| Janos, acho que talvez seja produtivo colocar este tema na discussão pública, pois alguns podem ter vivenciado algo parecido e ajudar com comentários. Janos, pode acreditar, é com sinceridade que estou tentando
compreender sua opção e, para fazer isso, estou olhando novamente para uma
direção para a qual eu já havia dado as costas. Se não o compreender, e
realmente desejo compreendê-lo, acho que há realmente o risco de ter algumas
reservas em relação ao que você diz. --- Em ter, 24/11/09, Janos Biro <janosb...@gmail.com> escreveu:
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Desculpe pelo uso do termo intolerância. Eu me esqueci que tolerância
hoje em dia tem um sentido muito forte, pois a própria cultura nos
exige que aceitemos as diferenças proporcionadas pela mistura de povos
que é resultado da globalização. Mas eu usei num sentido diferente,
como quando alguém que tem intolerância à lactose, isso é, tem
"alergia", tem predisposição negativa. Pois eu entendo que você pode
respeitar e estar disposto a conceber posições diferentes, até porque
o relativismo exige isso. Eu nem sequer concordo com esse tipo de
"tolerância" que é apenas resultado do pluralismo civilizado.
A questão de que historicamente tem sido os cristãos a praticar os
piores crimes da humanidade para mim se explica por um motivo muito
simples: a cultura de acúmulo assimilou o cristianismo, quem estava no
poder era chamado de cristão, e a maioria das pessoas se considerava
cristã sem nunca ter lido a Bíblia. Descrentes ou hereges, muitas
vezes, eram pessoas que simplesmente discordavam dos poderes humanos
estabelecidos. Mas, se você considerar a Fé cristã como proposta pelas
comunidade cristã primitiva, então pode-se dizer que a história não
foi guiada por esses princípios, mas por hipócritas que no fundo
viviam como se Deus não existisse, pois colocavam seus próprios
interesses em prioridade. Acreditar em Deus é muito pouco, pois como
se diz, até o diabo acredita em Deus.
A intolerância religiosa foi apenas uma arma para dominação. Roma
dominou muitos povos concedendo liberdade de crença, mas aos poucos
percebeu que para manter o poder era preciso novos motivos para fazer
guerra. Escolheram o cristianismo, mas não pelo seu potencial
agressivo e intolerante, pois eu creio que este era pequeno comparado
a outras crenças da época, mas para conter seu potencial esclarecedor,
que ameaçava o império questionando seu próprio fundamento: o acúmulo.
Historicamente, foram os gananciosos que usaram de todos os meios,
incluindo a religião, para manter o poder.
A tolerância que devemos ter, ao meu ver, não é essa em que
simplesmente se convive com a diferença como se ela não existisse. As
diferenças podem sim marcar divisões. E se você escolher um caminho ao
qual eu não possa ir junto, ou vice-versa, então nos separamos. Mas
isso é impossível na civilização, porque ela exige que caminhemos
todos juntos enquanto "humanidade", e não mais em comunidades. Mas
isso é diferente da intolerância que pode ser gerada dentro da nossa
comunidade, que é a tendência de ridicularizar e atacar tudo que o
outro diz, que não é seu caso, está acontecendo em certo grau nessa
comunidade, e um membro até saiu do grupo recentemente por problemas
desse tipo. Eu fechei meu blog pessoal por causa de pessoas que eram
minhas amigas e que, com o tempo, desenvolveram uma incapacidade de
ler o que eu escrevo com boa vontade, pois sempre procuravam qualquer
forma de destruir e diminuir os argumentos, mas ao mesmo tempo não
paravam de ler, e a cada texto os sentimentos iam se acumulando, e eu
previ que isso iria acabar mal. Não adiantou tentar conversar, porque
elas se recusavam ao diálogo, dizendo que se eu não gostava das suas
"críticas", então eu é que era o intolerante que não aceita que as
pessoas discordem. Então eu não tive outra opção senão fechar meu
blog. Este é só um exemplo do risco que o grupo corre pelo mero fato
de que eu me assumi como cristão.
Quanto ao porque eu decidi fazer isso, eu acho difícil de explicar. Eu
diria eu decidi relativizar e deixar de lado certo pressupostos e
crenças que me separavam radicalmente de qualquer discurso acerca da
Fé cristã. Ouvi sem esperar nada, e a Fé surgiu, compreendi e
acreditei. A única forma que eu teria para não acreditar nisso seria
me utilizar dos velhos argumentos, e eu tentei fazer isso, mas eles se
mostraram inválidos e inadequados. Então eu diria que minha mente foi
mudada uma vez que eu soltei (deixei de me agarrar firmemente) certos
argumentos e certos sistemas de pensamento que eu construí para
justificar minha escolha pelo ateísmo. A diferença que eu vejo na
mudança da crença para a descrença e da descrença para a crença é que
quando eu passei a desacreditar em Deus tudo estava justificado pela
lógica: aquele caminho não me levaria onde eu quero ir. Quando eu
passei a acreditar, a coisa era bem diferente: Isso não me conduzirá
onde eu quero ir, mas confio que me conduzirá onde eu preciso ir. Esta
confiança é como fazer uma amizade sincera.
Abraços
Janos
2009/11/25 fernando schuck <jfern...@yahoo.com.br>
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> Janos, acho que talvez seja produtivo colocar este tema na discussão pública, pois alguns podem ter vivenciado algo parecido e ajudar com comentários.
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> Janos, pode acreditar, é com sinceridade que estou tentando compreender sua opção e, para fazer isso, estou olhando novamente para uma direção para a qual eu já havia dado as costas. Se não o compreender, e realmente desejo compreendê-lo, acho que há realmente o risco de ter algumas reservas em relação ao que você diz.
> Mas acho que você exagera ao usar o termo intolerante. Pois isto significa não respeitar a crença ou as posições alheias, assim como não estar disposto a conceber que hajam posições e escolhas diferentes. Eu respeito suas posições e concebo que tem o direito de assumi-las, só ainda não compreendi direito a trajetória que o levou a elas no contexto da crítica à civilização. A intolerância não aceita a diferença. E você sabe muito bem que historicamente não tem sido os ateus os intolerantes, mas os que muitas vezes tem feito isso em nome de alguma crença religiosa. Mas não acredito que este é o caso meu nem teu, nem da maioria dos que daqui participam. Pois acredito que o respeito pelas crenças alheias é algo que predomina nas relações do grupo, a intolerância é exceção.
>
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| Janos. Concordo com você quanto às pressões civilizadas para que nos tornemos sempre tolerantes. Concordo que não se pode ser tolerante com muita coisa. Mas também não é o caso aqui. Não tenho porque ser intolerante com o que você diz. Tenho bons amigos cristãos (aliás, a maioria de meus amigos são cristãos no sentido amplo do termo, pois saber o que é ser ou não ser cristão também é algo, em certa medida, complicado) e consigo dialogar com eles tranquilamente. Acho que no passado já nutri admiração e consegui compreender a opção cristã de Tolstoi, por exemplo, por que não poderia entender a sua? Eu não me considero mais cristão, mas acho que nunca deixei de ter uma relação religiosa com a vida. Isto no sentido de sentir-se ligado a algo grandioso e ao mesmo tempo bem simples, que está em todas as partes e que muitas vezes nos parece inacessível e misterioso. Não sou portanto um ateu que fica por aí tentando convencer as pessoas a não crer em Deus. Não julgo que tenho algo muito melhor a oferecer. Somente incentivo a desatar as amarras religiosas e dogmáticas, para aqueles que estão se sentido muito incomodados com sua religião e que me perguntam o que eu acho daquilo tudo. Acho que tanto o ateísmo como o cristianismo podem constituir sistemas de pensamentos com pressupostos e argumentos que podem satisfazer a uma lógica interna. Entendo hoje melhor como isso funciona no ateísmo. Entendo também como isso funciona no cristianismo institucionalizado. Mas como isso funciona no seu caso? Gostaria de saber de ti se tem algum texto que possa proporcionar uma compreensão melhor da proposta cristã com a qual você se identifica. Pode ser de algum comentador que você gosta ou mesmo um texto seu. E pode ficar tranquilo, eu não quero apenas saber para ficar atacando suas posições. Eu quero realmente saber sobre os pressupostos que dão base a sua fé. Posso ter saído do cristianismo para viver à margem da religião, mas eu nunca fechei a porta e nem os ouvidos para aqueles que tem fé. Um abraço, Fernando --- Em qua, 25/11/09, Janos Biro <janosb...@gmail.com> escreveu: |
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Valeu pela sua resposta. Não é preciso expor uma epistemologia
detalhada, mas é interessante que tenhamos entendido essa consideração
quanto ao outro, a tradição, a psicologia da mentira (intenções e
motivações), a ética e o que é extra-subjetivo. O discernimento e a
ponderação que não levam à auto-conformação (a conformação da verdade
ao indivíduo), mas sim à auto-confrontação (do indivíduo em relação à
verdade). Em resumo, uma crítica ao relativismo subjetivista que diz
que o sujeito é senhor absoluto da verdade, o que apenas reafirma o
adágio sofista de que “o homem é a medida de todas as coisas”. E, só
reforçando isso, é este pensamento que se repete no Renascimento, que
por sua vez influencia a mentalidade Iluminista, e que está implicada
na visão de mundo da civilização moderna.
Convido novamente o resto dos membros a pelo menos dar aceno, um
simples "sim entendi, e concordo" ou então um "entendi, mas discordo"
ou um "não entendi". Convido também para entrarem no
http://civilizacao.ning.com, que pode ser uma ferramenta mais
agradável para a maioria das pessoas.
Abraços
Janos
2009/11/28 Claiton Santos <claito...@gmail.com>
Estou acompanhando, gostando e (acho) entendendo.
Pra mim, que cheguei agora, porém, a falta de foco na discussão realmente atrapalha, mas tb acho que pode ser interessante deixar a discussão rolar assim mais um pouco (está espontânea, e isso é bom).
Então, se não for problema para os demais, gostaria de ficar só escutando mais um pouco.
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De: Janos Biro <janosb...@gmail.com> |
Data: Segunda-feira, 30 de Novembro de 2009, 11:48 |
Particularmente, interessa-me a discussão citada sobre a "verdade" (mais do que sobre religião, pra ser sincero - mas admito que o problema pode ser que ainda não percebi como essa discussão pode contribuir com o tema do grupo).
Se não houver problema para os demais que rolem discussões paralelas, lerei os posts anteriores e o resumo que o Janos indicou sobre essa discussão, para me situar, mas fiquei curioso para saber como foi superada por vcs (como me pareceu que foi) a questão do relativismo, que, no limite, realmente inviabiliza qualquer conclusão definitiva sobre uma "verdade" (qualquer que seja ela).
E, Kana, obrigado por tentar me deixar à vontade (vou tentar, hehe).
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Sim, Janos, entendo o que vc diz quando fala que o relativismo radical é paralisante (que nada mais é que o paradoxo que vc citou) e foi o que eu quis dizer tb quando falei do problema de levá-lo ao seu "limite".
Mas gostei quando vc falou sobre "perceber suas raízes num movimento intelectual que se perpetua na história da civilização". Gosto desse tipo de abordagem, como quando vc falou, há algumas mensagens, atrás, do sentido que damos hoje à tolerância - sentido esse que teria até intenções ideológicas. Sempre acho interessante esse tipo de abordagem... digamos, "relativista", hehe.
Gostei tb da postura auto-consciente do grupo (quase uma meta-discussão), quando vcs passaram a questionar se a agressividade das mensagens trocadas não refletiria uma agressividade (não sei que termo usar aqui, mas digamos) "intríseca" ao processo civilizatório.
Assisti "O Último Samurai" (a propósito: vc se refere àquele filme do Tom Cruise ou a outro?) quando estava em cartaz, mas vou procurar alugá-lo para poder entrar definitivamente na discussão, pois interessa-me especialmente o uso de filmes e suas análises em um processo como esse nosso.
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Janos e pessoal,
Algumas questões pontuais e alguns saltos meio aleatórios:
- Só pra ver se entendi direito, Janos: vc não quis dizer "o que 'A' significa em contextos 'X' e 'Y'"? Ou seja, "o que a mesma ação ou palavra significa em contextos diferentes"?
- Intrigou-me o que vc diz sobre "mitos" e "tradição"... Creio que é ponto pacífico que o processo histórico que colocou a razão e a ciência como referências maiores para a "verdade" (é só ver, por exemplo, como um "superlativo" comum para "provado", aquilo que pretende encerrar qualquer discussão, é dizer que algo é "cientificamente comprovado") é peça importantíssima (se não fundamental) na construção e legitimação do processo civilizatório (e talvez dê até para dizer que esse processo criou a sua própria referência legitimadora "externa"). E sendo claro, ao menos para mim, que achar que dá para superar isso facilmente (e toda educação que tivemos - familiar e social - baseada nesses preceitos) é simplesmente subestimar o poder, profundidade e influência desse mesmo processo, minha questão é: como vc encara a "razão" nisso tudo, Janos? Pensando na oposição razão X fé, já refleti que a própria crença na
razão é uma questão de fé (pois vc pode justificá-la racionalmente, mas para isso, antes, vc precisa crer que a razão explica algo), mas não seria a razão um (e talvez o único) sistema de crenças que nos dá tb os instrumentos para questioná-lo? Porém, é possível fazer isso sem o risco de cair em algum vício, já que esse instrumento que estamos usando aqui (e que vc usou para falar de mitos e tradição) pode ser, toscamente falando, "as armas do inimigo" (encarem essa expressão como licença poética, por favor)? Não sei se ficou claro o meu raciocínio, mas imagino que vc já passou por essa discussão, então acho que entende do que estou falando (e, já que vc gosta de se utilizar de filmes, acho que "Inimigos Públicos" seria uma sugestão interessante para pensar o papel da razão no processo civilizatório - nem que seja de maneira alegórica).
- Ainda nessa linha de que é difícil se livrar de conceitos há muito aprendidos, interessa-me muito explorar mais profundamente essa crítica ao indivíduo que vc faz, mas não saberia nem como começar. Vcs já leram e discutiram algum texto sobre esse assunto? Como essa valorização do indivíduo se encaixa nessa construção de "humanidade" que a civilização criou? A visão de todas as comunidades do globo como uma comunidade única e maior (ou seja, a humanidade), não tem nenhum aspecto positivo? Dentro desse processo que vc resumiu, qual o ganho (para ele, processo) abandonar "as características dos conjuntos" e passar a considerar "as características dos elementos dos conjuntos"? Quer dizer, entendi o que vc disse sobre a valorização do indivíduo e as conseqüências disso, mas não entendi como (e, se é possível dizer assim, "porquê") ele se inicia. |
| olá a todos, tenho acompanhado todas as discussões com interesse e penso que seria muito produtivo se tomassemos textos como base de referência ou filmes como o Janos sugeriu. Vou assistir novamente o último samurai para participar do debate e gostei da sugestão da leitura do amor liquído do Bauman. Tenho este livro que ainda não li e concordo que a sua obra abre várias questões importantes para a crítica à civilização. No entanto, gostaria de iniciar uma discussão em torno dos textos do John Zerzan. Talvez seja um autor já bem conhecido da maioria dos membros do grupo, mas não é meu caso. Entrei nesta grupo especialmente para aprofundar minha leitura dos expoentes anarco-primitivismo. Vou ler os textos disponíveis dele no site do erva daninha e postar aqui alguns comentários meus como uma espécie de convite a discussão. Começo com o texto "Futuro Primitivo" Trata-se de um texto um pouco longo e muito cheio de detalhes,mas que contém uma tentativa de demarcar quando a humanidade começou a "desandar". Zerzan contrapõe a vida na época do paleolítico (2 milhões-10.000 anos), anterior à agricultura, uma vida baseada na caça-coleta e no nomadismo a toda vida posterior. Todos os sinais da civilização surgiriam no final deste período, chamado de paleolítico superior (50.000-10.000 anos) quando a sedentarização, a agricultura e a domesticação dos animais geraria o solo para a hierarquia, propriedade privada, desigualdade entre os sexos, etc. Aqui acontece a chamada revolução do neolítico, que inicia em torno de 10.000. Interessante que o anarco-primitivismo depende de um debate totalmente científico sobre as origens da humanidade, ou seja da racionalidade técnica-científica que quer combater. No entanto, o cerne do debate antropológico não são apenas os fatos descobertos, mas o valor que é atribuido a eles dependendo da posição política e da concepção da história. Uma visão negativa desta época primeva está acompanhada de uma avaliação positiva da sociedade atual, mais progressiva, mais ordenada, etc. Uma positiva de uma crítica a sociedade atual. Pergunto-me em que medida a rescontrução da vida dos grupos no paleolítico permite tomar uma decisão desta ordem. Parece que o posicionamento influencia desde o início a leitura das épocas passadas. Sem falar dos problemas metódicos: Como saber algo a respeito da partilha dos bens, da relação entre homens e mulheres, etc? Não consigo concordar com a crítica feita à cultura, que a interpreta enquanto separação ou alienação da natureza. Sim, trata-se de uma alienação, mas a natureza torna-se outra para que nós conquistemos uma esfera própria. A humanização implica necessariamente a criação de um outro espaço de vida que é o espírito, abdicar disto seria abdicar da aventura humana. Será mesmo que os grupos humanos no paleolítico não tinham cultura simbólica? Será que há mundo humano sem linguagem? Há alguns elementos da cultura que são avaliados de modo extremamente ou excessivamente negativos: arte, religião e tempo. A respeito deste último, Zerzan concorda com um tal de Goldschmidt "a dimensão oculta da construção do mundo simbólico é o tempo." Os caçadores e coletores viveriam no presente, no aqui e agora, apenas. Outra vez minha dúvida, como descobrir a experiência temporal de épocas tão antigas? A religião primitiva, o xamanismo, os rituais seriam expressões apenas de controle e de ordenamento social? Será que não expressam o modo especifíco de harmonização, religamento com a natureza? Aqui volta a questão da alienação, quem busca a religação não está mais ligado. Mas o que propõe o Zerzan uma superação da cisão entre natureza e cultura? A tentativa de sugerir que há pensamento sem linguagem, parece-me muito problemática. Além disto o título do texto não é contemplado na exposição, pois ela não trata de nenhum modo do futuro primitivo, unicamente do passado primitivo. Para não escrever muito, percebo a partir daqui alguns problemas: 1. Há diferença entre cultura e civilização? 2. Há ciência sem valor? 3. A religiosidade primitiva já é um sinal de dominação da natureza? Esta última questão liga-se de algum modo ao debate sobre a verdade que está sendo feito no grupo. È isto, em breve mando mais comentários sobre os outros textos dele. abraço, Thiago |
Olá a todos novamente, como comentei no e-mail anterior estou fazendo uma primeira leitura dos anarco-primitivistas e para começo de conversa escolhi o Zerzan. Janos, obrigado pelo elogio, gostei da ideia de escrever um artigo sobre Zerzan, mas antes preciso aprofundar mais. Aos poucos vou enviando os resultados desses primeiros contatos e quem sabe mais a frente sistematizo tudo num único texto. Estou correndo o risco de "chover no molhado", mas vamos lá. O que mais chamou minha a atenção na leitura do primeiro texto Futuro Primitivo, foi a crítica a cultura. Por isso, fui atrás de mais material sobre este tema e encontrei os seguintes no site do erva daninha: Correndo no vazio! Fracasso do Pensamento Simbólico; Entrevista- Além do Pensamento Simbólico; Verbete "Cultura" Dicionário Niilista. O título do primeiro texto já entrega o segredo da crítica. Para Zerzan a Cultura em geral é uma tentativa fracassada de preencher um vazio, um buraco, uma separação que ela mesma ocasionou. O cerne da cultura humana é o simbolismo. A palavra símbolo vem do grego do grego "sýmbolon", do verbo "symbállein". O prefixo "sym" significa junto, daí, por exemplo, síntese. A outra parte da palabra remete ao verbo "bállein", que significa lançar, arremessar. Ou seja, símbolo significa o ato de "lançar com", "lançar numa reunião", arremessar ao mesmo tempo, "com-jogar". O que é conjugado aqui é o sinal e o assinalada, pois todo símbolo tem a função de remeter à uma realidade exterior a ele mesmo. Em resumo, trata-se de uma forma de representação. Nesse sentido, o próprio significado do termo símbolo já fornece o mote para a crítica de Zerza. Se símbolo significa o ato de "lançar com", "jogar no mesmo conjunto", é impossível não reconhecer que o que necessita ser reunido, conjugado está separado, distinguido, etc. Até aqui não há nenhuma novidade na análise de Zerzan, pois está é a concepção predominante sobre a cultura de que ela pressupõe um universo simbólico onde mora o espírito humano separado da natureza. Parece-me que o diferencial da análise de Zerzan está em dois pontos: 1. afirmar que a separação que está na base do símbolo é causada pelo próprio símbolo; 2. afirmar que a separação tem valor negativo, pois é uma perda. Porque o símbolo causa a separação? porque sua forma de funcionamente ou atuação, diz Zerzan, é o seguinte "que a represente b, em lugar que a seja b." Este trecho do Correndo no Vazio indica que a simbolização nasce da decisão de não lidar diretamente com uma realidade qualquer "a", mas de acessá-la através da mediação de "b", um símbolo, uma imagem, uma palavra, uma representação qualquer. Aqui há uma perda e uma negatividade, já que abandonamos a experiência direta, nos separamos na natureza tal como ela é dada pelos sentidos e na presença corporal. Nesse sentido, a cultura simbólica tem relação direta com a racionalidade (Zerzan unicamente refere-se ao pensamento simbólico), enquanto que a experiência direta pré-simbólica tem relação direta com o corpo, com a sensibilidade, com os sentidos. Esta oposição entre um simbolismo da razão e uma experiência direta sensorial é muito drástica. Não há nenhuma possibilidade de compreender o surgimento de símbolos sem o trabalho da imaginação, que é a base de toda criatividade e é parte da sensibilidade. De outro lado, os sentidos humanos são sempre mediados pelo pensamento. Do contrário, nunca poderíamos ver "algo como algo." Se vemos uma casa, é porque nossa percepção sensível não recolhe apenas dados sensíveis como cor, peso, cheiro, saber, etc, mas reune todos eles sob o conceito do que é percebido. Aqui retorno a uma questão posta anteriormente: Será que é possível superar ou eliminar a distinção cultura-natureza? Não é este um dado antropológico necessário? Zerzan pensa que não. Baseado na relação etimológica entre Cultura e o verbo latino cólere que significa cultivar, cuidar, Zerzan localiza o surgimento da cultura simbólica no Paleolítico Superior (50.000-10.000) paralela ao surgimento da agricultura que é a marca da revolução neolítica. A civilização e a cultura surgem juntas, sendo de certo modo duas palavras para o mesmo fenômeno. Aqui teria acontecido, de acordo com descrição feita no Correndo no Vazio, a "queda na representação". A linguagem religiosa não é fora de contexto, porque é justamente com a cultura simbólica que inicia o pesadelo chamado história em contraposição a vida não-simbólica marcada pelo tempo presente, pela existência no aqui e agora. O tempo histórico é um dos traços constitutivos da civilização. Aqui retorna o problema da reconstrução da pré-história, pois a ausência de vestígios de linguagem escrita ou manifestações artísticas como a pintura rupestre não permite concluir com segurança que não há linguagem. O próprio Zerzan reconhece na entrevista citada que "ninguém sabe quando a linguagem se originou." Ora, então não temos base para localizar essa cisão entre vida livre não simbólica e vida controlada simbolizada. Penso que é um erro identificar civilização com cultura, talvez a civilização seja um tipo específico de cultura. Nem toda cultura separa totalmente a humanidade da natureza. Sem falar no fato de que os povos originários não tinham consciência de que tinham cultura, por isso a adoração de imagens e ídolos, para eles o escultura não é uma representação, um símbolo de deus ou de um espírito, mas o próprio espírito. Este é o fundamento, por exemplo do cântico de mantras na Índia. Para dar um exemplo próximo, para os adeptos deste movimento quando eu canto "hare Krihsna, Hare Krihsna..." é o próprio deus que dança na minha língua. È por isso que os judeus afirmavam que nome de Deus é impronunciável. O nome de Deus não é um símbolo a representar algo, mas é o próprio Deus. Isso modifica a relação com a linguagem e com a cultura em geral. Mesmo que a cultura fosse apenas separação e alienação, na medida em que esta cultura não tem consciência de si enquanto cultura, então não há efetivamente separação!! Uma última observação, porque isto está ficando de novo longo de mais. Zerzan descreve a cultura, ou seja, este conjunto de ideias, símbolos, práticas sociais, valores, como e peça fundamental para o controle social e para o padronização do comportamente. Aqui aparece outro risco semelhante a identificação entre cultura e civilização, que é a identificação entre cultura e sociedade. Existem alguma sociedade sem alguma padronização. O padrão é uma medida do que é comum e sem elementos comuns minímos não pode haver convivência. Até mesmo para caçar é necessário coordenação entre todos os envolvidos, um certo procedimento padrão compartilhado. Se precisamos, sei lá, de três indivíduos para cercar e matar um animal, cada um deles tem saber o que o outro fará em função de acordos mútuos. A meu ver o problema do anarquismo não é com o padrão, mas com o padrão imposto. Uma sociedade livre que escolhe livremente suas regras e padrões de comportamente não é indesejável em si mesma. Do contrário, caímos num individualismo tão radical que nega toda convívio humano. Bom, talvez não tenha compreendido o argumento de Zerza, ou talvez esteja fazendo uma crítica já feita, mas tudo bem. Estou apenas compartilhando minhas leituras. Em breve mando mais comentários. Thiago --- Em qui, 3/12/09, Janos Biro <janosb...@gmail.com> escreveu: |
Thiago,
Sua análise está correta até então. Do meu ponto de vista, o ponto fraco de Zerzan é seu próprio conceito de “experiência direta”. Tal conceito remete a idéias filosóficas que estão longe de serem aceitáveis, e, no entanto, ele não lança nenhum argumento em defesa do uso desse termo. Parece que ele toma isso como pressuposto.
Seu argumento pode levar à tese de que a separação ocorre na linguagem, mas só é compreendida na linguagem depois que essa própria separação é também simbolizada. Ou seja, até para compreender a representação, eu tenho que representa-la, eu tenho que separar a “simbolização pura” da “simbolização simbolizada”. E isso gera grande confusão.
Há realmente um grande problema conceitual para os anarquistas, quando estes separam “coerção” e “liberdade”. Não podemos duvidar que o lobo é livre (e um símbolo da liberdade), e no entanto, ele também sofre coerção do macho alfa e do seu meio social. A separação entre “padrão emergente” e “padrão imposto” nem sempre é clara. O padrão que emerge diretamente das interações dos envolvidos pode levar a um estruturalismo insustentável. Por outro lado, não se pode negar a influência da estrutura. E, creio eu, há mais de um tipo de individualismo que nos ameaça. A negação do convívio é o menos ameaçador. Aquele que aceita o convívio, mas o usa para “interesses próprios“ me parece pior.
Acho que sua crítica está boa, e não tenha medo de refazer uma crítica, porque isso também é necessário às vezes. O problema não é se repetir, e sim ignorar que alguém possa ter dito o mesmo, e insistir num erro do passado. Você está procurando pela informação, acho que está indo bem.
Abraços
Janos