Bonito artigo
do nosso companheiro Júlio, da Pastoral Operária de pelotas -
RS.
Trabalho e
Humildade
Júlio Lázaro Torma* Estava numa reunião de
pastoral, quando foi lido e refletido o Evangelho de Lucas
14,1.7-11; onde relata o almoço de Jesus na casa de um notável de
seu tempo e conta uma admoestação de Jesus sobre o comportamento
da pessoa. "Quando
fores convidado ás bodas, não te sentes no primeiro lugar, pois
pode ser que seja convidada outra pessoa de mais consideração do
que tu, e, vindo o que te convidou, te diga: Cede o lugar a este.Terias então a
confusão de dever ocupar o último lugar. Mas, quando fores
convidado vai e tomar o último lugar, para que,quando vier o que
te convidou, te diga:" Amigo, passa mais para cima. Então serás
honrado na presença de todos os convivas. Porque todo aquele que
se exaltar será humilhado, e todo aquele que se humilhar será
exaltado". Na partilha da Palavra, havia uma
eminente senhora de um movimento eclesial, que ficou
escandalizada, assim como muitas pessoas ficam escandalizadas
quando falo do meu trabalho. " Trabalho como
reciclador", me respondem: "como podes tu com toda esta bagagem
intelectual estares catando lixo, lá não é o teu lugar".
Eis que ao trabalhar como reciclador ou catador, vi e percebi a
solidariedade das pessoas humildes, irmãos e companheiro/as de
trabalho para comigo.Os pobres na qual me dediquei de corpo e
alma, em servi-los no trabalho pastoral ou militância social,
pessoas que não professam a mesma crença do que eu. Na hora em que
eu mais precisava, foram os primeiros á me estender a sua mão e
solidariedade. Nestes dias no meu trabalho ao chegar
numa residência fomos ofendidos pelo dono da casa que nos chamou
de " vagabundos", como já vi pessoas humildes falarem com desprezo
e dizerem que não vão" trabalhar de lixeiro". Nos anos
de 1970-1989, no ensino fundamental, na 1º série, havia uma
cartilha imposta pela ditadura militar que dizia para as
crianças: "Pedrinho estudou e virou doutor e Joãozinho
não estudou e virou lixeiro".Onde a profissão de lixeiro é
desprezada e colocada como sendo inferior e para pessoas
inferiores. Ao trabalhar no meio dos catadores e
recicladores, vivo na prática concreta a " Opção preferencial
pelos pobres", sindo me cada vez mais franciscano. Mesmo não sendo
franciscano, sou como escreve os teólogos José Arregi, José Maria
Castillo e José Maria Diez-Alegria Gutierrez ( 1911-2010), " sou
um franciscano ou jesuíta sem papeis( sem documento).
Como fez São Francisco de Assis, na sua prática de vida, " no meio de gente comum e desprezada,
de pobres e fracos, enfermos e leprosos e mendigos de beira de
estrada"( São Francisco de
Assis; Regra Não Bulada).
Na humildade deste trabalho, quero educar os meus futuros
filhos, a valorizar o trabalho, pois mesmo o trabalho mais humilde
e desprezível, como o do gari, catador, faxineiro, como o do
agricultor, pedreiro e pescador, tem o mesmo valor do que tem
aquele que tem o curso superior como o médico, professor,
arquiteto, advogado, engenheiro, jornalista ou do empresário, pois
todo o trabalho está interligado. Diferente do que foi
imposto na mentalidade de toda uma geração de brasileiros e
brasileiras pelo regime militar e atualmente pela mídia.
O humilde trabalho do gari, do reciclador, tem hoje, sem desprezar
as outras categorias profissionais, um valor muito importante no
cuidado de nossas cidades, bem como da preservação da vida no
planeta. Pois como nos mostra o filme " Lixo Extraordinário",
documentário da inglesa Lucy Walker e coodirigida pelos
brasileiros Karen Haley e João Jardim, sobre a vida de
trabalhadores do aterro sanitario de Duque de Caxias
(RJ). O material transformado em lixo pela sociedade
consumista se converte em fonte de vida de milhares de pessoas.
Ser reciclador é ter orgulho de poder salvar a vida do planeta e o
entregar às futuras gerações que são de fato os donos do
planeta. " Porque todo aquele que se exaltar será humilhado, e
todo aquele que se humilhar será exaltado"
. __________________ * Membro da Equipe da Pastoral Operária (
Arquidiocese de Pelotas/ RS)
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