Vida na Palestina 18/01/2009

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corujavermelha

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Jan 18, 2009, 11:06:27 AM1/18/09
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EM GAZA, ESTÃO USANDO UM NOVO TIPO DE ARMA.

Sophie Shihab.

Le Monde 12/01/2009 e Rebelión 13/01/2009.

 

Nos últimos dias, as redes de televisão árabes que transmitem da Faixa de Gaza vêm mostrando feridos de um novo tipo, adultos e crianças com munhões ensangüentados no lugar das pernas. No domingo, dia 11 de janeiro, dois médicos noruegueses, os únicos ocidentais que trabalham no hospital da cidade confirmaram isso.

Os médicos Mads Gilbert e Erik Fosse, que trabalham na região há vinte anos com a ONG norueguesa Norwac, conseguiram sair do território na véspera, com 15 feridos graves pela fronteira com o Egito. Não sem ter que driblar obstáculos: "Três dias atrás, o nosso comboio, apesar de identificado pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha, teve que dar meia volta antes de chegar em Khan Yunis, onde os tanques atiraram em nós para nos deter", declararam aos jornalistas presentes em Al-Arish.

Dois dias depois, o comboio pôde passar, mas os médicos e o embaixador da Noruega que haviam ido recebê-los foram retidos durante toda a noite "por razões burocráticas" no posto de fronteira egípcio de Rafah, semi-aberto somente para as missões de saúde. Na mesma noite, os vidros do posto foram quebrados pelo estampido de uma das bombas lançadas nas proximidades.

"No hospital Al-Shifa de Gaza não vimos queimaduras de fósforo nem feridos por bombas de fragmentação. Mas vimos vítimas de algo que tem todas as características de um novo tipo de arma testado pelos militares estadunidenses, conhecido como Explosivo de Metal Denso Inerte (DIME, pela sigla em inglês)", declararam os médicos.

Trata-se de pequenas bombas envolvidas por carbono e uma camada de tungstênio, cobalto, níquel ou ferro cujo enorme poder de explosão se dissipa num raio de dez metros. "A dois metros corta o corpo no meio, a oito metros serra as pernas, abrasando-as como se tivessem sido atravessadas por milhares de agulhas. Não vimos corpos partidos, mas sim muitos amputados. Em 2006, houve algo parecido no sul do Líbano e vimos isso em Gaza naquele mesmo ano, durante a operação israelense ‘chuva de verão’. Os experimentos com ratos têm demonstrado que as partículas que permanecem no corpo são cancerígenas", explicaram os médicos.

Um médico palestino, entrevistado no domingo por Al Jazeera, relatou sua impotência em casos como estes: "Não há nenhum rastro visível de metal no corpo, mas há estranhas hemorragias internas. Uma matéria queima os vasos sanguíneos e causa a morte. Não podemos fazer nada". Segundo a primeira equipe de médicos árabes autorizada a entrar no território ocupado, que chegou no hospital de Khan Yunes vinda do sul, entraram aí "dezenas" de casos desse tipo.

Os médicos noruegueses têm se sentido na obrigação de informar o que viram devido à ausência em Gaza de qualquer outro representante do "mundo ocidental", seja ele médico ou jornalista. "Será que esta guerra é um laboratório para os fabricantes da morte? Em pleno século vinte, é possível fechar um milhão e meio de pessoas e fazer com elas o que se quer, chamando-as de terroristas?"

Haviam chegado no hospital de Al-Shifa, lugar que já conheciam antes e depois do bloqueio, no quarto dia de guerra. Aí encontraram um edifício e equipamentos "já nas últimas", um pessoal exausto e moribundos em qualquer lugar. O material que haviam preparado havia sido detido na passagem de fronteira de Eretz.

"Quando chegam no Pronto Socorro cinqüenta feridos de uma vez, o melhor hospital de Oslo mal poderia atendê-los – contam. Aqui podem cair dez bombas por minuto. A destruição de uma mesquita próxima transformou em cacos alguns vidros do hospital. Quando soam as sirenes o pessoal tem que se refugiar nos corredores. Sua valentia é incrível. Na melhor das hipóteses dormem duas ou três horas por dia. A maior parte deles tem vítimas entre seus próprios parentes; ouvem no rádio a lista dos lugares que acabam de ser atacados e às vezes é onde mora sua família, mas eles têm que ficar trabalhando... Na manhã em que saímos daí, quando entrei na emergência, perguntei como haviam passado a noite. Uma enfermeira sorriu. Em seguida prorrompeu em soluços".

Neste momento do relato, a voz do doutor Gilbert se quebra. "Já está vendo – se recompõe e sorri com calma – eu também...".

 

MINHA MENSAGEM AO OCIDENTE

Ismail Haniyeh. Palestine Chronicle/Rebelión 17/01/2009.

 

Escrevo esta matéria aos leitores ocidentais de todo o campo político e social enquanto a máquina de guerra israelense continua a matança do meu povo na Faixa de Gaza. Até o momento, foram assassinadas mais de 1000 pessoas, metade das quais são mulheres e crianças. Na semana passada, o bombardeio da escola da UNRWA (Agência das Nações Unidas para a ajuda aos refugiados) no campo de refugiados de Jabalya foi um dos crimes mais desprezíveis que se podem imaginar, quando se pensa que centenas de civis tiveram que abandonar suas casas e foram procurar refúgio na sede do organismo internacional só para acabarem sendo bombardeados sem piedade por Israel. Neste odioso ataque foram assassinadas 46 crianças e mulheres e dezenas de outras pessoas ficaram feridas.

Obviamente, a retirada de Israel da Faixa de Gaza, em 2005, não pôs fim à ocupação nem, de conseqüência, a suas obrigações internacionais como potência ocupante. Continuou controlando e dominando nossas fronteiras por terra, mar e ar. De fato, as Nações Unidas confirmaram que, entre 2005 e 2008, o exército israelense matou quase 1250 palestinos na Faixa de Gaza, incluídas 222 crianças. Durante a maior parte deste período, as passagens de fronteira permaneceram fechadas, permitindo só o acesso de uma quantidade limitada de alimentos, combustíveis, rações para os animais e outros gêneros essenciais.

Apesar de seu esforço frenético para ocultá-la, a causa fundamental da guerra criminosa de Israel em Gaza é a eleição de 2006, que deu a vitória a Hamás por ampla maioria. O que ocorreu depois foi que Israel, com os Estados Unidos e a União Européia, somaram forças a fim de anular a vontade democrática do povo palestino. Decidiram, em primeiro lugar, reverter a decisão do povo obstruindo a formação de um governo de unidade nacional e, em seguida, usando a asfixia econômica para transformar num inferno a vida do povo palestino. Por fim, o abjeto fracasso de todas estas maquinações levou a esta guerra cruel. O objetivo de Israel é calar todas as vozes que expressam a vontade dos palestinos para depois impor seus próprios termos a uma solução definitiva privando-nos de nossa terra, de nosso direito a Jerusalém como capital de nosso legítimo futuro Estado e do direito dos refugiados palestinos de voltar a seus lares.

Em última instância, o sítio completo à Faixa de Gaza, que viola abertamente a Quarta Convenção de Genebra, impede a entrada da maior parte dos suprimentos médicos básicos para nossos hospitais. Está proibida a entrega de combustível e o abastecimento de energia elétrica à nossa população. E, acima de toda essa falta de humanidade, nos negam a comida, a liberdade de deslocamento e até mesmo a possibilidade de ter acesso a tratamento médico. Isso levou à morte, que poderia ter sido evitada, de centenas de pacientes e a uma crescente espiral de desnutrição entre as crianças.

Os palestinos estão horrorizados pelo fato dos membros da União Européia não verem este vergonhoso estado de sítio como uma forma de agressão. Apesar das evidências assustadoras, afirmam sem envergonhar-se que, ao não renovar a trégua, foi Hamás que causou esta catástrofe ao povo palestino. Contudo, nos perguntamos: Israel cumpriu os termos do cessar-fogo mediado pelo Egito em junho [de 2008]? Não o fez. O acordo estipulava o levantamento do sítio e o fim dos ataques na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Apesar de todo o nosso respeito aos termos do acordo, os israelenses continuaram com o assassinato de palestinos em Gaza, bem como na Cisjordânia, durante o que foi conhecido como o ano da paz de Anápolis.

Nenhuma das atrocidades cometidas contra nossas escolas, universidades, mesquitas, ministérios e infra-estrutura civil nos dissuade da reivindicação de nossos direitos nacionais. Não resta dúvida de que Israel poderia destruir todos os prédios da Faixa de Gaza, mas nunca destruirá nossa determinação ou resolução de viver com dignidade em nossa terra. Se agrupar civis num prédio para depois bombardeá-los ou utilizar bombas de fósforo e mísseis não são crimes de guerra, o que são então? Quantos tratados e convenções internacionais o Estado sionista de Israel tem que violar antes que lhe peçam para prestar contas? Não há uma cidade no mundo onde as pessoas livres e decentes não expressem sua indignação por esta brutal opressão. Nem a Palestina, nem o mundo serão os mesmos depois destes crimes.

Só há um caminho a seguir e não há outro. Nossas condições para um novo cessar-fogo são claras e simples. Israel deve pôr fim à sua guerra criminosa e ao massacre do nosso povo, levantar completa e incondicionalmente seu assédio na Faixa de Gaza, abrir todas as passagens de fronteira e retirar-se completamente da Faixa de Gaza. Depois disso, poderíamos considerar futuras opções. Em última análise, os palestinos são um povo que luta para libertar-se da ocupação, pela criação de um estado independente com Jerusalém como sua capital e pelo retorno dos refugiados aos povoados dos quais foram expulsos. Seja qual for o preço a pagar, a continuação dos massacres de Israel não quebrará nossa vontade nem nossa aspiração à liberdade e à independência.

(Ismail Haniyeh é Primeiro-Ministro do governo palestino em Gaza. Este texto foi publicado inicialmente no British Independent, em 15 de janeiro de 2009).

 

OPERAÇÃO CHUMBO IMPUNE

Eduardo Galeano. Brecha/Rebelión 17/01/2009.

 

Para justificar-se, o terrorismo de Estado fabrica terroristas: semeia ódio e colhe dissimulação. Tudo indica que esta carnificina de Gaza, que segundo seus autores quer acabar com os terroristas, conseguirá multiplicá-los.

***

Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem nem respirar sem permissão. Têm perdido sua pátria, suas terras, sua água, sua liberdade, seu tudo. Sequer têm o direito de eleger seus governantes. Quando votam em quem não devem votar, são castigados. Gaza está sendo castigada. Transformou-se numa ratoeira sem saída, desde que Hamás ganhou de forma limpa as eleições de 2006. Algo parecido havia ocorrido em 1932, quando o Partido Comunista triunfou em El Salvador. Banhados de sangue, os salvadorenhos expiaram sua conduta má e desde então foram submetidos a ditaduras militares. A democracia é um luxo que nem todos merecem.

***

São filhos da impotência os foguetes caseiros que os militantes de Hamás, encurralados em Gaza, disparam com uma atrapalhada pontaria sobre as terras que haviam sido palestinas e que a ocupação israelense usurpou. E o desespero, à beira da loucura suicida, é a mãe das bravatas que negam o direito à existência de Israel, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto a bem eficaz guerra de extermínio está negando, há anos, o direito de existência da Palestina.

Resta pouca Palestina. Passo a passo, Israel a está apagando do mapa.

Os colonos invadem e, atrás deles, os soldados vão corrigindo a fronteira. As balas sacramentam a expropriação, em legítima defesa.

Não há guerra agressiva que não diga ser guerra defensiva. Hitler invadiu a Polônia pata impedir que a Polônia invadisse a Alemanha. Bush invadiu o Iraque para impedir que o Iraque invadisse o mundo. Em cada uma de suas guerras defensivas, Israel tragou outro pedaço da Palestina, e os almoços continuam. O devorar se justifica pelos títulos de propriedade que a Bíblia outorgou, pelos dois mil anos de perseguição que o povo judeu sofreu e pelo pânico que geram os palestinos ao ficaram na espreita.

***

Israel é o país que jamais cumpre as recomendações e as resoluções das Nações Unidas, que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, que burla as leis internacionais e é também o único país que legalizou a tortura de prisioneiros.

Quem lhe deu de presente o direito de negar todos os direitos? De onde vem a impunidade com a qual Israel está executando a matança de Gaza? O governo espanhol não poderia bombardear o Pais Basco para acabar com a ETA, nem o governo britânico poderia ter arrasado a Irlanda do Norte para liquidar o IRA. Acaso a tragédia do holocausto implica em apólice de eterna impunidade? Ou esta luz verde vem da potência que mais manda e que tem em Israel o mais incondicional de seus vassalos?

***

O exército israelense, o mais moderno e sofisticado do mundo, sabe quem está matando. Não mata por erro. Mata por horror. As vítimas civis são chamadas de danos colaterais, segundo o dicionário de outras guerras imperiais. Em Gaza, de cada dez danos colaterais, três são crianças. E somam milhares os mutilados, vítimas da tecnologia do esquartejamento humano, que a indústria militar está ensaiando com êxito nesta operação de limpeza étnica.

E, como sempre, sempre o mesmo: em Gaza, cem a um. Por cada cem palestinos mortos, um israelense.

Gente perigosa adverte outro bombardeio a cargo dos meios de manipulação de massa, que nos convidam a acreditar que uma vida israelense vale tanto quanto cem vidas palestinas. E esta mídia também nos convida a crer que são humanitárias as duzentas bombas atômicas de Israel, e que uma potência nuclear chamada Irã foi a que aniquilou Hiroshima e Nagasaki.

***

A chamada comunidade internacional existe?

É algo mais do que um clube de mercadores, banqueiros e guerreiros? É algo mais do que o nome artístico que os Estados Unidos colocam a si mesmo quando fazem teatro?

Diante da tragédia de Gaza, a hipocrisia mundial brilha mais uma vez. Como sempre, a indiferença, os discursos vazios, as declarações ocas, as declamações altissonantes, as posturas ambíguas prestam tributo à sagrada impunidade.

Diante da tragédia de Gaza, os países árabes se lavam as mãos. Como sempre. E como sempre, os países europeus esfregam as mãos.

A velha Europa, tão capaz de beleza e perversidade, derrama algumas lágrimas, enquanto secretamente celebra esta jogada de mestre. Porque a caça aos judeus foi sempre um costume europeu, mas há meio século esta dívida histórica está sendo cobrada dos palestinos, que também são semitas e que nunca foram, nem são, anti-semitas. Eles estão pagando, em sangue à vista e sonante, uma conta alheia.

Esta matéria é dedicada a meus amigos judeus assassinados pelas ditaduras latino-americana que Israel assessorou.

 

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letra...@gbl.com.br

 

 

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