"... ELES COMIAM E BEBIAM A EXPENSAS DO GOVERNO". (Thalma)
Um aluno achou que a frase acima estava errada e nos escreveu pedindo
confirmação.
Na verdade, a palavra expensas, apesar do s no final está no singular. É de
origem latina, como a maioria de nossos vocábulos.
A expressão a expensas de é o mesmo que à custa de.
Outro exemplo:
"Ela viveu sempre à custa do irmão."
Convém lembrar que são locuções prepositivas e não devem ser usadas no
plural.
É errado dizer: às custas de, às expensas de, às voltas com, em vias de.
Muita gente diz e escreve assim, mas está errado.
Diga sempre e acertadamente: fulano está em via de casar. - Eu ando à volta
com problemas financeiros, etc.
Procuremos falar corretamente. Assim estaremos valorizando e respeitando o
nosso idioma e granjeando respeito próprio.
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Habeas-corpus
A origem desta famosa frase latina, citada com muita freqüência,
principalmente em tempos de perseguições políticas que levam à perda das
liberdades individuais, encontra-se nas primeiras palavras de uma célebre
lei inglesa, o Habeas Corpus Act, sancionada em 1679 por Carlos II
(1630-1685), então rei da Inglaterra, Escócia e Irlanda. Hoje está
incorporada aos sistemas jurídicos de quase todos os países. Seu significado
é que tenhas teu corpo. O objetivo deste preceito é garantir ao acusado o
direito de aguardar o julgamento em liberdade, sob fiança. O imperador que
sancionou notabilizou-se, entre outras coisas, por assegurar a convivência
entre católicos e protestantes num tempo de grandes rivalidades entre as
duas religiões.
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"O inimigo dos neologismos pode igualmente sê-lo dos arcaísmos. Uns e
outros se propõem a lutar contra a fatalidade das leis naturais, estes
restaurando o passado, aqueles antecipando-se ao futuro."
Rui Barbosa
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Sobre o acordo ortográfico
16 de maio, 2008
Jair Rattner
De Lisboa para a BBC Brasil
Parlamento português aprova acordo ortográfico
Passados 16 anos desde a assinatura, Portugal aprovou nesta sexta-feira o acordo ortográfico, que unifica a forma como é escrito o português nos países lusófonos.
Apesar de polêmico, o texto foi aprovado por deputados de todos os quadrantes políticos - desde o CDS à direita, até o Bloco de Esquerda - com três votos
contra
e muitos deputados abandonando o plenário durante a votação.
As mudanças na forma de escrever o idioma em Portugal vão valer dentro de seis anos, enquanto no Brasil os livros escolares deverão ser mudados até 2010.
Questionado sobre o acordo, o escritor José Saramago, prêmio Nobel de literatura, optou por não entrar em polêmica: "Vou continuar escrevendo do mesmo jeito.
Isso
agora vai ser com os revisores".
Vitória brasileira?
Houve grande polêmica em Portugal. A iniciativa contrária à reforma com maior impacto no país foi uma petição na internet, que tentava convencer parlamentares
a
votar contra o acordo.
O documento, que criticava a proposta por entender que este significava que Portugal cedia aos interesses brasileiros, teve mais de 35 mil assinaturas desde o início
do mês, grande parte delas de intelectuais.
"A língua portuguesa é o maior patrimônio que Portugal tem no mundo", afirmou o deputado Mota Soares, do partido CDS.
Ironicamente, dois deputados que encabeçaram a petição - Zita Seabra e Vasco Graça Moura - não estavam no plenário na hora da votação.
Zita Seabra disse que, como é proprietária de uma editora, havia conflito de interesses para votar o texto.
Alterações
Os estudos lingüísticos que basearam o acordo indicam que os portugueses terão mais modificações do que os brasileiros. O dicionário português terá
de trocar 1,42%
das palavras, enquanto no Brasil apenas 0,43% sofrerão mudanças.
Para os portugueses, caem as letras não pronunciadas, como o "c" em acto, direcção e selecção, e o "p" em excepto.
A nova norma acaba com o acento no "a" que diferencia o pretérito perfeito do presente (em Portugal, escreve-se passámos, no passado, e passamos, no presente).
Algumas diferenças vão continuar. Em Portugal, polémica e génesis manterão o acento agudo - o Brasil continuará escrevendo com o circunflexo.
Os portugueses manterão o "c" em facto - fato em Portugal é roupa - e vão tirar o "p" que no país não é pronunciado na palavra recepção.
Atraso
Aprovar as mudanças foi um longo processo. O conteúdo do acordo já tinha sido aprovado há 16 anos, mas não podia entrar em vigor sem que os Parlamentos
ratificassem
o protocolo modificativo.
O protocolo previa que o acordo entrasse em vigor quando três países aprovassem o acordo - e não todos os que falam o português, como estava no texto original.
No
ano passado, São Tomé e Príncipe foi o terceiro a aprovar o acordo, dando validade ao documento.
Para o governo português, a aprovação do acordo é o primeiro passo para existência de uma política internacional da língua portuguesa, que será anunciada
quando
Portugal assumir a presidência rotativa da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em julho deste ano.
"É necessário agora desenvolver uma política de internacionalização, consolidação e aprofundamento da língua portuguesa, e o acordo ortográfico
é um instrumento
para isso", afirmou o ministro da Cultura, Antônio Pinto Ribeiro.
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Ventosidades
Cláudio Moreno
Em todas as línguas do mundo existem palavras que não são pronunciadas
livremente, ficando excluídas da linguagem usual da comunidade. Quando
os antropólogos começaram a estudar os povos primitivos, descreveram
dezenas desses tabus lingüísticos, observados rigorosamente por qualquer
membro da tribo que temesse atrair a ira de um deus ou de alguma
entidade sobrenatural. Embora nada tivesse de primitivo, a Antiguidade
Clássica também acreditava nisso: o historiador Caius Julius Solinus,
por exemplo, revela que o verdadeiro nome de Roma era mantido em
absoluto segredo, sendo punido com a morte quem o dissesse em voz alta,
mesmo durante as cerimônias sagradas. Neste século 21, tão cético em
quase tudo, nós ainda conservamos algumas dessas proibições, não mais
ditadas por temor reverencial ou religioso, mas sim por respeito a
certas normas de convívio que impõem restrições a palavras
desagradáveis, vulgares, brutais ou pejorativas que possam chocar nosso
interlocutor.
Essa preocupação em não constranger é que nos faz substituir essas
palavras "malditas" por um eufemismo (literalmente, "uma forma boa de
dizer"). Por exemplo, se tivermos de falar a outrem sobre uma de nossas
funções excretoras, vamos deixá-lo mais à vontade se substituirmos
verbos "duros" como defecar ou evacuar pela eufêmica expressão ir aos
pés . Quem informa ao médico, por exemplo, que "conseguiu ir aos pés"
está optando por uma maneira mais ou menos delicada de dizer que foi ao
banheiro e depositou ali algum produto sólido, cujo nome popular é tão
óbvio que não preciso declinar. Nosso Dom Pedrinho I, nem sempre muito
sutil, usava, para o mesmo fim, o verbo obrar . Na sua correspondência
com a formosa Marquesa de Santos, o Imperador achava muito importante
que ela ficasse a par de seus sucessos intestinais: "Hoje, obrei bem".
Essa sim, essa é a legítima fala do trono...
Por que explico tudo isso? Porque o leitor Raimundo W. B., de Sobral, no
Ceará, que lê a ZH pela internet, enviou uma pergunta sobre um desses
assuntos incômodos, a saber, os gases que escapam por uma das vias
baixas do corpo: "Aqui no Nordeste se usa o vocábulo peido para
referir-se à flatulência. Qual sua origem?". Meu caro Raimundo,
informo-te, em primeiro lugar, que o Nordeste não tem o monopólio deste
sonoro vocábulo; que eu saiba, ele ecoa por todo este imenso Brasil (que
frase mais ambígua!), do Oiapoque ao Xuí. É Português da gema, vocábulo
muito antigo que nos veio do Latim. Na nossa língua mãe, este ente de
natureza tão etérea era conhecido como crepitus ventris ("ruído do
ventre") ou, nas camadas mais populares, peditum. Esta foi a forma que
entrou no Português e nas demais Línguas Românicas: pet (Fr.), pedo
(Esp.), peto (It.), e por aí afora. Se consultares o Houaiss, vais ficar
espantado com a quantidade de termos derivados que nosso léxico possui.
Desculpem as leitoras, que a lista é feia e desbocada; eu só a reproduzo
por dever científico: além do verbo peidar , temos peida ("bunda") e
peidaria ("peida grande"); peidão, peideiro e peidorreiro ("quem muito
peida"); peido-do-meio ("pessoa intrometida"); peidorrada e peidorreira
("grande quantidade de"); peidorrar e peidorrear (o mesmo que "peidar",
mas com certa intermitência); peidorreta ("ruído feito com a boca para
simular o dito cujo"). Para atenuar um pouco a deslegância deste
parágrafo, vamos à França, que é sempre chique: no idioma de Flaubert, o
verbo péter (literalmente, "peidar") produziu o derivado petillant, que
se aplica às bolinhas (ou bolhinhas) que sentimos na champanha lá deles,
primeira e única; como podes imaginar, é um adjetivo intraduzível. Daí
também nasceu, por uma associação de idéias mais do que evidente, o
pétard ("petardo"), nome dado a um tipo de artefato explosivo.
Como acontece com quase todas as funções corporais, as famílias adotam,
em sua intimidade, os inocentes sinônimos criados para falar com as
criancinhas, atenuando-se com isso a rispidez do vocábulo original. Na
minha infância, em Rio Grande, já imperava o mimoso pum , forma hoje
consagrada em todo o país, mas também se usava traque , que eu pensava
ser uma metáfora popular, tomando como base os foguetinhos do mesmo
nome. Mais tarde percebi que era o contrário: traque é uma forma mais
aceitável, muito antiga, de nomear as flatulências. No séc. 16, um
personagem de Gil Vicente anuncia, romanticamente, à sua amada: "Quando
na rua por vós vou, todos os traques que dou são suspiros de saudade", e
o dicionarista Jerônimo Cardoso fala nos que "amam tanto aos outros que
cuidam que seus traques são incenso". Pronto! Como sempre, são os poetas
que iluminam as facetas obscuras da realidade e nos fazem enxergar o que
antes era invisível; lendo o grande Francisco de Quevedo, quem não se
emocionará ao vê-lo dizer que o traque é dotado de "corpo de ar e
coração de vento"?
17 de maio de 2008
Zero Hora Nº 15604
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