Bruxas, envenenadoras, mães infanticidas, traidoras da pátria … Cada época teve sua figura diabolizada da mulher .
M le magazine du Monde | 16.12.2016
Pascale Robert-Diard em tradução de Tadeu Cotta

Em Riom, onde ocorria o processo, uma fila a cada dia mais longa esperava vociferações na chegada e partida em furgão dessa mãe que cristalizava paixões ruins . Agitava-se para se poder vê-la , para assistir a um pedaço da audiência, tal como devia ser, um século passado, se amontoar na praça onde um condenado seria executado.
A mulher, « aureolada pela paz que ela deve manter, e até estabelecer na sociedade (…), é tanto mais culpada quanto menos ela não se julga sê-lo ». CLAUDE GAUVARD, AuTora Do LIVRo « PRÉSUMÉES COUPABLES »
As redes sociais que, durante duas semanas, tinham amplificado o tumulto e contribuído para tornar mais pesada ainda essa atmosfera de linchamento, foram à loucura quando do anúncio do veredito. Esse último tornava só o companheiro da mãe culpado pelos golpes mortais e inocentava a mãe desse crime, quando uma pena de trinta anos de reclusão criminal tinha sido requerida contra os dois acusados .
Tudo isso dá uma acuidade singular à viagem através seis séculos de casos judiciais femininos que propõe a exposição parisiense « Présumées coupables ». Se as mulheres representam apenas uma parcela marginal da população carcerária penal – de 4 a 5 % –, os crimes que lhes são atribuídos fascinam e incomodam .
No belo livro publicado por ocasião dessa exposição (Présumées coupables, uma coedição L’Iconoclaste-Archives nationales, 320 p., 25 €), a universitária Claude Gauvard releva com justeza que a mulher « nimbée de la paix qu’elle se doit de maintenir voire d’établir dans la société (…) est d’autant plus coupable qu’elle se doit de ne pas l’être ». As duas figuras femininas mais célebres da história da França, Jeanne d’Arc e Marie-Antoinette, foram « presumidas culpadas ».
Ao longo da exposição, bruxas, petroleiras – palavra sem equivalente masculino –, envenenadoras, mães infanticidas, traidoras da pátria...retornam através de uma notável seleção iconográfica e de processos de interrogatórios, de « audiências orais » e anúncios de audiência .

No início do século XVII , o magistrado Henry Boguet está convencido : o diabo é o mal absoluto e a bruxa é coisa de mulheres. « Satã conhece todas, porque ele sabe que as mulheres gostam do prazer da carne », constata ele na Franche-Comté, onde ele julga inúmeros casos de « caça às bruxas ».
Avalia-se que cerca de 100.000 processos por crimes de bruxaria ocorreram na Europa, nos quais 70% das mulheres foram condenadas à tortura e à morte. Às mulheres acusadas se ordena descrever em detalhes como elas copulavam com o demônio . « Ele teve companhia com ela num colchonete perto de um aquecedor ; e ela reconheceu que sua natureza era muito pequena e fria e ela não sentiu que ele tenha feito nenhuma ejeção de sêmen », responde em 1646 sobre a questão, Adrienne d’Heur de Montbéliard, com a idade de 60 anos.
Posto que « dissimulado », o envenenamento aparece como o CRIME Da mulher por excelência
A mãe infanticida é, depois da feiticeira, um arquétipo do mal feminino . As últimas palavras pronunciadas por Anne Grumeau antes da sua execução em 19 de janeiro de 1640 são para « suplicar à corte para julgar mais suavemente as pobres mulheres parturientes de seus filhos ». Foi preciso esperar o século XIX para que a justiça se mostrasse mais clemente com essas culpadas, e entrevisse a parte de responsabilidade do homem na solidão, miséria e vergonha que são o dote delas.
Uma outra figura ameaçadora para a ordem social é a envenenadora , principalmente quando o arsênico, ou mata-ratos, é misturado ao vinho , sopas, ovos, pão, patês e geléias servidos ao marido . Posto que « dissimulado », o envenenamento aparece como o crime da mulher, por excelência .

Mais perto de nós, a « traidora » é indissociável das imagens da multidão gritando por vingança . À riqueza da iconografia sobre a Libération e seu cortejo de mulheres tosadas – da célebre imagem de Robert Capa sobre a « tondue de Chartres » tendo seu bebê nos braços à foto chocante tirada na Córsega, no outono de 1943, de uma moça nua cujo braço dobrado tenta tapar seus seios à vista de homens que cortam sua cabeleira –, a exposição acrescenta ainda mais à riqueza dos processos : o interrogatório de Corinne Luchaire, que será condenada a dez anos de indignidade nacional por ter mantido uma relação e um filho com um oficial alemão ; e aquele famoso de Léonie Bathiat, dito Arletty, do qual se sabe de passagem que ela não pronunciou no processo o célebre « Se o meu coração é francês, minha bunda é internacional », mas disse a frase : « Otto Abetz me pediu para deixar Paris e ir para Baden-Baden; eu recusei e lhe disse que eu amava mais Paris-Paris. »
Sempre « presumidas culpadas », essas mulheres célebres ou anônimas foram por muito tempo interrogadas e julgadas apenas por homens . Mesmo nas acusadas políticas – as comunadas [das Comunas de Paris] Louise Michel, Marie Leroy, Marie-Jeanne Moussu –, os homens da lei castigavam o diabo, a venalidade e o deboche, só vendo nos seus julgamentos a manifestação de sua « super-excitação » e de suas « paixões-novelescas ».
A justiça conta hoje com uma maioria de magistradas . Foi com desconfiança que esse corpo as acolheu . Quando em 1945 uma resistente, Marianne Verger, delegada à Assembléia consultativa, submeteu a seus pares a proposição que iria conduzir à adoção da lei de 11 de abril de 1946 abrindo a magistratura às mulheres, encontrava-se entre os delegados um homem, François Labrousse, que sugeriu limitar o acesso delas aos tribunais para crianças e à Corte suprema, « numa esfera de direito puro e abstrato ». Quem sabe o diabo não poderia reaparecer sob a toga de um juiz ?
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« Présumées coupables » aux Archives nationales, hôtel de Soubise, 60, rue des Francs-Bourgeois, Paris 3e. Jusqu’au 27 mars 2017.www.archives-nationales.culture.gouv.fr
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