meditações diante do bumbum de Juliana

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Edson músicas

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Jun 5, 2008, 3:03:56 PM6/5/08
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Meditações diante do bumbum de Juliana

ULTIMAMENTE SÓ HOUVE um assunto nesse bendito país: o bumbum de Juliana Paes
na Playboy. O bumbum era esperado como um messias redentor, aguardado como a
salvação
do Brasil neste momento sem graça.
Políticos, bancários, eu, todos ansiávamos por esse bumbum como por um
Maomé, um profeta. O que poderia nos revelar esse bumbum?
Corri para as bancas e comprei a Playboy sob o olhar debochado do jornaleiro
que me reconheceu e perguntou se eu não ia levar o The Economist também.
"Claro, claro...",
respondi, vermelho. Chego em casa, rasgo a capa de plástico com as mãos
trêmulas, abro com uma sensação de pecado e esperança, e vejo Juliana Paes
em seu esplendor.
Folheio a revista e caio numa perplexidade muda.
Antes de continuar, devo dizer que já escrevi sobre o bumbum da Feiticeira,
o bumbum da Tiazinha e continuo sem uma palavra apropriada. Não há na língua
portuguesa
um termo corrente para essa parte do corpo. A palavra "bunda" tem uma
conotação pejorativa, um substantivo já adjetivado de saída. Há eufemismos
como "traseiro"
ou metonímias como "nádegas", "glúteos" etc... Portanto, "bunda" é a palavra
certa...
Muito bem; com todo o respeito, a bunda de Juliana me deixou aparvalhado.
Não sei se esperava muito; só sei que fui tomado por uma funda decepção. Não
sobre a beleza
da bunda, pois é muito bonita, sim, mas pelo choque de realidade que me
trouxe. Afinal, verificamos que era apenas uma bunda e não um enviado de
Deus, era apenas
uma moça que nos parece gentil, romântica, bondosa como uma babá, mostrando
o bumbum como um bebê recém-nascido.
Ela sorri, parecendo dizer: "É só isso o que vocês queriam? Ora... pois aqui
está minha bundinha..." Olhei o bumbum de Juliana por todos os ângulos, e
nada aconteceu,
sexual e filosoficamente. Confesso, Juliana, com todo o respeito, que
imaginei cenas eróticas comigo mesmo, com outros e nada senti... Pensei:
"Estou decadente,
ou as uvas estão verdes..." Mas, não, não era isso. Bateu-me mesmo uma certa
tristeza, de ver aquela moça ali, satisfazendo nosso desejo bruto e
invasivo, esse povo
de onanistas e sodomitas sempre desejando a mulher por trás. Senti um vazio
ao ver um segredo revelado, estragando com sua nudez meridiana a glória da
moça da novela.
Algo como água fria num sucesso, algo como a traição contra Zeca Pagodinho,
no auge de sua ascensão. O mercado estraga o prazer, programando-o. Toda a
beleza do
mito é justamente seu mistério inacessível, seu enigma não decifrado.
Juliana da novela não é só sua bunda.
Ela é a doce ingênua do subúrbio, a moça generosa, dadeira, mas honesta, com
seu rosto redondo de brasileira, com largos quadris de boa mãe leiteira.
Sua nudez não tem a norma perversa das playmates típicas. Falta-lhe a crua
perversão das outras, gatas ferozes prometendo sexo selvagem. Não. Juliana
tenta rostos
sacanas, mas só passa uma doçura incontrolável, faltando-lhe a catadura
zangada das punks ou sadomasoquistas.
Daí, me bateu a verdade inapelável e cruel: a bunda não existe. Só existe a
"idéia" de bunda, o conceito platônico de bunda. Isso. No caso de Juliana, o
bumbum real
destrói o bumbum imaginário. Sempre sonhamos com aquele bumbum adivinhado
sob os vestidos na novela e ele tinha a multi-dimensão rica de uma metáfora.
Ele era todos
os bumbuns, ele era uma promessa de vida em nossos corações. Mas, diante do
bumbum real, a vida perdeu o mistério, tudo se aquietou na paz da anatomia
óbvia. Vemos,
com clareza e realismo, que é apenas um bom bumbum brasileiro, que um dia
cairá, como o PT.
Por isso, me pergunto por que a bunda é nosso símbolo? Para os anglo-saxões
são os seios, leiteiros, alimentícios. O bumbum para nós, ibéricos, é menos
inquietante
que a vagina; essa nos lembra fecundidade, essa nos coloca diante da
responsabilidade da criação da vida, e até dos perigos da devo ração pela
fêmea dentada e potente.
A vagina é um pênis embutido; a vagina é o "ouro" e merece respeito. Já o
bumbum, por infecundo, a reboque do corpo, tem uma imagem mais propícia para
sacanagens
sem perigo, além de ser uma herança do homossexualismo deslocado dos
senhores portugueses diante da negras zulus nas senzalas.
Por isso, afirmo que o bumbum de Juliana é uma bunda romântica, familiar. No
caso de Tiazinha ou da Feiticeira, a bunda tinha vida própria. Era mais
importante que
as donas.
Muitas mulheres de bonitas bundas chegam a ter ciúmes de si mesmas e têm uma
atitude envergonhada de suas formas calipígias. A mulher de bunda bonita
caminha como
se fossem duas: ela e sua bunda. Uma fala e ninguém ouve; a outra cala e
todos olham. A mulher de bunda bonita não tem sossego; está sempre
auto-consciente do tesouro
que reboca. A mulher de bunda bonita mesmo de frente está sempre de costas.
A mulher de bunda bonita vive angustiada: quem é amada? Ela ou sua bunda?
Algumas bundas
até parecem ter pena de suas donas e quase dizem: "Olhem para ela também,
ouçam suas opiniões, sentimentos... Ela também é legal...".
A bunda hoje no Brasil é um ativo. Centenas, milhares de moças bonitas
usam-na como um emprego informal, um instrumento de ascensão social. A
globalização da economia
está nos deixando sem calças. Sobrou-nos a bunda... nosso único capital.


Este texto é do Arnaldo Jabor, e está no livro:
¨ 'Amor é prosa, sexo é poesia'.

Eu nunca escrevi o 'Bunda dura'

Eu não escrevi "Bunda dura", texto que rola na Internet e que está virando
um cult, principalmente para mulheres. Toda hora, alguém me pára na rua:
"Adorei a sua 'bunda'!" "Que bunda, cara?" — digo, fingindo que não sei o
que é. Não dá outra: "Aquele texto seu, que idéias, que ironias..", me
responde. Fico louco, porque estou sendo elogiado justamente pelo que não
fiz. Toda semana tento ser inteligente, escrevo sobre o Bush, a crise
internacional, espremo meu pobres conhecimento filosóficos ou sociológicos,
capricho na língua, tudo para ser chamado de "profundo" e, aí, "Bunda dura"
vem e é meu prêmio Jabuti, minha medalha.

Entrei no Google e botei "bunda dura"; pintaram dezenas de referências. A
maioria é de mulheres que, creio eu, não têm ou já tiveram bunda bonita.
Quem será o famoso autor de "Bunda dura"? Creio que é uma mulher,
possivelmente, baranga. Certamente Juliana Paes não protestaria. O artigo é
a vingança de trêmulas nádegas eivadas de celulites.

Tento até buscar um momento qualquer de brilho no tal texto, para ver se
"minha fama" seria merecida. Não encontro nada. Nos chats, blogs e outras
ilhas de bobagens, pasmo, pois há intensa polêmica sobre mim, sobre um texto
que não é meu. Uns dizem que é genial, que finalmente alguém defende as
mulheres de bunda mole. Outros me esculacham, dizendo que eu sou uma besta.
Então, aplicadamente, faço uma paciente exegese do texto "bunda dura".
Talvez o único conceito que mereça destaque seja a defesa da importância da
"autenticidade", neste mundo artificial e virtual. Mas, é pouco, muito
pouco, principalmente a "autenticidade" defendida por um falsário.

Isso dado, devo afirmar aqui minha posição definitiva em relação à bunda,
seja ela dura ou mole. A bunda realmente me inquieta. Dá-me a impressão de
ter se destacado do corpo e de ter ganho uma vida própria. Antigamente, a
bunda fazia parte da mulher completa, talvez mais oprimida, com celulite e
varizes, mas é inegável que a bunda era parte da mulher. Hoje a mulher é que
pertence à sua bunda. Há mulheres que passeiam seus bumbuns como
cachorrinhos de luxo, outras que chegam a ter ciúmes de suas próprias
bundas, mais queridas que elas. Há bundas que chegam a ter pena de suas
donas e parecem dizer: "Prestem atenção nela, ela também é legal".

Hoje, visivelmente, o desejo sexual do homem migrou para os bumbums. Nas
revistas de sacanagem as vaginas têm perdido terreno em relação aos bumbuns.
Por que será? Talvez porque a vagina seja um território mais sagrado e mais
temido. Dela sai a vida, saímos todos, há mistério na vagina. Ali é que está
a verdadeira diferença sexual, já que bundas bonitas podem ser de homens e
mulheres. A vagina não. Ela angustia os homens por ser o lugar de uma
castração simbólica. Na vagina, "não há" alguma coisa. A vagina põe os
homens diretamente diante de seu oposto. Fala-se muito em inveja do pênis
para as mulheres. Que nada. Hoje, com a liberdade da mulher, o grande trauma
é o "medo da vagina". Os homens têm medo de enfrentar aquela entrada para o
ventre, aquela porta de caverna onde poderíamos nos perder.

Chega a haver um movimento nos salões de beleza para devolver à vagina,
melhor dizendo, ao "monte de Vênus", um novo encanto pós-moderno. Talvez a
velha floresta pubiana, desordenada, inextricável das vaginas d'antanho,
parecesse aos homens uma selva de perigos. Hoje, as mulheres gastam horas
penduradas em trapézios para ter seus pentelhinhos reduzidos a um bigodinho
básico, inocente, como se dissessem: "Venham sem medo... Sou apenas um
tufinho elegante, como o bigodinho do Sarney ou no máximo o bigodão do
Greenhalgh do PT, mas nunca chegarei ao desgrenhamento sinistro de Olívio
Dutra. Venham!".

Mas talvez não adiante muito, pois homens e mulheres cultivam mais a
bundinha porque ali é o lugar da irresponsabilidade, da não-vinculação, do
não-casamento... A bundinha é livre, não faz nascer, não leva à igreja. A
bunda tem mais a ver com a sexualidade irresponsável e veloz de hoje. A
bunda não procria, muito pelo contrário. A bunda não tem rosto, como o
"sujeito moderno". A vagina é o lugar do "outro"; a bunda o lugar do
"mesmo". De costas, a mulher fica menos ameaçadora. Seus olhos, sua boca,
seus sentimentos não ficam visíveis. Na relação anal, todos estão ausentes,
não há a perigosa defrontação com um sorriso irônico, a frieza de um olhar.
Na relação anal estamos sozinhos. Além de tudo, na relação anal ou mesmo
"more ferarum" (como as feras) haja um resquício mais animal, mais
ancestral, lembrança de macacos e macacas e não a santificada "posição do
missionário", como chamavam os selvagens da África, vendo seus catequistas
transando no tradicional "papai e mamãe". Nesse espantoso panorama de bundas
que vemos em toda parte, barriguinhas de fora, calça baixa e bundinha
empinada, em shoppings, colégios, vemos que a amostragem clara, modelada,
das bundinhas não tem mais nem maldade. É a moda de mercado.

Antigamente, havia a sedução pelo despertar da curiosidade, pelo
atiçamento, para os homens adivinharem as belezas femininas ocultas. Hoje,
com a competição, a exposição radical de bundinhas é prateleira de ofertas.
Há um professor de ginástica que grita: "Vocês não tem vida interior, não...
Só bunda e barriga!".

Talvez essa seja a razão do sucesso do texto que não escrevi. Na vida
secreta as mulheres querem ser amadas pelo que são profundamente. Mas
ninguém vê suas belezas internas. É como eu. Ninguém me ama pelo que
escrevo. Só gostam da bunda dura que não é minha.

texto publicado no jornal O Globo, em 31/08/2004.

Andrea

unread,
Jun 6, 2008, 9:07:19 AM6/6/08
to campos...@googlegroups.com
E, afinal de contas, quem é o autor???? fiquei curiosa!
abraços Andrea

fêmea dentada e potente A vagina é um pênis embutido; a vagina é o "ouro"

Cisco Devair

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Jun 6, 2008, 12:31:17 PM6/6/08
to campos...@googlegroups.com
Sou eu! Este cisquinho, que se baseou na sua orelha!

Minha mãe vai bem viu?

Cisco Kid.
Eu fico fudiddo da vida quando não me dão os louros!

Andrea

unread,
Jun 6, 2008, 2:16:57 PM6/6/08
to campos...@googlegroups.com
aaaaaaa, e desde quando você lê o the economist?
risos...
beijão Andrea!

Ezequiel

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Jun 6, 2008, 2:50:52 PM6/6/08
to campos...@googlegroups.com
Arnaldo Jabor.
Ezequiel
->

-----Mensagem original-----
De: "Andrea" <andreaca...@sercomtel.com.br>
Para: <campos...@googlegroups.com>
Data: Sexta, 6 de Junho de 2008 10:07
Assunto: {camposlivres} meditações diante do bumbum de Juliana

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