LeMonde
15.1.17
Pierre Barthélémy em tradução de Tadeu Cotta
Simulação numérica da estrela binária KIC 9832227. © Molnar et al./Calvin College.
QUANDO os astrônomos evocam os processos físicos que regulam a existência de tal ou qual estrela, eles acabam frequentemente explicando como é que ela morrerá . Mas em geral eles não prognosticam uma data precisa . Entretanto é isso o que acaba de fazer há alguns dias o estadunidense Larry Molnar, quando do 229o congresso da American Astronomical Society. Com sua equipe esse astrônomo do Calvin College (Michigan) acompanha de muito perto, desde 2013, a evolução de uma estrela bem particular chamada KIC 9832227.
Invisível a olho nu , esse astro está situado a cerca de 1.800 anos-luz de nós, na constelação do Cisne . Detrás do nome único de KIC 9832227, há na realidade duas estrelas . Como lembrado por Sylvain Chaty, professor de astrofísica na universidade Paris-Diderot, «mais de três quartos das estrelas vivem em duplas ». Mas KIC 9832227 tem de particular o que se poderia chamar de uma dupla fusional … Os astrônomos preferem a menos romântica expressão de « binário de contato ». É preciso, para compreender a sua existência , imaginar « duas estrelas que nascem uma ao lado da outra numa nebulosa , explica Sylvain Chaty. A mais massiva terá uma evolução mais rápida e terminará por atingir o estádio de gigante vermelho no curso da qual ela crescerá enormemente, ao ponto em que seu envoltório de hidrogênio envolva a estrela vizinha . »
Assim como mostrado na ilustração acima, os dois astros dispõem de um envelope comum, como dois grãos de amendoim numa só casca alongada. Estando presos dessa forma no envelope, a menor das duas estrelas « sofre atritos e é freada , prossegue Sylvain Chaty. As duas estrelas se aproximam uma da outra . Isso pode fazer decrescer o período orbital num fator 100. » Dois astros que levavam anteriormente cem dias para fazer o percurso em torno um do outro, agora podem fazê-lo em um dia .
Fogo de artifício
Assim como o explicam Larry Molnar e seus colegas, num artigo no Astrophysical Journal, os dois componentes da KIC 9832227 têm um período orbital de apenas 11h hoje . Esses pesquisadores recuperaram numerosos dados concernentes a esse binário em diferentes programas de vigilância astronômica do céu – Northern Sky Variability Survey, All Sky Automated Survey, Wide Angle Search for Planets, telescópio espacial Kepler – e eles mesmos o fizeram durante mais de três anos . No total, são dezenas de milhares de dados que foram compilados, cobrindo um período indo de abril de 1999 a setembro de 2016. Esses astrônomos perceberam que o período orbital decrescia . As duas estrelas continuam a se aproximar uma da outra ... Baseando-se num modelo de uma outra binária de contato , V1309 Sco, cuja fusão foi detectada em 2008, os autores do estudo avaliam que a fusão da KIC 9832227 está quase se tornando visível .
Se seus cálculos estiverem exatos, o espetáculo começará em março de 2022 (com uma margem de erro de mais ou menos sete meses …) : naquele momento uma nova estrela – uma “nova”, como dizem os astrônomos – deverá aparecer na constelação do Cisne. Atualmente invisível a olho nu, a KIC 9832227 poderia se tornar tão brilhante para nós quanto a estrela Polar ! A fusão cria de fato choques entre diferentes camadas de matéria e, em função da massa das estrelas e da dinâmica do processo, uma boa parte da matéria é susceptível de ser ejetada do sistema num verdadeiro fogo de artifício. A nova poderá ser visível durante semanas, ou mesmo meses .
É preciso, entretanto, tomar com esse estudo algumas precauções . Se se colocar de lado o fato de que ele ainda não foi publicado oficialmente, e de que os pesquisadores aí façam referência a seus próprios trabalhos de 2015, também não publicados , suas previsões parecem um tanto quanto arriscadas, para Sylvain Chaty : « A evolução que eles predizem é unicamente baseada na evolução do período orbital. Ora, o processo depende também, e muito, da evolução no seio mesmo das estrelas : há trocas de matérias entre elas que perturbam seu interior e o ritmo no qual elas transformam seu hidrogênio em hélio . »
O pesquisador francês avalia igualmente que fundar uma extrapolação a partir do que se passou com a estrela V1309 Sco é um pouco casual. Entretanto , Sylvain Chaty reconhece que há um lado simpático no trabalho de seus colegas estadunidenses : « Eles se mergulham na água ! »
Encontro marcado daqui a cinco anos para verificar se eles são vaidosos ou visionários .
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