Luís Campos
unread,Jan 24, 2020, 7:31:56 AM1/24/20Sign in to reply to author
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to lourenzo...@gmail.com, Campos Livres, Dicas Diárias, Bahia Inclusiva2
Olá, Kevin
Na que lhe contei foram os caçadores que mataram a onça e o bode só fez
arrastá-la pelo rabo até em casa.
Nessa aí é o bode quem mata a onça, após enganá-la.
Forte abraço.
Luís
**Sílvio Romero
O sergipano Sílvio Romero nasceu na cidade de Lagarto, em 1851, mas
viveu a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro, onde morreu em 1914.
Muito inteligente e sabendo várias línguas, foi professor, pesquisador e
escritor. Seus artigos e livros tratam de filosofia, de política, de
literatura. Com opiniões muito fortes e sem papas na língua, em alguns
de seus artigos Sílvio Romero criticava, com violência, outros
escritores, que algumas vezes lhe respondiam com igual destempero, o que
lhe valeu brigas para o resto da vida.
Apaixonado pela cultura popular, um dos trabalhos mais importantes a que
Sílvio Romero se dedicou foi a procura e publicação de poemas, canções e
histórias da tradição folclórica brasileira. Ele recolhia os contos e as
poesias que encontrava, registrava-os por escrito e publicava-os em
livros que puseram ao alcance de todos o que era conhecido apenas pelos
moradores de algumas regiões do Brasil. Estes livros se chamam Cantos
Populares do Brasil (1883) e Contos Populares do Brasil (1885), onde
está a história que você vai ler agora: a aventura do bode e da onça,
que vivem tentando passar o outro para trás. Quem vencerá essa disputa -
o mais forte ou o mais esperto?
*A onça e o bode
Uma vez a onça quis fazer uma casa; foi a um lugar, roçou mato para ali
fazer a sua casa. O bode, que também andava com vontade de fazer uma
casa, foi procurar um lugar, e, chegando no que a onça tinha roçado,
disse: "Bravo! que belo lugar para levantar a minha casa!" O bode cortou
logo umas forquilhas e infincou naquele lugar, e foi-se embora. No dia
seguinte a onça foi chegando, e vendo as forquilhas infincadas, disse:
"Oh! quem me está ajudando?! Bravo, é Deus que está me ajudando!" Botou
logo as travessas nas forquilhas, e a cumeeira, e foi-se. O bode, quando
veio de novo, admirou-se e disse: "Oh! quem está me ajudando?! É Deus
que está me protegendo". Botou logo os caibros na casa, e foi-se. Vindo
a onça, ainda mais se espantou, e botou as ripas e os enchimentos e
retirou-se. O bode veio, e envarou a casa e foi-se. A onça veio e
cobriu. O bode veio e tapou. Assim foram, cada um por sua vez, e
aprontaram a casa. Acabada ela, veio a onça, fez a sua cama, e meteu-se
dentro. Logo depois chegou o bode, e, vendo a outra, disse: "Não, amiga,
esta casa é minha, porque fui eu que infinquei as forquilhas, botei os
caibros, envarei, e tapei." - "Não amigo, respondeu a onça, a casa é
minha, porque fui eu que rocei o lugar, botei as travessas, a cumeeira,
as ripas, os enchimentos, e o sapê".
Depois de alguma questão, a onça, que estava com vontade de comer o
bode, disse: "Mas não haja briga, amigo bode, nós dois podemos ficar
morando na casa". O bode aceitou, mas com muito medo. O bode armou a sua
rede bem longe do jirau da onça. No outro dia a onça disse: "Amigo bode,
quando você me ver frangir o couro da testa, eu estou com raiva, tome
sentido!" - "Eu, amiga onça, quando você ver balançar as minhas
barbinhas ali nas goteiras e dar um espirro, você fuja, que eu não estou
de caçoada". Depois a onça saiu, dizendo que ia buscar de comer. Lá, por
longe de casa, pegou um grande bode, e para fazer medo ao seu
companheiro, matou-o, e entrou com ele pela casa adentro. Atirou-o no
chão e disse: "Está, amigo bode, esfole e trate para nós comer". O bode,
quando viu aquilo, disse lá consigo: "Quando este, que era grande, você
matou, quanto mais a mim!" No outro dia ele disse à onça: "Agora, amiga
onça, quem vai buscar de comer sou eu". E largou-se. Chegando longe,
avistou uma onça bem grande e gorda, disfarçou e pôs-se a tirar cipós no
mato. A onça veio chegando, e vendo aquilo, disse: "Amigo bode, para que
tanto cipó?" - "Fum! Para quê?! O negócio é sério, trate de si... O
mundo está para se acabar, e é com dilúvio..." - "O que está dizendo,
amigo bode?" - "É verdade; e você, se quiser escapar, venha se amarrar,
que eu já me vou". A onça foi, e escolheu um pau bem alto e grosso, e
pediu ao bode para que a amarrasse. O bode enlinhou-a perfeitamente, e,
quando a viu bem segura, meteu-lhe o cacete como terra, até matá-la.
Depois arrastou-a, chegou em casa, largou-a no chão, dizendo: "Está; se
quiser, esfole e trate".
A onça ficou espantada e com medo. Ambos os dois temiam um ao outro.
Num dia o bode pôs-se junto das biqueiras, tomando fresco; olhou para a
onça e ela estava com o couro da testa frangido. Ele teve receio e
abalou as barbas, e largou um espirro. A onça pulou do mundéu e largou
na carreira, o bode também abriu o pano. Ainda hoje correm cada um para
o seu lado.