Então, finalmente podemos começar a leitura de "Amor Líquido", do
Zygmunt Bauman. Aqui está o link do blog: http://amorliquidolivro.blogspot.com/
O primeiro post é o prefácio do livro, que já dá muito o que discutir.
Leiam, e quem já leu, comente. Enquanto lêem, tenha em mente não
apenas os relacionamentos amorosos, mas todos os tipos de
relacionamento, incluindo os nossos relacionamentos aqui no grupo, e
com nossos coletivos ou grupos.
Eu comento em breve.
Abraços
Janos
Olá, Zaire, eu concordo com os comentários do Janos sobre minha observação sobre a religião. Não quis afirmar que a religião seria a panacéia geral para os nossos problemas. E você tem razão quando diz que religião não é nenhuma novidade. Minha reflexão diz respeito a necessidade de encontrar espaços dentro do sistema para experiências antisistema, vivências de uma outra vida ou convivência. Isso inclui a religião, mas pode abarcar vários aspectos da existência: o trabalho, educação, a moradia, a amizade, militância política. A questão em todos esses casos é: como estamos vivendo tudo isso? Por isso gostei da sugestão de lermos o amor líquido. De início tenho um certo problema com a imagem utilizada sólido-líquido, porque não necessariamente vejo um lado ou outro da oposição como positivo ou negativo em si. Depende muito. O texto do Baumann parece que oscila entre uma descrição e uma prescrição, ou seja, ao mesmo tempo determina o que acontece e insinua o que deveria acontecer. Sinto uma atmosfera de lamentação em torno do fim da modernidade. A tese central é a de que os relacionamentos humanos em geral tornaram-se frágeis, descartáveis, frouxos. O que era sólido tornou-se líquido. Pergunto-me se não pode haver um meio-termo entre solidez e liquidez. Digo isto, porque a solidez pode significar certeza, segurança, mas também rigidez, enrijecimento, paralização, enquanto que a liquidez pode significar superficialidade, imediatismo, ausência de compromisso, mas também fluxo, dinamicidade, movimento, vida. Penso especialmente no fragmento de Heráclito: que diz que "tudo flui". Será que esta fluidez não é constitutiva da vida? Entendo a preocupação do Bauman, pois o problema real apontado pelo texto diz respeito a conexão entre esta fluidez e a individualidade moderna, isolada e hedonista. O hedonismo vem a tona, quando Bauman cita um texto do Calvino sobre os habitantes de Leônia, que estão sempre em busca de coisas novas. Ele aparece também na observação, de que o grande obstáculo à permanência das relações são os seus aspectos difíceis, o compromisso, as restrições, as obrigações, as responsabilidade. O indivíduo moderno tende a encar tudo isso como limitação da liberdade. No fundo tudo gira em torno da conexão entre liberdade e relacionamento. Em que medida sou livre ao atar-me a alguém? A dificuldade de resolver esta questão gera o movimento contraditório descrito por Bauman, ao mesmo tempo o desejo por relacões e a tentativa de não estabelecer vínculos sérios. abraço, Thiago |
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Reconheço a importância do tema, mas, em se tratando de relações entre indivíduos (ou o "amor"), interesso-me por uma abordagem um pouco diferente: a forma como "aprendemos" que o amor pode ser, se não a solução de todos os nossos problemas, pelo menos algo que pode dar, por si só, sentido às nossas vidas. Percebo que isso está em quase todos os lugares, e isso me incomoda. Até no Clube da Luta, no livro, o Narrador diz que tudo - inclusive Tyler - aconteceu só pq ele queria a Marla [1] - no filme isso não fica muito claro, e é um dos motivos que me faz dizer que o filme é mais interessante do que o livro. Aliás, não sei se o Janos se lembra, mas conversei a respeito disso com ele via MSN por conta do jogo "Today I Die" (antes até deixei um comentário no blog dele perguntando se era isso, se
no fim é sempre o amor).
Desconfio que é muito conveniente que o amor seja visto assim, como algo que pode legitimar nossas existências, dar sentido a elas, pois, se vc não o consegue (não consegue senti-lo ou que alguém o sinta por vc), obviamente que a culpa é sua e isso explica a sua vida vazia. Não há o que procurar na estrutura social, o problema é somente vc (nem vou falar sobre os modelos inalcançáveis que nos são impostos). Nesse campo, entendo, ficamos sempre no nível individual, na interação entre indivíduos, nunca passamos à esfera social, que pode ser mais esclarecedora.
Porém, em relação ao texto, sinto dificuldades em comentar. Achei muito prolixo e pouco objetivo. Tudo bem que é só um prefácio, mas senti falta de, digamos, "teoria". Ele reclama da abordagem "senso comum" que o tema recebe, mas não o vi fazendo nada diferente disso no texto. É verdade que tenho uma certa prevenção contra o autor, por achá-lo muito conservador e nostálgico (não há sempre um ar de "nos velhos tempos era melhor, esse mundo está perdido" em seus textos?) na sua crítica (outra coisa que me incomoda é a sua parcialidade quase militante no tratamento de seus objetos), mas prometo (tentar) deixar isso de lado e ler com atenção os próximos capítulos.
[1] "Sei por que Tyler aconteceu. Tyler amava Marla. Naquela noite em que eu a conheci, Tyler ou parte de mim queria encontrar uma maneira de ficar com Marla." (Cap. 28, início da pg. 104 no pdf que eu tenho).
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