Assisti a entrevista com o arquiteto Paulo Mendes da Rocha no Roda Viva e ela foi fonte de inúmeros insights.
Achei curioso vê-lo discorrer sobre a necessidade de se inserir temas relacionados ao planejamento de cidades na escola. Exatamente porque vai no mesmo sentido de um debate longevo no âmbito do ensino jurídico, sobre a inclusão de disciplinas como "Direitos Humanos" no ensino médio.
Ora, é óbvio e ninguém discute que a educação exerce um papel fundamental na transformação da sociedade e que esses dois conteúdos (a cidade e os direitos humanos) fazem parte de um projeto de emancipação humana. Entretanto, é curioso como as áreas do saber invocam seu protagonismo narrativo do processo emancipatório. Cada uma, se indagada, fornecerá um receituário para a edificação das utopias e revoluções que elas próprias criam e com as quais elas mesmas se encantam.
Outro ponto que chamou a atenção foi a afirmação categórica que sim, temos bons arquitetos da mesma maneira que temos excelentes engenheiros. Poucas áreas incorporam de maneira mais evidente o império da técnica (e a razão instrumental) como a engenharia. Soluções fundadas nesse saber se multiplicam: eficiência técnica, diversificação dos materiais, a mecânica, a sustentação dos mais variados projetos arquitetônicos.
Nada obstante, a cidade é, quase sempre, o mostruário de más soluções de engenharia. Qual a razão? Talvez a dificuldade em compreender o papel criativo do engenheiro no contexto da cidade, que é sempre muito mais ampla do que o espaço da construção e da obra.
Não seria esse o espaço de aporia do direito em relação à cidade?
A entrevista proporcionou ótimas reflexões. Ao responder à pergunta de um grafiteiro a respeito da legitimidade da arte de rua, o arquiteto disse que a dimensão política da cidade engloba, entre outros, a assertiva de que "você vê o que quer ver". A afirmação é significativa. Quem vê, de fato vê o que deseja enxergar, assim como quem vê por vezes escolhe não enxergar determinadas situações. Há, ainda, aqueles que vêem o que vêem por desconhecerem outras linguagens e tonalidades, mas, mesmo assim, vêem, e o que é visto não pode ser desconsiderado, porque, afinal de contas, foi de fato enxergado.
Isso pertence ao plano do intangível e se concretiza na dinâmica própria da cidade. Em outras palavras, a assertiva explica muito a opção que centenas de milhares de paulistanos fazem de morar num lançamento "com varanda gourmet" e, para isso, se submetam aos percalços da mobilidade urbana, por estarem longe do centro e de seus empregos. Ou, olhando no sentido inverso, esse olhar sobre a cidade, ou essa forma como as pessoas se relacionam com o espaço, priorizando o silêncio eloquente do predomínio do espaço privado (e as formas de violência que nele se originam), diz muito sobre como a cidade é, como ela se enxerga e o tratamento que ela dispensa aos mais vulneráveis.
O desafio da arquitetura seria, nesse sentido, estimular os sentidos a enxergarem a cidade de uma outra forma. Ainda que a custo de lidar com a própria imprevisão da vida, que não cabe na prancheta do arquiteto e nem no plano urbanístico.
Enfim, achei legal compartilhar minhas impressões com vocês.