É verdade, quando ele acorda a primeira coisa que ele pede é saquê.. ele vivia na embreaguez e sua embreaguez tornava a vida mais facil de ser vivida.. outro dia um companheiro me perguntou como eu aguentava viver sem alcool, sem drogas.
eu disse que não sabia.. mas eu ja quase me rendi.. ja quase me entreguei varias vezes, quem sabe amanha nao pode ser o dia?
mas eu nao sei exatamente porque eles se mantinham firme em suas posiçoes.
abraços.
> Date: Thu, 13 Aug 2009 20:01:03 -0700
> Subject: [Civilização?] Re: O último samurai
> From: janosb...@gmail.com
> To: civil...@googlegroups.com
>
>
Meu amigo, a gente tem que perceber que a gente nao se embreaga apenas nas drogas que a gente normalmente ve como drogas.. por exemplo sabe quantas pessoas sao viciadas em jogos de azar ou jogos eletronicos? esses jogos causam sensaçoes de prazer no cerebro comparado a drogas pesadas como heroina. Eu posso dizer porque eu ja fui um deles.. cresci trancado no quarto jogando joguinho no computador.. eu consegui parar de jogar por um bom tempo.. mas pasmem senhores, a umas semanas atras eu tava tao drepimido.. dai eu eu baixei um jogo que parecia com um que eu costumava jogar, um jogo de RPG online, dai eu comecei a jogar, e joguei muito.. me embreaguei de tanto jogar.. dai eu me senti um lixo denovo, e me forcei a deletar o jogo do computador. ou seja, pdoe nao ser vinho, mas pode ser coca cola.. oque na verdade se tratam é de valvulas de escape.
abraço!
From: claito...@gmail.com
Date: Fri, 14 Aug 2009 10:11:39 -0300
Subject: [Civilização?] Re: O último samurai
Vou fazer um rápido comentário. Acho que ao falar de benefícios ou
malefícios de algo, é preciso levar em conta muito mais do que a saúde
imediata do sujeito que experimenta ou depende do "entorpecente".
Podemos fazer uma distinção entre a necessidade de "compensação" das
"atividades econômicas" com "atividades lúdicas", e o hábito
civilizado de angústia para "ocupar nosso tempo livre" com atividades
"divertidas", que em geral não são nem muito distintas do trabalho. Um
autor que eu li (mas não me lembro quem) falou que hoje nós na verdade
tratamos o entretenimento como uma obrigação, como um outro tipo de
trabalho, que visa consumir sua renda e te "relaxar", em
complementação ao ciclo do trabalho que gera renda.
Voltando ao último samurai, eu insisto em perguntar:
Que tipo de valor os samurais mantiveram que os japoneses perderam?
(Gostaria de poder fazer como um professor meu que oferece uma balinha
para quem acertar, como forma de incentivo)
Katsumoto teve um sonho com um tigre branco que continuava lutado
mesmo quando cercado. Poupa a vida do Nathan por pereceber algo de
semelhante entre ele e o tigre. O que o comportamento de ambos
expressava? Por que era importante para o samurai?
Abraços
Janos
Zaire,
voce tocou num ponto importante, sobre as novelas.. que eu acho que tem haver com a mentira, porque cada vez as pessoas deixam de viver e passam a assistir, ser espectadores da vida, a pessoa começa a se ver nos personagens e atravez deles viver uma vida que elas nao vivem, experiencias e aventuras que elas nao vivem. Como no video game, ou nos jogos.. quando eu jogo eu sinto que eu estou sendo algo que eu nao sou na vida real, geralmente eu escolho personagens que parecem comigo fisicamente mas que tem predicatos que eu gostaria de ter, como bravura, força e etc. Alem disso, eu sinto que essa vida assistida, vai tornando as "coisas" e as experiencias, cada vez mais banais, é como se fosse uma banalizaçao de tudo que existe, entao tudo que a gente experimenta, a gente ja viu na tv antes, nao existe nada a ser descoberto mais. Eu tambem gostava de pornografias, e de uns tempos para cá tomei verdadeira repulsa por isso, assim como nao aguento mais ver as novelas, os filmes ja tao perdendo a graça tambem, tudo que torna minhas experiencias coisas banais vem gerando desinteresse da minha parte. E o curioso é no caso de varios filmes(nao todos) e das novelas, dos animes e etc, é que de uma certa forma é sempre a mesma coisa.. se voce for parar para perceber, só muda aspectos artificiais, hoje a novela é da a india, ontem era das arabias, e anti ontem era dos estados unidos, mas o resto nao muda nada hehehe, é sempre a mesma porcaria, e as pessoas nao se enjoam disso, é impressionante.
Espero ter tocado num ponto relevante, Abraçao!
Date: Thu, 20 Aug 2009 22:28:38 -0300
Subject: [Civilização?] Re: O último samurai
Concordo com o Zaire e com o Felipe. Mas compreendo que novelas podem
ser usadas para se fazer uma análise da sociedade. Realmente são uma
fonte de pesquisa para entender a mente da maioria dos brasileiros.
Não creio que artefatos culturais são neutros. Isso seria como dizer
que não é uma propriedade do veneno ser letal. Existe arte que nos faz
refletir e existe arte que nos faz delirar e nos afasta da reflexão,
muito embora com algum esforço podemos também refletir sobre isso.
Acho que as novelas no Brasil são escritas e produzidas com intenção
alienante, e nesse sentido não são neutras. Por mais que possam ser
usadas para uma análise, elas são feitas com a intenção de gerar
lucro, e fazem isso propagando as crenças dessas cultura, nunca o o
contrário.
Pode-se fazer uma discussão crítica com base nas novelas exatamente
porque as personagens representam ideais de nossa cultura. Se isto é
arte, é um tipo de arte onde o processo de criação visa
prioritariamente o lucro e a propaganda. A novela gera moda e gera
modelos a serem seguidos. A mesma coisa ocorre em outras áreas da
produção cultural, claro.
Eu acho que filmes de Hollywood são melhores do que filmes "cult" e
europeus para se fazer análise da cultura, exatamente porque estes
filmes expõem as crenças culturais, a visão de mundo, e dialogam com a
massa e com o cotidiano. Filmes "cult" geralmente são mais restritos
nesse sentido, sua linguagem é reservada. Raramente um filme desses
discute algum tema amplo, geralmente são opiniões pessoais de eruditos
sobre assuntos muito subjetivos. Aprendi isso no cine intellectus, um
evento onde analisamos filmes, e na minha própria experiência em
exibir filmes e dirigir debates sobre eles.
Nesse sentido, novelas refletem melhor o brasileiro médio. Mas a
análise realmente relevante para o nosso contexto não é feita pela
maioria das pessoas, que apenas absorvem passivamente.
Discussões de bar podem ser muito empolgantes, mas sinceramente não
costumam a ser realmente relevantes. Até porque o ambiente do bar é de
descontração, não de seriedade. E a bebida faz perder a distinção
entre o que é realmente relevante e o que não é, porque faz tudo
parecer muito interessante. O modo como o brasileiro assiste novela
também é assim. É para descontração e distração, e a novela faz
qualquer tema parecer muito importante para a sociedade. Os produtores
da novela sabem que ao colocar uma cena, ela gerará discussão. E
colocam as coisas de forma que faça parecer que realmente faz alguma
diferença se você concorda com a personagem ou não, se está do lado de
uma ou da outra. É como política. As coisas que realmente poderiam
gerar mudança não são colocadas, por motivos óbvios.
Infelizmente é devido ao alto grau de alienação que os filmes de
Hollywood podem abordar temas tão profundos. Pois as pessoas que
assistem já estão "vacinadas" contra a verdade, e tratam um tema
importante como uma ficção, como uma simples discussão de bar, tão
relevante quanto saber se o marido deve aceitar de volta a esposa que
o traiu ou quem matou Odete Roitman. Os atores participam de filmes
assim e as idéias contidas ali não os afetam de forma alguma, eles
continuam vivendo como o mesmo estilo de vida. Foi por isso que V de
vingança foi mal recebido por alguns anarquistas. Eles temeram que,
depois do filme, qualquer um que fale de anarquia vai estar sendo tão
fantasioso quanto alguém que acredita que pode voar como o
super-homem. Eu vi muitas pessoas fazerem esse comentário sobre clube
da luta. Adoraram o filme, mas acham ridículo quem acredita que o que
é dito deva ser levado a sério, pois "é só um filme". As pessoas podem
debater sobre uma coisa hoje, e logo depois vão discutir outro
assunto, e por aí vai.
Nesse sentido, a indústria cultural consegue gerar passividade e
alienação mesmo quando quando ela estimula os debates sobre temas
aparentemente profundos e importante, que chamam a atenção para nossa
realidade. Pois isso também é uma estratégia da propagação da mentira.
Não sei se já falei isso, mas teve uma vez que eu vi o Sílvio Santos
dizer o seguinte para a platéia: "Vocês já compraram a telesena? Quem
bom, porque é de 5 em 5 reais que vocês ficam pobres e eu fico rico".
Quando a alienação chega a certo nível, é vantajoso dizer a verdade,
para se acomodar com a mentira. Como eu acho que ficou claro, dizer a
verdade também pode ser um instrumento da mentira, basta que haja
seletividade. Dizemos a verdade, mas não toda a verdade, só aquela que
não nos afeta. Os produtores da indústria cultural não nos mostram o
seu ponto fraco. Quando eles mostram algo, é porque sabem que a
maioria das pessoas não usará aquilo contra eles, é porque é seu ponto
forte.
Você não verá este tipo de discussão na novela. E se ver, é porque o
discurso já se tornou inócuo, inofensivo, ou foi assimilado. A
indústria cultural nos dá as ilustrações de um mundo decadente, mas
não nos dá a sabedoria para interpretar e refletir de forma adequada
sobre a realidade. O outro olhar que eu propus é enquanto ilustração
de um tema que pode não estar contido no filme de forma alguma.
Abraços
Janos
Tem muitas questões no que o Felipe e o Kana falaram. Acho que as
pessoas vêem essas questões, mas ao mesmo tempo elas as vêem como
ficção, que não precisa ser levada a sério. É diversão, nada mais.
Isso está no sub-texto. As empresas dizem para os autores: escrevam o
que quiserem, nos critiquem se quiserem, não temos mais censura,
porque não importa que mensagem vocês passem, ela não será discutida a
fundo nem por muito tempo. Nós colocamos uma propaganda de cerveja
logo depois e pronto, tudo se torna irrelevante. Então podemos
transformar revolta em produtos.
As pessoas sabem que música é só música, desenhos são só desenhos.
Questões filosóficas são apenas discussões divertidas. O parâmetro é a
efetividade de distração, e por isso o perigo sempre presente é que
transformem nosso discurso num produto e o vendam, porque quando fazem
isso ele já deixou de ter o efeito.
Então, apesar de gostar de Clube da luta, há um motivo porque este
filme não tem efeito. Acho que já discuti sobre projeto caos, e as
idéias de Durden não são nada mais que um anarco-primitivismo. Seria
interessante abrir os olhos das pessoas para enxergar o filme por trás
do filme, o livro por trás do livro, mas para isso é preciso nosso
velho pré-requisito, a mudança de pressupostos, a disposição para
reflexão. Sem isso, a pessoa não capta a mensagem, ou a capta mas essa
não a afeta, não faz sentido para ela. É apenas mais uma das inúmeras
"questões de importância humana" que aprendemos a ignorar todos os
dias. E o problema é que se pudéssemos mudar os pressupostos das
pessoas, então estaria tudo resolvido, não é? Mas não podemos
converter as pessoas, nem com argumentos nem com violência. Temos que
continuar abertos para quem tem o interesse, e nos concentrar nessas
pessoas.
O anarco-primitivismo do Durden tem seus problemas, é só perceber que
o próprio autor do livro não levou essa idéia muito a sério. Eu não
acredito em usar a agressividade reprimida como arma, isso é apenas
canalizar um impulso assim como Freud diria que impulsos sexuais devem
ser canalizados para o trabalho. Ah pontos importantes em clube da
luta, mas como um todo essa "libertação" é questionável. Podemos
discutir isso em outro tópico. Vamos voltar ao Último Samurai.
Abraços
Janos
Existe um primitivismo niilista, e acho que o autor se aproxima dele.
Isso fica evidenciado quando ele insiste que somos apenas material em
decomposição e que somos os filhos rejeitados de Deus.
Eu só discordo de você sobre o crime. Talvez você esteja vendo o crime
como algo que ataca nossa economia. Eu penso que é o oposto, nossa
economia depende do crime. Ele fomenta não apenas uma indústria multi
bilionária por si só, como também fomenta a indústria do medo, que
inclui a polícia, aumentando a demanda pela segurança enquanto
produto. Se o crime acabasse, a economia entraria em crise. Michael
Ende fala um pouco sobre isso em um dos seus contos de crítica radical
à economia.
Mas este tópico originalmente era sobre O último samurai. Entendo que
vocês se interessem mais pelo Clube da luta, mas há relações entre os
dois. Em ambos, um personagem mergulhado na mentira da civilização
descobrem outros valores por meio de experiências de dor ou
sacrifício. Tentem fazer agora a relação entre os dois finais.
Abraços
Janos
Eu acho que você está sofrendo da mesma ingenuidade que eu detectei no
filme. Você expôs de forma clara exatamente o que eu estava pensando,
apenas não refletiu criticamente sobre isso. Talvez você tenha se
apegado demais ao filme.
1 - Uma luta ser terapia não a torna não agressiva. A terapia está
precisamente em usar a agressividade, não é?
2 - Existe uma diferença muito grande entre jogar algo no fogo e atear
fogo em algo. Você pode destruir os prédios de crédito, e daí? Se o
capitalismo foi criado sem isso, pode ser recriado sem isso. Não é o
fim enquanto houver alguém que queira continuar. Você quer conquistar
toda a classe trabalhadora e ainda pergunta onde está a ingenuidade?
3 - Te digo que 90% dos jovens estressados que assistem esse filme o
adoram e seriam facilmente convencidos a embarcar nessa. E depois de
passar a empolgação fariam qualquer coisa para voltar ao conforto da
civilização, porque não houve mudança de pressupostos alguma, só uma
rebeldia contra o sistema.
4 - Zaire, eu é que não acredito que você realmente parou para pensar
sobre o que eu escrevi. O que você está dizendo não faz sentido algum.
Você acha que não se importar com a própria imagem é suficiente para
se opor à civilização? Tem um monte de gente assim por aí, isso é
muito superficial. Imagem de cara rebelde também é imagem, Zaire, o
personagem ostentava as manchas de sangue com orgulho, isso é imagem
também.
5 - Raspar o cabelo e cortar as unhas era meramente funcional, ou
poderia ter a questão da imagem envolvida também. Onde está seu
argumento? Você parece que está citando coisas desconexas para fazer
uma justificação retórica.
6 - Quem disse que líderes carismáticos tem que ter controle de algo.
O fato de ser um líder dispensável não é vantagem alguma, ao
contrário. Cada membro internalizou suas ordens, mas não é capaz de
mudá-las. Não há mais orientação, apenas a reprodução de um programa.
Foi exatamente assim que a civilização começou. Perde-se o
discernimento e a reflexividade, não há nada de positivo nisso.
Você não é o primeiro a cair nessa interpretação fanática do filme.
Este filme causa esse efeito em muita gente, infelizmente.
Abraço
Janos
Supermercados esperam que as pessoas os roubem. Quem paga não são
eles, são os outros compradores. Acho que você não está vendo a cadeia
de implicações. Roubo é uma falsa solução, já está assimilado, os
supermercados roubam de nós, nós roubamos deles, eles lucram nós
sobrevivemos. Ainda é ponto para a civilização. Não tem ver com o
risco de ser pego, isso é o de menos. A questão é achar que o roubo
tem alguma efetividade contra a civilização. Roubo é tão ineficaz
quanto uma doação, porque no fundo da na mesma. O que roubamos é uma
doação que os ricos fazem aos pobres, porque permitem o roubo.
Há certas coisas inúteis que o Estado te obriga a fazer, mas
simplesmente se rebelar contra ele não apenas é perda de tempo, é
também um dos motivos pelo qual o Estado justifica o monopólio da
força e justifica seu poder.
Depois eu falo sobre o filme então.
Abraço
Janos
Gente, como eu falei antes do topico ser criado, oque mais tem sao pessoas que adoram o FightClub, inclusve um tantao de badboy. Imagine quantas pessoas assistiram o filme aqui no brasil? agora eu pergunto com que frequencia voces ouvem falar de projeto caos? hahahah eu nunca ouço pelo menos. Agora, esse negocio de ficar assistindo sem parar, acho isso muito esquisito pra falar a verdade, o Zaire deve ter achado mesmo o filme muito charmoso.
From: felipe...@hotmail.com
To: civil...@googlegroups.com
Subject: [Civilização?] Re: Clube da Luta
Date: Sun, 20 Sep 2009 14:29:39 -0300
O adolescente que atacou com explosivos uma loja da cafeteria Starbucks em Nova York, no último dia 25 de maio passado, se inspirou no filme "O Clube da Luta", informou a polícia nesta quarta-feira. A explosão aconteceu perto de uma Starbucks que fica próxima à Terceira Avenida e estava fechada no momento do ataque. Ninguém ficou ferido.
Kyle Shaw, 17, foi preso nesta terça-feira sob a acusação de explodir uma bomba caseira na loja do Starbucks no bairro de Upper East Side, em Manhattan, no feriado do Memorial Day, afirmou o comissário Raymond Kelly.
Segundo Kelly, Shaw agiu inspirado no filme de 1999 protagonizado por Brad Pitt e Edward Norton, "O Clube da Luta". O jovem, inclusive, teria organizado seu próprio clube de luta, que se reunia no Central Park para brigar.
Como o personagem de Brad Pitt, Shaw disse que queria expandir seu clube com um "projeto caos" --que no filme incluía ataques contra símbolos das corporações americanas.
O comissário lembrou que no filme um Starbucks figura entre os alvos dos ataques, descrito como "uma franquia de cafeteria" sob o nome de Gratifico.
Segundo Kelly, o adolescente disse a seus amigos antes do atentado que observassem a TV no Memorial Day, e fabricou a bomba caseira com uma garrafa plástica cheia de pólvora.
1 - Devo lembrar que este "instinto" que está sendo reprimido não é
exatamente liberado, mas canalizado para outras atividades. Segundo
Freud essa é a própria mola propulsora da civilização. É esta relação
que você não está fazendo. USAR um instinto para fazer qualquer coisa
já é uma forma de controle. O problema não é como USAR isso, o
problema é porque essa energia se acumula. Se fosse simplesmente
liberado, a energia não poderia ser usada para um fim específico,
planejado e calculado.
2 - Você resumiu o argumento do Zeitgeist sobre os sistemas
financeiros. Interessante. Mas verificou se isso é verdadeiro? O
problema é você achar que o problema está no sistema financeiro, e não
na disposição das pessoas de cometer injustiça e tirar vantagem do
outro. Em "Ensaio sobre a cegueira", as pessoas estão numa situação
onde você diria que estão todos fora da civilização. Você está se
esquecendo que a civilização está na nossa mente, não somos nós que
estamos na civilização, é ela que está em nós.
De onde você tirou a idéia que se acabasse o dinheiro as pessoas
teriam que usar ouro? Poderiam usar folhas de árvore ou água se fosse
o caso. E não acho que o capitalismo teme o caos. Ele abraçaria o caos
com prazer. Guerras existem para destruir o que está feito e
reconstruir tudo de novo. Se isso ocorre em escala global ou não, não
faz diferença para o capitalismo.
4 - Explodir seu apartamento não te tira da civilização, nem ela de
dentro de você, se forma alguma. Acúmulo não depende de você ter
alguma coisa, e não é meramente material. E não estou sendo
tendencioso, não estou contra-argumentando por argumentar. Tenho pouco
tempo e me foco no que eu discordo, e explico porque discordo disso.
5 - Você está querendo passar a idéia do filme ou sua própria idéia
sobre a civilização?
6 - Se você quer se concentrar em pontos positivos do filme, só acho
que os pontos que você defende na verdade não são positivos, por isso
eu achei que estava discordando de você, e não do filme. O filme tem
pontos positivos, só acho que são outros.
Abraços
Janos
Concordo com você sobre o filme, mas não sobre civilização. Sou um
crítico radical da civilização enquanto termo geral, não dessa ou
daquela civilização. Acho que as coisas podem e devem mudar
radicalmente, desde as premissas fundamentais de nossa cultura, e
qualquer outro tipo de mudança será apenas um reformismo inútil. Não
vejo sentido em simplesmente conseguir um "tempo pra respirar". Isso é
válido num tempo curto, mas a longo prazo não faz sentido, seria
inclusive contra-efetivo, pois a civilização retornaria com muito mais
"gás".
Janos
"Puts, 17 anos. Espero que da proxima vez ele faça direito, e mande
tudo pelos ares. Porque dai pelo menos vai ter feito um bom serviço
antes de perder a juventude na cadeia."
As empreiteiras agradeceriam.
Janos
Você respondeu de forma agressiva. Com a mesma disposição que teve na
nossa conversa anterior. Aparentemente você está se voltando contra a
autoridade religiosa, e descontando isso em mim. Imagino que algo
aconteceu recentemente que criou essa indisposição. Talvez algo ruim
que você relacionou com a autoridade religiosa. De qualquer forma
temos um grande problema quando você termina um e-mail com um
“abraço”, quando na verdade sua intenção não é boa. Não é esclarecer
seu ponto de vista, mas obscurecer o meu. Se você continuar com essa
disposição, inviabilizaremos nosso diálogo permanentemente. Preste
atenção nisso, não sou eu que vou parar de falar com você, é você que
irá mais me ouvir. Seus argumentos foram:
1 – Taxa de desperdício. Mas o roubo diminui o desperdício? Rouba-se o
que está sendo desperdiçado? Qual a relação?
2 – “quem compra não trabalha”? Como assim? Pobres não compram? Pobres
não trabalham, inclusive no supermercado?
3 – Você não dá mais dinheiro para a empresa que você rouba, mas para
outras. Para a empresa de segurança que é contratada. Para a empresa
que faz seguro. Para empresa que produz aqueles produtos que estão
vendidos... No capitalismo, o prejuízo alguém é o lucro de outro. Você
está entendendo isso? E de onde você tira? As empresas não assumem o
prejuízo, elas externalizam, quem paga são empregados ou outros
consumidores. De forma que, se você quer se opor ao acúmulo, porque
não começa por você mesmo?
4 – Você diz que as empresas são parasitas, e o que são ladrões senão
pequenas empresas? Claro, você pode usar a figura de um Robin Hood,
mas não vê problema algum nisso? Acha que isso é realmente praticável?
Eu vejo dois problemas, além dos já citados (que o crime estimula uma
indústria anti-crime e que apenas estimula maior produção): Roubar dos
ricos para dar aos pobres é apenas obrigar os ricos a redistribuir
parte de suas riquezas. O primeiro erro é que se é por obrigação,
então não há mudança real, só outra forma de exercer poder e controle.
O segundo é que redistribuição de bens não é solução. Se fosse
deveríamos ser socialistas. Distribuir os bens não critica o acúmulo,
porque depende do acúmulo.
5 – A “culpa” não é das pessoas que possuem o supermercado ou que
trabalham nele. Você pensa sem discernimento quando não faz distinção
entre todas as coisas que você está dizendo que são igualmente
erradas. Não são igualmente erradas, ou então estaríamos igualmente
errados em usar computador, que é uma forma de consumo, e você seria
apenas um hipócrita. As pessoas não estão erradas em viver NA
civilização, quando não resta outra opção. E isso significa trabalhar
e comprar algumas, mas não mais do que o necessário, não transformar
isso no que dirige sua vida, e não se conformar com isso, mas se
orientar por uma mudança radical. Você não pode confundir a crítica ao
trabalho com uma simples acusação aos trabalhadores. Seria sem
sentido, porque ou somos trabalhadores ou dependemos deles para estar
aqui discutindo isso agora. Mas crime é outra coisa. Em primeiro lugar
há parte de disposição para a mentira e para o orgulho. Nem todos que
não trabalham vivem de roubo. Mas a questão é que viver de “doação” e
de “roubo” é equivalente em termos econômicos, quero dizer, não faz
coisa alguma CONTRA a estrutura econômica da civilização. Mas do ponto
de vista ético e psicológico, há uma diferença muito grande. Aceitar
uma doação é um ato de humildade, e roubar é um ato de
“empreendedorismo”, e por isso certamente a civilização estimula muito
mais a atitude criminosa. No que rouba se gera esse espírito de
transformar o outro num objeto. Naquele que é roubado também se gera
revolta, medo e desconfiança. Esses sentimentos é que alimentam uma
sociedade do medo e do ódio. E você coloca a questão como se roubar
fosse fazer algo “contra” os barões. De forma alguma, alguns deles
poderiam até te contratar para roubar dos rivais deles. Novamente você
está fazendo uma bifurcação entre comprar e roubar, como se só
houvesse duas opções.
6 – Você tentou naturalizar o roubo para se livrar da minha afirmação
que roubo é uma mentalidade civilizada. Veja bem no que isso implica.
Não há conceito de propriedade entre animais. E o roubo não afeta o
conceito de propriedade, ao contrário, torna aquele que é roubado
muito mais apegado aos seus bens restantes. Se você quer atacar a
propriedade, roubo não é algo efetivo. E a prova disso é que durante
toda a história houve roubo, e ele sempre foi um negócio e um trabalho
como qualquer outro. Você está achando que o único motivo para não
roubar é uma questão moral, não está querendo analisar meu ponto de
vista, que parte da análise do sistema econômico como um todo, que já
assimilou o roubo e pode conviver com altos níveis de criminalidade
sem problema algum.
7 – O argumento de que a Bíblia é o livro mais lido do mundo, e assim
deveria influenciar a sociedade, pressupõe que aquilo que é
simplesmente lido também é entendido, aceito e seguido. Muitos
criminosos se dizem cristãos, porque procuram a religião como forma de
apoio. E o que isso tem a ver com seu argumento? Parece estar dizendo:
“Você se diz cristão e contra o crime, mas a maioria dos criminosos se
diz cristão também”. Mas o pior é que quando você diz que “valores
morais não condizem com a realidade do ser humano”, está relativizando
a ética. Mas eu expus uma crítica que condiz com nossa realidade,
incluindo a realidade econômica. Você foi para a questão da moral
porque não quis fazer essa análise.
8 – Quando você diz “talvez você deva ter um Guru para te orientar”,
você está me ofendendo diretamente, pois chama as pessoas que me
orientam de “gurus”, e assim tenta construir uma superioridade sua em
relação a mim, do tipo: “Eu sou livre, porque faço o que eu quero, e
você obedece a uma autoridade, por isso não tem capacidade para fazer
escolhas por si próprio”. Talvez você tenha se ofendido quando eu
disse que você seguia o espírito da modernidade, mas preferiu acusar
algo em mim para se justificar. O espírito da modernidade é o espírito
da auto-orientação, da liberdade “para ir e vir” e da “liberdade de
expressão”. A questão não é se você está pensando por si mesmo ou não,
mas que estamos todos sob um tipo de autoridade, e qual a qualificação
da sua autoridade (que seja você mesmo) para indicar um caminho? Você
de alguma forma tenta dizer que sabe mais do que as pessoas que me
orientam, e que ao ser orientado se perde a liberdade de escolha, o
que é falso.
9 – Como fazer “insurreição” num país onde o rei é o próprio
consumidor? Se população se mata, isso já é uma insurreição, porque,
segundo o Burguer king, o rei é você. Os cidadãos dos EUA ainda vivem
a ilusão de que alguém os governa, bem ou mal, alguém tem controle
sobre eles. É sempre o “eles”. Daí a fonte das teorias da conspiração.
Não perceberam ainda que o problema está neles mesmos, não em outras
pessoas.
Eu espero que resolvamos diferenças fora do grupo, e não aqui.
Janos
Perceba que você está usando o conceito convencional de civilização, e
não o conceito que eu uso, por isso fala de civilizações no plural e
diz que pouco pode ser feito de prático. Marx parte do pressuposto que
a ação e as condições materiais dão origem às crenças. Para mim é o
oposto. A civilização é o eixo axiomático (ou premissas fundadoras) no
qual este modo de vida de acúmulo extrai seu sentido. Não há como
“propagandear” premissas fundadoras, elas não são uma “mentalidade”. A
estrutura criada por essas premissas é outra coisa, que pode ser
atacada inclusive por ela mesma. Neste sentido um colapso econômico,
como proposto pelo filme, poderia ser útil à civilização.
A civilização não depende de qualquer estrutura física para existir.
Não é preciso realizar a ação de acumular para viver sob o ideal do
acúmulo. A predisposição de ação que independe da concretização da
ação.
Não podemos voltar a qualquer época histórica. Podemos ter uma
estrutura material igual, mas o processo que ocorreu na mente, na
transformação das idéias, esse não pode ser revertido. A não ser que
você creia como Marx, que as condições materiais determinam as idéias.
Não é a civilização que “depende de petróleo”, mas um sistema
econômico, que pode cair, mas isto não representa a derrota da
civilização, representa seu triunfo.
Não sigo o conceito de Freud, de civilização enquanto repressão da
violência. Não é segundo Freud que eu digo que o projeto caos é
civilizado. Projeto Caos é uma contradição. Caos é tudo aquilo que não
pode ser planejado e executado segundo uma racionalidade. É ingênuo na
medida em que crê que adicionar caos vai “resolver” as coisas. E se os
EUA criam caos para depois criar ordem, o mesmo pode ser dito da
utopia de Tyler, ou de qualquer outra utopia.
Tyler depende do espírito de rebelião. Seu discurso é: façamos isso
porque estamos com raiva da atual situação. Voltemos ao tempo em que
as coisas eram mais simples. Mas não é assim que as coisas funcionam,
porque não se volta no tempo destruindo estruturas. É desistir de um
modo de vida para abraçar um ideal niilista de satisfação das
necessidades humanas.
Tyler estava organizando uma revolução contra o mesmo inimigo que Marx
criticou. O ideal de deixar por fim as massas emancipadas fazerem a
revolução “autonomamente” não é algo novo, está lá nos princípios do
velho comunismo. Se Tyler orientou as pessoas para algo, foi para um
“anger management” de destruição criativa.
A civilização não precisa de recursos para se reerguer simplesmente
porque não é ela que entra em colapso com um colapso econômico.
Sobre a imagem, Tyler clama por incompletude. O que eu disse é que se
ostenta uma imagem de decadência por um ideal de que estamos todos
caindo aos pedaços. Se você coloca Tyler como um xamã que dá uma razão
para viver e ensina a ser você mesmo, você realmente se deixou levar
demais pelo discurso. Em outras palavras, o niilismo não é contrário à
civilização, mas sim resultado direto dela. E por isso os caras podem
fazer um filme como Clube da luta, e não mudar absolutamente nada em
suas vidas, porque a mensagem morre na praia.
Zaire,
Acho que há um problema grave em afirmar que seria mais fácil
abandonar a civilização, no sentido que eu a compreendo, quando você
abandona suas posses. Como eu disse, acúmulo não é meramente acúmulo
material. A raiva e a necessidade de “administrar a raiva” na luta
indicam um problema com a escolha de explodir o apartamento. Havia um
ressentimento oculto.
O capitalismo está intimamente ligado à liberdade. Liberdade, um ideal
da revolução francesa, há muito deixou de ser útil a qualquer crítica
radical.
Tyler representa a revolta contra o sistema, mas isso faz parte da
civilização, não é algo que se opõe a ela.
A questão sobre a economia é troca versus dádiva. É realmente
interessante este assunto do sistema financeiro, mas o fato é que se
opor a este sistema financeiro não é opor-se à civilização. Como você
pode ver, os produtores de Zeitgeist acreditam piamente no progresso.
Não querem que os bancos fiquem com NOSSO dinheiro, apenas isso.
Se Hobbes estava certo, então nós estamos errados. Se o homem é o lobo
do homem, e se o estado de natureza é uma guerra de todos contra
todos, então não há como nem porque se opor à civilização. Seria o
mesmo que se opor ao verdadeiro homem.
Acho que se você concorda 100% com Tyler, você não entendeu o filme.
Se vocês não percebem porque Tyler estava equivocado, não percebem que
Jack estava apenas sendo ele mesmo.
Letícia
Agressividade não depende de consentimento. Sado-masoquismo ainda é
violência, assim como automutilação ainda é mutilação. Não estou
condenando quem pratica artes marciais.
Tenho pouco tempo para responder, e tenho que me concentrar em certas
coisas. Creio ter entendido o que foi dito, apenas fui um pouco mais
longe, para as idéias implicadas no discurso. Sua interpretação do
filme, a meu ver, é melhor que a do Kana e do Zaire. Mas de acordo com
meu conceito de civilização, não podemos “tirá-la” de dentro de nós só
porque deixamos de viver “por cima”. Tyler passou a viver “por baixo”,
mas isso não faz diferença, porque ele continua “trabalhando por um
mundo melhor”, ao seu próprio jeito. Acumulando outras coisas que o
satisfaçam. Como carteiras de motorista.
Apesar de gostar desse livro, Pierre Clastres cometeu um erro grave em
Sociedade contra o Estado, e outros antropólogos tiveram que
refutá-lo, apontando para o conteúdo ideológico que contradizia
evidências estatísticas e estudos de caso.
Quanto à última frase, não me desentendi com ninguém. Já converso com
o pessoal aqui faz um tempo, e estava tentando prevenir. Eu não
entendi as frases diferentemente de você, a questão era outra. Não há
como ser menos rígido, estou exigindo o mínimo para entender o
problema. Não é questão de ser especialista, mas saber do que estamos
falando, e do que não estamos falando.
Eu não tenho tempo para escrever muito. Eu ainda estou trabalhando num
artigo sobre o que é civilização. Mas não mudei tanto assim de idéia.
Eu sempre disse que não se pode confundir causa com efeitos. Creio que
as coisas não começam no mundo da ação, mas nas crenças.
Uma coisa é dizer que teoria e ação se influenciam mutuamente. Mas uma
crença não é o mesmo que uma teoria. Pressupostos são crenças e não
teorias. Sem pressupostos nem sequer temos como reconhecer o
significado de uma ação, e logo a ação seria irreprodutível. A ação
humana pressupõe escolha, que pressupõe conhecimento do significado da
ação e uma expectativa de resultado previsível, ou seja, uma ação
precisa fazer parte de uma cadeia causal de eventos com significado.
Eu não nego que as pessoas possam passar por experiências
transformadoras, mas não é a experiência em si que muda alguém, e sim
a mensagem que ela carrega, que afeta a mente e não apenas o corpo.
Uma das características da modernidade é exatamente multiplicar as
possibilidades. E por isso se torna possível compreender muitas
“lógicas de mundo” num mesmo esquema, sem mudar as crenças básicas. A
proposta de Tyler não gera mudança nas crenças básicas, mas isso não
que dizer que nada possa nos fazer mudar. Clube da luta não é o máximo
da crítica à civilização, pois nem sequer apresenta uma crítica à
civilização enquanto base axiomática, mas sim uma crítica ao sistema
econômico e à estrutura da sociedade capitalista. A Letícia, que leu o
livro, percebeu isso. É inútil tentar achar que Clube da luta tem
alguma proposta. Assim como V de vingança, permanece sendo uma ficção
que serve muito mais para tornar “fictícias” as ações contra um
sistema. Ou vocês pensam que o filme foi feito com alguma intenção de
se opor à civilização?
Tanto quanto sabemos, o surgimento da civilização é um mistério. Não
pode ser explicado simplesmente por fatores intrínsecos ao homem, e
isso inclui mudança de mentalidade ou qualquer outro fator meramente
histórico.
A civilização não pode ser “destruída”, assim como não pode ser
“salva”, e também não podemos esperar que forças extrínsecas façam
isso por nós. Se a civilização é um conjunto de crenças, não se
destrói crenças, o que se destrói são coisas construídas com essas
crenças.
O golfinho e o lobo têm um ancestral comum, mas o surgimento do
golfinho não colocou fim na ancestralidade terrestre. No nosso caso,
se ainda houver civilização não haverá esperança para os povos não
civilizados. Não se trata de evoluir, evolução não tem nada a ver com
isso.
O fim do processo civilizatório não nos livra do dano mais
significativo da civilização, que é a destruição do nosso sentido
existencial. Se a vida não tem significado, então morrendo ou
sobrevivendo a civilização terá levado de nós nosso valor
não-material, que é nosso espírito.
Portanto onde houver humanidade (propriedade de ser humano) a
civilização poderá se realizar, para destruir essa humanidade.
Concordo que destruir o planeta não é o objetivo da civilização.
Acho que minha divergência não é por não gostar do jeito que a
estratégia de Tyler funciona, mas por discordar de suas premissas. Por
melhor que funcionasse o plano, não daria um passo na direção que eu
pretendo andar. Clube da luta é uma obra importante, como 1984 ou
Admirável mundo novo, mas não passa disso.
Compreendo agressividade como Konrad Lorenz expôs em sua obra sobre a
agressão, como algo necessário à sobrevivência. Mas você parece achar
que o se expressa no clube da luta é uma agressividade naturalmente
humana, e não uma agressividade civilizada, que é realmente o caso.
Não há nada de natural ali. Talvez você esteja confundindo
naturalidade com liberação de impulsos reprimidos. Naturalidade
depende de ser criado num ambiente propício, não apenas de extravasar
no fim de semana ou no final do dia.
Sua relação entre agressividade a amor parece vir da tese freudiana
sobre Eros e Tanatos, ou pulsão de vida e pulsão de morte. Bem, Eros
representa apenas o amor erótico, e Tanatos não representa a
agressividade natural. Você parece estar se baseando em Freud, e por
isso acho que você deveria saber que eu discordo totalmente da tese
freudiana.
Não faz diferença se a agressividade civilizada é focada ou caótica,
porque não há um motivo para crer que agressividade possa fazer alguma
coisa contra a civilização. Um mosquito bate na lâmpada até morte
porque está seguindo corretamente seus instintos que o dizem
“empiricamente” que a saída está ali. Portanto não basta seguir
“instintos” e “desejos”, por meio de planos ou não. A autoridade
conferida a Tyler não tem origem numa tradição, mas num desejo interno
de cada membro.
A argumentação de Freud contra o princípio do amor cristão (que na
verdade não é amar o outro como a ti mesmo, mas amar o outro como
Jesus nos amou) é que seria uma exigência neurotizante, porque é
impossível de cumprir. E é aí que ele defende a civilização: só nela
podemos satisfazer nossos desejos mais profundos sem colocar em risco
nossa sobrevivência, convivendo com a neurose de forma que ela não
coloque em risco a coesão social. O pressuposto de Freud é que os
homens sempre viveram de forma neurótica, mesmo os povos mais
primitivos. Por isso ele diz que o cristianismo e a antropologia
criaram uma hostilidade contra a civilização.
Se o personagem de Clube da luta se livrou realmente do que o mantinha
preso ao seu apartamento, porque ele precisou explodi-lo? Se o projeto
caos nos libertaria realmente do sistema, porque os prédios tinham que
ser implodidos? Percebe? Se você tem que explodir uma estrutura, é
porque não conseguiu realmente se livrar da crença na qual ela se
baseia. Ele fere a si mesmo usando o auto-sacrifício como desculpa,
mas o que isso revela é que no fundo há um ressentimento. Ele não
consegue renunciar sem perder a sanidade, porque não conseguiu
abandonar certas crenças.
Janos
| Olá, A mudança que nos faria sair, ou ultrapassar, a civilização precisa ser tão radical quanto a mudança que nos fez nos tornar civilizados. Nãio sabemos com certeza como isso aconteceu, mas sabemos que essa radicalidade significas uma modificação nas crenças mais profundas, mas básicas, num trocadilho, nas crenças das crenças. Sem isso nada mais muda de verdade, mesmo que modificações menos profundas as mais diversas possam ocorrer. Acho que o Janos faz um esforço tremendo para não perder o rumo, para não esquecer isso, para não perder de vista onde a mudança real, profunda e radical pode ocorrer, que é no campo dessas crenças mais profundas. Diferenciar crenças de teorias é crucial, e muitas teorias são chamadas de crenças por ai. O livro que indiquei como leitura é um exemplo interessante. Gardner identifica com bastane perspicácia como as mentes mudam, e a leitura é interessante, mas as mudanças mentais que ele aborda são mudanças de teorias e não de crenças. Não tenho certeza se concordo com Janos quando fala que as coisas se iniciam no mundo das crenças. Porque não tem como identificarmos onde as coisas se iniciam e as crenças sofrem de algum modo influência do mundo da ação. Na verdade é preciso considerar esses dois mundos inseparáveis, mesmo que aparentemente antagônicos. Não existe a pura ação, e não existe a pura crença, pois, parafraseando o Janos, ela não seria perceptível sem ações. É como a lei da gravidade, so sabemos que ela existe, ou melhor, sabemos que ela deve existir, porque sentimos seus efeitos. Se não existissem corpos para ela atuar, ela existiria? Ela só existe em seu efeito. As crenças produzem efeitos no mundo das ações, e só existem em seus efeitos. Mas é importante perceber o poder inimaginável das crenças, elas parecem não depender das condições materiais, mas utilizar as condições que existem para se manifestar. Isso tudo gera um incômodo talvez mais intenso do que o incômodo que sentimos diante da civilização. Mas é porque estamos encatando a coisa de frente, e talvez esse incômodo perturbador indique que somos mais civilizados do que gostariamos de assumir. Como Tyler. Ações precisam ser feitas, mas não podemos deixar de perceber onde a mudança real é possível, para não cair em mais uma curva do labirinto civilizatório. Mas então, como ir tão fundo? Não sei. Mas sei que uma mudança de crenças gerará mudanças nas ações. O contrário é bem mais difícil. Mas como se mudam crenças? Quinn pareceu dar uma quase reposta no Além da civilização. Utilizando o exemplo do crico, o que importa não é tanto como se vive, mas baseado em que crenças se vive. Um circo, apesar de lidar com dinheiro, de andar de caminhão, de utilizar os materiais diversos criados pela civilização, não vive como civilizado. O circo são as pessoas e as pessoas são o circo, cada um depende do grupo e o gruipo depende de cada um. não só ganham dinheiro sendo o circo, mas o circo é sua própria vida. Mas mesmo assim eles parecem depender da civilização. O interessante é que não basta idendificar o que não é civilizado, é preciso responder à civilização, por isso, não é uma questão simplesmente de voltar a ser algo, mas ser algo novo. Talvez o erro esteja em acreditar que podemos "fazer" algo. Talvez toda a influiência que possamos provocar seja modificar nossos pressupostos e viver de acordo com eles. Quando um pressuposto muda, muda toda a nossa vida, muda toda a nossa visão da vida e do que fazer. É irresistível, é impossível mudar um pressuposto e continuar agindo da mesma forma. Mas e ai, modificamos nossos pressupostos? Abraços farternos. |
Janos diz: |
|
"Para ser extremamente direto, civilização é vontade de poder. É a partir disso que se constrói todo o resto. Como se destrói uma vontade?"
|
Janos, gostaria, se possível, que diferenciasse a vontade de poder, no sentido civilizado, daquilo que Nietzsche designou como sendo "vontade de potência". Pois Nietzsche parece estender esta vontade para toda a natureza... compreendendo que onde há meios de exercê-la, a potência se realiza. Ou seja, a vida, para Nietzsche, é sujeição de uns organismos por outros e a natureza teria como característica essencial essa grande luta em que o mais "fraco" ou se submete ou some. Para Nietzsche, a civilização parece ser somente o desenvolvimento extremo dessa vontade já presente na natureza.
Cito:
"Aqui devemos pensar radicalmente até o fundo, e guardamo-nos de toda fraqueza sentimental: a vida mesma é essencialmente apropriação, ofensa, sujeição do que é estranho e mais fraco, opressão, dureza, imposição de formas próprias, incorporação e, no mínimo e mais comedido, exploração – mas por que empregar sempre essas palavras, que há muito estão marcadas de uma intenção difamadora? ... vida é precisamente vontade de potência. Em nenhum outro ponto, porém, a consciência geral dos europeus resiste mais ao ensinamento; em toda parte sonha-se atualmente, inclusive sob roupagem científica, com estados vindouros da sociedade em que deverá desaparecer o “caráter explorador” – a meus ouvidos isto soa como se alguém prometesse inventar uma vida que se abstivesse de toda função orgânica. A “exploração” não é própria de uma sociedade corrompida,
ou imperfeita e primitiva: faz parte da essência do que vive, como função orgânica básica, é uma conseqüência da própria vontade de potência, que é precisamente vontade de vida. ... Seja-se honesto consigo mesmo até esse ponto!” (Nietzsche - Além do Bem e do Mal § 259)
Fernando
|
Rapidamente, existem pessoas interessadas no fim dessa estrutura. Elas
crêem que essa estrutura deu poder aos fracos, excluiu os homens
naturalmente fortes. Se tirarmos a tecnologia, então os brutos
voltarão a controlar os grupos humanos, como "sempre foi". Este é um
discurso comum entre membros de gangues e outros grupos violentos. Eu
ouvi um membro de um moto clube violento aqui da minha cidade dizer
exatamente a mesma "crítica à civilização" que você colocou como sendo
as lições de clube da luta. Ele não viu simplesmente violência no
filme, ele entendeu esses argumentos, e poderia até ter lido o livro.
Janos
Concordo com você, antes de Nietzsche, Schopenhauer já tinha esta interpretação da vida como luta sem sentido. Esses ideiais sentimentais ou de fraqueza a que ele se refere são os ideais ascéticos que identifica principalmente no cristianismo, um dos pilares morais de de nossa civilização. Para Nietzsche, aceitar a vida como experiência de luta, sob uma perspectiva trágica, busca negar estes valores estes valores cristãos e afirmar a vida como uma experiência estética, como criação a partir do que a vida nos oferece. Toda cultura acaba sendo fruto desta experiência estética, que tanto cria para afirmar como para negar a experiência trágica (caso do cristianismo).
A partir disto, às vezes me questiono: até que ponto não é a partir do cristianismo que desenvolvemos esse ideal de uma vida que não tenha como aspecto preponderante a luta?
Janos, o que te faz interessar-se pelo cristianismo em vários aspectos de sua doutrina (independente das instituições) não é este ideal de vida harmônica que parece estar presente nele? |
|
Tyler fala de Deus como um pai que o abandonou. Ele precisa chamar a
atenção de Deus provocando ódio, porque ódio é melhor que indiferença.
Onde está a terceira alternativa?
Se observarem os aspectos psicológicos, logo perceberam que o que
realmente está por trás da revolta de Tyler passa longe de uma crítica
à civilização. Mas, repito, ainda é uma crítica interessante a vários
aspectos da sociedade.
Gostaria de dividir com vocês um trecho do livro Os Fascismos, de Henri Michel:
"O que o fascismo rejeita totalmente é a sociedade liberal do século
XIX. O fascismo não crê que os homens sejam iguais nem que o homem
seja naturalmente bom. Esta condenação global dá origem a alguma
rejeições:
Rejeição da democracia, considerada ‘podre ’, porque, sendo um regime
de fraqueza dominado por grupos de pressão, é incapaz de salvaguardar
o interesse nacional; o sistema parlamentar não passa de um jogo
estéril; o pluralismo dos partidos apenas gera discussões inúteis; a
escolha dos dirigentes políticos pelo povo é nociva.
Rejeição, portanto, do individualismo, dos direitos do homem, da
‘dignidade da pessoa humana’, porque o indivíduo não tem nenhum
direito; apenas existe pela comunidade na qual se integra; precisa ser
enquadrado e comandado.
Rejeição da sociedade liberal, porque a liberdade degenera em
licença, e a licença em enfraquecimento da união do grupo; o grupo tem
o direito de punir aqueles que recusam se unir a ele (...).
Rejeição de um comportamento comandado pela razão, que abafa o
impulso vital; o fascismo é uma reação antiintelectualista, uma
desforra do instinto; prega o culto da ação, proclama a virtude da
violência.
Ao mesmo tempo, o fascismo combate o ‘socialismo marxista’, porque
este é fundado na luta de classes e conduz à divisão e enfraquecimento
da vida social (...). Censura também a liberdade econômica, que
permite aos fortes esmagar os fracos, e muitas vezes esconde o domínio
de um povo pobre por outro mais rico. Às interpretações internacionais
comunista e capitalista, o fascismo procura contrapor o seu
‘socialismo nacional’."
Lembremos que é possível viver na mentira fazendo afirmações
verdadeiras. Veja o quanto é fácil cair no fascismo, e porque há
tantos fascistas que se identificam com o anarco-primitivismo.
Abraços
Janos
No ano passado eu quase fui morar na rua, eu achei que era a vida que
eu queria para mim. Mas, como eu disse, essa é apenas uma alternativa.
Não é realmente uma coisa menos nociva do que trabalhar, pelo menos
não para a sociedade, mesmo porque depende de muito trabalho. Mas a
maioria das pessoas que vive em squats já estão 'contaminadas' com
alguma ideologia, geralmente com alguma forma de anarquismo clássico.
Mas até que ponto essa visão 'primitivista' de Tyler é viável? Eu sei
que muita gente diria que realmente 'o mundo seria melhor assim'. Uma
questão que eu já toquei aqui é que esta 'utopia' poderia ser apenas
uma idealização do 'estado de natureza'.
Você acha mesmo que destruir os bancos de dados de cartões de crédito
prejudicaria realmente todas as pessoas? Não haveria aqueles que
poderiam se aproveitar disso para instituir outra forma de poder?
O problema é que você continua chamando o colapso econômico de colapso
da civilização. Houveram vários colapsos econômicos na história da
civilização, o fato de que o atual sistema dependa disso é
irrelevante, porque a civilização não depende deste sistema, ao
contrário, os sistemas da sociedade de acúmulo é que dependem de
civilização.
É possível interferir e destruir ESTAS estruturas civilizadas, sim. É
possível abandonar ESTAS estruturas civilizadas, sim. Isso resolve o
problema da civilização? Não. O que eu sugiro? Continue aprendendo.
Acredito em Deus e tenho esperança na Providência, por mais que isso
soe ridículo. Não quer dizer que podemos ficar sentados esperando as
coisas acontecerem, e nem o oposto disso, que estamos no controle de
tudo. Eu quero continuar caminhando na direção oposta da civilização.
Atualmente estou trabalhando como professor de história numa escola
pública. Lá eu tenho a oportunidade de levar muitas reflexões
interessantes para os adolescentes. Não sou restrito pelo currículo,
posso falar o que quiser, o difícil é fazer eles prestarem atenção em
mim. Estou gostando disso, quero fazer mestrado, dar aula na faculdade
e continuar este projeto.
Abraços
Janos
| Olá, Somos todos pequenas ou grandes engrenagens da civilização, tendo mais ou menos responsabilidade por sua manutenção. Mas somos todos civilizados e não há uma formula que nos transorme em não-civilizados de repente, e nem num esforço de 50 anos. Mas não quer dizer que não podemos nos transformar, nos tornar menos civilizados, e influênciar as pessoas a mudarem também. Para mim, o compo de mudanças reais é o dos valores, se alguns de nossos valores começam a mudar, nossas vidas começam a mudar naturalmente. Porque os valores nos dizem o que é mais importante, nos guiam. Parece que estamos todos nos espiritualizando, rs, rs. Eu me tornei espírita, gosto das reflexões e das atividades. Como vcs acredito na providência divina, numa iluminação das pessoas, um despertar. Alguns valores em mim mudaram. Naturalmente meu ideal de um apartamento com a minha cara; ser um professor universitário respeitado; ter todas a revistas, livros, cds e obras de arte que me interessavam. Passou para a vontade (e não o ideal bem construido) de uma vida mais simples, mas próxima das pessoas, passando pela ideia do que é suficiente e não do que eu desejo. Eu ja´ havia pensado nisso, mas só comecei a concretizar essas coisas quando alguns valores se modificarma em mim. Exemplos bobos: não me causa nenhum problema ou contrangimento interno não trabalahr aos sábados e com isso não ganhar hora extra tb, não me importo se tem menos dinheiro entrando; Não me importo se teria uma carreira acadêmica ou se me mudar para o interior me faz perder mais dinheiro e "deixar de crescer". Isto não é a idealização de um caminho, apenas o que está acontecendo comigo. Não somos os transformadores do mundo, mas podemos mudar, um puco, nossas mentes e com isso nossas vidas. E isto terá impactos. Mas a mudança para ser real precisa ser interna. Podemos ser tão civilizados quando quanquer um, mesmo estando em lugares diferentes. Qual a diferença entre uma tribo indígena e uma sociedade alternativa? Um é civilizado e o outro não. Mas podemos ser menos civilizados na cidade, mas isso em termos de valores. E a mudança geral virá... Abraços fraternos. |
Concordo com o Rafael, talvez a melhor alavanca para a mudança seja a mudança de valores. As nossas vidas, nossas relações e nosso meio vai se alterando a partir disto... só não vejo necessidade de assumir uma fé, uma espiritualidade para que isso ocorra. O que vocês tem por espiritualidade para mim nada mais é do que um modo de percepção e uma relação mais "sensível" com a vida. Ou seja, dá pra ter isso sem uma base doutrinária ou fé em Deus. Quanto à ideia de providência... nisto cabe tanta coisa... como pode ser a vida, a natureza, ou energia... mas se houver esta providência, ela parece ser indiferente a nós enquanto indivíduos, não nos provê individualmente, não há distinsão, o sol brilha sobre todos.
Quanto a dar aulas: faço isso desde 2003, alguns nos ouvem e compreendem e acabam refletindo sobre problemas que temos discutido por aqui, mas a grande maioria continuará suas vidas em busca da realização de valores civilizados. E quanto mais se avança, mas "engessado" é o sistema educacional, ou seja, a faculdade é mais civilizada que um segundo grau, e o mestrado mais que a faculdade... ou seja, mais metódico, com trabalhos mais burocráticos e especializados = mais civilizado.
Nisto, fica um pouco estranho tentar avançar na crítica à civilização enquadrando-se nas exigências da ciência.
--- Em qua, 30/9/09, rafael lima <rafasi...@yahoo.com.br> escreveu: |
|
Referente ao último mail envidado:
DIGO: DISTINÇÃO. E NÃO: DISTINSÃO |
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Cultura Maia: No final da década de 90 me interessei muito em saber mais sobre os maias, mas fiquei frustrado ao saber que não se sabe nada muito preciso sobre eles, pois não há muita coisa escrita e muito do que se dizia eram especulações e hipóteses de arqueólogos e estudiosos que tentavam encaixar peças de um complicado quebra cabeça. O próprio sumisso deles é misterioso, não se sabe ao certo como ocorreu. Na época que pesquisava sobre o tema, li que provavelmente os habitantes do México atual tem poucas chances de serem descendentes deles, pois testes de dna com restos mortais de tumbas maias revelaram o não parentesco destes com os atuais habitantes da região.
Por isso, estou curioso: como você pode saber muita coisa sobre a cultura e religiosidade dos maias se não há muitas fontes confiáveis a respeito? --- Em qua, 30/9/09, Zaire <zai...@gmail.com> escreveu: |
Vou tentar se objetiva e clara para falar a minha opinião sobre as coisas que foram ditas aqui mais para o final.
Vou tentar se objetiva e clara para falar a minha opinião sobre as coisas que foram ditas aqui mais para o final.
Eu realmente não sabia em que área atuar, pois se afinal ‘quanto mais
cedo melhor’, então seria melhor estudar educação infantil? Eu preferi
fazer mestrado. É nos lugares onde a crítica à civilização tem mais
dificuldade de entrar que eu quero entrar.
Quanto ao Zaire, faz toda a diferença entender porque nos
identificamos mais facilmente com um poder divino “distribuído” entre
todos os seres vivos do que com o 'reino' de uma divindade soberana.
Porque a segunda opção nos deixa numa situação de submissão, e a
primeira nos dá possibilidade de submeter e controlar. Até a negação
completa de qualquer forma de poder, de ordem ou de regras seria
preferível a aceitar nossa própria submissão, não é verdade?
Isso vem do fato de que interpretamos a história de um ponto de vista
em que as religiões monoteístas, principalmente o cristianismo,
parecem influenciar as formas de governo centralizadas, o que levam à
tirania e tudo que negamos. Por isso temos a idéia de que se Deus for
um só ele é automaticamente um tirano, porque 'concentra' o poder.
Negar a concentração de poder político nos levou a negar o Deus único.
Muitos autores modernos, incluindo Bakunin, colaboraram com essa
idéia. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra, é um grande
equívoco misturar as duas coisas.
Quanto ao link da Milenne, acho que duas críticas possíveis são: 1 - O
dinheiro não é neutro, e logo o problema não está apenas no seu mau
uso, mas naquilo que motivou sua invenção: o desejo de lucro. 2 – O
discurso contra a inveja pode ser vista como uma “moral do escravo”
(Nietzsche): um discurso cuja verdadeira intenção é meramente manter
os explorados felizes com suas condições deploráveis.
Mas, eu sei que essas críticas têm resposta, e que a Milenne não as
ignora. Então quero adiantar uma resposta: 1 – Sim, a própria invenção
seria impossível sem pleonexia, mas a invenção do computador também. A
riqueza vem do mal, mas não temos meios para eliminar este mal agora,
pois precisamos viver neste mundo para levar a mensagem. Como me foi
ensinado: não basta sair da Matrix, ainda temos que entrar nela para
tirar outras pessoas”. 2 – Sim, o discurso contra a inveja também pode
ser assimilado pelo capitalismo, mas perceba que a exortação não se
refere exatamente ao desejo por bens materiais, mas sim ao desejo de
ser visto como superior (soberba). É a inveja pelo "bônus sem o ônus"
de uma autoridade, por exemplo, que leva ao acúmulo de bens materiais,
para exercer autoridade forçada por meio do poder desses bens. Sem
pleonexia não existiria capitalismo, portanto a crítica à inveja não
justifica a desigualdade.
O que importa ao capitalista não é exatamente ter dinheiro, mas ter o
poder que ele trás.
A pleonexia é algo que se opõe diretamente a ágape (amor), pois quem
ama o outro não sente vontade de superá-lo. E indiretamente à aletheia
(verdade), pois quem deseja superar precisa mentir e enganar para
conseguir o que quer.
Janos
"crêem que essa estrutura deu poder aos fracos, excluiu os homens
naturalmente fortes. Se tirarmos a tecnologia, então os brutos
voltarão a controlar os grupos humanos, como "sempre foi". Este é um
discurso comum entre membros de gangues e outros grupos violentos. Eu
ouvi um membro de um moto clube violento aqui da minha cidade dizer
exatamente a mesma "crítica à civilização" que você colocou como sendo
as lições de clube da luta. Ele não viu simplesmente violência no
filme, ele entendeu esses argumentos, e poderia até ter lido o livro."
Fernando,
A crítica moderna ao ascetismo a vincula com o cristianismo, mas o cristianismo primitivo não era ascético, nem no sentido grego nem no sentido moderno.
Você acertou ao definir que Nietzsche afirmava o sentido da vida com a experiência estética. Como CRIAÇÃO a partir do que está ao nosso ALCANCE imediato. Isso é importante observar.
Eu não me atraio pelo cristianismo por este ter um ideal de vida harmônico, porque não vejo esse ideal no cristianismo. Há um tipo de luta, mas não é a "luta pela vida" que Nietzsche se refere, que já era um ideal desde antes de Darwin.
Zaire,
Parece que você está me entendendo e eu eu estou entendendo você. Mas simplesmente não concordamos, porque temos visões diferentes.
Uma vez eu falei sobre o que aconteceria com os cachorros se todos os seres humanos e tudo que nós fizemos simplesmente sumisse da noite para o dia.
No nosso caso, nos tornamos muito mais dependentes da civilização que os cachorros. Nossa domesticação atinge mais do que nossos corpos e comportamentos.
Antigamente eu acreditava que a civilização era como uma flecha na perna, que basta coragem para suportara dor de tirar a flecha. Não é assim, ela é está muito mais entrelaçada em nós.
Concordamos que a destruição do mercado global prejudicaria exatamente as pessoas que ele está prejudicando agora? Não seria uma prisão tão boa se bastasse destruir as paredes. De certa forma, vocês parecem estar querendo ir pelo caminho mais fácil.
Mesmo que você não dependa do seu próprio trabalho, depende do trabalho de outra pessoa. Alguém sempre está pagando pelo que recebemos "de graça" na sociedade do trabalho.
Há muitas pessoas vivendo "de graça" hoje, e isso é um dos benefícios que a atual sociedade possibilita para eles. Se fosse perigoso, a sociedade não mandaria apenas uns policiais de vez em quando. Não quero com isso desprezar o pessoal que mora em invasões. Mas isso é apenas uma alternativa de vida na civilização. Pode ser menos "capitalista", mas certamente não é menos civilizada. Não entendo porque acha que é uma "evolução".
Desculpe, não concebo essa "fuga das expectativas dos pais" como liberdade.
A experiência do carro indica mais do que a idéia de que não podemos controlar nosso futuro. Não apenas não somos nós que controlamos, como estamos sujeitos ao caos absoluto. Não há qualquer tipo de ordem regendo o universo, e por isso estamos à deriva num universo sem futuro, condenados a um destino que será obra do acaso, e que portanto não tem significância alguma.
A crença de que podemos interferir diretamente no sistema de modo a provocar condições materiais que libertem a todos nós é uma coisa que eu não tenho como aceitar. Pois o sistema não é o que nos aprisiona, o sistema é o modo como nos organizamos na prisão.
Eu não penso na morte como uma derrota. Se eu sou morto por me opor à civilização, então quem perdeu foi a civilização, que não conseguiu destruir meu espírito até meu último suspiro.
Não acho que devemos nos excluir da civilização, mas achar que destruir um sistema irá mudar o modo de vida para melhor, isso também não posso concordar.
E, vamos deixar claro novamente, não se abandona a civilização indo morar no mato! Eu não estou essa atitude! Uma coisa não contrapõe a outra.
Você acha então que precisamos ser forçados a viver de outra forma? Que só um colapso econômico pode nos fazer abandonar o conforto da civilização? Então você concordaria, de certa forma, que não há saída. Se os homens só se mobilizam pela força, então de qualquer forma estamos condenados ao autoritarismo, e a autoridade legítima não tem teria poder algum.
Eu não concordo com o ato de explodir o próprio apartamento. Mas não há como um indivíduo civilizado viver de "forma primitiva" assim, por si só. Nenhum dos exemplos citados mostra alguém que passou a viver de forma primitiva. A questão que eu penso é que em O Último Samurai há pelo menos uma aproximação de valores tradicionais. No Clube da Luta, todos os valores são modernos.
Abraços
Janos
Concordo com o Felipe Kana no ponto em em que afirma que nada indica que semos especiais para uma providência preocupar-se com nossa espécie...
O problema fica ainda maior quando a maioria das religiões (e qualquer crença cristã acaba levando a pensar isso), dão a entender que esta divindidade se preocupa conosco individualmente: pintam um quadro apocalíptico e indicam a possibilidade de parte da humanidade ou alguns salvaram-se ou serem "premiados" com a graça divina.
"Indivíduo e sujeito", como não vincular estes termos ao desenvolvimento da perspectiva civilizada..., principalmente a partir da modernidade. Pois bem, salvação individual é agarrar-se a algo que foi culturalmente inventado. Schopenhauer dizia que o indivíduo é uma invenção e ilusão da razão a fim de nos motivar a lutar inconscientemente com mais intensidade por interesses que julgamos nossos quando na verdade são da espécie. Nisto concordo com ele.
Um humanismo exacerbado nos leva a pensar que somos fundamentais para a continuidade da vida... nada indica que somos especiais ou que seremos poupados do fim que outras espécies já tiveram.
Quanto aos maias: esqueçam "Apocalipto" como referência, é uma aberração do ponto de vista histórico. Até onde estudei, os maias não tiveram contato com os espanhóis, pois já estavam extintos séculos antes da chegada destes. E não há nada que nos assegure se esta extinsão se deu por guerra, epidemia, colapso... mas vou consultar o que o Kana indica, talvez hoje, passados 10 anos, novos elementos históricos tenham sido descobertos.
Abraço,
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Quando era cristão, pensava na "queda do homem" de modo muito semelhante. Mas deixa ver se entendi o que você está querendo dizer:
O homem foi criado por Deus (acho que para você cabe a idéia de um Deus conduzindo o processo que levou do macaco até o surgimento do homem? sim?);
a diferença é que ele teria escolha; poderia não afastar-se de Deus não provando do "fruto" do conhecimento que o levou até a adoção de uma cultura do acúmulo que é contra o totalidade da vida;
com o sacrifício de cristo, temos a chance de uma nova escolha, aceitar este sacrifício e voltar ao "caminho". Assim, deixar o mundo para viver em harmonia com Deus é equivalente a deixar a cultura civilizada baseada no acúmulo.
Quanto a Schopenhauer: acho que a filosofia dele não é uma afirmação extrema do niilismo como muitos a entendem. Você encontra em seu pensamento uma afirmação do amor desinteressado, da compaixão, da contemplação substituindo o exercício de domínio e poder... enfim, há alternativas oferecidas para escapar ao niilismo absoluto.
Uma pergunta: essa nova compreensão do cristianismo chegou até você por quais meios? que igreja, grupo, linha de estudo... pois acho difícil alguém chegar até isso pela leitura individual da Bíblia.
Abraço, Fernando
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