Esse episódio de influenza aviária é um novo golpe duro para os produtores de foie gras, já muito atingidos pela última crise .
LE MONDE 09.12.2016 |
Feriel Alouti em tradução de Tadeu Cotta

A feira de foie gras de Gimont, no Gers, em 6.12 FERIEL ALOUTI
E tem motivo. Na semana passada um foco de gripe aviária H5N8, « altamente patógeno » para as aves, segundo o ministério da agricultura, foi descoberto na região do Tam, antes de se extender para o Lot-et-Garonne, os Hautes-Pyrénées… e o Gers.
Nesse departamento, três novos focos secundários foram descobertos em Monlezun, Eauze e Beaumont-sur-l’Osse desde o 1e de dezembro.
Para evitar uma propagação do vírus, uma zona de proteção de 3 km, bem como uma zona de vigilância de 10 km foram instauradas em torno das criações e salas da gavagem {instalaçõe onde os animais são terminados]. Na quarta-feira 7.12, cerca de 18.000 patos foram eliminados, executada uma desinfecção, e proibido todo trânsito de aves e palmípedes vivos .
Uma situação vivida com dificuldade pelos produtores. No mercado de foie gras de Gimont, muitos nem tocam no assunto e acusam a imprensa de « dizer não importa o que ». « Não tem nada no Gers », grita um deles, antes de virar as costas . « O ambiente é muito tenso », observa o representante do ofício de turismo, um grande rapaz postado na entrada do mercado . « Se falar de gripe aviária, eles sobem nos tamancos », prossegue ele, sorrindo .
É preciso dizer que esse episódio de gripe aviária, a duas semanas das festas, é um novo e duro golpe para a profissão, já muito afetada pela última crise. Ainda mais no Gers, onde se produz o foie gras « desde sempre », essa produção fazendo viver inúmeros lares. Segundo a câmara de agricultura, « há quatro a cinco empregos atrás de cada produtor ».
Na primavera, 11 focos da gripe foram recenseados no departamento obrigando os produtores de foie gras a suspender suas atividades por várias semanas. Esse foi o caso de Kelly, 28 anos, cujo companheiro é produtor em Saint-Médard : « Paramos a gavagem em fins de abril antes de recomeçarmos em setembro. Resultado, ficamos sem atividade por 4 meses. Felizmente que o meu companheiro produz vaca de corte e cultiva cereais. É mais complicado para quem só produz o foie gras. »
É também o caso de Vincent, 32 anos, gavador de foie gras em Aubiet. Instalado há 10 anos, o jovem produtor, depois de 4 meses inativo, e uma perda no faturamento de 6 000 euros. Indenizado em torno de « 45 % », ele precisou investir cerca de 20.000 euros em sistemas de biossegurança, instalando principalmente pedilúvios na entrada das salas de gavagem e das áreas de limpeza para os veículos . « Afora agüentar, nada mais se pode fazer. Mas francamente eu jamais vi algo parecido », explica ele, o rosto amedrontado. Desde abril Vincent não tem nenhum salário .
Como outros, Vincent tem raiva principalmente dos industriais acusados de querer matar os « pequenos ». « As grandes firmas como Vivadour querem eliminar os pequenos produtores como eu, pois somos um freio para o desenvolvimento deles, diz ele . Quando não mais existirmos, as grandes marcas se apossarão de nossa clientela . »
Vivadour. Nesses últimos dias, o nome dessa cooperativa de 475 milhões de euros de faturamento anual , como indicado no seu site Internet, suscita uma viva polêmica . Muitos suspeitam que ela não respeitou o princípio de precaução, tendo autorizado a importação no Gers e em outros departamentos atingidos, de uma mercadoria potencialmente contaminada pelo vírus H5N8.
Para melhor compreender o que brota nos espíritos, é preciso retraçar a cronologia . Tudo começa no sábado 26.11 no Tarn, em Almeyrac, uma comuna de 282 habitantes. Naquele dia, um criador constata uma taxa de mortalidade inabitual nos seus patos . Ele logo se comunica com o seu veterinário. Na segunda-feira, a direção departamental dos serviços veterinários (DSV) efetua as primeiras amostragens . Na quinta-feira, os resultados definitivos confirmam que se trata mesmo de um vírus da gripe aviária, do tipo H5N8.
Mas na véspera, um outro criador, filiado à cooperativa Vivadour, cuja exploração está situada a menos de 1km do foco inicial, descarregou em Gers, nos Hautes-Pyrénées e no Lot-et-Garonne milhares de patos prontos para serem gavados. . Em Monlezun, Frédéric Labenelle recebe um carregamento de 1.600 cabeças :
« Na quinta-feira elas começaram a morrer. Tivemos que eliminar todas. Os patos prontos , mas também os 14.000 da minha criação, por princípio de precaução . Eu estou frustrado por ter sido obrigado a eliminar os animais que eu criei durante dois meses e meio porque me entregaram uma bomba relógio. Isso me deixa com um gosto amargo . »
Para Philippe Martin, deputado do PS do Gers e presidente do conselho departamental, « a mercadoria jamais deveria ter deixado a criação doTarn ». « O princípio de precaução deveria ter sido aplicado enquanto se esperava o resultado. Como é que pode um grupo cooperativo tomar o risco de despachar a produção, quando a 800 metros havia uma suspeita grave ? Por quê os serviços do Estado não aplicaram o princípio de precaução? »
Apesar das várias solicitações , Vivadour recusou responder à questão. « Eles me disseram que o criador não estava sabendo que seu vizinho tinha uma suspeita de contaminação », relata o Sr. Labenelle. O criador no foco inicial afirma, entretanto, o contrário : « Eu preveni todos os meus vizinhos desde que suspeitei », diz ele, cortando no ato a conversa . Para separar o verdadeiro do falso, o ministério da agricultura requereu uma investigação à direção geral da alimentação (DGAL).
Uma outra questão alimenta as conversas. Por que os serviços do Estado não interromperam a circulação de palmípedes desde a primeira suspeita de contaminação ? « Não se pode decidir bloquear toda uma zona quando há uma suspeita. Se fosse feito isso a cada vez, haveria bloqueios todos os dias. Aplicar o princípio de precaução não pode ser ficar super reagindo sempre », responde Bruno Ferreira, chefe de serviço na DGAL.
Em 6.12, um decreto ministerial foi publicado com urgência. Se os textos já previam « a possibilidade de instalar uma zona de controle temporário para tomar as medidas conservadoras até que um resultado fosse confirmado », como explica o Sr. Ferreira, para ganhar em « rapidez », o delegado – e não mais apenas o ministro – poderá a partir de agora tomar a decisão . Um decreto em forma de confissão , segundo o vice-presidente da câmara de agricultura :
« Eu deploro que a decisão não tenha sido tomada em nível do Tarn. Pedir ao delegado tomar a partir de agora a decisão, isso é reconhecer que um tal decreto é útil. »
« Não houve atraso em alertar sobre o tema », conclui o chefe de serviço da DGAL. Para ter certeza, Philippe Martin, o presidente do conselho departamental do Gers, espera os resultados da enquete . « Se eles não responderem a todas as minhas questões, eu prestarei queixa judicial contra X », afirma ele .
No Gers, as autoridades sanitárias e os criadores concernidos tentam, há vários dias, parar a propagação da gripe aviária. Contrariamente à precedente crise, o vírus H5N8 parece mais fácil ser contido pelo fato da forte mortalidade que ele causa .
« Ele se transmite muito rapidamente, seu tempo de incubação é baixo – entre 24h e 48h – e sua mortalidade é alta . Até 50 % dos patos morrem nas seguintes 72h », explica o vice-presidente da câmara de agricultura . « No ano passado o vírus era fracamente patógeno . Como os patos resistiam à doença, era difícil ver que eles estavam contaminados . O atual parece ser então mais facilmente dominado », prossegue o secretário geral do Comitê interprofissional dos palmípedes para foie gras (Cifog).
Cerca de 18.000 patos já foram abatidos . A desinfecção dos sítios atingidos está em curso. Após a descontaminação, um prazo de 21 dias é necessário para eliminar a infecção. A desinfecção consiste principalmente em tratar com água de cal as camas e o esterco dos patos .
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