Vários leitores de minha chronique Improbablologie, não suportando a entrada em férias desse suplemento "Science & Techno" de Le Monde no qual é publicado, me falaram do sentimento de abandono e da sensação de faltar algo em suas vidas. Atendendo a todos, portanto, eis aí um pedacinho de ciência improvável desse Passador ...
No Gênesis, está escrito que " o Eterno Deus fez cair um profundo sono sobre o homem, que se endormiu ; ele tirou uma de suas costelas, e recolocou a carne no devido lugar . O Eterno Deus formou uma mulher com a costela que tinha retirado do homem, e a levou até o homem ." É assim que a Bíblia descreve a criação de Eva, a partir de uma costela de Adão . Mas esse mito explicativo não teve o dom de agradar a Scott Gilbert, professor de biologia no Swarthmore College, uma universidade americana situada na Pennsylvania. Esse professor-pesquisador de fato achou estranho escolher um osso desprovido de qualquer simbolismo para um ato tão importante como o da criação de uma mulher, sob anestesia geral . E mais, assinala Scott Gilbert, um tal mito deveria servir para explicar uma diferença numérica entre a quantidade de ossos entre homens e mulheres, o que não é o caso . Daí a hipótese formulada em 2001 numa correspondência publicada pela American Journal of Medical Genetics (AJMG) e agora passada para a posteridade pela ciência improvável : e se por um erro de tradução se fez Deus apanhar o osso errado ?
Scott Gilbert então solicitou os serviços de Ziony Zevit. Esse especialista da literatura bíblica e das línguas semíticas na American Jewish University de Los Angeles lhe explicou que a palavra hebraica usada na descrição da operação divina de fato significava "a costela" , "o lado" ou "o flanco" (de um humano ou de uma montanha); mas que ela também tem o sentido de "pedaço de pau", de "pilastra", de "reforço" ou de "coluna", ou seja, descreve um elemento de estrutura, de suporte, de apôio . É exatamente o que esperava Scott Gilbert, pois ele tinha uma idéia sobre o osso que Deus podia tirar do homem, e que nos faz falta até hoje .
Isso aí se chama baculum, palavra latina que, a acreditar no velho professor Gaffiot, significa "bastão" ou "ceptro". Numerosos mamíferos machos são providos dele, e principalmente os nossos primos mais próximos, os chimpanzés e os gorilas. Trata-se de um osso que, quando da copulação, é inserido no pênis, o que é muito prático para obter uma ereção rápida, sem ser preciso esperar que todo o sistema hidráulico sobre o qual se baseia a reprodução humana se coloque em ação . Alguns colecionadores são apaixonados por esses ossos e, por 65 dólares, pode-se adquirir um baculum de morsa de 60 cm (que o comprador se divirta imaginando como usá-lo ). Em 2007, um osso peniano de uma espécie de morsa extinta há milênios , foi vendida por 8 000 dólares num leilão . Diga-se que essa relíquia media 1,40 metro.
Afora alguns raros casos patológicos de ossificação peniana, o homem perdeu esse utensílio no trajeto do percurso de sua evolução; e essa ausência não passou despercebida aos povos da Antiquidade que viviam na proximidade dos animais . Para Scott Gilbert e Ziony Zevit, a criação de Eva poderia muito bem ser um mito explicativo desse desaparecimento misterioso . De fato o hebreu usado na Bíblia não dispõe de "nenhum termo técnico para designar o pênis e a ele se refere pela interposição de numerosas circunlocuções ". De saída já se pode dizer que a "coluna" ou o "pilar" – visível ou não – de Adão é outra coisa, e não uma simples costela ... E mais , segundo os autores dessa comunicação à AJMG, fabricar um outro ser a partir de um osso situado no órgão reprodutor é simbólicamente mais forte do que escolher um osso qualquer dentre dúzias ( duas) encontrados no corpo humano .
Enfim, Scott Gilbert, não sem humor, deixou para o fim um último e sutil argumento anatômico. O texto do Gênese dizendo que Deus "fechou a carne" ao final da retirada cirúrgica, subentende uma cicatriz, e até mesmo uma sutura . Ora, olhando bem o tronco humano, a única cicatriz existente é o umbigo (do qual Adão e Eva, e que isso não desagrade ao autor do mosaico acima, deviam logicamente serem desprovidos ) e ele não está de fato situado no nível das costelas . Em compensação existe uma magnífica sutura ao longo de todo o órgão reprodutor macho, a ráfia perineal, linha que percorre toda a parte ventral do pênis, o escroto e o períneo ... Se a hipótese de Gilbert e Zevit é boa, compreende-se melhor ainda porque Deus fez Adão dormir antes de o operar; e o mito de Eva mata dois coelhos numa cajadada só, explicando de uma só vez a ausência de baculum e a presença dessa sutura (que na realidade é uma herança do momento em que , durante a embriogênese , dobras e nódulos dessa zona se soldam para formar os órgãos genitais masculinos ).
"Por quarenta anos, eu acreditei que era um osso ", dizia Henri IV falando da parte viril de sua anatomia . Depois , o Vert Galant deve ter se desencantado ao experimentar algumas panes . Osso, não havia nenhum . De quem a culpa ? Daí a supor uma cumplicidade entre Deus e os vendedores de Viagra, há um limite que eu não vou ultrapassar . Vou deixar isso para os jornalistas investigativos.
Pierre Barthélémy em tradução de Tadeu Cotta