Amor Líquido

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Janos Biro

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Dec 17, 2009, 3:48:19 AM12/17/09
to Civilização
Olá todos,

Então, finalmente podemos começar a leitura de "Amor Líquido", do
Zygmunt Bauman. Aqui está o link do blog: http://amorliquidolivro.blogspot.com/

O primeiro post é o prefácio do livro, que já dá muito o que discutir.
Leiam, e quem já leu, comente. Enquanto lêem, tenha em mente não
apenas os relacionamentos amorosos, mas todos os tipos de
relacionamento, incluindo os nossos relacionamentos aqui no grupo, e
com nossos coletivos ou grupos.

Eu comento em breve.

Abraços

Janos

Thiago Aquino

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Dec 20, 2009, 9:12:36 AM12/20/09
to civil...@googlegroups.com

 Olá,

  Zaire, eu concordo com os comentários do Janos sobre minha observação sobre a religião. Não quis afirmar que a religião seria a panacéia geral para os nossos problemas. E você tem razão quando diz que religião não é nenhuma novidade. Minha reflexão diz respeito a necessidade de encontrar espaços dentro do sistema para experiências antisistema, vivências de uma outra vida ou convivência. Isso inclui a religião, mas pode abarcar vários aspectos da existência: o trabalho, educação, a moradia, a amizade, militância política. A questão em todos esses casos é: como estamos  vivendo tudo isso? Por isso gostei da sugestão de lermos o amor líquido. De início tenho um certo problema com a imagem utilizada sólido-líquido, porque não necessariamente vejo um lado ou outro da oposição como positivo ou negativo em si. Depende muito. O texto do Baumann parece que oscila entre uma descrição e uma prescrição, ou seja, ao mesmo tempo determina o que acontece e insinua o que deveria acontecer. Sinto uma atmosfera de lamentação em torno do fim da modernidade. A tese central é a de que os relacionamentos humanos em geral tornaram-se frágeis, descartáveis, frouxos. O que era sólido tornou-se líquido. Pergunto-me se não pode haver um meio-termo entre solidez e liquidez. Digo isto, porque a solidez pode significar certeza, segurança, mas também rigidez, enrijecimento, paralização, enquanto que a liquidez pode significar superficialidade, imediatismo, ausência de compromisso, mas também fluxo, dinamicidade, movimento, vida. Penso especialmente no fragmento de Heráclito: que diz que "tudo flui". Será que esta fluidez não é constitutiva da vida? Entendo a preocupação do Bauman, pois o problema real apontado pelo texto diz respeito a conexão entre esta fluidez e a individualidade moderna, isolada e hedonista. O hedonismo vem a tona, quando Bauman cita um texto do Calvino sobre os habitantes de Leônia, que estão sempre em busca de coisas novas. Ele aparece também na observação, de que o grande obstáculo à permanência das relações são os seus aspectos difíceis, o compromisso, as restrições, as obrigações, as responsabilidade. O indivíduo moderno tende a encar tudo isso como limitação da liberdade. No fundo tudo gira em torno da conexão entre liberdade e relacionamento. Em que medida sou livre ao atar-me a alguém? A dificuldade de resolver esta questão gera o movimento contraditório descrito por Bauman, ao mesmo tempo o desejo por relacões e a tentativa de não estabelecer vínculos sérios.
abraço,
Thiago


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Janos Biro

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Dec 20, 2009, 5:34:53 PM12/20/09
to civil...@googlegroups.com
Thiago,

Acho que você expôs bem a problemática. Recentemente muitas pessoas tem me dito que algumas coisas que eu defendo são extremamente "limitantes". O que querem dizer com isso? Acho que o Bauman dá uma perspectiva interessante sobre isso. Parece que na modernidade ninguém quer ficar "limitado", mas também ninguém quer viver sozinho. Eu não defenderia o mesmo que o Bauman defende, mas sua análise é importante.

Sem querer tirar a seriedade da discussão, assisti por coincidência, enquanto visitava alguém, um filme de animação chamado "O bicho vai pegar 2" (Open Season 2), que, por incrível que pareça, tem muito a ver com o tema dessa discussão.

O filme apresenta um conflito entre animais domesticos e selvagens, com foco num cachorro "alemão", de raça, que acaba se fugindo de sua dona e indo morar no ambiente selvagem. Mostra um cervo que, por medo do compromisso (o temível "para sempre") e talvez por um pouco de orgulho ferido por perder seu símbolo de maculinidade, a galha, adia o máximo possível o seu casamento, usando de uma "meia-verdade". O poodle é um personagem interessante, pois seu ódio pelos selvagens vem de uma experiência que ele descreve como "perda da inocência e de seu brinquedinho". No final, o cachorro resolve voltar para a dona, e fala alguma coisa sobre a necessidade de estar "atado" a alguma coisa.

Abraços

Janos

2009/12/20 Thiago Aquino <tama_...@yahoo.com.br>
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hugo

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Dec 20, 2009, 5:44:12 PM12/20/09
to civil...@googlegroups.com
Reconheço a importância do tema, mas, em se tratando de relações entre indivíduos (ou o "amor"), interesso-me por uma abordagem um pouco diferente: a forma como "aprendemos" que o amor pode ser, se não a solução de todos os nossos problemas, pelo menos algo que pode dar, por si só, sentido às nossas vidas. Percebo que isso está em quase todos os lugares, e isso me incomoda. Até no Clube da Luta, no livro, o Narrador diz que tudo - inclusive Tyler - aconteceu só pq ele queria a Marla [1] - no filme isso não fica muito claro, e é um dos motivos que me faz dizer que o filme é mais interessante do que o livro. Aliás, não sei se o Janos se lembra, mas conversei a respeito disso com ele via MSN por conta do jogo "Today I Die" (antes até deixei um comentário no blog dele perguntando se era isso, se no fim é sempre o amor).
 
Desconfio que é muito conveniente que o amor seja visto assim, como algo que pode legitimar nossas existências, dar sentido a elas, pois, se vc não o consegue (não consegue senti-lo ou que alguém o sinta por vc), obviamente que a culpa é sua e isso explica a sua vida vazia. Não há o que procurar na estrutura social, o problema é somente vc (nem vou falar sobre os modelos inalcançáveis que nos são impostos). Nesse campo, entendo, ficamos sempre no nível individual, na interação entre indivíduos, nunca passamos à esfera social, que pode ser mais esclarecedora.
 
Porém, em relação ao texto, sinto dificuldades em comentar. Achei muito prolixo e pouco objetivo. Tudo bem que é só um prefácio, mas senti falta de, digamos, "teoria". Ele reclama da abordagem "senso comum" que o tema recebe, mas não o vi fazendo nada diferente disso no texto. É verdade que tenho uma certa prevenção contra o autor, por achá-lo muito conservador e nostálgico (não há sempre um ar de "nos velhos tempos era melhor, esse mundo está perdido" em seus textos?) na sua crítica (outra coisa que me incomoda é a sua parcialidade quase militante no tratamento de seus objetos), mas prometo (tentar) deixar isso de lado e ler com atenção os próximos capítulos.
 
[1] "Sei por que Tyler aconteceu. Tyler amava Marla. Naquela noite em que eu a conheci, Tyler ou parte de mim queria encontrar uma maneira de ficar com Marla." (Cap. 28, início da pg. 104 no pdf que eu tenho).
 


--- Em qui, 17/12/09, Janos Biro <janosb...@gmail.com> escreveu:
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Janos Biro

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Dec 20, 2009, 6:13:27 PM12/20/09
to civil...@googlegroups.com
Hugo,

Acho que esse lado não pode ser tirado da discussão, e desconfio que o próprio Bauman o considera. Podemos nos questionar até que ponto conseguimos escapar desse mesmo efeito.

Abraços

Janos

2009/12/20 hugo <hug...@yahoo.com.br>
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