LeMonde
Pierre Barthélémy em tradução de Tadeu Cotta
Houve muito barulho nos últimos tempos em torno de plágios cometidos por Etienne Klein nas suas publicações . Ao mesmo tempo aparecia nos EUA uma história muito menos midiatizada mas claramente mais grave . Menos midiatizada porque tudo partiu de uma carta publicada há alguns dias nos Annals of Internal Medicine e no site Retraction Watch, duas publicações relativamente confidenciais . Mais grave porque a fraude científica que ela descreve questiona o vínculo de confiança entre pesquisadores e as revistas às quais eles propõem seus estudos, o que significa também questionar até mesmo a construção da pesquisa científica, toda ela centrada na publicação : um pesquisador só é levado em consideração através dos artigos que ele publicou .
O autor dessa carta se chama Michael Dansinger. Ele é médico e pesquisador no Tufts Medical Center (Boston, Massachusetts), especialista em endocrinologia e nutrição . Já por vários anos, um dos seus eixos de pesquisa é o impacto de certos regimes alimentares no nível de lipotroteinas de alta densidade (HDL segundo o acrônimo inglês ), mais conhecidas sob a expressão « bom colesterol ». Não entremos no detalhe de seus trabalhos, porque esse não é o assunto, mas diremos simplesmente que Michael Dansinger tem, pela necessidade de suas pesquisas, um acervo de assuntos americanos que ele constituiu ao longo do tempo .
Com seus colegas, ele submeteu em junho de 2015 um artigo tirado dessa pesquisa nos Annals of Internal Medicine. Após a etapa das releituras pelos seus pares ( o famoso peer review sobre o qual se apóia o processo de publicação ), seu trabalho não foi aceito pela revista – o que não quer dizer que ele era ruim .
Dou-lhe a palavra para contar o que é que aconteceu em seguida, precisando que sua carta, intitulada « Caro plagiador », está endereçada diretamente ao fraudador . « Após ter-se ocupado de nosso manuscrito como peer reviewer externo à revista , escreve Michael Dansinger, o senhor publicou o mesmo manuscrito numa outra revista médica alguns meses mais tarde . O senhor retirou os nomes dos autores e o do centro de pesquisas, substituindo-os pelos nomes de seus coautores e de sua própria instituição . » De fato, o estudo em questão, pretensamente conduzido por uma equipe italiana, foi publicado no EXCLI Journal em fevereiro .
Cohorte imaginário
O pesquisador americano prossegue descrevendo a soma de trabalho usado para chegar a esse artigo : « Foi preciso encontrar a boa equipe de pesquisa, conceber o estudo, juntar os financiamentos, obter as autorizações, recrutar (…) os participantes, (…) compilar e analisar os dados e escrever os relatórios iniciais . Esse trabalho foi financiado pelo governo americano e pela minha instituição de pesquisa . A segunda análise que o senhor releu para os Annals havia recorrido a métodos especializados que meus colegas levaram anos para desenvolver e validar . No total, esse corpo de pesquisas representa pelo menos 4.000 horas de trabalhos . »
Foi preciso esperar o mês de agosto para que Michael Dansinger descobrisse a existência desse « estudo » italiano e percebesse que ele só precisou recopiar seus resultados, contentando-se em modificar a origem geográfica das pessoas : a cohorte americana real se tornou uma cohorte italiana imaginária … Ele então avisou aos Annals of Internal Medicine explicando que ele suspeitava que um dos releitores – consultores - de seu estudo se apropriou dele. Num editorial que acompanha a carta de Michael Dansinger, Christine Laine, a redatora chefe dos Annals explica que ela então verificou quem releu o artigo, para só então perceber que um dos reviewers era também um dos coautores do » estudo » italiano.
« Quando eu contactei essa pessoa , escreve Christine Laine, ela reconheceu o plágio e eu informei isso ao redator chefe do EXCLI Journal. Ele procedeu a uma retratação do artigo fraudulento em setembro de 2016. Tal como é recomendado quando uma fraude científica é descoberta, eu informei aos responsáveis da instituição de pesquisa tida como financiadora do artigo fraudado . Ela informou da recepção dessa informação, mas não indicou as medidas eventualmente objetivadas para responder quanto ao fato . »
A cumplicidade dos coautores
Nota-se que Michael Dansinger e Christine Laine escolheram não nomear o pesquisador que se tornou culpado dessa fraude . A razão é múltipla . Primeiramente, não importa qual especialista se tornará o primeiro autor – que é a pessoa considerada ter conduzido a pesquisa - do » estudo incriminado » que tenha cometido essa falta . Em segundo lugar há o desejo de não responsabilizar mais do que o necessário uma pessoa em particular para que o objetivo conserve um certo nível. Enfim, Michael Dansinger e Christine Laine insistem no fato de que aceitando que seus nomes figurem num trabalho do qual eles sabiam ser fictício, os coautores desse artigo são todos cúmplices da fraude.
Na carta, muito digna, que ele escreve ao seu plagiador, o pesquisador americano acrescenta : « Como o senhor deve certamente saber, roubar é ruim. É particularmente problemático em ciência. O princípio do peer review repousa no comportamento ético dos releitores – consultores . Tais casos de roubo, de fraude científica e de plágio não podem ser tolerados, pois eles são nocivos e não éticos . Os que dele se tornam responsáveis podem em geral esperar que suas carreiras sejam arruinadas . (…) É difícil compreender porque o senhor assumiu um tal risco . O senhor sem dúvida trabalhou duro para se tornar um médico e pesquisador . Eu sei que o senhor publicou numerosos artigos de pesquisa. Isso não faz nenhum sentido . »
Para tentar compreender o que lhe parece loucura , Michael Dansinger faz várias hipóteses : seja porque seu plagiador sofre, da parte de sua instituição de pesquisa, uma tal pressão para publicar ( o famoso « publique ou morra ») que ele acabou por ceder; seja porque ele evolui numa atmosfera tão permissiva que ele não considerou esse plágio como uma infração grave à ética; ou ele acreditou que jamais seria pego . Desse ponto de vista, fracassou.
Quanto a Michael Dansinger, ele continua procurando uma revista onde publicar o seu trabalho
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