O ULTIMO ESCÂNDALO DE GODARD
A grande fofoca do ano vai ser O Vento do Leste (Vent d'Est, 1969), último filme de Godard, depois de Lê Gai Savoir e antes de Pravda (acontecimentos tchecos). É um filme italiano (ainda mistério total). A fofoca que pode ganhar dimensões de La Dolce Vita: a Cineriz, grande distribuidora do editor Rizolli, deu um adiantamento de cem mil dólares ao produtor Gianni Barcelloni por "um western em cores escrito por Cohn- Bendit e dirigido por Jean-Luc Godard, com interpretação de Gian-Maria Votante".
O filme corresponde às exigências da Cineriz? Vi-o em primeira e secreta sessão, ao lado do produtor e de um advogado. A Cineriz, sus peitando que o filme não é o que se esperava, ameaça processar os produtores e pedir o dinheiro de volta, mas acontece que ninguém ainda viu o filme sobre o qual já correm as mais loucas piadas. Por exemplo, encontrei um rapaz que me disse: — "Você já sabe? No faroeste de Godard tem dois cavalos recitando Mao!"
Gianni Barcelloni me pediu um cigarro aos dez minutos de projeção e, quando risquei o fósforo, reparei que estava chorando. Ao lado dele o ad vogado entalado; na ponta Ettore Rosbuck, jovem milionário cabeludo, em silêncio infantil. Dez minutos e o filme ainda no plano inicial, uma cena que mostra um rapaz e uma moça deitados na relva, enquanto que na trilha sonora, ouve-se a discussão política em som distorcido. — "Du vrai Godard" — diria um snob especializado. Mas a brincadeira acaba por aí. Na primeira meia hora a luz acendeu e o advogado, branco, disse: — Estou de acordo com as palavras de Godard, mas isso não é um filme! A Cineriz vai iniciar o processo! — Aí eu respondi:
— Escuta, doutor, a definição técnica de filme é determinada metragem de película impressa e com som. Cientificamente o filme existe. O advogado me respondeu:
— Sou um homem prático. O juiz vai julgar esta causa e vai dizer que isto não é um filme!
Aí eu respondi ao advogado:
— Doutor, não existe legislação que diga o que é um filme, em termos estéticos. Se um juiz disser que isto não é um filme, o senhor apela!
No meio desse papo, a luz apaga e começa uma imagem onde Godard entra com sua voz de pastor protestante e pergunta o que é um filme. O ad vogado dá uma gargalhada e Godard continua em cima de uma imagem que mostra Gian-Maria Volonté montado num cavalo e arrastando um índio pela campina.
O que é um filme? Todos os dias os patrões pedem aos cineastas que façam um filme.
O patrão tanto pode ser Breznev-Mosfilm ou Nixon-Paramount.
Esta cena que nós estamos vendo é a cena clássica de um western produzido em Hollywood: um oficial de cavalaria americana tortura um ín dio.
A cena se repete, mas desta vez entra o oficial lendo um livro revolucionário da moda.
Nesta cena vemos a imagem e ouvimos o som de um filme progressista que, todos os anos, é apresentado nos Festivais de Pesaro ou Leipzig: é um filme igual ao filme reacionário antecedente, pois mostra as mesmas imagens espetaculares do outro, com um conteúdo postiço.
A partir daí são mostradas várias outras imagens e muitas perguntas sobre o cinema militante, sempre com um espírito de autocrítica disci plinado.
Falo para o advogado:
— O senhor já viu que a discussão vai ser grande. Se o juiz engrossa, chama o Moravia, o Levy-Strauss, o Marcuse, o Sartre. Um filme de Godard agüenta a parada: a Cineriz prefere perder cem mil dólares a ser desmoralizada.
O advogado não me ouviu, estava fascinado.
Barcelloni de joelhos, Ettore possuído daquele silêncio bestial diante do gênio indecifrável.
l — As imagens se repetem em citações e discussões e o filme acaba. O advogado está lívido e eu digo, me levantando:
— Na minha opinião, o único problema deste filme é que ele não passa, no momento, pela censura italiana; no resto não tem problema, é muito bom e tão comercial quanto os outros.
O advogado me chama de otimista e vai embora. Saio com José António Ventura, que foi engenheiro de som do filme, e digo várias coisas:
— É uma montagem de som genial; o Godard vai acabar fazendo um disco.
— Não é um filme político como quer o Godard; é um filme anarquista na linha de Artaud ou do Jarry.
— Alo, Escorei? Escuta, o filme é na linha do Jarry, aquela coisa. O Paulo Emílio Salles Gomes vai gostar muito ou, se não gostar, vai ter matéria para analisar.
Mais tarde, ainda com Ventura:
— É uma brincadeira de verão. Por cento e cinqüenta mil dólares a gente podia fazer uma indústria de cinema no Brasil! Na casa de Gianni:
— Como montagem de imagem e som temi um anarquismo burguês, um moralismo destrutivo de quem está por cima que me aborrece. Sabe, Gianni, você já imaginou se Bach botasse letra de esquerda nas músicas dele para agradar no Festival da Canção? Ou se Mondrian botasse umas legendas de esquerda nos quadros dele? Ou mesmo, no Brasil, se o Tom cedesse à pressão e botasse letras de esquerda nas músicas dele? Sabe, Gianni, eu me lembro do que o velho Nicholas Ray me disse em Cannes: — "Quando eu vejo um filme de Jean-Luc não me interesso sempre pelas imagens que são belíssimas; o grande problema de Jean-Luc é que ele não tem coragem de falar dele mesmo!"
Gianni me responde:
— O Jean-Luc me dá grande pena!
Andando de volta, pela rua, com o bravo Ventura:
— Sabe, Zé, o Godard tem uma frustração muito grande porque não consegue criar um clima político; ele não tem nenhuma violência, ele se aproxima sempre teoricamente da realidade; quando ele mostra o oficial de cavalaria americana torturando um estudante, não causa qualquer terror. O quadro fica belíssimo, é um dos planos mais lindos do cinema, daqueles que botam os cinéfilos babando.
— É isso mesmo — concorda Zé — naquela cena em que o oficial ataca a cavalo os manifestantes, ele queria fazer uma cena brutal, pediu-me mesmo para aumentar bem o som e,-depois, você viu aquela cena simples, quase lírica.
— Mas a cena ficou genial — respondi para Zé — porque os quatro movimentos de câmera que ele fez são inéditos na história do cinema....
— ... é, bonito à beça! — murmurou Zé.
— Zé — continuei — eu estou ficando contra este filme porque nós somos a parte mais fraca; esse filme é uma instrumentalização de nossas misérias por um francês burguês que tá na dele, tentando explicar o marxismo, coisa que eu não entendo a fundo mas acho que ele também não en tende. Se um professor de ciências políticas assistir a esse filme pode até achar graça. Agora, tem uma coisa, pode ser que essa tentativa desesperada do Godard de explicar o marxismo seja uma previsão dele mesmo de que o marxismo já não responde bem aos problemas de hoje. Sei lá... esse filme me parece uma grande gozação!
2 — É inútil continuar dizendo minhas reações sobre O Vento do Leste. Quando, no Brasil, um intelectual não gosta de um filme do cinema novo, ele diz com a empáfia de um sabichão:
— Isto não é um filme!
Filme para os intelectuais em geral obedece a um modelo americano que ele viu na infância e que guardou junto ao complexo de Edipo: qualquer provocação, e vem logo uma besteira pretensiosa. Uma vez, um intelectual carioca me disse na praia:
— Não gostei de El Jusíicero porque a câmera está sempre fixa e, em comédia, a câmera deve se movimentar muito!
Na roda todos ficaram maravilhados. Para os intelectuais na crista da onda que já formaram um modelo de cinema moderno segundo Godard,íO Vento do Leste vai fundir mais ainda a cuca. E aos jovens cineastas que imitam o Godard de cinco anos atrás, pensando que estão reinaugurando o cinema brasileiro, faço uma advertência: virem-se rápido, porque nos dois próximos filmes Jean-Luc pode reinventar tudo e mesmo a parafernália tropicalista não vai servir para esconder o chute dos imitadores do velho estilo de filmar e de meter o pau nos colegas. Tristemente, a moda Godard parece ter acabado com O Vento do Leste e é o próprio Jean-Luc que está acabando com ele mesmo, por horror ao seu gênio. A última frase que eu disse ao Ventura foi assim:
— A desgraça é que pela América Latina toda vai ser uma imitação de lascar: assim como os africanos deviam botar todos os brancos para fora, a gente devia impedir que viesse filme estrangeiro para o Brasil, o cinema brasileiro só pode ir para a frente se o público, a crítica e os cineastas assistirem apenas filmes brasileiros. Para Godard o cinema acabou e, para a gente, o cinema está começando; no Brasil, um câmera como o Dib Luft faz um plano longo na mão e todo mundo vibra; se o Godard visse isso ia cair chorando no chão...
3 — Diante desse homem magro e calvo de quarenta anos eu me sinto uma tia carinhosa que tem vergonha de dar um doce para o sobrinho triste. A imagem é besta, mas Godard desperta um sentimento de carinho muito grande. Agora não é besteira: é a mesma coisa que você ver o Bach ou o Michelangelo comendo spaghetti e na maior fossa, achando que não dá pé pintara Cabeia Sistina ou compor o Actus Tragicus. Pois Godard ficou as sim, humilde que nem São Francisco de Assis, com vergonha da genia lidade, pedindo desculpa a todo mundo, chorando como uma criança, quando Barcelloni gritou com ele, lamentando que está podre e abandonado quando a glória de ser o maior cineasta depois de Eisenstein lhe pesa sobre os ombros de burguês suíço anarco-moraíista. Porfavor, vamos acabar com isso, eu sou apenas um operário do cinema, não me falem em cinema, eu quero fazer a revolução, ajudar a Humanidade e vai por aí afora pedindo socorro à esquerda festiva de Maio que se aproveita do dinheiro da produção para fazer uma bela estação de veraneio na Sicília e logo depois ele abandona Cohn-Bendit com suas histéricas discussões Mao-Spray e vai correndo a Paris montar trechos do filme sobre a Tchecoslováquia e depois chega cor rendo a Roma e diz que não quer ganhar nada pelo filme e me critica dizendo que eu tenho mentalidade de produtor, depois me pede para ajudá-lo a destruir o cinema, aí eu digo para ele que estou em outra, que meu negócio é construir o cinema no Brasil e no terceiro mundo, então ele me pede para fazer um papel no filme e depois me pergunta se quero filmar um plano de O Vento do Leste e eu que sou malandro e tenho desconfiômetro digo para ele maneirar pois estou ali apenas na paquera e não sou gaiato para me meter no folclore coletivo dos gigolôs do inesquecível Maio francês.
4 — Para simplificar, Godard resume todas as questões do intelectual europeu de hoje em dia: vale a pena fazer arte? A questão é velha, diria Paulo Francis; Joyce também destruiu o romance! Pois é exatamente isso que chateia hoje na Europa: a questão da utilidade da arte é velha mas está na moda e, no cinema, Godard é a própria crise ambulante, Godard é o nosso Fernando Ezequiel Solanas, em Buenos Aires. A verdade, porém, queiram ou não queiram muitos dos ilustres intelectuais patrícios, é que o cinema europeu e americano entrou por um beco sem saída e só dá pé fazer cinema nos países do terceiro mundo. É justamente aí que a crise, Godard (e etc.) tem muito a ver com a gente. Em O Vento do Leste me pergunta quais são os caminhos do cinema e ele mesmo me indica a resposta:
— Por ali é o cinema desconhecido da aventura estética e da especulação filosófica'(e etc.); por aqui é o cinema do terceiro mundo, um cinema perigoso, divino, maravilhoso e aqui as questões são práticas, ques tão de produção, de mercado e, no caso brasileiro, formar 300 cineastas para fazer 600 filmes por ano, para alimentar um dos maiores mercados do mundo.
5 — Repito: a diferença está nisto. De um lado há um cansaço geral financiado pêlos grandes capitais e inclusive o desesperado Godard, por mais que deseje escapar, faz filme atrás de filme, financiado pelo sistema que, por sua vez, está pouco ligando que Godard mande brasa em cima dele, pois o cinema também está cansado e todo mundo está no barato esperando a Bomba. O Vento do Leste é financiado por Ettore Rosbuck e este jovem significa Fiat. Pois os capitais da Fiat financiam o mais anarquista e ter rorista filme dos últimos tempos e, no fundo, Ettore pouco se incomoda porque, para ele, O Vento do Leste é politicamente inofensivo como qual quer obra de arte e a grande força deste filme é apenas uma: sua desesperada beleza que nasce, transparente, de uma inteligência cansada de poesia. Do outro lado, cansados de correr, mas ainda virgens de reflexão estamos nós, terceiro-mundistas, pedindo licença para filmar.
Godard e Cia. estão,no mais zero. Nós estamos no menos zero.
Nós não temos os grandes capitais a nos financiar .e, ao contrário, temos uma censura forte por cima dos peitos. Temos, também, um público que detesta nossos filmes porque está viciado nos filmes comerciais estran geiros e nacionais, e temos, ainda, os intelectuais, que detestam os nossos filmes porque estão viciados nos filmes de Godard e nos detestam porque ousamos fazer cinema num país que não tem vedetes como Gary Cooper, e, além do mais, que fala uma língua incapaz de dizer I love you. A diferença é apenas esta e, apenas por causa disso, acho que vale a pena escrever uma derradeira coisa sobre Godard, para concluir com um troço diferente:
— Arte no Brasil (ou em qualquer pais do terceiro mundo) tem sentido, sim senhor! Pobre do país subdesenvolvido que não tiver uma arte forte e loucamente nacional porque, sem sua arte, ele está mais fraco (para ser colonizado na cuca) e essa é a extensão mais perigosa da colonização econômica.
No caso especial do cinema, quero dizer aos colegas que agüentem firme contra as pichações, calúnias e despeites, porque eu estou absolutamen te seguro que o cinema novo brasileiro está produzindo imagens e sons daquilo que já se pode chamar cinema moderno.
Depois de ver O Vento do Leste eu não disse a última frase para o advogado porque isso não interessava a ele, mas agora quero dizer para quem estiver ou não interessado, na distante pátria querida:
— Eu vi de perto o cadáver do suicida Godard que, ali naquela tela em 16 mm, era a imagem morta da colonização. Meus colegas: eu vi a colo nização morta! Se fui um brasileiro privilegiado, perdoem-me, mas se espalho a notícia em primeira mundial, é apenas para deixar bem claro que É PRECISO CONTINUAR A FAZER CINEMA NO BRASIL!