos ambientais: realidade virtual ou virtualidade real?. 2002.

De-civilização o manifesto Dark Mountain.pdf
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