Preceitos do Cristo
O Evangelho é uma bússola que demonstra a rota que deverá ser percorrida pela humanidade ao Páramo.
Os evangelistas ao transmitirem à posteridade as palavras imorredouras do Cristo, legaram tesouro inestimável de consolo e esperança e a certeza de que findo um prazo, mais ou menos distante, seremos contemplados com alegrias inenarráveis, se redimidos e purificados nos encontrarmos.
Os ensinamentos de Jesus, no entanto, nem sempre são compreendidos e absorvidos desde o primeiro instante em que se nos são apresentados. Com efeito, há sutilezas, culminâncias e profundidades que se nos escapam, e as viagens empreendidas com vistas ao conhecimento transcendental só terão êxito quando nos sintonizarmos com as blandícias celestiais.
Para que alcancemos o Nirvana, o filho do Homem recomenda-nos vivenciar sagradas virtudes, com destaque à humildade e à caridade, que nos enobrecem e nos conduzem à excelsitude.
Espírito puríssimo, o Mestre segue firmemente as leis do Alto, fontes de refúgio seguro, contentamento e vida plena.
Sem jamais descartarmos qualquer aconselhamento do profeta divino, por vezes nos quedamos a refletir sobre o que ele se propôs a transmitir efetivamente. Em este aspecto, referimo-nos especificamente a duas passagens, em que a personalidade do Nazareno de certa forma aflora. Em uma delas, um personagem do povo presente em um aglomerado que se formou à volta do taumaturgo, declara que ele é bom, e no mesmo instante tal pessoa é repreendida por nosso modelo e guia espiritual, que elucida: “bom é o Pai que está no Céu”. Em outra ocasião, o primogênito de Maria relata que é “o Caminho, a Verdade e a Vida” e que ninguém irá ao Pai senão através de si.
Com intuito de ampliar discernimento e absorver manjar celestial, divago sobre a expressão contida no parágrafo precedente. O que é ser Caminho, Verdade e Vida?
Caminho, Verdade e Vida, eis que tudo, algo que se coaduna com a Divina Providência. Em este ponto o crente convicto paralisaria questionamentos por respeito ou temor ao Bendito. Contudo, ousar é preciso e enfrentar dúvidas, idem.
Na primeira assertiva, a humildade do Rabi em reconhecer-se aquém da Onipotência; na segunda, aparentemente, altivez expressiva.
Ser Caminho, compreensível, porque através do Rabi todas as nações, de todas as épocas, em procissão seguem ao encontro definitivo do Criador, e somente alguns se alçam em voos mais céleres ao esplendor.
Aceitar alguém, ainda que seja divindade, como a própria “Verdade”, requer do fiel ponderação, pensar intensivo e prolongado sobre o assunto. Com efeito, como uma pessoa pode ser Verdade, se esta ideia contida nos domínios da razão, avaliada de formas diversas pelos mortais, usada consoante conhecimentos e critérios individuais ou coletivos, que atestam ser ela distinta do agente imortal? A Verdade irrefutável, somente aquela consentida e protagonizada por aquele que, já evoluído espiritualmente, a entroniza no âmago, e jamais dela se separa.
Pode-se conceber que em Cristo a Verdade sempre presente, entretanto, não seria ele a Verdade, porquanto esta por ele possuída, e se alguém dispõe de algo, tal elemento é efetivamente seu, todavia não integra sua essência. Em suma: nós não somos o que nos pertence, assim como a obra, que o identifica, não se confunde com o autor.
De idêntico modo, o Galileu transmite Vida plena aos irmãos queridos: seus aconselhamentos, em comunhão com o Senhor, permitem a seres falidos, que optaram por remir-se, transmutar-se em entidades angelicais. Entenda-se, por este raciocínio, a Vida em plenitude como o apogeu de uma alma em sintonia com a Majestade, conquista individual, que de posse de tesouros inigualáveis, transmite aos entes necessitados a esperança e o amparo que se fazem precisos, não se cogitando ser ela confundida com preciso Espírito, ainda que o mais grandioso, desse modo cultuado pela humanidade.
A Vida, considerado o conjunto universo, dinâmica, efervescente, multifacetada e manifesta-se através dos reinos da natureza de maneiras diversas, em incontáveis mundos, de sorte que não se pode concentrá-la em um único vulto, porque incompatível com a realidade.
Em complemento ao parágrafo antecedente, em determinado período, observei em literatura espírita que a frase autêntica seria: “Eu sou o Caminho para a Verdade e a Vida”, e tal afirmativa se me apresenta bem coerente e elucidativa, eis que quem segue os ensinos e o exemplo do Cordeiro busca a Espiritualidade, onde se confirmam as graças celestiais, e finalmente depara-se com a Verdade, ainda não compreendida por nós outros aboletados em comboios atrasados, para em devir triunfante vivenciarmos existências reluzentes, plenas, harmoniosas e felizes, que serão consolidadas em Vidas Integrais.
Em este repassar por páginas do Livro Sagrado, reverencio a autenticidade da Palavra amiga, salvo se mão ou o pensar humano a modificou, ao tempo em que me reservo o cuidado de não desafiar a ira santa dos convertidos e salvos, porque ferozes, se contestados. O senso prático, no entanto, me permite reter o que me parece razoável e interpretar de modo coerente o que se apresenta oculto ou resguardado.
Empenhe-se a criatura em evolução intelectual e principalmente moral e dessa forma conquistará glorificação espiritual, tornando-se apto a integrar o Reino Celestial, conforme preconiza o amantíssimo Filho de Deus.
José Periandro Marques