PATERNIDADE

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José Periandro Marques

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Feb 27, 2022, 9:03:21 PM2/27/22
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Paternidade

Há missões que de tão grandiosas alcançam sublimidade, se cumpridas com zelo e responsabilidade, e entre elas a paternidade e a maternidade, que se não destacada em este contexto, para expressiva maioria tão ou mais luminosa que a realçada na presente argumentação.

Ao lançarmos vistas ao pretérito longínquo, deparamo-nos com o patriarcado hebreu formado por chefes absolutos de um povo tribal. Ao elevarmos pensamentos capazes de alcançar a imensidão, deparamo-nos com misterioso e intrincado cosmos com cores, formas e elementos diversos, e no deslumbramento arrebatador, concluímos pela magnitude do Ser supremo, indecifrável e indefinível, ao administrá-lo com sabedoria ímpar.   

Aquele que tudo coordena, Deus no hemisfério ocidental, substantivo masculino concreto em análise morfológica, e no imaginário popular velhinho com ares bondosos e barba branca. Tal representação deriva da época em que se estabeleceu o conceito de um Ser Incriado, com aparência antropomórfica. No entanto, fossem as mulheres protagonistas naqueles idos, a Supremacia seria denominada Deusa, com mesma sabedoria e benevolência.

Nós outros vindos pelo sopro divino como designar o ente perenal se nos faltam meios para tanto? Rebaixá-lo à condição humana, reducionismo extravagante, débil tentativa de se demonstrar realidade que se revela impossível.

O que se pode deduzir: o que derivado da Onissapiência não pode ser original, daí concluir-se que o Senhoril jamais pode ser constituído de matéria ou ser espírito, e que estes nunca disporão da natureza divinal de quem os favorece.

Com os pés firmes ao chão, reportamo-nos ao ente hominal com seus deslizes e conquistas.

Desde recuadas etapas, a sensualidade brotou e afetou com intensidade a libido e o elemento estúpido, descontrolado, descompromissado, ególatra e cínico, conforme sua personalidade, visando satisfazer-se qual animal no cio, ataca a presa, seja ela donzela, megera, nova, velha, aristocrática ou plebeia e para atingir seu desiderato utiliza táticas variadas, de acordo com o perfil da personagem visada. Outros valem-se de poder coercitivo na abordagem de criaturas fragilizadas emocional, profissional ou financeiramente, na forma de assédio sexual, enquanto outros mais forçam a vítima a praticar conúbio carnal sob jugo intimidatório e violento. Entre os comportamentos imperdoáveis e perversos, que indicam ofensa gravíssima, a pedofilia, conspurcação da pureza, ato vergonhoso e tresloucado, que fere a dignidade e a racionalidade humanas.

Quando vidas geradas em virtude de graves cometimentos, os traumas maternos e dos nascidos permanecem, em alguns casos por toda existência terrena. O não cumprimento dos deveres paternais, advindos de maternidade imprevista ou indesejada, acréscimo do horror verificado.

Bem anterior aos dias correntes, os oriundos de relações extraconjugais, principalmente as provenientes da nobreza, eram condenados à morte, doados a alguém para deles cuidar em troca de auxílio pecuniário ou a mãe e o recém-nato expulsos de sua morada para outras plagas, onde a visibilidade não pudesse afetar os humores de maus caráteres, que não consideram os personagens recém-entregues às influências planetárias dignos de serem abençoados. Não bastasse o carma demais pesado, decorrente de uma sociedade intolerante e repulsiva, os inocentes eram apontados como bastardos, marca irremovível de dolorosa chaga sempre viva de desonra, e qual o castigo reservado ao galanteador ou ao abusador, que segue o curso sem qualquer remorso ou prejuízo?

Hoje não mais aceita a injuriosa expressão “bastardo”, a ser eliminada dos dicionários, tampouco a negação de paternidade, eis que testes de ADN especificam quem concebeu tal criatura. A legislação atual consente que os frutos dos entrelaçamentos macho-fêmea, qual seja o enredo, aclamados filhos simplesmente, se reconhecidos os laços sanguíneos, eis que há encontros fortuitos, mesmos alguns em que se não vislumbram os rostos, o que impossibilita comprovar-se quem é o genitor, sendo que nos demais casos a criança faz jus a pensão alimentícia, porque ao indefeso é preciso garantir-se vivência.

Além dos citados, constam os descendentes adotivos, e estes a razão pela qual enveredamos pelo tema proposto.

No princípio deste ano, em um templo católico, um sacerdote, conforme a tradição, louvando o santo nome de Jesus Cristo, afirmou ser Ele filho único do Progenitor e os demais humanos filhos perfilhados. Adiante tecerei considerações a respeito do comentário do presbítero e de nosso relacionamento com o Sempiterno.

Em outra época a pessoa adotada não gozava os mesmos privilégios que os ascendentes naturais. Não havia reconhecimento nem segurança legal para que o acolhido se inserisse em completude no seio familial. Com exceções, poucos tinham direito hereditário, e se o conseguiam, em proporções desvantajosas. Pode-se afirmar que figuravam mais como agregados que qualquer outro termo considerado.

No presente, os rebentos gerados por outros casais são considerados e amados como se fossem consanguíneos, e não poderia ser diferente, porque procurados e escolhidos por abnegados corações que os guarnecem e sustentam para habilitarem-se às pelejas da vida e vindouras conquistas, cercados de especial atenção, própria da meiguice de quem ama de maneira incondicional.

Além dos citados, constam como autoridades parentais padrastos e madrastas, que regularmente zelosas e compromissadas quanto à saúde, ao sustento e ao encaminhamento das preciosidades que lhes foram destinadas, desempenham seus papéis com apreço e eficiência.

Observa-se todavia, e não raro, que alguns padrastos hostilizam enteados, expõem-nos a situações embaraçosas e deles abusam sexualmente, enquanto certas madrastas impõem toda sorte de intrigas e maldades contra os postos sob sua tutela, inflamam os maridos a se tornarem carrascos de seus próprios meninos, que desvalorizados e com almas dilaceradas, quase nada podem fazer para reverter as opressões inomináveis e murchos e acabrunhados nada encontram de venturoso no existir.

As famílias convencionais formadas pela união marido e mulher não mais absolutas, eis que nestes tempos de afirmação de amorosidade, casais de mesmo gênero em união estável, assumem a realidade do querer sem sofismas, diferentemente do que ocorria no passado, quando homossexuais, nas caladas, traíam suas companhias, porque a fidelidade não se sustentava no desprazer do interesse vazio.  O avanço da homoafetivade, que se revela às claras, a superar preconceitos e má vontade religiosa, demais importante para redução de um grave problema social, o das crianças sem lar, porque desejando ter filhos que a naturalidade proíbe, os parceiros animam-se a receber os filhos de outros para tornarem seus, e desse modo ampliando possibilidades de infantes fadados ao esquecimento, sonharem com futuros risonhos, com possibilidades concretas de eles se realizarem em clima de harmonia, disciplina, ética, compreensão e paz.   

Se alguém capaz de enjeitar sua cria por duvidar da progenitura ou acreditar que a mulher prenha tenha aplicado o golpe da gestação a fim de obter ganhos pecuniários, por não mais suportar viver no mesmo teto com aquela que outrora fora escolhida como luz que iluminaria seus dias sorumbáticos e que jurou prezar enquanto o sangue a circular ou por ceder a uma paixão comprometedora, que o afasta definitivamente do lar, que decisão impactante! Em casos tais, o desertor merece ser premiado com existência bonançosa?

E o Criador, agiria qual o terrícola, que sujeito a quantas influências, age por vezes disparatadamente? Faria diferenciações, dispensando atenção especial para uns e relegando os demais a um plano acessório?

Apesar de não se conceber que a Divina Providência possua rasteiras ações humanas, contudo esta parece ser a crença majoritária da religiosidade judaico-cristã, que a ela atribui sentimentos de raiva, ira e vingança, o que destrói completamente os conceitos de benignidade e pureza absolutas, predicados seus.

Em não sendo a criatura capaz de conceber a Majestade em sua magnificência e mesmo assim define-a sem conhecimento e sem escrúpulo, disto resulta ação evasiva, eis que os relatos produzidos não condizem com a veracidade, conforme pode ser comprovado através do Concílio de Niceia. A este respeito faz-se sucinto relato.

Niceia é uma região da Bitínia, atual Iznik, localizada na Turquia. No Século IV, a Igreja Católica buscava consolidar temas controversos em dogmas, visando afirmar-se segura e uníssona em teologia, eis que  debates se avolumavam com os contendores sem paciência e concordância a fracionar a religião que buscava consolidar-se. Neste diapasão, a Igreja sediada em Alexandria questionava a possível divindade de Jesus Cristo e sua relação com o Pai, e em meio a embates acalorados, com algumas figuras destacadas na defesa da natureza divinal de Cristo, quais o bispo Alexandre e o diácono Atanásio, expoentes da ortodoxia cristã, outras, conforme Alexandrino Ário, o consideravam criatura de origem divina e não divindade.   Para resolver o impasse, o Imperador Romano Constantino – o Grande - organizou um evento nos moldes do senado romano e o presidiu, sem direito a voto, que se afirmou para a posteridade como sendo o Concílio de Niceia. Iniciado em maio e findo em agosto de 325, este consílio, quase por unanimidade, optou pela divindade de Cristo, na segunda pessoa da Santíssima Trindade, decisão essa acatada também pelas igrejas protestantes.

A crença na Santíssima Trindade, três pessoas em um só deus, surgiu de deliberação humana e não de revelação celestial, e já era mencionada em antigas culturas, e a escolha católica, embasada no poder econômico que domina, nada traz de novidade quanto a este aspecto. Sob o sol que nos alumia, tudo retorna como se nunca houvera sido pensado ou mencionado, porque a vaidade quer primazia. Lançando olhar sobre o assunto, a Suméria tinha em Anu o regente do céu, Enlil, da terra, e Ea, da Água; em Babilônia constava um ser com três cabeças, tendo o triângulo equilátero como emblema, a trindade formando a unidade; a bíblia indiana “Os Puranas”, há mais de três mil anos afirmava que Brahma, Vishua e Shiva eram um único ser sob três formas; no Egito, Hórus, Ìsis e Osiris; e na Grécia, Zeus, Maia e Hermes e outras culturas também aderiram à tese, que efetivamente precisa ser revisitada.

Se já é de difícil compreensão e aceitação a ideia do Deus único, por destoar de tudo o que a materialidade demonstra, mais complexo ainda enquadrar-se o Filho unigênito como Deus, porque o príncipe, resultante do Rei, não é o soberano, e para ser filho, é preciso que ele surja empós aquele que o gerou, e como de fato assim sucede, por que considerá-lo perene, se derivado de outro ser?

No Credo católico, consta a citação do “Creio em Deus Pai todo poderoso, criador do céu e da terra e em Jesus Cristo seu Filho único Nosso Senhor...” Em reforço ao que foi manifestado no item anterior, se o filho de Maria, que habitou esta esfera, descende, porque alguém antes dele já existia, e para ser considerado Ser supremo, condição fundamental que não tenha sido gerado, e nestes termos o Construtor cósmico é único, forçoso reconhecer haver sério impasse a ser desvendado. Relata também o referido Credo em continuidade, a respeito de Jesus, “... o qual foi concebido por obra e graça do Espírito Santo...”, este o terceiro elemento. Ora, se Jesus foi procriado por outra entidade, sequer pode ser considerado filho do Rei universal. Contudo, de certo há uma explicação para na mesma oração haver nítida contradição, porque atribuída dupla paternidade, salvo se o galileu adotado pela Divina Providência, o que não combina com a ideia de um ser uno com relação ao principiador. Por tudo o que foi dito pode-se deduzir que o nazareno, por ter tido princípio, é imortal, jamais podendo ser perenal, e isto anula a possibilidade de igualar-se a Alá ou qualquer outro nome que se dê à suprema Santidade. E o que é o Espírito Santo, se tantos espíritos luminosos em categorias mais avançadas que as reservadas aos santos? Seria tal divindade congregação de almas divinizadas, que em égregora formariam o que se convencionou chamar Espírito Santo?

Jesus Cristo, embora considerada sua grandiosidade, não é ser à parte da criação, e isto incontestável para quem atento busca a verdade de forma consciente. Todos nós, inclusive o redentor, ungidos do Senhor, e causa estranheza alçá-lo a um patamar diferenciado, quando fomos igualmente elaborados na mesma usina, e assim sendo, tendo um só construtor, vez mais em tom argumentativo, como pode ser Cristo filho legítimo e o restante dos humanos, adotados? Isto causa maior perplexidade se constatarmos que para um indivíduo ser adotado se faz necessário que alguém que o tem sob responsabilidade o transfira para um terceiro. Por óbvio, se há adotante, explícita a existência do adotado e de quem o originou. Se o gerador é o princípio, e dele tudo emana, como ele pode adotar alguém, se a adoção pressupõe a transferência de um indivíduo para outro, o que não se aplica no caso em estudo, porque a Onipotência é que faria a adoção, o que se configura inequívoca impossibilidade: o produtor não pode filiar o que já lhe pertence.

Adoções, possibilitadas entre humanos, porque inseridos no plano terral. No campo etéreo, no entanto, não há como espíritos serem legitimados como dependentes de poder pátrio, porque são individualidades autônomas, indivisíveis, que dispõem de livre arbítrio e donas de suas vontades.

Gente boníssima: se a carne secundária, a essência é tudo. Nossos pais, instrumento do amor ilimitado para que se concretize evolução solidária. Jesus foi feito espírito como os demais seres universais inteligentes e aclamado Filho de Deus por seus méritos incontestáveis, sendo no presente o Governador Espiritual Planetário. Ele trilhou o mesmo chão de agruras e infortúnios que todos passam e virtuoso, venceu o mundo e a si mesmo para se tornar Luz imortal, que nos enleva e sustenta em nossas dificuldades.  

Para que melhor se entenda nossas potencialidades, em Salmos – “Salmo de Asafe 82:6 Eu disse: sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo” e em resposta aos judeus que do profeta se acercavam, consta descrito em “João 10:34 Não está escrito na vossa lei: sois deuses: Eu disse sois deuses”? Em “João 14:12 Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim, fará também as obras que eu faço, e outras maiores fará, porque eu vou para junto do Pai”. Jesus nos momentos destacados transmite a mensagem, sem explicitá-la, do infinito progresso do espírito, que podemos realizar maravilhas até mesmo além das por ele realizadas e isto causa questionamentos a respeito de como tal coisa possível de ser concretizada.

Com ênfase à capacidade evolucional com a qual fomos distinguidos, daqui a milhões, quiçá bilhões de anos terrenos, nós ao Cristo nos igualaremos, considerado o período em que ele esteve no orbe espargindo luminosidade. Mas quando estivermos aptos a realizar extraordinárias proezas, o Redentor terá avançado o mesmo período, de sorte que será impossível alcançá-lo em deidade, acaso nos encontremos em época comum.

Jesus deve ser efusivamente reverenciado, porque o Salvador, que se sacrifica, se preciso for, pelo seu rebanho. Contudo, há sóis, constelações e galáxias bem mais luminescentes que nossa Via Láctea, abrigando seres de elevação moral e espiritual incomparáveis, e os dirigentes e mentores desses páramos, dotados de tamanhas pureza e santidade, que nossa discreta imaginação incapacitada de alcançar.  

Por fim, compreenda-se que que o Senhor do universo não favorece uns, ao tempo em que age com rigor contra outrem, conforme comumente se verifica nos relacionamentos humanos.  

Em conclusiva resposta ao eclesiástico, afirmamos sem receio de contradita que indubitavelmente somos filhos da Consciência cósmica e que não somos os únicos na imensidão sideral, que acolhe infinidade de mundos, paralelos ou formais, povoados por seres racionais com naturezas variadas, todos irmãos, porque advindos do mesmo Autor fenomenal.

José Periandro Marques

Fortaleza, 28 de fevereiro de 2022

José Periandro Marques

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Feb 27, 2022, 9:08:10 PM2/27/22
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