Isso seria tema para muita discussão, mas eu tenho aprendido alguma
coisa sobre isto. A sua pergunta é muito boa: "Até onde devemos ir com
a verdade". Isso traz a pergunta sobre quanta verdade nós somos
capazes de suportar. Minha opinião é que esse nível de tolerância da
verdade é diminuído na civilização, sendo uma sociedade baseada na
aparência e na mentira, ela gera uma fobia pela verdade. O que
incomoda o personagem da tirinha, por exemplo, é ser flagrado na
mentira sobre sua aparência, provavelmente destruindo um ideal de
beleza que ele tinha de si mesmo. Ainda que o desenho, tenha ficado em
aparência perfeito, o fato de que a fonte da imagem foram objetos
feios ou comuns causou nele um rebaixamento. Este sentimento de ser
flagrado em sua fragilidade causa raiva. No caso, ele agrediu a
pessoa. Em outros casos, a raiva é disfarçada por uma risada nervosa,
por exemplo. Mas a raiva de ser visto como algo ordinário, ou menos
sublime do que se imagina ser, é comum. Neste sentido a verdade pode
às vezes machucar. Acho que a verdade deve ser dita quando ela tem
efeito benéfico, ainda que cause dor. A mentira que causa alívio ou
evita dor não é boa, quando ela impede a pessoa de aprender, de
compreender ago que precisa ser compreendido. Viver na mentira pode
ser confortável, no sentido de que você pode escapar de dores, mas
pode destruir o sentido de estar vivo. Aqueles que só se importam com
suas sensações, em evitar a dor e buscar o prazer, podem acabar
entrando no esquema da sociedade da mentira, das aparências, da
conveniência. Isso está relacionado com uma baixa tolerância à dor e à
feiúra também.
A mentira nem sempre tem a intenção de poupar. Muitas vezes ela tem a
intenção de destruir, de causar dor, de rebaixar o outro e de elevar
quem conta a mentira. Isto fica armazenado, como uma armadilha pronta
para disparar, e o gatilho é a verdade, é quando a bolha estoura. A
verdade então não é a responsável pela dor, ela apenas libera a dor
que a mentira armazena. A mentira é a fonte da dor, não a verdade. Mas
é preciso ter cuidado, porque estourar todas as bolhas de uma pessoa
pode deixá-la sem chão. Quem conta a verdade a outro deve se dispor a
ajudar o outro a não cair de cara no chão, ou então estará sendo
cúmplice da mentira que afeta aquela pessoa. Neste sentido, a verdade
pode ser usada para destruir, tirar a ilusão sem se preocupar com o
tamanho da queda do outro. Quem se preocupa com o outro deve
administrar a verdade de forma que a pessoa tenha a capacidade de
suportar a queda, seja preparando a pessoa, seja tirando a mentira aos
poucos.
Então minha resposta para "até onde devemos ir com a verdade" é:
depende de cada pessoa, mas devemos nos comprometer com a verdade, e
não com a mentira. Vamos com a verdade onde for suportável, mas
busquemos fortalecer nossa tolerância à verdade, suportar mais
verdades.
Se afastar da sociedade da mentira, ao meu ver, faz parte da oposição
à civilização. às vezes nós mentimos e nem percebemos. Examine a
quantidade de mentiras que você conta o tempo todo, às vezes sem dizer
nada. Veja os motivos de cada mentira, muitas mentiras são para si
mesmo, para se convencer de que você é outra coisa, para se esconder
de si mesmo e dos outros.
Abraços
Janos
Parece tirado de livro de auto-ajuda, mas eu penso que a pior mentira é aquela que contamos para nós mesmos.. E pior ainda é acreditar na mentira, continuar acreditando e defendendo ela com unhas e dentes.
Ontem eu estava pensando sobre como as pessoas preferem não pensar em determinadas coisas, "esquecer", para não se magoar, fingir que está tudo bem quando estão desmoronando por dentro. Eu prefiro pensar, repensar, mastigar, ruminar, botar pra fora. Acabar logo com o que me mata, pois acho que isso é ser mais verdadeira com os meus sentimentos. É mais ou menos o que o Marcelo disse que faz, mas sem ser tão pensado e planejado assim, e com o meu toque pessoal. =]
Pensei também em como as pessoas se afetam ao serem pegas nessa mentira de "se eu não penso, não existe" (mais ou menos o que o Janos escreveu), em como isso perturba. Se alguém já assistiu o filme "I ♥ Huckabees", sabe como os 'detetives existenciais' perturbam. E quem não quer ser pego na sua mentira acaba ficando mais perturbado ainda com o filme, porque se pega na mentira mas não quer admitir.
Pensar no que nos afeta e dizer, gritar que nos afeta é o mais verdadeiro, mas também o mais doloroso, o mais difícil. Mas ser sincero consigo mesmo é um primeiro passo na direção de ser sincero com os outros. Pelo menos é o que eu acho. =]
Acho que ficou meio confuso o que eu escrevi, mas é a minha primeira vez.. hehehe.
Abraços!
Karine Kerr
-- "A esperança que se vê não é esperança. A fé é certeza das coisas que esperamos. É a convicção do que não vemos
Eu comecei a responder, mas parei porque ficou tarde. Aí o Felipe já
respondeu parte do que eu estava escrevendo. Então eu fiquei um bom
tempo pensando, e ainda não tenho nenhuma boa resposta
Mas sua pergunta foi ótima. Sim, nós precisamos de critérios para
nossas afirmações sobre a civilização, não somente para nós mesmos,
mas para comunicar isso a outros.
Bem, em defesa da contextualidade (não do relativismo) eu posso dizer
que, secularmente falando (isto é, excluindo o transcendente), não há
qualquer afirmação que não dependa de um contexto para ser entendida,
conferida e considerada verdadeira ou falsa. O contexto geralmente é
intersubjetivo (não subjetivo), isto é, diferentes sujeitos entram em
acordo prévio sobre o contexto que estão usando. Por exemplo, nós
concordamos com uma série de definições. Quando há discordância na
definição, é preciso estabelecer "o que se quer dizer com isso" para
então poder afirmar se algo é verdadeiro. O relativismo subjetivista é
outra coisa, é considerar contextos subjetivos, próprios de um único
sujeito, e fazer afirmações cuja verdade depende de um contexto
intersubjetivo. Assim, não importa se estamos de acordo um com o
outro, basta que a coisa faça pleno sentido para cada um. Se tornou
extremamente popular falar que "cada um tem sua própria verdade" ou
então "tudo é subjetivo". Eu ouço isso o tempo todo. Mas isso depende
de um contexto que nega a objetividade, e que tenta ser forçado a
todas as pessoas como o único válido. Isto é, ao negar a objetividade,
o relativismo subjetivista de fato se torna um absolutismo.
Uma afirmação não se torna verdadeira só porque eu creio que ela é
verdadeira, mas isso não é motivo para dizer que a verdade não existe
ou que, de maneira inversa e equivalente, tudo que se crê é verdade
porque e enquanto se crê. A afirmação "a terra gira em torno do sol",
só é verdadeira se podemos verificar que realmente há um objeto
chamado terra girando em torno de um objeto chamado sol. Se por "sol"
e "terra" ou "girar" você entender outra coisa, fora do contexto
partilhado, o valor de verdade muda. E se a terra explodir, esta
afirmação deixa de ser verdadeira. Ela está portanto dependente de
condições variáveis. Assim, como fica a afirmação "o sol gira em torno
da terra" quando o conceito de "terra" e "sol" eram diferentes dos de
hoje? Era verdadeira ou falsa? O que vocês acham?
Uma coisa são afirmações sobre aquilo que podemos conferir
empiricamente. Outra coisa são afirmações sobre realidades subjetivas
(as realmente internas ao sujeito), que não podemos conferir
empiricamente. Quando uma pessoa fala de seus próprios pensamentos e
sensações, como confirmar isso? Não temos acesso a esses estados
mentais, há um acesso privilegiado da primeira pessoa (a não ser que
você parta de um ponto de vista behaviorista, ou coisa do tipo). Mas,
para simplificar, existe empatia, isto é, a capacidade de sentir o
mesmo que o outro, por sermos semelhantes e capazes de partilhar
contextos. Há pouca possibilidade de verificar empiricamente os
estados mentais de outra pessoa, mas há possibilidade de conferir o
grau de plausabilidade no relato de terceiros. Por exemplo, quando eu
era pequeno meus pais me diziam coisas que eu não tinha como verificar
se eram verdadeiras, mas considerei verdadeiras por sentir o amor que
eles tinham por mim. Isto pode ser razão suficiente, nem tudo tem que
ser comprovado empiricamente, mas nem tudo pode ser comprovado
subjetivamente.
A subjetivação do critério de verdade é tornar subjetivo um critério
que lida com coisas que não são exatamente subjetivas, mas que
dependem de condições observáveis por terceiros. Questionar isso foi
possível exatamente pela confiança que as pessoas têm na ciência
moderna, usando um discurso científico que nega a objetividade de uma
experiência, e aplicando isso a outras experiências em outros
contextos, fazendo algo como "O segredo" ou "Quem somos nós". Quando
uma pessoa me diz que sente gosto de chocolate ao ouvir música
romântica, ela usa critérios objetivos do que significa "chocolate" ou
"música romântica". A própria pessoa pode colocar em dúvida aquilo que
ela afirma sobre si mesma, as crenças que ela mantém sobre suas
próprias crenças. Pelo processo de reflexão, você pode repensar seus
próprios conceitos, e decidir não mais acreditar em algo que você
acreditava, e descobrir que havia uma "intenção oculta" em crer
naquilo. Outra pessoa pode inclusive te ajudar nisso.
O critério que queremos usar aqui é algo que pode ser conferido, mas
depende de um contexto compartilhado. Como podemos ter um contexto
compartilhado? Qual a relação disso com culturas traditivas ou
autoritativas? Temos muito que conversar sobre isso.
Se eu falo uma coisa e você fala outra, no fim cada um fica com sua
própria idéia, já que todo mundo já possui sua própria verdade, e não
há um motivo real para dialogarmos, não há verdade a ser descoberta.
Adicionar um novo ponto de vista possível, aceitá-lo ou negá-lo,
simplesmente por preferência pessoal, não demonstra nenhuma
compromisso com a verdade. Não há interesse pela verdade aí, só há
interesse pelo que satisfaz "esteticamente" seu esquema conceitual.
Não tenho como resolver todas as questões agora, mas podemos nos
colocar para pensar se isso nos inquieta. Qual o nosso critério? Qual
a base de nossas afirmações? Qual a nossa intenção, nossos
pressupostos e as consequências do que temos dito. Assim, avaliamos
nosso discurso de forma semelhante à que avaliaríamos o discurso de
outra pessoa.
Abraços
Janos
Se voce diz que a verdade é oque voce necessita, entao eu posso pressupor que voce ja sabe oque é a verdade.
Cara é muito facil querer o discernimento.. dizer que apenas crer nao é o suficiente, mas oque eu quis dizer voce nao entendeu.. é justamente que nao tem como sair disso, voce pode ter certeza sua vida inteira de algo, mas i dai? pode ser verdade ou pode nao ser, mas voce estando com averdade ou nao, voce vai ter algum criterio nao vai nao? oque eu quis dizer foi justamente que nao da para cobrar de uma criança que simplesmente tenha discernimento para julgar a verdade doque lhe ensinam, porque isto esta a frente dela, o discernimento vai sofrendo mutaçoes com o tempo, nao tem como simplesmente parar num momento da vida e ter discernimento para julgar todas as verdades do mundo ao mesmo tempo. Ou seja, nós seremos eternas crianças nesse sentido eu acho, a gente nao pode ser os donos da verdade afinal. é como desbravar uma floresta.. voce pode andar sua vida inteira pelo mundo, que voce nao vai descobrir tudo que existe nele.
a discussao nao é sem sentido,se agente pensar assim a gente vai estar sendo intransigente, existem pessoas tao mais iguinorantes, que vivem da forma mais inconciente possivel, tem muita gente vivendo assim, sem ter ciencia de muita coisa que a gente tem. Não concorda meu amigo?
No filme que eu vi, Freud nao sabia simplesmente oque estava na mente da pessoa.. ele usava de fatos conhecidos e precisava de uma investigaçao minunciosa de novos fatos.. no filme, eu tenho a impressao que esse metodo dos psicanalistas de interrogar o paciente, assim como um investigador, surgiu com Freud, estou enganado?
abraços!
> Date: Thu, 13 Aug 2009 20:45:50 -0700
> Subject: [Civilização?] Re: A verdade decepciona as pessoas
> From: janosb...@gmail.com
> To: civil...@googlegroups.com
>
>
Se você está disposto a mudar de idéia, então você mesmo deve avaliar
suas próprias idéias também, e não simplesmente submetê-las para
avaliação de outros. Este é só um conselho.
Realmente, poderíamos ficar anos nessa discussão, porque ela suscita
uma tonelada de reflexões filosóficas. Se for possível evitar isso,
ótimo. Se não for, fazer o que? Uma cadeira é algo concreto, mas o
conceito de cadeira não é. O conceito de verdade não pode ser tornado
em algo concreto, assim como o conceito de cadeira também não pode. O
teclado pode ser reverenciado como um Deus, sim, mas e daí? Parece que
você está se importando mais em como as coisas "podem ser" do que em
como elas realmente são e porque são assim e não de outra forma.
Cada palavra que você usa está sendo assimilada de uma forma padrão
por mim. Se eu entendesse "bola" toda vez que você dissesse "peixe",
ou coisa assim, não haveria diálogo. Não há mente sem reconhecimento
de padrão.
No seu sonho o fogo era real. Se você não tivesse a lembrança da
regularidade do mundo desperto, você provavelmente não duvidaria que
aquilo é real. Mas novamente isso é apenas o que poderia ser. Tudo
poderia ser qualquer coisa, e daí? Seria mera coincidência que quando
estou com sede eu bebo água e você também?
Se não houvesse critério de verdade, então uma pessoa poderia viver
escolhendo com uma moeda, como o duas caras, entre tudo que é verdade
e o que não é. Mas não escolhemos aleatoriamente. Escolhemos algumas
coisas e não outras. A questão é: por que?
Abraços
Janos
Mas sua resposta foi bem em cheio no centro da questão: O interesse. a
mentalidade moderna é que nós só dizemos que algo é verdadeiro porque
nos interessa que aquilo seja verdadeiro. Isto foi uma consequência do
cartesianismo, mas não acho que ninguém esteja interessado em dizer
que o cartesianismo é verdadeiro. Nós cremos nele por outro motivo.
Foi Descartes (cartesianismo é uma referência a ele) que disse que a
mente está sempre a enganar nossos sentidos, e que não podemos confiar
nela. E Platão disse o mesmo antes dele. Então desconfiamos de tudo,
menos de Platão e de Descartes, certo? Por que?
Até mais
Janos
"Foi Descartes (cartesianismo é uma referência a ele) que disse que a
> mente está sempre a enganar nossos sentidos, e que não podemos confiar > nela. E Platão disse o mesmo antes dele." |
Janos, não é o contrário? Segundo os filósofos que mencionou não são os sentidos que estão sempre a enganar a mente?
--- Em ter, 18/8/09, felipe cavallaro stancioli <stanc...@hotmail.com> escreveu:
|
|
|
Há coisas que se “impõem” antes mesmo do discurso. Nós sempre tivemos
limites. O dever se firmou nesses limites. As “Leis” se firmaram no
momento de desobediência de algo que já era perceptivelmente errado de
alguma forma, quando o bom senso falha. Quando algo ameaça o bom
senso, uma lei é criada. Porém, isso se torna insustentável se os
limites não deixam de ser desafiados. A civilização usa prazeres para
perverter os deveres. Por que alguém segue uma ordem hoje em dia,
senão para evitar dor, para não ameaçar seu prazer?
Então, a civilização se sustenta fazendo parecer nossos os seus
próprios interesses. Fazendo parecer perigosa nossa revolução contra
seus supostos inimigos.
A idéia expressa na citação é que quando só há bondade, não
necessidade para se criar o conceito de bondade. Mas uma vez que isso
se perca, o conceito se faz necessário. Seria ótimo se pudéssemos
voltar à “vida plena”, como alguns acreditam. Mas esquecer os
conceitos agora não fará isso, pois não são os conceitos que nos fazem
assim, eles só são criados para nomear algo perceptível.
Abraço
Janos
Agora você está pedindo por parâmetros, veja só que mudança!
Bem, eu creio que é muito difícil separar o que somos induzidos do que
não somos. Como separar o que podemos mudar do que não podemos. Esta
distinção nunca será comprovada, assim como nunca sabemos se estamos
escolhendo o melhor curso de ação possível. Porém, seguindo em certo
sentido o critério de Popper, podemos buscar pela falseabilidade. Por
exemplo, vejamos se não poderíamos ter nenhum outro motivo "oculto"
para escolher fazer uma coisa ao invés de outra. Duvidemos da
"sinceridade" de nossas próprias intenções. Eu, por exemplo, posso
sentir vontade de xingar uma pessoa e automaticamente justificar isso
pela sua incompetência. Mas, se pensar bem, posso descobrir que minha
vontade de xingar vinha na verdade da minha inveja quanto a algo que
esta pessoa tem e eu não, e a incompetência dela foi usada "mascarar"
esse sentimento, pois não me incomodaria tanto assim em outra
situação.
Se, depois de ponderar muito seriamente e por um bom tempo sobre
alguma coisa, você não conseguir refutar os motivos daquela escolha,
isto provavelmente vai ser o mais próximo que você pode chegar de uma
escolha adequada. Você também pode se deixar orientar pelas
considerações feitas por outras pessoas, se reconhecer a autoridade
delas e aceitar a ajuda delas. Neste sentido, uma tradição aumenta o
grau de confiabilidade, uma vez que você está sendo orientado por
pessoas que foram orientadas por outras pessoas e assim por
diante...Você adiciona assim séculos ou milênios de ponderação, o que
você nunca poderia numa só vida.
Queremos ser sinceros com nossos sentimentos, como disse o Marcelo,
mas nem sempre nossos sentimentos são verdadeiros. Viver na verdade é
diferente de simplesmente dizer a verdade ou ainda aquilo que você
realmente pensa e sente. É preciso compreender movimentos muito sutis
da mente. Pois a mente é enganada somente pelo sentidos, mas também
por ela mesma.
Auto-confronte-se. Entre na arena contra você mesmo, como o personagem
de Clube da luta. Algumas vezes é preciso coragem para "Derrubar-se":
http://www.youtube.com/watch?v=z500MGW-WNw
Vídeo do filme citado pela Karine: "I ♥ Huckabees", que recomendo.
Letra:
É algo inatingível
Que você não pode viver sem
E agora o inexplicável
Deixou você cheio de dúvidas
As coisas começam, coisas degeneram
E você tem que encontrar uma maneira
Para ficar bem
Mas se pretende passar o dia
Imaginando o que é tudo isso
Vá e derrube-se
Por que fomos colocados nessa confusão
Cada um acha uma coisa
Pode ser um teste ou pode não ser nada
Que você tenha que se preocupar
Mas se você ainda estiver em dúvida
Vá e derrube-se
O Janos está cada vez mais filosófico nestes dias... na medida em que precisamos parar e refletir sobre várias frases dele. Acho isso interessante, não é uma crítica. A discussão tem sido um pouco polarizada entre o Janos e o Felipe, mas isso não é culpa deles, é conseqüência da pouca participação nossa. Vocês não tem idéia de como eu fico ansioso para poder participar também. Mas, como já disse outras vezes, tenho três filhos pequenos, trabalho, estou fazendo mestrado, estou tentando ajeitar as coisas num sítio que estou comprando... um dia espero estar mais presente nestas discussões. Andei pensando sobre estas considerações: Não dá muito bem para dizer onde termina a natureza e onde a cultura começa a atuar em nós. Dizer que nosso interesse é sincero e verdadeiro equivaleria a dizer que este interesse é natural, espontâneo, e não incutido em nós por uma cultura? Mas se o homem, para sobreviver, necessita da cultura para realizar seus interesses que, a rigor, são os mesmos de toda a natureza: permanecer vivos, perpetuar a espécie e ter certo poder para continuar garantindo este ciclo? No homem há a necessidade de aprendizado, e desde cedo pela educação (não a formal, mas a aprendida com os pais por exemplo) somos induzidos à adoção de certos comportamentos, certas práticas que, repassadas nos permitem resolver necessidades que se impõe, como buscar e preparar alimentos, defender-se do frio, etc... A cultura ocupa muito do espaço que é preenchido pelos instintos em outras espécies. O homem é um ser cultural por natureza? Dependendo de como se compreende natureza e cultura, a resposta pode ser um “sim”. Mas que papel tem o “sermos verdadeiros (sinceros)”? Isto é provavelmente um valor, um conceito estabelecido para beneficiar a convivência dos grupos. Busca-se relações sinceras porque elas nos dão segurança. Mas por que ser sincero consigo mesmo? Acho que vai no mesmo sentido, para estar mais seguro de si, dos seus passos, dos motivos que nos levam a andar e direcionar este andar e não para ficar apenas nos imputando culpas que não percebíamos que tínhamos. Somos insinceros, mentimos em diversas ocasiões e isso não deve fazer arder em nós uma consciência que aos poucos se dá conta disto. É preciso aceitar que este falsear está presente em todas as nossas relações, em nossos diálogos, em nossos processos de sobrevivência. Isso é mesmo interessante, pois ajuda no que é mais premente para a natureza, ou seja, o falsear, o dissimular motivos, faz parte do “jogo” que nos permite continuarmos existindo. A camuflagem e a dissimulação presentes em vários animais fazem parte de suas práticas de sobrevivência, tudo de forma inconsciente, é claro. Tomar consciência de nossas dissimulações, de nossos “motivos ocultos”, deveria nos levar a um processo de eliminação da insinceridade? Ou deveríamos aceitar que em nós estes processos se dão de forma também necessária como em todos os animais? Mas a questão é a seguinte: por nos darmos conta disso, temos responsabilidade sobre as conseqüências de nossos auto-enganos e dos atos que enganam outros? Esta é uma questão moral difícil de ser enfrentada. Mas pessoalmente assumo que, não podemos nos isentar de qualquer responsabilidade, justamente por sermos os únicos seres nos quais isso vem à tona, podemos participar do processo, escolhendo certas posturas e atitudes e assumindo as conseqüências. Quando temos para nós certa clareza sobre os danos que as insinceridades causam a nós, às nossas relações, ao ambiente, elas devem ser evitadas. Mesmo que num primeiro momento pareça cômodo e inofensivo continuar na “mentira”. O que a civilização nos induz
continuamente é continuar a dissimular e mentir para muito além do que necessitamos, tornando a mentira não o expediente a que se recorre para a sobrevivência quando não se tem à mão outros expedientes melhores, mas o “modo de ser” principal, fingir e dissimular o tempo inteiro é a proposta do mundo civilizado. Por outro lado, não podemos ser pretensiosos a ponto de achar que eliminaremos todas as dissimulações e insinceridades de nossas relações, até porque, é isto também que nos permite continuar nos relacionando. Não somos exatamente contra a mentira, as ficções (filmes, estórias, e até a distorção que nossa memória empreende ao resgatarmos e relatarmos acontecimentos passados conosco) e falseabilidades a que recorremos no dia-a-dia, somos contra os efeitos danosos que elas podem produzir, as mentiras que nos ajudam a continuar vivendo e nos relacionando de forma satisfatória, nós, consciente ou inconscientemente,
ajudamos a contar. Há grande mal também nisto? Me digam, pois também quero descobrir. |
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Olá, Se falamos que não existem verdade universais, então essa afirmação também não pode ser uma verdade universal, o que leva a conclusão de que existem verdades universais. Esse aparente jogo
linguístico revela questões mais profundas do que a
superficialidade cômica. A civilização é algo que nos deteriora,
que nos distorce de maneira tão violenta que é insuportável, por
isso existem uma série de mecanismos intrincados e sutis que nos
auxiliam a “ir levando”. Ao criticarmos a civilização começamos
a identificar esses mecanismos e desejamos acabar com eles. Mas é
preciso lembrar que o principal trabalho da civilização é a
deturpação, a adulteração, me inclino a pensar que a civilização
não criou nada. Assim, no esforço crítico não deixamos restar
nada, criticamente negamos não só à civilização mas os valores
que ele deturpa também. Poderíamos evocar a imagem do bebê jogado junto com a água da bacia. Nós civilizados, desejamos intensamente escapar a toda responsabilidade, e nesta busca, nos impomos a carga enorme de manter a civilização em marcha, mesmo que isso nos custe muito caro, e nos incomode continuamente. E vivemos em escapismos de toda ordem. Poderíamos então classificar os valores em reais e deturpados, como: autoridade imposta e violenta e autoridade reconhecida; ordem imposta e violenta e organização “natural e orgânica”; o outro como impedimento para a minha felicidade egoísta e Id-Ota e a responsabilidade pelo outro como parte do que eu sou, como “irmão”; a distração como escape e entorpecimento e a distração como brincadeira e aprendizado. Como o Janos disse, o problema não está em nós mas na civilização. Em nosso esforço crítico é preciso lembrar que se não fossemos civilizados não estaríamos pensando essas coisas, e ainda por cima pensamos de forma civilizada, como não poderia ser diferente. Neste sentido a imagem do “salto”, e não de “além” ou ?”aquém”, parece realmente mais apropriada. A necessidade de pensar os pressupostos, os critérios de verdade, os contextos e as práticas, as noções e tudo mais é civilizada. Não há como escapar dessas discussões, mas no “salto” elas serão deixadas de lado. Lembremos de Ismael, quando ele estava na floresta com sua família e irmãos, sabia que aquilo era vida, mesmo não “pensando” na forma civilizada do termo. Quando estava no cativeiro, também sabia que aquilo não era vida, ou pelo menos que havia algo de errado. Não sei muito bem como resolver isso...
Abraços |
Muito obrigado por sua participação. Ela é muito importante, e eu
compreendo o quanto deve ser difícil para você conseguir um tempo para
isso. Muito obrigado mesmo.
Essa discussão perdeu um pouco a clareza, por minha culpa mesmo. Suas
considerações fora muito boas para tentarmos retomar o foco.
Eu creio que é realmente complicado separar natureza e cultura no
homem, levando em conta o sentido amplo de cultura e de natureza.
Nossa herança cultural não pode ser criticada simplesmente
revoltando-se contra o que chamamos de cultura, e seguindo o que
chamamos de natureza. Queria deixar claro que o “confrontar a si
mesmo” tem em vista o outro, o que nos fazem conosco e o que fazemos
aos outros. É preciso enfatizar que podemos viver na mentira dizendo
apenas verdades. Então não é bem uma questão epistemológica aqui, mas
ética.
Uma pessoa que conheço teve que fazer uma escolha difícil, porque
estava precisando muito de um emprego, e conseguiu um que era muito
bom, mas ficou sabendo que receberia essa vaga por meio de uma fraude.
Sabemos que nem sempre a mentira é ruim, como no caso de uma pessoa
que mente para um soldado para salvar a vida de uma pessoa. Mas essa
pessoa decidiu não aceitar o emprego, e eu admiro a coragem dela,
porque eu teria me sentido muito tentado a aceitar, e inventaria um
monte de justificações para isso, incluindo ter que enfrentar críticas
e pressões da sociedade por causa dessa escolha.
Konrad Lorenz (filósofo, biólogo e psicólogo), disse que os animais
passam informações falsas sim, para suas presas e predadores, mas não
para os seus próprios companheiros. A mentira tem lugar na competição,
mas raramente na cooperação. Acho que a questão é refletir “Por que
estou dizendo ou pensando ou sentindo ou fazendo isso?”. Refletir
sobre como eu cheguei nisto, e para onde isto está me levando.
Em geral concordo com você e acho que você falou muito bem. Acho que a
importância dessa conversa é ter uma base confiável para nosso
discurso, saber que não estamos apenas falando coisas desconexas. Se
tivermos um interesse e um compromisso comum com a verdade, podemos
chegar mais longe. Deixaremos claro que não se trata de um mero
exercício retórico ou disputa de poder.
Isso já está rendendo resultados na vida de algumas pessoas.
Olá Rafael,
Muito obrigado por também achar um tempo para participar dessa conversa.
Eu concordo que temos que tomar cuidado para não descartar aquilo que
não foi criado, mas apenas “mal usado” na civilização. Eu nunca tinha
pensado na perspectiva de que a civilização não criou nada, apenas
deturpou valores. Criticar um poder deturpador é muito mais difícil
que criticar um poder simplesmente destruidor e criador, mas acho que
você pode ter razão.
Distinguir valores humanos de valores humanos civilizados pode ser um
desafio tão grande quanto separar natureza e cultura? Eu não sei, mas
na medida em que temos acesso a alguma “fonte de valores” que não seja
meramente “humana”, isso já facilita muito, creio eu. C. S. Lewis fala
de um “bom senso natural” que, que não se confunde com o “mito do bom
selvagem” ou a teoria de Rousseau sobre o homem autêntico.
A questão aqui entra no conceito de civilização, que está sendo
discutida em outro tópico. Vou responder você lá.
Acho que isto que o Janos disse deve ser enfatizado: |
|
"Acho que a importância dessa conversa é ter uma base confiável para nosso
discurso, saber que não estamos apenas falando coisas desconexas. Se tivermos um interesse e um compromisso comum com a verdade, podemos chegar mais longe. Deixaremos claro que não se trata de um mero exercício retórico ou disputa de poder." |
Entendo "compromisso comum com a verdade" aqui como: tornar as coisas mais claras, trazer à tona os problemas que nos compromentem individual e coletivamente tornando nossas vidas atreladas a um modo civilizatório que destrói a tudo que é vivo, começando pela energia vital que há em nós. Energia esta que é reprimida, conduzida, e atrelada a fins que não queremos, mas que muitas vezes, por falta de verdade, não sabemos que é para estes fins que temos sido conduzidos, não por culpa de um alguns, ou de um grupo especificamente, mas em decorrência de uma cultura civilizatória doentia para a qual somos educados a ajudar a manter.
Abraços fraternais,
Fernando |
|
| Olá, Pouco tempo atrás assisti a um dcumentário sobre uma espécie de macacos, desses que se organizam em torno de machos dominantes, onde as fêmeas flertavam com os machos mais novos copulando com eles quando o macho dominante se distraia. Mesmo ente companheiros da mesma espécie, se a competição é o mecanismo de organização das relações, então haverá mentira, enganação e coisa e tal. |
"Então não é bem uma questão epistemológica aqui, mas ética". |
| Acho que esse é um ponto fundamental. Diferenciar cultura de natureza; valores humanos de valores humanos civilizados; ou definir a Verdade são empresas impossíveis, e além do mais não importa, já que o que importa é a vida e como se vive. Esses esforços são caminhos mas não objetivos. Ficamos assim com as noções de dicernimento, bom senso, interesse e compromisso comum com a verdade. Noçoes um tanto vagas, que carregam um bom grau de incerteza. Mas isso não é ruim. Quem deseja controle é o homem civilizado que queremos deixar de ser. O livro "O jogo das contas de vidro" de Hesse é uma boa leitura sobre a relação entre essas duas formas de saber [ que poderiamos dizer mais racional e controlada, e mais intuitiva e relacional] e as possibilidades de co-vivência entre elas. Principalmente a existência "O conjurador de chuvas". Abraços |
Acho que você expressou muito bem o que eu pensei, eu só não usaria o
termo “energia vital”, que pode remeter ao vitalismo ou ao
“energismo”, que olha o universo como um experimento de biofísica.
Rafael,
Também conheço casos de “trapaça” entre parceiros na natureza, mas de
qualquer forma isso não afeta o que temos dito aqui sobre
discernimento, por exemplo. E separar “racional” e “intuitivo” também
pode ser difícil, mas de forma geral concordo com suas palavras.
Felipe,
Bem lembrado. Apesar de seremos muito próximos dos outros primatas,
ainda somos bastante diferentes, como chimpanzés são diferentes de
bonobos.
Abraços
Janos