A história da Igreja tem várias fases, todas com seus prós e
contras. A Igreja apostólica já contava com anticristos/falsos
doutores, como as epístolas católicas deixam bastante claro.
Mas existe um movimento ascendente e outro descendente na
relação Igreja-mundo.
O ascendente vai da perseverança nas perseguições (dos judeus
e romanos) à liberdade e à oficialização, passando depois pela
conversão das nações bárbaras até a formação da Cristandade,
cujo auge é o século XIII (Universidades, Catedrais,
Renascimento Urbano e Comercial, Inocêncio III, S. Francisco,
S. Tomás, S. Boaventura, S. Antônio, S. Luís).
A partir daí -e não só da reforma protestante, como apregoam
certos esquematismos muito simplistas, que não levam em conta
algumas questões políticas e filosóficas que já surgem no séc.
XII - a Igreja, do ponto de vista sociológico, começa a se
contaminar pelo espírito mundano.
A Inquisição, mesmo a medieval, na prática foi um sistema a
serviço do Estado, cuja vontade (concretamente a vontade da
besta que foi o Imperador Frederico II) começa a prevalecer
após a morte de Inocêncio III. Ainda que nem a Inquisição
ibérica tenha sido o horror apregoado pelos historiadores, o
que conta é o escândalo da violência aparente ou confusamente
a serviço da fé.
O Tribunal da Inquisição na realidade foi incompetente, não
foi capaz de perceber e eliminar a verdadeira tragédia para a
fé: a filosofia nominalista antimetafísica, que inaugura uma
época fideísta em teologia, legalista em moral e racionalista
em filosofia (que culminará no imanentismo e no materialismo).
Muitos papas que se sucedem não têm autoridade moral e querem
impor-se na base do "grito" (a bula desesperada de Bonifácio
VIII), e o espírito nacionalista começa a germinar (guerra
"dos 100 anos")... A "peste" e demais calamidades, como o
Exílio de Avignon e o Cisma Ocidental, são avisos de Deus de
que a Igreja começa a sua decadência (entenda-se, do ponto de
vista político e sociológico).
Nos séculos XV e XVI, época do "Renascimento", a vida dos
clérigos é marcada por um mundanismo blasfemo, que teve como
castigo a ruptura da Cristandade com Lutero; e só uma graça
especialíssima de Deus salvou a Igreja através de um papa do
porte de S. Pio V (que implementou Trento e reformou o Missal)
e da renovação católica que viveu a Península Ibérica, com a
consequente (e tão denegrida) evangelização da América.
Mas veja-se que já neste momento o regime de Padroado
atrapalha enormemente a missão da Igreja, a qual embora tenha
se esmerado pela liberdade dos índios, não teve força para
lutar suficientemente contra a escravidão dos negros, por
exemplo.
Depois vêm as famigeradas "guerras de religião" (séc. XVII),
em que os Estados Modernos nascentes utilizam claramente as
confissões cristãs como motivos meramente ideológicos, para
depois atribuir à Igreja a violência que na realidade é
constitutiva do espírito moderno.
Tudo isso atrapalhou muito os frutos da reforma católica na
Europa, preparou terreno para o liberalismo e a Revolução
Francesa, em que o Estado usurpa o ideal cristão
naturalizando-o. A luta inglória dos papas do séc. XIX contra
o liberalismo, o caráter profético da
Rerum Novarum e
a recuperação do tomismo por Leão XIII, o combate de S. Pio X
contra o modernismo, a gigante Teresinha, as missões, o
movimento litúrgico, tudo isso fez com que a Igreja chegasse
ao século XX purgada e renovada.
A Primeira Guerra deveria ter mostrado ao mundo o equívoco de
se afastar do Cristianismo e abraçar as nefastas ideologias
políticas modernas. Num primeiro momento, parecia que a Igreja
permaneceria com toda a força, segue crescendo no
entre-guerras, mas eis que o mundo resiste e surge a Segunda
Guerra. Esta desemboca no monstro que é a ONU: agora,
definitivamente, a Igreja passa a segundo plano, e é uma
organização política mundana que se coloca acima de tudo como
reguladora da vida de todos os povos, cristãos e não cristãos
(como o falso "ser unívoco" de Duns Escoto pairava acima do
"Ser Infinito" e do "ser finito").
O Concílio Vaticano II aposta num diálogo com este mundo
moderno que tem significados diferentes para três tipos de
participantes: os modernistas que não se deram por vencido e
permaneceram na Igreja para impor sub-repticiamente suas
ideias; os tradicionalistas que foram pegos de surpresa e não
tinham muito a dizer; e inovadores da "nouvelle théologie"
(como Balthasar, De Lubac, Ratzinger) ou da "fenomenologia"
(Wojtyla), que procuravam pontos de contato com o mundo
moderno sem renunciar à fé.
Apesar de belíssimos aprofundamentos e percepções, é inegável
a presença de tensões e ambiguidades nos textos conciliares,
algumas plantadas (como relatado por alguns modernistas) para
colher o caos. O papado de Paulo VI, cujo único ponto positivo
me parece ser a contestada Humanae Vitae (que ensinou a
verdade sobre a regulação da natalidade), é marcado por uma
espécie de esquizofrenia, que reconhece os males da péssima
recepção do Concílio ("a fumaça de Satanás") e faz
praticamente nada para freá-los (provavelmente um dos piores
ou até mesmo o pior pontificado da história).
João Paulo II e Bento XVI (trato-os como uma mesma mente e
coração), aos trancos e barrancos, com equívocos mas muito
mais acertos, combateram o comunismo e a teologia da
libertação, foram dando uma interpretação ortodoxa ao CVII,
ensinaram a verdade moral sobre a vida e a família, insistiram
na correção litúrgica, inclusive restabelecendo a Liturgia
Tradicional, anunciaram a fé com destemor e amor,
impulsionaram a conversão e o apostolado dos leigos e das
famílias, atraíram muitos jovens aos seminários. Em suma,
renovaram a vida da Igreja.
Os modernistas se deram por vencido? As confusões pós-
Amoris
Laetitia dizem claramente que não... E hoje a crise tem
um potencial maior do que no pós-concílio, porque há meios de
comunicação que são tanto mais rápidos como mais difundidos, e
porque o papa Francisco dá mais corda à dialética teológica, o
que em si não é ruim, mas que pôs a descoberto que a renovação
de JPII e BXVI atingiu muito mais os fiéis leigos que os
bispos e teólogos.
Existe hoje todo um trabalho no sentido oposto ao da reforma
de Wojtyla e Ratzinger. Tem a mesma força? Não. Não pode ter.
A força da verdade e da santidade é sempre maior que a do erro
e da maldade. Sempre foi e será: da Igreja primitiva à
apocalíptica. Sempre haverá mais bem que mal sobre a face da
terra e esse é um dos sentidos do
"non praevalebunt".
Talvez estejamos no tempo do fim. Pessoalmente penso que sim.
As hostes do mal virão com toda a sua força. Vencerão? De modo
algum! Inclusive é de se esperar um pequeno triunfo histórico
ou temporal da Igreja Católica! É justo que o haja. Depois do
que virá a perseguição final e o correspondente juízo.