Em nome do Senhor...

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Tadeu Cotta

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Dec 6, 2016, 9:27:54 AM12/6/16
to Lista de discussão dos Professores da UFLA


Abertura do processo de Dominic Ongwen, primeira criança soldado,  julgado pela CPI

Raptado no caminho para a escola pelo Exército de resistência do Senhor, ele passou quase trinta anos no seio dessa sanguinária milícia ugandense

Le Monde.fr avec AFP , 06.12.2016

 

image: http://s2.lemde.fr/image/2016/12/06/768x0/5043898_7_8364_dominic-ongwen-lors-de-sa-comparution-devant_ecc685e991c535288128621a034772cf.jpg

Dominic Ongwen, lors de sa comparution devant la Cour pénale internationale (La Haye), le 26 janvier 2015.

Primeiro membro do sanguinário Exército de resistência do Senhor (LRA) no banco dos acusados, o ugandense Dominic Ongwen deve comparecer nessa terça-feira, 6.12, diante da Corte penal internacional (CPI), em La Haya .

A abertura de seu processo é muito esperada por centenas de milhares de vítimas da rebelião de Joseph Kony – que ainda não foi preso .

Ongwen, transformado ao longo dos anos em um dos comandantes mais temidos do LRA, é também a primeira criança soldado a ser julgada pela CPI, representando um terrível dilema para a justiça  internacional.

Depois de quase três décadas nas matas, o homem, hoje aos  40 anos de idade, deve responder a 70 crimes de guerra e  crimes contra a humanidade pelo seu papel na milícia que, segundo a ONU, massacrou mais de 100.000 pessoas e raptou mais  de 60.000 crianças .

Ritos iniciáticos brutais

Filho de dois professores , Ongwen só tinha 10 anos quando foi raptado indo para a escola perto da sua vila de Coorom,  no norte de Uganda.   Nessa época , Kony estava na direção do LRA. Fundada em torno de  1987  essa milícia, que misturava misticismo religioso, técnicas de guerrilha e   brutalidade  sanguinária, tenta instaurar um  regime  inspirado nos dez mandamentos {da lei de Deus}.

Vítimas contaram os ritos iniciáticos brutais no seio dessa tropa : engajamento  a força e obrigação de morder e espancar  amigos e parentes até à morte, e beber sangue deles. È provável que Ongwen tenha sido submetido a esses ritos.

Leia : Les guerriers de l’Apocalypse de l'Armée de résistance du Seigneur “Os guerreiros do Apocalipse do Exército de resistência do Senhor”

A despeito de sua juventude, ele é escolhido pela sua lealdade no crime, sua coragem no combate e suas qualidades em preparar táticas . Ele  sobe rapidamente na hierarquia e se torna chefe de brigada de  Sinia, uma dentre as quatro do  LRA. Desde  2005,  a milícia ugandense migra  para o nordeste da República democrática do Congo, para o  Sudão do  Sul,  e para todo o leste da  República centro-africana .

Casamentos e gravidez obrigatórios

Esse ex-chefe de guerra terá que se declarar culpado ou não culpado frente às  declarações liminares da acusação e dos representantes de 4.109 vítimas . Em seguida, as audiências serão retomadas em janeiro.

A procuradoria acusa  Ongwen, principalmente de ter conduzido ou ordenado ataques  « sistemáticos e  generalizados » contra civis em quatro campos de refugiados  tidos  como simpáticos ao presidente ugandês  Yoweri Museveni.  Ele também é acusado de engajar crianças-soldado, de  « casamentos forçados »  e , pela primeira vez,  « engravidamentos obrigatórios  ».

As crianças são raptadas para serem transformadas em soldados, ou  «esposas»  « distribuídas aos  soldados como  butins de guerra », assegura a procuradora num documento  oficial.  O acusado teria pelo menos sete « esposas  ». Uma delas tinha 10 anos quando foi violada pela primeira vez .

De vítima a carrasco

A defesa, que optou por se exprimir só após a apresentação de todos os elementos do processo, considera vários argumentos, dos quais uma potencial síndrome de stress pós-traumático devido ao seu passado e  « à ameaça  permanente de uma morte  iminente » por Kony.

No centro do processo, um dilema para os juízes  : Ongwen  pode ser legalmente responsável por  crimes , tendo ele sido inicialmente vítima ? « Seu passado não é em si mesmo uma defesa », estima  Isabelle Guitard, diretora dos programas no seio da ONG Child Soldiers International, que defende os direitos das crianças soldados.

« Muitos criminosos foram vítimas num dado momento, e não se pode excluir toda responsabilidade criminal nessa base, mas esse  statut de criança  soldado poderia ser levado em conta no  momento  da  determinação da pena, se ele for considerado culpado . »

Qualquer que seja a conclusão, o caso fará jurisprudência . E, além disso, ele poderá ter conseqüências  importantes, longe das austeras salas de audiência de  La Haya, para a reabilitação, ou o julgamento, das centenas de milhares de crianças-soldados através o mundo.






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