[Capilé Express] Ciao! Detroit

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Charles Pilger

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Apr 23, 2010, 12:59:35 AM4/23/10
to Charles Pilger, respo...@googlegroups.com, mara...@googlegroups.com, Diego Fernandes, leandro...@gmail.com, Nay ., capile-...@googlegroups.com, pop...@googlegroups.com, santoe...@hotmail.com, Alexandre Santos, manuel...@gmail.com, Maurício Flach Renner

Ciao! Detroit

Foi em 1994 que eu vim morar pela primeira vez em São Leopoldo. Estava estudando na Unisinos, trabalhava lá como monitor no laboratório de informática e ficava matando o tempo junto com os bolsistas da pesquisa. Nessa época fui morar numa pensão ao lado da prefeitura, e costumava a noite ir no Mac Bar, geralmente levando um livro. Então, em 1996, voltei para Taquara, onde trabalhei em um provedor de acesso até, em 1997, me convidarem para trabalhar como webmaster na Unisinos, o que fez com que eu voltasse a São Leopoldo. Na Unisinos acabei ficando 11 anos e depois saí para a ADP e de lá acabei indo para uma incubada no Pólo de Informática da Unisinos. E assim foi até mês passado, quando fui chamado para trabalhar no Serpro como concursado.

E de 1997 até 2000 morei em duas repúblicas, transitando pelo Mac Bar (sempre com um livro debaixo do braço), bebendo umas que outras com os colegas de apartamento. Aos poucos essa gurizada foi voltando para casa, indo embora, botando o pé na estrada, e assim foi até ir morar sozinho em um JK na rua Marques do Herval.  Passado um tempo descobri perto do prédio um bar, um tal de Br-3, e passei a frequentar o lugar. Foi ali que a minha vida começou a ficar realmente divertida. Até então eu ia levando a vida, fazendo uma festa aqui, outra ali, mas foi ali que eu passei a viver o que a Viana Moog maravilhosamente definiu como sendo a boêmia adolescente após os 30. Foi a época que eu conheci pessoas muito legais, que eu participei d’O Apanhador e do Gordurama, que fiz muitos amigos e que me renderam alguns dos dias mais felizes da minha vida, tanto que volta e meia eu largo um Volta 2003! para o vazio.

E foi justamente em 2003 que eu comprei o ap da Saldanha da Gama. Nessa época o Br-3 já tava indo por água abaixo, mas tinha o 356 para as festas mais comportadas e o Bar do Podrão (aka Andar de Cima) para as festas mais malucas. Foi nessa época que o conceito São Leopoldo-Detroit ficou mais forte do que nunca. Não tinha festa ruim por aqui. Em todas havia um sentimento de urgência e uma alegria que se sentia no ar. Era uma época de exageros e uma época de definições. Era uma época de auto-destruição e crescimento, onde valia a máxima de que a estrada do excesso conduz ao palácio da sabedoria. Forçado? Pode ser, mas para mim 2003 foi um marco, e foi com tristeza que vi nos anos seguintes a magia aos poucos se ir.

Em 2004 o Casarão abriu, e foi para ali que as festas migraram, até o ponto que ele se tornou uma ilha isolada, visto que todos os outros bares tinham fechado. O Ateliê Zumbi andou junto por uns 2 anos, mas não durou muito tempo, e até 2006 era lá na esquina da Independência com a João Neves da Fontoura que a festa rolava. Foi ali que eu comecei a namorar a Taila, e a gente costumava vir pra casa dormir até as 2, 3 da madrugada para ir lá dançar. Foi nessa época que eu mais me diverti brincando de DJ, e acredito que muita gente gostava do som que se colocava. Mas como tudo que é bom acaba e na metade de 2007 já não havia mais Casarão.

E depois do Casarão? Bem, tinha o Seventy Pub (que não durou muito) e o Armazém San Lou. O Pop Cult apareceu em Novo Hamburgo. E em São Leopoldo apareceram o Jockey Club e a Embaixada do Rock. E é nesse ponto que estamos hoje, e sinceramente dá uma pena ver que a coisa não é mais a mesma. Se em 2001/2003 havia uma certa cena (pequena, focada em poucas bandas e alguns zines, mas mesmo assim uma cena), nesse final de década não há nada. Ok, faz tempo que não vou no Pop Cult, mas essa é a situação de São Leopoldo. É algo triste de ver. Para se ter uma idéia até o Mac Bar morreu, afundado pelos traficantes…

E é nesse clima que aparece esse emprego em Porto Alegre. Com um salário bom, tão bom que posso me dar ao luxo de alugar um apartamento na Cidade Baixa, de forma que estou deixando Detroit. Ok, a Taila já me disse que Detroit não existe mais faz tempo, mas mesmo assim eu sempre queria ver ela de novo, queria poder sair às 3 da madrugada no sábado e ver gente se divertindo como se não houvesse amanhã, mas não vejo mais isso. E não é porque os antigos boêmios ficaram mais velhos, mas sim porque se vê que esses boêmios não deixaram herdeiros, não souberam manter os lugares onde todo mundo confraternizava, enlouquecia, se divertia. Hoje as festas parecem apagadas, sem aquele brilho que havia. Talvez seja impressão minha, essa a idéia de que houve uma TAZ por aqui… Mas enfim, o caso é que estou de mudança, estou indo para uma nova casa (nem tanto atrás de festas, mas sim de conforto). Então, é isso que me resta:  me despedir de São Leopoldo, e agradecer à essa cidade que me acolheu muito obrigado pelos anos de ótimas lembranças que ela me proporcionou.

Ciao! Detroit


http://www.charles.pilger.com.br/blog/2010/04/23/ciao-detroit/

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Charles Pilger
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zeca

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Apr 23, 2010, 10:35:24 AM4/23/10
to Capilé Express
Charles, amigo e parceiro de festas!

Creio que nos conhecemos justamente nos anos de outro da nossa
Detroit, lá por 2002 ou 2003. E que festas eram aquelas do BR-3!
Lembro que sempre reclamávamos, mas a saudade que aqueles tempos
deixaram é muito grande. Todos esses lugares que vc citou fez bater
uma nostalgia enorme. E também é triste ver que hoje os lugares que
permanecem vivos estão fadados ao fracasso. Talvez nao a Embaixada do
Rock ainda dure, pois lá sempre tem festa (a maioria não para meu
gosto mas OK, rolam festas do caralho lá ainda).

Onde antes as festas eram embaladas ao som da Viana, hoje temos que
nos contentar com o Samba-Rock. Phoda!

Te desejo sucesso nessa nova empreitada, rapaz. Espero que te dê bem
mesmo! Volta e meia dou uma voltinha na cidade baixa, quem sabe uma
hora não nos encontramos por lá?
Forte abraço e tudo de bom!

zeca.

On 23 abr, 01:59, Charles Pilger <charles.pil...@gmail.com> wrote:
> Ciao! Detroit
>
> Foi em 1994 que eu vim morar pela primeira vez em São Leopoldo. Estava
> estudando na Unisinos, trabalhava lá como monitor no laboratório de
> informática e ficava matando o tempo junto com os bolsistas da pesquisa.
> Nessa época fui morar numa pensão ao lado da prefeitura, e costumava a noite
> ir no Mac Bar, geralmente levando um livro. Então, em 1996, voltei para
> Taquara, onde trabalhei em um provedor de acesso até, em 1997, me convidarem
> para trabalhar como webmaster na Unisinos, o que fez com que eu voltasse a
> São Leopoldo. Na Unisinos acabei ficando 11 anos e depois saí para a ADP e
> de lá acabei indo para uma incubada no Pólo de Informática da
> Unisinos<http://www.charles.pilger.com.br/blog/2009/04/07/a-quantas-ando/>.
> E assim foi até mês passado, quando fui chamado para trabalhar no
> Serpro<http://www.serpro.gov.br/>como concursado.
>
> E de 1997 até 2000 morei em duas repúblicas, transitando pelo Mac Bar
> (sempre com um livro debaixo do braço), bebendo umas que outras com os
> colegas de apartamento. Aos poucos essa gurizada foi voltando para casa,
> indo embora, botando o pé na estrada, e assim foi até ir morar sozinho em um
> JK na rua Marques do Herval.  Passado um tempo descobri perto do prédio um
> bar, um tal de Br-3, e passei a frequentar o lugar. Foi ali que a minha vida
> começou a ficar realmente divertida. Até então eu ia levando a vida, fazendo
> uma festa aqui, outra ali, mas foi ali que eu passei a viver o que a Viana
> Moog maravilhosamente definiu como sendo a *boêmia adolescente após os 30*.
> Foi a época que eu conheci pessoas muito legais, que eu participei d’*O
> Apanhador* e do *Gordurama*, que fiz muitos amigos e que me renderam alguns
> dos dias mais felizes da minha vida, tanto que volta e meia eu largo um *Volta
> 2003! *para o vazio.
>
> E foi justamente em 2003 que eu comprei o ap da Saldanha da Gama. Nessa
> época o Br-3 já tava indo por água abaixo, mas tinha o 356 para as festas
> mais comportadas e o Bar do Podrão (aka Andar de Cima) para as festas mais
> malucas. Foi nessa época que o conceito São Leopoldo-Detroit ficou mais
> forte do que nunca. Não tinha festa ruim por aqui. Em todas havia um
> sentimento de urgência e uma alegria que se sentia no
> ar<http://www.charles.pilger.com.br/blog/2003/11/10/>.
> Era uma época de exageros e uma época de definições. Era uma época de
> auto-destruição e crescimento, onde valia a máxima de que a estrada do
> excesso conduz ao palácio da sabedoria. Forçado? Pode ser, mas para mim 2003
> foi um marco, e foi com tristeza que vi nos anos seguintes a magia aos
> poucos se ir.
>
> Em 2004 o Casarão abriu, e foi para ali que as festas migraram, até o ponto
> que ele se tornou uma ilha isolada, visto que todos os outros bares tinham
> fechado. O Ateliê Zumbi andou junto por uns 2 anos, mas não durou muito
> tempo, e até 2006 era lá na esquina da Independência com a João Neves da
> Fontoura que a festa rolava. Foi ali que eu comecei a namorar a Taila, e a
> gente costumava vir pra casa dormir até as 2, 3 da madrugada para ir lá
> dançar. Foi nessa época que eu mais me diverti brincando de DJ, e acredito
> que muita gente gostava do som que se colocava. Mas como tudo que é bom
> acaba e na metade de 2007 já não havia mais
> Casarão<http://www.charles.pilger.com.br/blog/2007/06/06/procura-se-um-pai-de...>
> .
>
> E depois do Casarão? Bem, tinha o Seventy Pub (que não durou muito) e o
> Armazém San Lou. O Pop Cult apareceu em Novo Hamburgo. E em São Leopoldo
> apareceram o Jockey Club e a Embaixada do Rock. E é nesse ponto que estamos
> hoje, e sinceramente dá uma pena ver que a coisa não é mais a mesma. Se em
> 2001/2003 havia uma certa cena (pequena, focada em poucas bandas e alguns
> zines, mas mesmo assim uma cena), nesse final de década não há nada. Ok, faz
> tempo que não vou no Pop Cult, mas essa é a situação de São Leopoldo. É algo
> triste de ver. Para se ter uma idéia até o Mac Bar morreu, afundado pelos
> traficantes…
>
> E é nesse clima que aparece esse emprego em Porto Alegre. Com um salário
> bom, tão bom que posso me dar ao luxo de alugar um apartamento na Cidade
> Baixa, de forma que estou deixando Detroit. Ok, a Taila já me disse que
> Detroit não existe mais faz tempo, mas mesmo assim eu sempre queria ver ela
> de novo, queria poder sair às 3 da madrugada no sábado e ver gente se
> divertindo como se não houvesse amanhã, mas não vejo mais isso. E não é
> porque os antigos boêmios ficaram mais velhos, mas sim porque se vê que
> esses boêmios não deixaram herdeiros, não souberam manter os lugares onde
> todo mundo confraternizava, enlouquecia, se divertia. Hoje as festas parecem
> apagadas, sem aquele brilho que havia. Talvez seja impressão minha, essa a
> idéia de que houve uma
> TAZ<http://pt.wikipedia.org/wiki/Zona_Aut%C3%B4noma_Tempor%C3%A1ria>por
> aqui… Mas enfim, o caso é que estou de mudança, estou indo para uma
> nova
> casa (nem tanto atrás de festas, mas sim de conforto). Então, é isso que me
> resta:  me despedir de São Leopoldo, e agradecer à essa cidade que me
> acolheu muito obrigado pelos anos de ótimas lembranças que ela me
> proporcionou.
>
> *Ciao! Detroit* <http://en.wikipedia.org/wiki/Ciao%21_Manhattan>
>
> <http://en.wikipedia.org/wiki/Ciao%21_Manhattan>
> Msn: crpil...@hotmail.com

Edu Verme

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Apr 23, 2010, 1:36:26 PM4/23/10
to capile-...@googlegroups.com
Me sinto frustrado pela Detroit gaudéria ter se dissipado como pó no vento.

Como um participante ativo da fase mais movimentada culturalmente da cidade posso dizer, com a sensação de mágoa nos pensamentos, que o que se criou na época foi algo único e muito grandioso. BR3 me traz o mesmo tipo de nostalgia que tenho ao pensar no Woodstock, por exemplo. Um fato isolado, de proporções gigantes que parece não ter se contido apenas dentro da cidade onde se vivenciaram os fatos, haja visto que mesmo muita gente de fora da cidade lembra do BR3 e do Andar de Cima, incluindo aqui gente totalmente alheia à cena rock como um todo. Mesmo os que vieram na onda da geração seguinte, a atual, já ouviram falar nesse passado dourado leopoldense, e com certeza devem concordar que não há o menor sinal de uma nova geração focada nesses itens que antes eram básicos pra nós: a união, que mesmo desunida na época, pairava sobre as pessoas. Puxa vida, eu conhecia todo mundo que ia ao BR!!! No Mack! No Andar de Cima! Aliás, foi lá que conheci todas essas pessoas que hoje são parte do meu círculo de amigos, de algum modo. Se for contar no meu orkut quantos amigos estão ali e que conheci lá, nossa, é mais do que a metade! Hoje se perdeu isso, percebo nas poucas vezes que vou à Embaixada ou ao Jóquei que existe uma barreira entre as pessoas, grupos divididos. Será culpa de nós mesmos? Culpa da internet que nos privou do contato físico?

Olha, em partes acho que sim.

Sinto culpa por ter deixado a cidade "ao Deus dará". O trabalho me pegou de jeito. O namoro, os problemas de saúde na família. Aos poucos fui deixando de frequentar as ruas leopoldenses pra viver uma vida dentro de mim mesmo, e parece que foi tudo ao mesmo tempo, todas as pessoas chegaram a esse mesmo ponto que eu, pois agora ao sair para tomar uma Heineken no "novo Mack" só vejo lá aqueles que não mudam MESMO.
Se isso é bom ou ruim... não sei.
Mas o fato é que me dá uma tristeza enorme essa sombra que fica lá atrás, uma vontade de reviver tudo aquilo denovo. Nunca mais... nunca mais. Mesmo não sendo eu nem de perto o que manteve viva a chama detroitiana capilé, sinto o peso da culpa nos meus ombros. Todos deveriam sentir.

Sorte aos que estão saindo de São Leopoldo. E olha que não são poucos. O Charles era um dos sobreviventes que até a bem pouco tempo atrás eu não entendia o porque de ter ficado por aqui, mesmo no fim da fase áurea. Ele manteve em pé os ideais leopoldenses daquela época. Esse blog dele é a memória viva do que se passou por aqui, daria pra escrever um livro! Quem mais fez isso naquele tempo?

É uma triste despedida. Sinto que não só a permanência do Charles no Vale do Sinos acaba aqui, mas que São Leopoldo também acaba aqui (vide os acontecimentos culturais recentes leopoldenses que tinha idéias ótimas, mas que afundou devido à intolerância dos nossos maravilhosos produtores culturais...).

Edu.
--
Edu
Meu blog:
www.botecodoverme.blogspot.com

"O estado proíbe ao indivíduo a prática de atos infratores, não porque deseje aboli-los, mas sim porque quer monopolizá-los."
                                        Sigmund Freud

Adroaldo

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Apr 27, 2010, 10:03:04 AM4/27/10
to Capilé Express
Teria escrito algo bem parecido com estes textos no início dos anos
80, quando estudava jornalismo na Unisinos, época em que as aulas
deste curso ainda ocorriam no Centro. Saímos das aulas e íamos ao
Parada 1 e depois para o Parada 2, locais em que, acompanhados de
muita cerveja, construíamos um novo mundo, de muita justiça social e
respeito à diversidade. Foi muito triste quando tudo terminou,
principalmente com a transferência de tudo para o Campus, retirando do
Centro a efervescência universitária.
Faço este registro porque é bom ver que novos sonhos foram
construídos, ainda que também tenham se perdido em algum momento. É
assim mesmo. Mas, para o nosso consolo, outros sonhadores virão e a
mundo continuará girando.
> ...
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