Olá, pessoal
Estou envolvido, junto com uma amiga, em um projeto
álbum de história em quadrinhos (ela é desenhista e eu tento ser
roteirista).
Não vou aborrecer vocês com as minhas motivações,
mas o que interessa é que nós decidimos adaptar o conto que envio abaixo para a
lista.
Escrevendo o roteiro, no processo de tentar
identificar a "essência" do conto, percebi que essa história levanta muitas
questões que acho que poderiam interessar a vocês. Acho que há alguma coisa bem
leve de crítica à civilização nele, mas só no sentido vago, acho, de que o homem
teria perdido algo importante para si próprio ao se
civilizar. Perda essa que, em certo sentido, o torna menos
capacitado a viver a sua vida (ao menos em certas condições, justamente aquelas
em que um homem tem o seu valor colocado à prova - e nesse comentário vai
alguma impressão geral sobre a obra do autor, não só sobre esse conto em
específico). Vejo também nesse conto uma certa crítica, se não ao
individualismo, ao menos à arrogância (e ilusão) que é o homem se achar
auto-suficiente em relação aos seus semelhantes. Creio haver algo de
"anti-robson-crusoé" nele, se pensarmos no náufrago como um proto-modelo do
empreendedor capitalista, do self-made-man que chega a uma ilha deserta e, com
poucos recursos (quase que somente a sua capacidade empreendedora, mesmo), a
transforma em um simulacro da sociedade burguesa da qual saiu. Creio que o conto
procura nos falar, um pouco, a favor da cooperação entre os homens, e contra uma
certa idéia de que é possível para um indivíduo contruir sozinho seu próprio
caminho.
Eu poderia tentar argumentar melhor a favor desses
dois pontos acima, mas não quero atrapalhar o prazer de quem se dedicar a ler o
texto (que, sinceramente, acho que vale muito a pena, pois, além de tudo, é um
belo texto literário). E, se quem o fizer estiver disposto a discuti-lo, pra mim
será um prazer (além de muito útil, pois me ajudará na elaboração do roteiro,
hehe).
Obrigado,
Hugo
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Fazer uma Fogueira
(Jack London)
O dia tinha já rompido frio e cinzento,
extremamente frio e cinzento, quando o homem deixou o trilho principal do Yukon
e subiu pela alta margem de terra, onde um trilho muito leve, pouco usado, se
dirigia para Leste por entre uma floresta de grossos abetos. A margem era
íngreme e ele parou para tomar fôlego, olhando o relógio para justificar aquela
paragem perante si próprio. Não havia sol, nem vestígios dele, embora não
houvesse uma só nuvem no céu. Estava um dia claro, e contudo parecia haver um
manto intangível cobrindo todas as coisas, uma sutil melancolia que tornava o
dia escuro e que se devia à ausência do sol no céu. Este fato não preocupava o
homem. Já estava habituado à falta do sol. Já não o via há alguns dias e sabia
que mais alguns se passariam antes que a alegre esfera, a cumprir o seu percurso
ao Sul, espreitasse apenas acima do horizonte para logo desaparecer da
vista.
O homem lançou um olhar para trás, para o caminho
que o trouxera. Lá estava o Yukon, uma milha de largura, escondido sob um metro
de gelo. E sobre este gelo outro tanto de neve. Era toda uma brancura imaculada,
rolando em suaves ondulações nos lugares onde o congelamento tinha formado
montes de gelo. Para Norte e para Sul, até onde a vista alcançava, era tudo de
uma brancura ininterrupta, salvo uma fina linha escura que em curva se afastava
da ilha coberta de abetos em direção ao Sul, e que curvava depois para Norte e
desaparecia por detrás de outra ilha coberta de abetos. Esta fina linha escura
era o trilho - o trilho principal - que levava até ao Chilcoot Pass, Dyea, e à
água salgada, quinhentas milhas mais adiante; e que para Norte ia até Dawson, a
setenta milhas, e ainda mais para Norte até Nulata, a mil milhas, e finalmente
até St.Michael, no Mar de Bering, mil e quinhentas milhas mais
adiante.
Mas nada disto - nem a misteriosa linha do trilho a
perder de vista, nem a ausência do sol, nem o tremendo frio, nem a singularidade
ou o caráter estranho de tudo aquilo - deixava qualquer impressão no homem. Não
que ele já estivesse há muito habituado a eles. Ele era novo naquelas terras, e
este era o seu primeiro inverno naquelas paragens. O problema dele era a falta
de imaginação. Era esperto e estava atento às coisas da vida, mas apenas às
coisas e não ao significado delas. Cinquenta graus negativos significavam
oitenta e tal graus de congelamento. Tal fato, para ele, significava frio e
desconforto, e apenas isso. Não o levava a meditar sobre a sua fragilidade como
criatura de temperatura que era, ou sobre a fragilidade do homem em geral,
apenas capaz de viver dentro de certos limites muito estreitos de calor e frio;
e não o levava, daí para a frente, para o campo das conjecturas sobre a
imortalidade e sobre o lugar do homem no universo. Cinquenta graus negativos
representavam uma picada do frio, que faz doer e de que a gente se deve
resguardar usando luvas, lobos de orelha, botas quentes de pele e meias grossas.
Cinquenta graus negativos, para ele, eram apenas e só cinquenta graus negativos.
Nunca lhe passara pela cabeça que pudessem ser mais alguma coisa.
Quando se virou para prosseguir o seu caminho,
cuspiu, distraído a refletir. Ouviu um estalido agudo que o despertou. Cuspiu
outra vez. E outra vez, no ar, antes de cair na neve, o cuspe estalou. Ele sabia
que a cinquenta graus abaixo de zero o cuspe estalava na neve, mas este cuspe
tinha estalado no ar. Não havia dúvida de que estava mais frio do que cinquenta
abaixo de zero - quanto é que ele não sabia. Mas a temperatura não importava.
Ele dirigia-se à velha concessão no braço esquerdo da bifurcação do Henderson
Creek, onde os rapazes já se encontravam. Eles tinham vindo da região do Indian
Creek, atravessando as montanhas, enquanto que ele tinha feito um desvio para
ver das possibilidades de retirar os toros de madeira das ilhas do Yukon na
Primavera. Ia chegar lá pelas seis horas; um pouco tarde, realmente, mas os
rapazes lá estariam, já teriam uma fogueira e uma refeição quente pronta. Quanto
ao almoço, apalpou o volume que sobressaía por baixo do casaco. Estava também
por baixo da camisa, embrulhado num lenço contra a pele nua. Era a única maneira
de conservar as bolachas sem congelarem. Sorriu para si próprio quando pensou
naquelas bolachas, abertas uma a uma e embebidas na gordura do bacon e cada uma
delas com uma generosa fatia de bacon frito.
Mergulhou na floresta, no meio dos enormes abetos.
O trilho estava muito sumido. Já tinham caído trinta centímetros de neve desde a
última passagem de um trenó, e ainda bem que ele não trazia um trenó, e ia assim
tão leve. De fato, ele não trazia senão o almoço embrulhado num lenço. Estava
era surpreendido com o frio. Estava realmente muito frio, concluiu, enquanto
esfregava, com a mão enluvada, o nariz e as faces dormentes. Ele usava suíças,
mas aqueles pelos não lhe protegiam a parte frontal da cara e o nariz ansioso,
que se espetava agressivamente no ar gelado.
A trote e atrás do homem, vinha um cão, um cão
grande arraçado de lobo, daqueles com que andam os esquimós, e em nada
diferente, física ou temperamentalmente do seu irmão, o lobo selvagem. O animal
estava abatido, daquele frio tremendo. Ele sabia que não era tempo para viajar.
O instinto fornecia-lhe uma informação mais real do que aquela que o homem
obtinha através da sua própria avaliação. Na verdade, aquele frio não era só de
cinquenta graus abaixo de zero; era de mais de sessenta ou setenta graus abaixo
de zero. Era de setenta e cinco graus abaixo de zero. Como o ponto de
congelamento é de trinta e dois graus acima de zero, a temperatura chegara
portanto aos cento e sete graus abaixo do ponto de congelamento. O cão não sabia
nada de termômetros. Provavelmente não havia no seu cérebro qualquer noção exata
do frio como a que havia no do homem. Mas o animal tinha o seu instinto e sentia
uma vaga mas ameaçadora apreensão que o dominava e o fazia seguir na peugada do
homem e o fazia questionar ansiosamente cada um dos seus movimentos menos
habituais como se estivesse à espera que ele fosse acampar ali ou fosse procurar
abrigo algures e fazer uma fogueira. Ele aprendera a conhecer as fogueiras e
precisava de uma fogueira, ou então de escavar um buraco sob a neve para se
aquecer aninhando-se ao abrigo da atmosfera exterior.
O orvalho resultante da respiração fixava-se no
pelo como um fino pó de gelo, e em especial o queixo, o focinho e as pestanas
estavam brancos do seu bafo cristalizado. A barba e o bigode ruivos do homem
estavam igualmente congelados, mas mais solidamente, tendo aqui a forma de gelo
mesmo e aumentando a cada uma das suas expirações quentes e húmidas. Além disso,
o homem ia mascando tabaco e o gelo que lhe cobria a boca firmava-lhe os lábios
de tal maneira que ele não conseguia limpar o queixo quando cuspia o suco. O
resultado era uma barba cristalizada da cor e da consistência do âmbar e que ia
aumentando de tamanho no queixo. Se ele caísse, aquilo estilhaçava-se como
vidro. Mas aquele apêndice não o preocupava. Era o preço a pagar por aqueles que
mascavam tabaco naquelas terras, e ele já tinha tido duas experiências
idênticas. O frio não era tanto, ele sabia-o, mas pelo termômetro de álcool em
Sixty Mile ele soubera que se tinham registado temperaturas de cinquenta e de
cinquenta e cinco.
Continuou por uma extensão plana de floresta
durante algumas milhas, atravessou uma vasta planície coberta de moitas e depois
desceu por uma encosta abaixo em direção ao leito gelado de um pequeno ribeiro.
Era o Henderson Creek, e ele sabia que estava a dez milhas da bifurcação. Olhou
o relógio. Eram dez horas. Andava a quatro milhas por hora e calculou que devia
chegar à bifurcação ao meio-dia e meia. Resolveu que almoçaria lá para comemorar
o acontecimento.
O cão continuava a segui-lo num desânimo de cauda
pendente enquanto o homem gingava ao longo do leito do ribeiro. O sulco do velho
rastro de trenó era bem visível, mas alguns centímetros de neve cobriam as
marcas de patins mais recentes. Há um mês que ninguém passava, para cima ou para
baixo, naquele ribeiro silencioso. O homem prosseguiu determinado. Ele não era
muito dado a pensar, e particularmente naquela ocasião não tinha nada em que
pensar a não ser em que iria almoçar na bifurcação e que às seis horas estaria
no acampamento com os rapazes. Não havia ninguém com quem falar; e, se houvesse,
teria sido impossível falar por causa da mordaça de gelo que lhe cobria a boca.
Assim, continuou monotonamente a mascar tabaco e a fazer crescer a sua barba de
âmbar.
De vez em quando vinha-lhe à ideia o terrível frio
que fazia, e que nunca sentira tal frio. À medida que caminhava ia esfregando a
cara e o nariz com as costas da mão enluvada. Fazia isto mecanicamente, mudando
de mão de quando em vez. Mas por muito que esfregasse, assim que deixava de o
fazer, os malares ficavam logo dormentes e depois também a ponta do nariz. A
cara ia certamente ficar gelada; ele sabia isso, e era com grande angústia que
se arrependia de não ter arranjado uma proteção para o nariz do tipo da que o
Bud usava durante as vagas de frio. Essas proteções passavam também pela cara e
protegiam-na. Mas, afinal, também não importava muito. Qual era o problema de
ter a cara gelada? Um pouco doloroso, só isso; nunca era coisa muito
grave.
Vazia de ideias como a sua cabeça era, o homem era,
porém, muito observador, e reparou nas mudanças do ribeiro, as lombadas, as
curvas e os ramos de árvore, e tinha sempre o cuidado de ver onde punha os pés.
Uma vez, depois de uma curva, recuou abruptamente, como um cavalo assustado,
desviou-se do lugar por onde tinha vindo e retrocedeu alguns passos no trilho. O
ribeiro sabia ele que estava gelado até ao fundo - nenhum ribeiro podia ter água
naquele inverno polar - mas também sabia que havia nascentes que borbulhavam nas
encostas dos montes e cuja água corria encosta abaixo sob a neve e por cima do
gelo do ribeiro. Ele sabia que mesmo as mais rigorosas vagas de frio nunca
conseguiam congelar estas nascentes, e conhecia igualmente o seu perigo. Eram
armadilhas. Escondiam poças de água, debaixo da neve, que podiam ter um
centímetro ou um metro de profundidade. Às vezes estavam cobertos por uma fina
camada de gelo de três centímetros, que, por sua vez, estava coberta de neve.
Outras vezes, havia camadas alternadas de água e gelo, de modo que, quando uma
se quebrava, as outras começavam a quebrar-se por ali abaixo e a pessoa podia
ficar na água até à cintura.
Esta a razão por que ele recuara tão assustado.
Tinha sentido o gelo a ceder sob os seus pés e ouviu o estalido da camada de
gelo escondida sob a neve. E molhar os pés com tal temperatura significava
perigo e problemas iminentes. Significava na melhor das hipóteses um atraso,
porque seria obrigado a parar para acender uma fogueira cujo calor lhe
permitisse ficar descalço enquanto secava as botas e as meias. Ficou a estudar o
ribeiro e as margens e concluiu que a água vinha da direita. Refletiu por
momentos, esfregando a cara e o nariz, depois desviou-se para a esquerda, a
caminhar cautelosamente e a experimentar a firmeza do piso passo a passo.
Passado o perigo, enfiou na boca mais um bocado de tabaco para mascar e lá
prosseguiu no seu ritmo de quatro milhas por hora.
No decurso das duas horas seguintes, deparou com
várias destas armadilhas. Geralmente a neve que escondia as poças tinha um
aspecto cavado, de açúcar cristalizado, que anunciava o perigo. E mais uma vez
escapou por um triz; e uma das vezes, desconfiando do perigo, obrigou o cão a ir
na frente. O cão não queria ir. Foi ficando para trás até que o homem o enxotou
para a frente, e depois atravessou rapidamente a superfície branca. Subitamente
o gelo quebrou e o cão debateu-se por momentos, desequilibrado para um dos
lados, mas depois conseguiu sair para piso mais firme. Tinha molhado as patas e
pernas da frente, e quase imediatamente a água que ficara agarrada ao pelo
transformou-se em gelo. Fez rápidos esforços para o remover lambendo as pernas e
depois sentou-se na neve começando a morder o gelo que se tinha formado entre os
dedos para o tirar também. Fez isto apenas por instinto. Deixar ficar o gelo
significaria pés em ferida e ele não sabia isso. Apenas obedeceu à misteriosa
indicação vinda das profundezas ocultas do seu ser. Mas o homem compreendeu-o,
depois de avaliar a questão, e tirou a luva da mão direita e ajudou-o a remover
as partículas de gelo. Não expôs os dedos ao ar mais do que um minuto, e ficou
espantado com a rapidez com que o entorpecimento os atingiu. Estava realmente
muito frio. Calçou rapidamente a luva e começou a bater ferozmente com a mão no
peito.
Às doze horas o dia atingia a sua claridade máxima.
Mas o sol andava tão para sul na sua viagem invernal que não conseguia clarear o
horizonte. O bojo da terra interpunha-se entre ele e o Henderson Creek, onde o
homem caminhava sob um céu limpo, ao meio dia, sem projetar qualquer sombra. Ao
meio-dia e meia, pontualmente, chegava ele à bifurcação do ribeiro. Estava
satisfeito com o andamento que conseguira. Se o conseguisse manter estaria
certamente com os rapazes pelas seis horas. Desabotoou o casaco e a camisa e
tirou o almoço. Esta tarefa não lhe demorou mais de um quarto de minuto, mas
esse curto espaço de tempo foi suficiente para que os dedos expostos ao ar lhe
ficassem dormentes. Não calçou a luva, em vez disso começou a bater
repetidamente com os dedos nas pernas. Depois sentou-se num tronco coberto de
neve para comer. O formigueiro nos dedos, depois de ter batido com eles nas
pernas, cessou tão depressa que ele ficou sobressaltado. Não tinha tido qualquer
possibilidade de dar uma única dentada nas bolachas. Bateu com os dedos
repetidamente e calçou a luva, descalçando a outra mão para comer. Tentou uma
dentada de boca cheia, mas a mordaça de gelo impediu-o. Esquecera-se de fazer
uma fogueira para derreter o gelo. Riu-se da sua insensatez, e enquanto ria
começou a notar a dormência a subir-lhe pelos dedos nus. E notou também que o
formigueiro que começara a sentir nos dedos dos pés quando se sentara já estava
a passar. Não sabia bem se os dedos dos pés estavam quentes ou dormentes.
Mexeu-os dentro das botas e concluiu que estavam dormentes.
Calçou a luva rapidamente e pôs-se de pé. Começava
a ficar um tanto assustado. Começou a bater com os pés até o formigueiro voltar.
Só pensava que estava realmente muito frio. Aquele homem de Sulphur Creek tinha
razão quando lhe falou do muito frio que às vezes se fazia sentir na região. E
ele nessa altura rira-se do homem! Isto mostrava que não devemos ter tanta
certeza das coisas. Não havia qualquer dúvida sobre isso, estava mesmo frio.
Começou a andar energicamente de um lado para o outro, batendo com os pés e
sacudindo os braços até conseguir que aquecessem. Depois pegou nos fósforos e
começou a fazer uma fogueira. Nas moitas, onde a água da primavera anterior
tinha deixado um monte de galhos secos, arranjou ele a lenha. Começando
cuidadosamente de um pequeno lume, depressa conseguiu chamas grandes a crepitar,
sobre as quais derreteu o gelo da cara e ao calor das quais comeu as suas
bolachas. Por enquanto o ar frio estava vencido. O cão aproveitou bem a
fogueira, estendendo-se suficientemente perto para receber o calor e
suficientemente longe para não ficar chamuscado.
Depois de acabar de comer, o homem encheu o
cachimbo e ficou a fumá-lo confortavelmente. Depois calçou as luvas, apertou bem
os lobos de orelhas e tomou o trilho esquerdo da bifurcação. O cão ficou
desapontado e olhava, nostálgico, para a fogueira. Este homem não conhecia o
frio. Possivelmente nenhuma geração dos seus antepassados conheceu o frio, o
verdadeiro frio, o frio de cento e sete graus abaixo do ponto de congelamento.
Mas o cão conhecia-o; todos os seus antepassados o conheceram, e ele herdara
esse conhecimento. E sabia que não era bom andar fora com aquele frio terrível.
O tempo estava bom era para se estar metido num buraco da neve, bem aconchegado,
e esperar que uma cortina de nuvens se viesse descerrar sobre o espaço exterior
donde vinha aquele frio. Por outro lado, também não havia grande intimidade
entre o cão e o homem. O primeiro era escravo do segundo, e as únicas carícias
que alguma vez recebia eram as do chicote e dos sons guturais que eram já uma
ameaça de chicote. E por isso o cão não fez qualquer esforço para dar a conhecer
ao homem a sua apreensão. Ele não estava preocupado com o bem estar do homem;
era apenas por ele próprio que ele sentia aquela nostalgia da fogueira. E o
homem assobiou e falou-lhe em tom de chicote, e o cão lá seguiu na sua
peugada.
O homem meteu mais uma porção de tabaco na boca e
iniciou a construção de uma nova barba âmbar. E o seu bafo húmido depressa lhe
pulverizou de branco o bigode, as sobrancelhas e as pestanas. Neste trilho
esquerdo da bifurcação do Henderson, parecia não haver tantas nascentes, e
durante meia hora o homem não viu vestígios de nenhuma. Mas depois aconteceu.
Num lugar onde não havia quaisquer sinais, onde a neve macia e ininterrupta
parecia indicar alguma solidez por baixo, o piso cedeu. Não parecia muito fundo.
O homem molhou-se até meio dos tornozelos antes de, a debater-se, conseguir
saltar para terra firme.
Ficou irritado e amaldiçoou a sua pouca sorte em
voz alta. Tivera a esperança de chegar ao acampamento onde estavam os rapazes
pelas seis horas, e isto ia atrasá-lo uma hora, porque ia ter de acender uma
fogueira para secar as botas, as meias e os pés. Com aquela temperatura, isto
tornava-se imperativo - até aí sabia ele; e dirigiu-se para a margem, que
começou a trepar. Lá em cima, emaranhado na vegetação rasteira à volta dos
troncos de pequenos abetos, estava um monte de lenha, deixado pela subida da
água - principalmente paus e galhos, mas também grandes pedaços de ramos secos e
boas canas secas do ano anterior. Atirou vários destes últimos para baixo, para
cima da neve. Isto era para servir de base e evitar que as primeiras chamas se
afogassem na neve, que de outra maneira se derreteria. O lume conseguiu-o
friccionando um fósforo num bocado de casca de vidoeiro que tirou do bolso. Isto
ardia ainda melhor do que o papel. Pô-lo sobre a base e foi alimentando o fogo
com tufos de erva seca e com os galhos mais finos.
Trabalhava devagar, com muito cuidado e muito
atento ao perigo em que estava. Pouco a pouco, à medida que as chamas cresciam,
ia aumentando o tamanho dos ramos com que as estava a alimentar. Agachou-se na
neve, a desemaranhar os ramos e ia-os atirando diretamente para a fogueira. Ele
sabia que não podia falhar. Quando a temperatura está a setenta e cinco graus
abaixo de zero, um homem não pode falhar na primeira tentativa para acender uma
fogueira - quer dizer, se tiver os pés molhados. Se tiver os pés secos e falhar
pode correr meia milha pelo trilho fora para restabelecer a circulação. Mas a
circulação nos pés molhados e gelados não se pode restabelecer correndo quando
estão setenta e cinco graus abaixo de zero. Por mais depressa que corra, os pés
molhados gelarão cada vez mais.
Tudo isto o homem sabia. Aquele veterano em Sulphur
Creek tinha falado nisto no outro outono e agora é que ele estava a dar valor ao
conselho. Já não sentia os pés. Para fazer a fogueira tinha sido obrigado a
descalçar as luvas, e os dedos ficaram logo dormentes. O seu andamento de quatro
milhas por hora tinha-lhe mantido o coração a bombear sangue para toda a
superfície do corpo e para todas as extremidades. Mas no momento em que ele
parou, a ação da bomba, abrandou. O frio do espaço atacou a ponta desprotegida
do planeta, e estando ele nessa ponta desprotegida, recebeu o golpe em toda a
sua força. O sangue do corpo retraiu-se perante o ataque. O sangue estava vivo,
como o cão, e tal como o cão, queria recolher-se e proteger-se daquele frio
terrível. Enquanto andasse a quatro milhas por hora, o coração, quisesse ou não,
bombeava esse sangue para a superfície; mas agora o sangue refluiu e alojou-se
nos recessos do corpo. As extremidades foram as primeiras a sentir a sua
ausência. Os pés molhados eram os que gelavam mais depressa, e os dedos nus eram
os que adormeciam mais depressa, embora ainda não tivessem começado a gelar. O
nariz e a cara já estavam a começar a gelar, enquanto a pele por todo o seu
corpo arrefecia com a perda do sangue.
Mas estava salvo. Os dedos dos pés, o nariz e a
cara só seriam ligeiramente afetados pelo congelamento, porque a fogueira estava
a começar a arder bem. Ele estava a alimentá-la com ramos da espessura de um
dedo. Mais um instante e poderia começar a alimentá-la com ramos da espessura do
pulso, e então já poderia descalçar-se e, enquanto secava as botas e as meias,
poderia manter os pés descalços quentes à fogueira, esfregando-os primeiro,
claro, com neve. A fogueira foi um sucesso. Estava salvo. Lembrou-se do conselho
do veterano em Sulphur Creek e sorriu. O veterano tinha falado muito a sério
quando lhe ditou a regra segundo a qual ninguém deve viajar sozinho no Klondike
com temperaturas abaixo dos cinquenta graus. E ali estava ele; tinha tido aquele
acidente; estava sozinho e tinha-se salvado. Aqueles velhos veteranos eram muito
maricas, alguns deles, pensou. O que era preciso era não perder a cabeça, e
assim as coisas correriam bem. Qualquer homem que seja homem pode viajar
sozinho. Mas era espantosa a rapidez com que a cara e o nariz estavam a gelar. E
nunca imaginara que os dedos pudessem ficar sem vida em tão pouco tempo. E
estavam de fato, sem vida, porque ele mal os podia mexer para agarrar um ramo, e
parecia-lhe que estavam afastados do corpo e dele próprio. Quando tocava num
ramo, tinha de olhar para ver se o estava a agarrar ou não. As comunicações
entre ele e as pontas dos dedos estavam bastante fracas.
Mas nada disto contava muito. Estava ali a fogueira
a estalar e a crepitar, uma promessa de vida a dançar em cada labareda. Começou
a desapertar as botas. Estavam cobertas de gelo; as grossas meias alemãs
pareciam bainhas de ferro até ao meio da perna; e os cordões das botas pareciam
varetas de aço, todas torcidas e cheias de nós como em resultado de uma
explosão. Durante algum tempo ainda tentou puxá-los com a mão, mas depois,
percebendo o disparate que estava fazendo pegou na navalha.
Mas antes de poder cortar os cordões, aconteceu
aquilo. A culpa, ou melhor, o erro foi seu. Não devia ter feito a fogueira por
baixo dos abetos. Devia tê-la feito numa clareira. Mas assim tinha sido mais
fácil puxar os ramos e pô-los diretamente sobre o fogo. Ora, a árvore sob a qual
ele a fizera tinha uma grande carga de neve sobre os ramos. Há semanas que não
corria vento nenhum, e todos os ramos estavam carregadinhos de neve. Enquanto
estivera a fazer a fogueira, de cada vez que puxava um ramo transmitia uma
ligeira agitação à árvore - uma agitação imperceptível para ele, mas a bastante
para provocar o desastre. Um ramo no topo da árvore cedeu e deixou cair a neve
sobre os ramos que lhe ficavam por baixo, os quais, por sua vez, cederam também.
Este processo continuou, estendendo-se a toda a árvore. A neve cresceu como uma
avalanche e acabou por cair sobre o homem e sobre a fogueira e o fogo apagou-se!
No lugar da fogueira estava agora apenas um monte de neve fresca.
O homem ficou abalado. Era como se acabasse de
ouvir a sua própria sentença de morte. Ficou sentado por momentos a olhar para o
ponto onde ainda há pouco ardia a fogueira. Depois ficou muito calmo. Talvez o
velho veterano de Sulphur Creek tivesse razão. Se tivesse ali consigo um
companheiro, não estaria agora em perigo. O companheiro podia fazer a fogueira.
Mas assim era ele que tinha de fazer a fogueira de novo, e desta vez não podia
falhar. Mesmo que conseguisse, ia certamente ficar sem alguns dedos dos pés. Os
pés deviam estar agora gravemente congelados e a segunda fogueira ainda ia
demorar a fazer.
Era isto que ele estava a pensar, mas não se deixou
ficar parado. Esteve sempre em atividade enquanto estes pensamentos lhe
ocorriam. Construiu uma nova base para a fogueira, desta vez numa clareira, onde
nenhuma árvore traiçoeira a poderia apagar. A seguir, juntou ervas secas e
alguns galhos do monte deixado pela subida das águas. Não conseguia apertar os
dedos para os puxar, mas conseguiu juntá-los às mãos cheias. Mas desta maneira
arrastou também muitos galhos podres e bocados de musgo indesejáveis, mas era o
melhor que conseguia fazer. Trabalhava metodicamente, juntando mesmo uma braçada
de ramos maiores que serviriam mais tarde quando o fogo já estivesse mais forte.
E enquanto isto, o cão estava sentado a observá-lo com uma certa ansiedade
nostálgica no olhar, porque o estava a ver como o fazedor de fogueiras, e a
fogueira tardava.
Quando já estava tudo pronto, o homem procurou no
bolso uma segunda casca de vidoeiro. Ele sabia que a casca lá estava e, embora
não a pudesse sentir com os dedos, ouvia o seu ruge-ruge enquanto tentava
desajeitadamente agarrá-la. Por muito que tentasse, não conseguia agarrá-la. E
durante todo o tempo, ele sabia, bem no fundo do seu consciente, que os pés lhe
estavam a congelar momento a momento. Esta ideia inclinava-o para o pânico, mas
lutou contra isso e manteve a calma. Com os dentes, calçou as luvas e começou a
balançar os braços para a frente e para trás batendo com as mãos nas pernas com
toda a sua força. Estava a fazer isto sentado e depois levantou-se; e durante
este tempo, o cão continuava sentado na neve, com a cauda de lobo enroscada à
volta das patas anteriores, as orelhas pontiagudas de lobo viradas
intencionalmente para a frente enquanto observava o homem. E o homem, enquanto
balançava os braços e batia com as mãos, foi invadido por um enorme sentimento
de inveja ao ver aquela criatura que estava quente e segura na sua proteção
natural.
Algum tempo depois começou a sentir os primeiros
sinais muito longínquos de sensibilidade nos dedos. O ligeiro formigueiro
aumentou até se transformar em picadas muito dolorosas, mas que o homem abençoou
com satisfação. Tirou a luva da mão direita e meteu-a no bolso a buscar a casca
de vidoeiro. Os dedos expostos ao ar começaram logo a adormecer outra vez. A
seguir tirou um punhado de fósforos. Mas aquele frio tremendo já arrancara a
vida aos dedos outra vez. No seu esforço para separar um fósforo dos outros,
caíram todos na neve. Tentou apanhá-los mas não conseguiu. Os dedos mortos não
conseguiam tocar nem agarrá-los. Ele agia com muito cuidado. Afastou do
pensamento a ideia da cara e dos pés e do nariz que estavam a gelar, devotando
toda a sua alma aos fósforos. Ficou a observar, usando o sentido da visão em vez
do do tato, e quando viu os dedos um de cada lado do maço de fósforos apertou-os
- ou melhor, quis apertá-los, porque as comunicações estavam cortadas e os dedos
não obedeciam. Calçou a luva da mão direita e bateu com ela violentamente contra
o joelho. Depois, com ambas as mãos enluvadas servindo como que de colher
apanhou o punhado dos fósforos juntamente com muita neve e depositou tudo sobre
o colo. Contudo as coisas não melhoraram muito.
Depois de alguma manipulação, conseguiu agarrar o
maço de fósforos juntando as palmas das mãos enluvadas e desta maneira levou-o
até à boca. O gelo estalou e partiu-se quando num violento esforço ele abriu a
boca. Recolheu o maxilar inferior e enrolou o lábio superior para abrir espaço e
arranhou o molho com os dentes de cima para separar um fósforo. Conseguiu
apanhar um, que deixou cair no colo. Mas mesmo assim as coisas não melhoraram.
Não conseguia agarrá-lo. Então pensou numa maneira. Pegou-lhe com os dentes e
friccionou-o na perna. Vinte foram as vezes que ele repetiu o movimento até
conseguir acendê-lo. Quando isso aconteceu, levou-o, sempre nos dentes, até à
casca de vidoeiro. Mas o enxofre foi-lhe para as narinas e para os pulmões e
fê-lo tossir convulsivamente. O fósforo caiu na neve e apagou-se.
O velho veterano de Sulphur Creek tinha razão,
pensou ele durante aqueles momentos de desespero controlado que se seguiram:
abaixo dos cinquenta negativos um homem deve viajar sempre acompanhado de um
parceiro. Bateu com as mãos, mas não conseguiu provocar nelas qualquer sensação.
Subitamente descalçou as luvas, puxando-as com os dentes. Pegou no molho todo
com a parte posterior das palmas das mãos juntas. Os músculos dos braços não
estavam gelados, o que lhe permitia apertar as mãos contra os fósforos. Depois
friccionou todo o molho na perna. Os setenta fósforos acenderam-se todos! Não
havia vento para os apagar. Virou a cabeça para o lado para evitar os gases
sufocantes e pôs os fósforos acesos junto da casca de vidoeiro. Enquanto assim
fazia, começou a sentir a mão. Estava a queimá-la. Sentia-lhe bem o cheiro. Bem
lá no fundo, abaixo da superfície, ele sentia-a. A sensação transformou-se em
dor aguda. Mas aguentou, mantendo a chama dos fósforos desajeitadamente junto da
casca que só não pegou logo porque as mãos se interpunham absorvendo a maior
parte da chama.
Por fim, quando já não aguentava mais, sacudiu as
mãos. Os fósforos acesos caíram, a crepitar, na neve, mas a casca ficou a arder.
Começou a pôr ervas secas e os galhos mais finos sobre a chama. Não os podia
escolher, porque tinha de pegar neles entre as mãos. Alguns pequenos pedaços de
ramos podres e de musgo verde vinham agarrados aos galhos e ele arrancou-os o
melhor que pôde com os dentes. Tratou da fogueira desajeitadamente, mas com
muito cuidado. Aquele fogo significava vida, não podia morrer. Agora a retração
do sangue da superfície do corpo fê-lo começar a tremer e ele ficou ainda mais
desajeitado. Um grande pedaço de musgo verde caiu mesmo em cima da pequena
fogueira. Tentou empurrá-lo com os dedos, mas as tremuras fizeram com que o seu
movimento fosse fundo demais e ele acabou por desfazer o núcleo da pequena
fogueira, e os pequenos galhos a arder separaram-se e espalharam-se. Tentou
juntá-los de novo, mas apesar da tensão do esforço, as tremuras dominavam-no e
os galhos ficaram irremediavelmente espalhados. Os galhos deitaram uma fumaça e
apagaram-se. O fazedor de fogueiras falhara. Ao olhar apático à sua volta, deu
casualmente com os olhos no cão sentado na neve à sua frente, do outro lado dos
restos da fogueira, fazendo movimentos impacientes com o corpo, erguendo
ligeiramente ora uma ora outra das patas dianteiras e mudando o peso do corpo de
uma para a outra numa ansiedade melancólica.
Ao ver o cão, ocorreu-lhe uma ideia louca.
Lembrou-se daquela história do homem que, apanhado numa tempestade de neve,
matou um boi e depois se arrastou para dentro da carcaça do animal, assim se
salvando. Matava o cão e enfiava as mãos no corpo quente do animal até a
dormência passar. Depois já podia fazer outra fogueira. Falou para o cão,
chamando-o; mas a voz saiu-lhe com um estranho tom de medo que assustou o
animal, que nunca ouvira o homem a falar-lhe daquela maneira. Alguma coisa se
passava, e a sua natureza desconfiada pressentiu perigo - não sabia exatamente
que perigo, mas algures no seu cérebro havia uma certa apreensão em relação ao
homem. Ao ouvir o homem, achatou as orelhas e os movimentos impacientes do corpo
e das patas acentuaram-se; mas não se chegou a ele. O homem pôs-se de joelhos e,
apoiado nas mãos, gatinhou em direção ao cão. Esta sua invulgar posição também
levantou suspeitas e o animal, a andar de lado, começou a
afastar-se.
O homem sentou-se, por momentos, na neve a procurar
acalmar-se. Depois calçou as luvas com os dentes e pôs-se de pé. Primeiro olhou
para baixo para ver se de fato estava de pé, porque a falta de sensibilidade nos
pés deixava-o desligado do solo. Esta sua posição fez com que as suspeitas do
cão se começassem a desvanecer; e quando ele falou em tom peremptório, com
aquele som de chicote na voz, o cão retomou a sua habitual postura de lealdade e
encaminhou-se para ele. Quando chegou perto, o homem perdeu o controle. Estendeu
os braços para o cão e teve uma verdadeira surpresa quando verificou que as mãos
não conseguiam agarrar, que os dedos não se dobravam e não sentiam. Esquecera-se
por momentos de que tinha as mãos geladas e que continuavam a gelar cada vez
mais. Tudo isto aconteceu muito depressa e antes que o animal pudesse fugir, ele
rodeou-lhe o corpo com os braços. Sentou-se no chão e segurou assim o cão, que
entretanto rosnava, gania e se debatia.
Mas o homem não podia fazer mais nada, apenas podia
mantê-lo seguro, abraçando-lhe o corpo, e continuar sentado. Compreendeu que não
conseguiria matar o cão. Não tinha maneira de o fazer. Com as mãos naquele
estado não conseguia pegar na navalha nem segurá-la na mão, e também não
conseguia estrangular o animal. Soltou-o e ele afastou-se furiosamente com um
salto, rabo entre as pernas e sempre a rosnar. Parou uns dez metros mais à
frente e olhou o homem intrigado, de orelhas espetadas. O homem olhou para as
mãos para as localizar e viu-as pendentes dos braços. E achou esquisita a
sensação de ter de olhar para ver onde estavam as próprias mãos. Começou a
balançar os braços para um lado e para o outro batendo com as mãos enluvadas nas
pernas. Esteve a fazer isto durante cinco minutos, violentamente, e o coração
bombeou para a superfície do corpo sangue suficiente para ele deixar de tremer.
Mas a sensibilidade das mãos não voltava. Sentia as mãos como se fossem pesos
pendurados na extremidades dos braços, mas quando tentou que essa impressão
descesse, não a encontrou.
Um certo medo da morte, opressivo e entorpecedor,
começou a apossar-se dele. Este medo depressa se tornou pungente quando ele se
apercebeu de que a questão já não era só o fato de as mãos e os dedos dos pés
estarem a gelar ou de vir a ficar sem eles, mas uma questão de vida ou de morte
e de que as chances estavam todas contra ele. Isto deixou-o em pânico e
voltou-se e começou a correr pelo leito do ribeiro seguindo o velho trilho já
meio apagado. O cão seguiu-o. Correu cegamente, sem destino, acossado por um
medo que nunca sentira na vida. Gradualmente, à medida que ia sulcando a neve
aos tropeções, começou a ver as coisas outra vez - as margens do ribeiro, os
velhos montes de ramos, os choupos despidos de folhas e o céu. A corrida fê-lo
sentir-se melhor. Já não tremia. Se continuasse a correr, quem sabe, talvez os
pés descongelassem; e em qualquer dos casos, se corresse bastante chegaria ao
acampamento onde estavam os rapazes. Ia ficar sem alguns dedos das mãos e dos
pés e uma parte da cara; mas os rapazes iam tratar dele e salvar o que dele
restasse quando lá chegasse. Mas ao mesmo tempo tinha na cabeça um outro
pensamento que lhe dizia que nunca chegaria ao acampamento dos rapazes; que o
acampamento ficava a muitas milhas de distância e que a congelamento tinha um
grande avanço sobre ele e em breve estaria hirto e morto. Esta ideia estava em
fundo e ele recusava-se a considerá-la. Às vezes ela vinha à tona e exigia a sua
atenção, mas ele empurrava-a de novo para baixo para pensar noutras
coisas.
Ficou muito admirado de ainda poder correr, com os
pés assim tão gelados que nem os sentia quando eles tocavam o chão e suportavam
o peso do corpo. Tinha visto uma vez, algures, um Mercúrio alado, e
perguntava-se se o Mercúrio se sentiria como ele, assim a planar sobre a
terra.
A sua ideia de ir a correr até ao acampamento tinha
um senão: faltava-lhe a resistência. Tropeçou várias vezes e por fim cambaleou,
não resistiu e acabou por cair. Quando tentou levantar-se, não conseguiu.
Resolveu sentar-se a descansar e depois caminhar simplesmente e manter o
andamento. Depois de se sentar e de ter recuperado o fôlego, notou que estava a
sentir quente e bem disposto. Não estava a tremer, e até lhe parecia sentir uma
réstia de calor a penetrar-lhe o peito e o tronco. Mas quando tocava no nariz ou
na cara não sentia nada. A corrida não lhes provocava o degelo. Nem às mãos ou
aos pés. E então pensou que o congelamento do corpo devia estar se a alastrar.
Tentou afastar este pensamento, esquecê-lo, pensar noutra coisa qualquer; tinha
plena consciência do pânico que aquela ideia lhe provocava, e ele receava o
pânico. Mas aquele pensamento instalou-se e persistiu até lhe produzir uma
imagem do corpo completamente gelado. Isto era demais, e encetou uma nova
corrida desenfreada pelo trilho fora. Abrandou uma vez para voltar a andar a
passo, mas aquela ideia do congelamento a avançar fê-lo começar a correr outra
vez.
E o cão sempre atrás dele, na sua trilha. Quando
caiu uma segunda vez, o animal enrolou a cauda sobre as patas dianteiras e
sentou-se à sua frente, virado para ele, curiosamente ansioso e atento. O calor
e a segurança do animal encolerizaram-no, e começou a amaldiçoá-lo até que o
animal, apaziguador, achatou as orelhas. Desta vez as tremuras voltaram mais
depressa. Estava a perder a sua luta contra o gelo. O congelamento, vindo de
todos os lados, avançava-lhe pelo corpo. Esta ideia fê-lo continuar, mas não
correu mais do que trinta metros e logo vacilou e se estatelou ao comprido. Era
o seu derradeiro pânico. Quando recobrou o fôlego e o controle, sentou-se e
começou a elaborar no seu espírito a ideia de encontrar a morte com dignidade.
Contudo, esta concepção não lhe ocorreu nestes termos. A sua ideia era que tinha
andado a fazer papel de tonto ao lançar-se naquela correria, qual galinha sem
cabeça - foi esta a imagem que lhe veio à ideia. Bem, como, de qualquer maneira,
estava condenado a ficar todo gelado, podia ao menos aceitar o fato com alguma
decência. Com esta paz de espírito recém descoberta chegaram também os primeiros
sinais de sonolência. Uma boa ideia, pensou ele, dormir até morrer. Era como
tomar um anestésico. Gelar não era afinal tão mau como se pensava. Havia muitas
maneiras de morrer bastante piores.
Imaginou os rapazes a encontrarem o corpo no dia
seguinte. E subitamente viu-se a si próprio a ir com eles pelo trilho à sua
procura. E, ainda com eles, depois de uma curva, deparou com o próprio corpo
deitado na neve. Já não era parte de si mesmo, porque mesmo nessa altura ele
estava fora de si próprio, ali com os rapazes à procura de si próprio. Estava
realmente muito frio, foi o que pensou. Quando voltasse para os Estados Unidos,
já podia dizer aos amigos o que era o verdadeiro frio. Passou desta imagem para
uma visão do velho veterano de Sulphur Creek. Via-o distintamente, muito
confortável e quente, a fumar cachimbo.
- Tinhas razão, velho amigo, tinhas toda a razão -
sussurrou para o velho veterano de Sulphur Creek.
Depois o homem caiu naquilo que lhe pareceu ser o
mais confortável e restaurador dos sonos que jamais experimentara. O cão
continuava sentado a olhar para ele, à espera. O curto dia aproximava-se do fim
num crepúsculo longo e lento. Não havia sinais de que se fosse fazer qualquer
fogueira, e além disso, nunca na sua experiência o cão conhecera homem nenhum
que ficasse sentado na neve sem fazer uma fogueira. À medida que o crepúsculo
avançava, o seu desejo por uma fogueira aumentava, e, mexendo-se muito e
trocando constantemente a posição das patas dianteiras, começou a ganir baixinho
e depois achatou as orelhas, a antecipar a zanga do homem. Mas o homem
continuava calado. Depois o cão começou a ganir alto, e a seguir rastejou até
junto do homem, mas cheirou-lhe a morte. Isto fê-lo eriçar-se e recuar. Ficou
ainda um pouco a uivar sob as estrelas, que saltitavam e dançavam brilhantes no
céu frio. Depois voltou-se e começou a trotar pelo trilho adiante em direção ao
acampamento que ele conhecia e onde estavam os outros alimentadores e fazedores
de fogueiras.