"It's fine"

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Janos Biro

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Jan 19, 2012, 3:14:30 AM1/19/12
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http://www.youtube.com/watch?v=F3Ift1-ZhVI

Quais as crenças letais que vocês conseguem identificar nesse vídeo?

Abraços

Renato Corrêa

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Jan 19, 2012, 9:19:15 AM1/19/12
to civil...@googlegroups.com
Haha... engraçado que o cenário é o centro de São Paulo. 

Não sei se vi alguma crença letal. Vi foi um apelo absurdo ao individualismo. Como se com você está tudo bem, então tudo bem. 

Talvez essa crença seja letal, mas quando usamos esse termo, penso nas coisas que achamos que é solução mas que na verdade apenas nos afundam ainda mais na situação. 



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Renato Corrêa

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"Tanta gente vive em circunstâncias infelizes e, contudo, não toma a iniciativa de mudar sua situação porque está condicionada a uma vida de segurança, conformismo e conservadorismo, tudo isso que parece dar paz de espírito, mas na realidade nada é mais maléfico para um espírito aventureiro que um futuro seguro."

hugo

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Jan 19, 2012, 4:55:15 PM1/19/12
to civil...@googlegroups.com
Consumo como solução, talvez. Como forma de acesso à auto-satisfação e à completude (extrapolando um pouco, como "sentido da vida", talvez). Que é possível viver isolado do mundo, à parte dos seus semelhantes. Que se fechar no seu "mundinho" e não ser afetado pelos problemas do "mundão" é possível. No meu carro eu sou auto-suficiente e não preciso de ninguém (ou não sou incomodado por ninguém). Mas essa não é uma solução ao alcance de todos, claro: é preciso ter a mercadoria certa para isso.
 
Os comerciais do cigarro Free, nos anos 80 e 90 também eram muito interessantes. Sempre tinham alguém se dizendo único e especial, acima e à parte da humanidade, mas que tinha algo em comum conosco, meros mortais: o cigarro (ou seja, a mercadoria). O próprio nome do cigarro é significativo. No caso, a liberdade a ser alcançada é ser livre de seus semelhantes. Deixar que nossas relações sejam mediadas por mercadorias. Cada vez mais dá muito trabalho se relacionar com as pessoas.
 



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Janos Biro

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Jan 20, 2012, 7:42:05 AM1/20/12
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Quando eu digo crença letal, entendam crença cultural civilizatória ou civilizada.

Janos Biro

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Jan 20, 2012, 9:06:55 AM1/20/12
to civil...@googlegroups.com
É interessante o exemplo do cigarro. Eu também ficava pensando nisso quando via uma propaganda do Free.

hugo

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Jan 21, 2012, 6:13:48 AM1/21/12
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Então, que tal essa: que o próprio desenvolvimento da civilização me protegerá dos seus males (dos males da civilização, quero dizer). Que quanto mais a civilização se desenvolve, menos sentimos os males que o seu desenvolvimento traz.
 
----- Original Message -----
From: Janos Biro
Sent: Friday, January 20, 2012 10:42 AM
Subject: Re: [Civilização] "It's fine"

Janos Biro

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Jan 21, 2012, 6:45:25 AM1/21/12
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O que eu pensei foi mais ou menos isso: "Não se sinta mal por saber que enquanto você está vivendo confortavelmente a sua própria vida, graças ao seu poder de consumo, o mundo lá fora está um caos. Eu sei que de vez em quando vem uma sensação de desconforto, um incômodo ao pensar que as coisas estão fáceis demais para você. Você pode sair eventualmente da sua redoma e provar um pouco do caos, para quebrar a rotina. Mas não se envergonhe em voltar para o seu aconchego. Não há nada de errado nisso. Errado seria se opor à realidade. Sair do conforto para tentar ajudar os outros não compensa. O mundo ao seu redor está desabando, mas está tudo bem, você está onde deveria estar. Deixe o mundo desabar. É melhor viver num mundo vazio do que cheio de gente estranha, louca e imprevisível. Você não precisa deles".

Abraços

Janos

hugo

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Jan 21, 2012, 8:10:15 AM1/21/12
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Tinha entendido que vc queria apontar algo mais abrangente, mas genérico e totalizante, que explicase a maior parte das particularidades por estar na raiz delas.
 
Mas fiquei pensando, agora, que devíamos nos concentrar mais no nosso objeto...
 
Acho que o que o comercial diz, mesmo, é que é possível ver a vida de forma diferente de dentro do carro ("Num Citroën C4 Pallas tudo fica diferente", diz o locutor). A realidade é dura, ninguém nega, mas com o carro certo (ou produto, ou bem de consumo, ou mercadoria - qualquer coisa que o dinheiro compre) ela parece bem melhor. Repare que o casal está curioso a respeito das ruas vazias. Não era pra ser assim. Tem alguma coisa esquisita aí (e por ser SP, isso fica mais óbvio para o espectador brasileiro - talvez mais para o paulistano do que para o brasileiro, não sei). Até que ele sai do carro e vê aquele caos. Daí ele volta e diz "it's fine". É como se ele lembrasse "ah, é mesmo: somos pessoas especiais porque temos um carro especial, tinha me esquecido disso".
 
Acho interessante notar, também, que o fato deles estarem dirigindo o carro realmente intefere na realidade. Eles andam tranquilamente por ruas que só aparentemente estão vazias, mas que na verdade estão abarrotadas. Seria mais do que "possível ver a vida de forma diferente de dentro do carro", então. Ela se transforma, mesmo. Louco é pensar em um congestionamento de Citroën C4 Pallas, hehe... Mas acho que a essência da lógica da coisa é justamente que esse privilégio não é (e nem pode ser) generalizado (se não, deixa de ser privilégio).
 
Ou, de repente, estou sendo muito literal. Vai ver que a essência da coisa é "só" aproximar o carro do anti-depressivo da moda (qual é, hoje em dia? prozac, vallium, lexotan?). Daí a verdadeira questão passa a ser a nossa necessidade de drogas (entorpecentes e/ou alucinógenas) para conseguirmos viver como vivemos. Qualquer semelhança com o livro "Admirável Mundo Novo", é claro, não é mera coincidência.
 

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Janos Biro

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Jan 21, 2012, 8:41:59 AM1/21/12
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Eu fiz uma relação com a atitude do Cypher em Matrix. Apontei para uma questão psicológica, mas que ao meu ver é bastante abrangente. Não é uma ideia que está sendo consumida apenas por compradores em potencial do carro anunciado. A ideia é que podemos ter contato temporário com a realidade sem precisar nos comprometer com ela. A ideia é não se assustar com as bolhas emergindo ao seu redor, e continuar no calor da panela. É a insensibilidade. Nada me atinge. Tudo aquilo parece irreal demais. Um "herói" iria perceber que ali existem pessoas em perigo e iria tentar fazer alguma coisa para ajudá-las. Mas ali, isso seria estupidez, porque significaria deixar seu espaço de conforto e de prazer. Quando o comercial diz que tudo fica diferente dentro do carro, ele quer dizer que tudo que incomoda fica invisível. O inferno são os outros. O paraíso é estar a sós com o objeto de consumo (que no caso, é mais a mulher do que o carro). Acho que o cara, quando sai do carro, fica impressionado com o que vê. É como um show pirotécnico, um malabarismo no sinal. Quebra do cotidiano, mas é somente uma quebra temporária, não é algo que revela a verdade, não é uma quebra a partir da qual a vida já não pode mais continuar sendo vivida do mesmo modo. É uma lembrança que existe algo diferente lá fora, mas que vai permanecer lá fora, e você vai permanecer aqui dentro. Nesse sentido, relaciono isto com uma crítica a uma estratégia muito comum hoje em dia, que é a tentativa de atingir a consciência das pessoas pela quebra do cotidiano, que ao meu ver não está dando certo.

Abraços

Janos

Janos Biro

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Jan 21, 2012, 8:50:40 AM1/21/12
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Se prestarem atenção, quando ele sai ele vê barulho, muita gente fazendo um monte de coisas diferentes, conflito, ambulância passando, indicando problemas, gente falando no megafone, acidentes de carro, enfim, toda efusividade da vida urbana. E a mensagem parece ser a seguinte: Isso é muito interessante de assistir por algum tempo, mas ninguém quer isso. Combina muito com o que a sociologia urbana chama de "espaço público morto".
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Renato Corrêa

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Jan 23, 2012, 5:18:53 PM1/23/12
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O que é essa sociologia do espaço publico morto?
Queria entender mais isso aí.
Tem alguma fonte legal?

Janos Biro

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Jan 24, 2012, 7:59:22 AM1/24/12
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"Espaço público morto" é um termo usado por Richard Sennett no livro Declínio do homem público. Não é exatamente o tipo de autor ou de livro que eu recomendo, mas fiz um resumo dele, e tem algumas coisas interessantes. vou citar um trecho do meu resumo que fala do disso:

Para o Sennett, o comércio de revelações íntimas passa a sustentar as relações interpessoais. Na medida em que não há mais o que revelar ao outro, a relação se rompe. O resultado é que “o tédio é a consequência da intimidade” (SENNETT, 1993, p. 24). Junto o narcisismo, este comércio de intimidades transformam a expressão de sentimentos em algo destrutivo. Sennett parte daí para afirmar que o espaço público perdeu seu sentido e sua força vital, tornando-se espaço público morto. O espaço público morto caracteriza-se por não ser projetado para a convivência entre estanhos ou a permanência de diferentes sujeitos. Ele é projetado para ser espaço de passagem, com o único objetivo de servir como via rápida e prática para se alcançar um destino. “A tecnologia da movimentação moderna substitui o fato de estar na rua por um desejo de eliminar as coerções da geografia” (SENNETT, 1993, p. 28).
 
O espaço público morto, para atingir esta finalidade de ser espaço de mero movimento, é tanto um espaço isolador quanto um espaço visível. “Nesse conceito de projeto, a estética da visibilidade e o isolamento social se fundem” (SENNETT, 1993, p. 27). Isso ocorre porque a visibilidade termina por inibir a sociabilidade, devido à vigilância mútua. “Quando todos estão se vigiando mutuamente, diminui a sociabilidade, e o silêncio é a única forma de proteção” (SENNETT, 1993, p. 29). Esta lógica se operacionaliza com base nos pressupostos da eficiência burocrática. Quebrar o silêncio no espaço impessoal ou fazer contato visual prolongado com o outro é considerado um atentado contra o direito individual de permanecer como que protegido em sua área de conforto. O automóvel é a materialização deste espaço e do ideal de movimentação livre sem realmente participar dos espaços pelos quais nos locomovemos.

Outro termo relacionado a esse é a "arquitetura do medo". Tem um estudo feito especialmente sobre São Paulo no livro Cidade de muros da Teresa Pires do Rio Caldeira, que é muito interessante.

Abraços

Janos

hugo

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Jan 24, 2012, 5:35:07 PM1/24/12
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A parte em que fala sobre esses espaços serem espaços de passagem, não destinados à convivência, lembra o conceito de não-lugar do Marc Augé. Mas o seu exemplo clássico são os aeroportos.
 

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Janos Biro

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Jan 25, 2012, 8:40:02 AM1/25/12
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É isso mesmo. Mas tem uma coisa por trás disso que precisa ser exposta. Este conceito de espaço de passagem, espaço púbico morto ou de não-lugar parecem estar defendendo o problema da cidade é que ela não é democrática o bastante. Que a ausência de democracia deixou a cidade sem vida. Daí surgem propostas tais como as do Michel Maffesoli, para quem o espaço urbano poderia ser revitalizado pela injeção de aspectos primitivos. Foi o que eu tentei relator num post de maio de 2011, chamado O neo-tribalismo e a crítica à civilização. Vou citar algumas coisas para estabelecer uma conexão:

Para Maffesoli, a pós-modernidade produziu o declínio do individualismo e um retorno a um “arcaísmo juvenil”, que não é um poder instituído, mas uma “potência societal” que precede e fundamenta o poder. Este movimento não é regido pelo princípio do logos, mas pelo princípio do eros. Não está submetido à razão e sim à corporeidade.

Nas palavras do autor, é uma “verdadeira revolução espiritual. Revolução dos sentimentos que ressalta a alegria da vida primitiva, da vida nativa” (MAFFESOLI, 2000, p. 6). Ao invés de progresso, temos o “ingresso”, que representa um eterno retorno em espiral de valores arcaicos acomodados ao desenvolvimento tecnológico. Ingressar sem progredir significa um constante “entrar”, sem direção e sem objetivo específico.

As manifestações lúdicas são valorizadas como fontes de vitalidade e dinamismo para a sociedade de massas. “Pode-se localizar esse vitalismo nas efervescências musicais, mas pode-se, igualmente, observá-lo na criatividade publicitária, na anomia sexual, no retorno à natureza, no ecologismo ambiente, na exacerbação do pêlo, da pele, dos humores e dos odores, em suma, em tudo o que lembra o animal no humano. A vida se torna selvagem!” (MAFFESOLI, 2000, p. 8). As estruturas verticais (hierarquia autoritária) deixam de ser suficientes, passamos a pensar em termos de estruturas horizontais (igualdade e participação).

Maffesoli também usa o conceito de “criança eterna” para caracterizar o indivíduo pós-moderno. A criança eterna é fiel ao “mundo como ele é”, mas isso não significa aceitar o status quo. A barbárie nega e ao mesmo tempo fomenta a “dialética não-teleológica” da civilização.

A cidade não deve ser um lugar monótono, mas ao contrário, deve ser um lugar estimulante e plural. As “pequenas hordas” de marginais e deliquentes dão vida à cidade, mesmo que agindo de forma anômica (isto é, contrariamente às regras). Isto porque a cidade ideal não deve ser regulada pela moralidade, mas sim pelas paixões. O afeto liberado das rédeas da moralidade e da racionalidade passa a ser organizado numa “nebulosa afetiva”. A polis é complementada pela tíade (bacanal), Apolo por Dionísio e a função pela disfunção. A anomia é integrada no ideal de cinestesia social. A rede de computadores, as relações abertas e os diversos tipos de solidariedade representam o novo espírito do tempo. Segundo o autor, as “redes de redes” não são boas nem ruins, devemos perceber que já estamos enredados nelas até o pescoço.

Podemos chamar isso de “politeísmo axiológico” (a aceitação de múltiplos valores ao mesmo tempo), de estrutura holomórfica, de lógica inconsistente ou de organização fractal. Esses conceitos são tomados como base do pensamento e da ação e devem ser aceitos por si sós. Na “ambiência erótica da vida social”, o indivíduo sofre a ação quando acredita estar agindo por si mesmo.

O autor também usa o conceito de “participação mágica”: um modo de participação que não pode ser plenamente racionalizado, e que se dá na relação com os outros (tribalismo), com o mundo (magia) e com a natureza (ecologia). A identidade é considerada como uma prisão, um “enclausuramento na fortaleza do próprio espírito”, e o imperativo passa a ser a “perda de si” e a “sede de infinito”. O dinamismo do devir só pode ser vivido de modo pré-individual, e por isso retornamos ao conceito de inconsciente coletivo em oposição ao de sujeito. Essa perspectiva indica o fim do primado do indivíduo.

O que você acham disso, em termos de "monstro assimilador"?

Abraços

Janos

hugo

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Jan 29, 2012, 7:46:22 PM1/29/12
to civil...@googlegroups.com
Que uma possibilidade de reação ou alternativa já é assimilada antes de ter tempo de se formar? E, pior, de forma deturpada e enviesada? Como se só o que há de negatvo (ou melhor "estereotipado", e, portanto, mal compreendido) no pré-civilizado fosse assimilado pelo civilizado? Mais do que assimilado, talvez, mas resignificado, retransformado, sempre dentro da sua própria lógica civilizada; o que, é claro, esvazia de conteúdo essas características pré-civilizadas em questão.
 

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hugo

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Jan 29, 2012, 8:03:40 PM1/29/12
to civil...@googlegroups.com
Não vi nada no sentido de se preferir a ilusão è realidade, como o Cypher fez. Repito minha impressão de que a paisagem deserta e calma da cidade que eles viam de dentro do carro não era, absolutamente, o que eles esperavam. Poderia ser até o que eles desejavam, mas eles sabiam que alguma coisa estava errada. Não foi o caso de considerar a ignorância como uma bênção. Tanto que ele saiu do carro pra ver o que estava acontecendo. Guardadas as devidas proporções, foi como se ele escolhesse a pílula vermelha, nesse momento (para continuar com o seu paralelo). E não acho que ele tenha ficado impressionado ou especialmente interessado no que viu, foi só mais uma curiosidade distante... Nesse sentido, o "it's fine" dele seria algo como "ok, tá tudo como sempre foi, só que não nos afeta". O Cypher queria a ilusão completa e absoluta. Ele não queria se lembrar de nada a respeito da realidade.
 
Temos que ter cuidado com essas análises, para não extrapolarmos o objeto imputando-lhe mais coisas do que ele diz. Concordo com isso de que o que incomoda fica invisível, o inferno são os outros, etc, mas isso que vc diz sobre a mulher já é ir muito longe. Provavelmente é uma realidade em qualquer outra situação, mas não creio que esteja no filme publicitário em questão. O mesmo se aplicaria aos espaços públicos mortos e aos não-lugares. É ir muito longe a partir deste comercial.
 
Na real, na real, acho que o máximo que dá pra tirar dele é a coisa do carro (ou, por extensão, o consumo) como anti-depressivo ou entorpecente. O comercial tenta vender alguma coisa. Mais do que o carro, a possibilidade de uma vida perfeita e sem incômodos, proporcionada pelo objeto a ser consumido. E o fato de que nem todos podem usufruir disso, pois todos os outros estão sofrendo com os problemas do trânsito.

Janos Biro

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Jan 29, 2012, 10:17:58 PM1/29/12
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Hugo,

Concordo com sua observação. Eu extrapolei o conteúdo da peça publicitária porque minha intenção não era me ater ao que ela expressa, mas usá-la para ilustrar outra coisa. Temos um incômodo inicial e uma sensação de que está tudo calmo demais lá fora, seguido do contato com uma realidade não tão calma e a escolha de não fazer parte dessa realidade, mas continuar como estava antes. O sujeito percebeu o seguinte: as coisas não estão calmas lá fora. Elas estão calmas para mim, porque eu estou protegido. Isso é normal, é assim que deve ser, então vamos relaxar. Uma das questões que mais me intriga na escolha do Cypher é justamente que ele escolheu esquecer de tudo, provavelmente porque a memória seria dolorosa demais. Sua escolha seguiu o critério da maximização do prazer.

Sua análise foi muito boa, mas dela podemos partir para um problema maior. Se o carro é um entorpecente, e se consumi-lo significa uma possibilidade de prazer que não pode ser compartilhado, isso significa uma escolha pela normalização de uma patologia, no sentido de que é impossível se entorpecer ou concentrar bens de consumo, que geram conforto, se você decide olhar para a necessidade dos outros. Quando decidimos usufruir privadamente de um bem sabendo que outros necessitam daquilo, estamos decidindo aceitar uma crença civilizada de que isso é normal, isso é como as coisas devem ser. Ao aceitar essa crença estamos decidindo mergulhar numa mentira, e fazemos isso para preservar nosso prazer. Então o ponto central, para mim, é que ele olha para todas aquelas pessoas naquela situação infernal e não pensa em quantas delas ele poderia ajudar, até mesmo colocando-as dentro do carro dele para que elas pudessem experimentar algum momento de paz, e assim compartilhar aquilo que ele tem. Não, ele decide que o correto é deixar que os outros se matem e permanecer vivando sua própria vida. E isso, para mim, é equivalente a decidir esquecer o sentido do que ele viu lá fora.

Abraços

Janos

Janos Biro

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Jan 30, 2012, 7:39:30 AM1/30/12
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Esquecer ou não entender. São coisas diferentes, mas similares. E é claro que compartilhar a experiência do carro não é suficiente, mas é só para mostrar onde está a relação que eu estabeleci, talvez de modo forçado: ambos não se importam com o que vai acontecer aos outros, só se interessam em retornar para a sua zona de conforto.
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hugo

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Feb 1, 2012, 5:35:22 PM2/1/12
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O caso do Cypher certamente tem tudo a ver com a questão da verdade. Lembro que ele deu bastante ênfase ao desejo de não querer se lembrar de nada. No entendimento dele, acho, uma ilusão que não é questionável é uma verdade. O problema dele se lembrar é que isso destruiria "a verdade da ilusão", digamos assim.
 
Concordo com o seu segundo parágrafo. Com certeza nem de longe foi colocada a questão do problema que aquelas pessoas viviam. A única coisa que importa para o personagem é que não é ele quem vive aqueles problemas. Ou, indo mais longe, ele não quer sequer o incômodo de vê-la pela janela. Nesse sentido, acho que ele difere do Cypher, pois, para ele, saber o que acontecia fora do carro não atrapalhou nem um pouco o usufruto da ilusão que ele tinha de dentro do carro (ou suponho que não, pelo "it's fine"). No lugar do Cypher, acho que ele só pediria para voltar à Matrix, mas não se incomodaria se fosse orbigado a lembrar.
 
----- Original Message -----
From: Janos Biro
Sent: Monday, January 30, 2012 10:39 AM
Subject: Re: [Civilização] "It's fine"

Luís Fernando Silva Neri

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Feb 2, 2012, 5:49:39 PM2/2/12
to civil...@googlegroups.com
eu pensei "o que te separa", o carro funciona como uma bolha de anti-realidade, aquele é o seu espaço, que você consegui, uma bolha de conforto.

"funciona" "realidade" "espaço" "conforto" também são os objetivos de venda.

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Forte abraço.

Luís.
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