-----Mensagem original-----
De: Redação
Enviada em: Sabado, 27 de Fevereiro de 2021 11:38
Para:
jorna...@googlegroups.com
Assunto: Sai Pelé entra Ederson
Sai Pelé entra Ederson
No mundo do futebol é rei. É o único jogador que venceu três
campeonatos do mundo. Fez 80 anos em outubro e tem um novo
documentário na Netflix. Esta é a história de Edson Arantes do
Nascimento. De Pelé.
Jornalinho: 27 Fevereiro 2021
TEXTO DE RUY CASTRO, JORNALISTA E ESCRITOR BRASILEIRO, AUTOR DE
ESTRELA SOLITÁRIA -- UM BRASILEIRO CHAMADO GARRINCHÁ
Mais um documentário sobre Pelé, agora pela Netflix. Intitula-se
simplesmente Pelé', estreia-se no dia 23 e, pelo que se sabe, é uma
garantia de muitos golos do craque Pelé e lágrimas do homem Edson --
sabe quem é? Já adiantei artigos a entregar, cancelei compromissos e
mandei providenciar as pipocas para, assim que o filme entrar,
assisti-lo contrito. Da mesma forma que há pessoas que não perdem um
filme de James Bond, faço isto com os filmes sobre Pelé. Devo ter
assistido a todos, desde o primeiro, O Rei Pelé' (Carlos Hugo
Christensen, 1962), até Isto É Pelé' (Luiz Carlos Barreto, 1974) e,
até agora, o melhor de todos, Pelé Eterno' (Aníbal Massaini Neto,
2004). São apenas alguns dos que se fizeram sobre ele, todos bons -- o
que não é vantagem quando se considera a miríade de imagens suas nos
arquivos, à disposição dos cineastas.
Elas mostram-no fazendo golos de frente, de costas, com a perna
direita, esquerda, de cabeça, de bicicleta, de calcanhar, de
bate-pronto, de dentro e fora da área, de grande penalidade, de falta
(encobrindo a barreira ou contornando-a), de tabelinha com os
companheiros ou na própria perna do adversário e muitas outras
modalidades, nem todas até hoje catalogadas. Que eu saiba, só faltou a
Pelé fazer um golo com a mão, como o argentino Maradona na Copa do
Mundo de 1986 contra a Inglaterra. Não foi necessário -- os 11 golos
que Pelé marcou em Copas do Mundo foram legítimos. Tudo isso, imagino,
veremos no documentário da Netflix. E, se já vimos estas cenas em
outros filmes, vamos vê-las de novo, como quem nunca se cansa de ir ao
Museu de Arte Moderna de Nova Iorque para admirar a Noite Estreladá,
de Van Gogh.
Pelé e o cinema foram feitos um para o outro. Tudo nele é plástico,
atlético, em alta velocidade, ideal para uma pirotecnia de cortes. Em
contrapartida, apesar dos também inúmeros livros publicados a seu
respeito, ainda não foi agraciado com uma grande biografia. E, por
enquanto, talvez não seja mesmo a hora de fazê-la -- porque ele
continua entre nós, influente, poderoso, atento à sua imagem e,
principalmente, porque a sua história ainda não terminou. As
biografias de pessoas vivas têm esse problema: publicado o livro, o
biografado continua sujeito à vida, com todas as suas surpresas,
algumas terríveis. Há apenas 10 anos, quem imaginaria, por exemplo,
ver Pelé, o atleta insuperável, preso a uma cadeira, com dificuldade
para se levantar e impossibilitado de caminhar sem ajuda? É o que lhe
acontece hoje depois de uma série de tratamentos e cirurgias ao fémur,
no Brasil e nos Estados Unidos, que ele considerou equivocados. O
homem que, com uma bola, desafiou e venceu todas as leis da física
talvez não consiga, hoje, recolher um lápis caído ao chão.
Se um candidato a biografá-lo me consultasse sobre como fazer o
trabalho, eu o aconselharia a concentrar a sua investigação no miúdo
Edson que se tornaria a divindade que se tornou Pelé e que o próprio
Pelé, de certa maneira, nunca sepultou. Se o mundo conhece de sobra
Pelé, só nós, brasileiros, conhecemos, e mesmo assim vagamente, Edson.
Por extenso, Edson Arantes do Nascimento -- seu nome nos passaportes e
nos bilhetes de identidade. Edson não se refere a si próprio como
Edson. Refere-se como Pelé. Mas ainda haverá um Pelé? Não terá chegado
a hora de, aos 80 anos recém-feitos de ambos, Edson assumir os fatos,
as gravatas e os sapatos de Pelé?
Para mim, portanto, é Edson quem precisa ser biografado. E devem ser
fascinantes as trajetórias que eles viveram juntos, tão opostas quanto
semelhantes.
Por exemplo: em 1956, aos 15 anos, o garoto Edson saiu da pequena
Bauru rumo ao já poderoso clube Santos, da cidade do mesmo nome,
levado por um ex-jogador que o descobrira. Tinha pernas finas e usava
calças curtas. Mas, ao apresentar-se ao clube, Pelé já tomara o lugar
de Edson e fizera-o vestir as suas primeiras calças compridas -- que
Edson deve ter estranhado, talvez por ainda não se sentir adulto para
merecê-las. Foi dada a Pelé a escolha de morar nas próprias
dependências do Santos, mas Edson não aceitou -- tinha prometido aos
seus pais ficar na pensão de uma senhora amiga deles. Seus colegas de
clube, que cedo descobriram a sua genialidade, deviam maravilhar-se ao
ver, todos os dias, Edson saltar do elétrico, vestir o uniforme e
entrar em campo como Pelé.
Sua ascensão, como sabemos, foi a jato. Dois anos depois, em 1958, já
multigoleador pelo Santos, campeão do mundo pela seleção brasileira e
tendo deixado a Europa mesmerizada, Pelé podia comprar quantos
apartamentos e carros quisesse. Mas, por causa de Edson, continuou a
morar na humilde pensão e a locomover-se de elétrico.
Pelé tinha voz grossa, mas quem falava por ele ainda era o quase
infantil Edson. Na seleção, os jogadores mais velhos viviam
perguntando-lhe o nome de uma fruta que começasse com M, apenas para
ouvi-lo dizer minduim'. Ou se ele já se tinha acostumado a viajar de
avião, para que respondesse: Não, eu não me adapto.' A rigor, naquele
tempo, Pelé não podia sequer ser um jogador profissional, porque Edson
ainda não tinha o documento do serviço militar -- serviço este que ele,
já sendo Pelé e o maior jogador do mundo, teve de prestar num quartel
em 1959, sem contemplação, como se fosse um brasileirinho qualquer.
Em 1958, na seleção que disputou a Copa da Suécia, Pelé foi chamado de
reí pela revista France-Football'. Mas, como Edson ainda não
completara 18 anos, Pelé não podia ir ao cinema no Brasil para
assistir a E Deus... Criou a Mulher', filme de Brigitte Bardot
lançado na época e proibido para menores daquela idade. Ou entrar numa
boate do Rio ou de São Paulo para ouvir o seu cantor favorito,
Agostinho dos Santos, e lhe pedir um autógrafo. Ou sentar-se numa
tasca e pedir uma cerveja Caracu.
Corte para apenas três meses depois. De repente, mal tendo chegado aos
18 anos, Pelé já podia entrar em qualquer boate do planeta, e sem
pagar -- quem ousaria cobrar dele? Se quisesse ouvir Agostinho dos
Santos ou qualquer cantor, este é que iria onde ele estivesse para
cantar para ele e ainda lhe pediria um autógrafo. E Pelé não
precisaria mais de ir ao cinema para ver Brigitte Bardot porque, no
próprio ano de 1959, o Santos começou a jogar em Paris a toda hora e,
numa daquelas excursões, quem sabe ele não teria conhecido a própria
Brigitte e até, quem sabe, mantido com ela um breve namoro? (Nada de
impossível nisso, considerando-se a quantidade de mulheres que se
ofereciam a ele. Mas imagine se, por uma involuntária e cruel troca de
identidades, quem namorasse Brigitte fosse Edson e não Pelé?)
A partir dali, não houve retorno. Ano a ano, Pelé tornou-se mais
famoso, mais rico, mais admirado e mais Pelé, enquanto Edson ficou
para trás. Já vimos isso acontecer entre amigos, irmãos ou marido e
mulher, e, às vezes, a separação é inevitável. Pois imagine quando os
dois convivem em um só corpo, uma só mente? Em muitas ocasiões, Pelé
deve ter perdido a paciência com Edson -- apenas pelo facto de ele,
Edson, não ser Pelé. E só Pelé sabe quanto lhe deve ter custado
carregar Edson nas costas enquanto se tornava o maior jogador da
história, o atleta do século, o homem que os reis, presidentes e papas
queriam conhecer, e outras façanhas com que Edson nunca sonhara.
O interessante é que, só depois que Pelé pendurou de vez as chuteiras,
as pessoas se deram conta de que ele falava de si na terceira pessoa.
Mas não era ele quem falava, era Edson. E nem podia ser diferente.
Edson sempre se referiu a Pelé como um ser à parte, definitivamente
outro -- porque era isto o que Pelé era. E que continuou a ser mesmo
depois que Pelé, já tendo trocado as botas com travas pelos sapatos de
cromo, passou de génio a mito, viajando pelo mundo, recebendo
homenagens, fechando negócios, deixando-se amar.
Por anos e anos a fio, quem fez tudo isso foi Pelé. O humilde Edson ia
junto, mas sem direito a voto. O que, para Edson, era normal, porque
ele nunca ousaria se pôr na pele de Pelé. Aliás, os dois não se
confundiam nem na declaração do imposto de renda -- Pelé sempre foi o
patrão; Edson, claro, um funcionário. Muito bem remunerado, mas um
funcionário.
Não, Edson nunca foi a identidade secreta de Pelé. Foi apenas o seu maior fã.
Pelé é o desmentido vivo a uma lenda que corre há décadas no Brasil
sobre a Copa do Mundo de 1958, na Suécia, e que, por mais contestada,
vive sendo repetida. A de que a seleção brasileira que disputou aquela
Copa era racista, sempre escalando um jogador branco no lugar de um
negro.
Foi assim, dizem, que, ao se iniciar a Copa, o lateral-direito da
seleção era o branco De Sordi, do São Paulo, e não o negro Djalma
Santos, da Portuguesa; o ponta-direita era o branco Joel, do Flamengo,
e não o caboclo Garrincha, do Botafogo; e o meia-esquerda era o branco
Dida, também do Flamengo, e não o negro Pelé, do Santos. Todos os
outros titulares eram brancos, exceto o maestro do time, o meia Didi,
do Botafogo -- porque o seu reserva, Moacir, do Flamengo, também era
negro.
Bem, se havia todo esse racismo e nenhuma intenção de escalar os
negros, porque foram estes levados para a Suécia? Pelé, por exemplo,
poderia ter sido cortado antes do embarque. Às vésperas de a seleção
tomar o avião, num jogo-treino contra o Corinthians, em São Paulo, ele
sofreu uma entrada do zagueiro corintiano Ari Clemente, tão violenta
que ficaria semanas sem poder jogar. Aquilo, a rigor, o tirava da
Copa. Não teria como se recuperar a tempo.
O Corinthians, por coincidência, lutara pela convocação do seu próprio
avançado, o branco Luizinho, alcunhado o Pequeno Polegar', ídolo da
sua torcida. Bem, se havia racismo, porque a seleção não cortou o
contundido Pelé e convocou Luizinho? Mas a seleção fez diferente --
ignorou Luizinho e insistiu em levar Pelé, na esperança de que se
recuperasse durante a Copa. O que, incrivelmente, aconteceu. Pelé se
recuperou, entrou na terceira partida, contra a URSS, e o resto é
História.
A posteridade se esquece de que De Sordi, Joel e Dida também eram
grandes jogadores. Aliás, o Brasil que foi campeão do mundo em 1958
com Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e
Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo teria sido igualmente campeão
mundial naquele ano se jogasse com a seleção que, no final, se revelou
reserva: Castilho, De Sordi, Mauro, Zózimo e Oreco; Dino e Moacir;
Joel, Mazzola, Dida e Pepe -- que timaço!
Cada época produz o que consideram novos Pelés. Os atuais são os
grandes Leonel Messi e Cristiano Ronaldo. Não se pode ligar a TV,
abrir um jornal de esportes ou tirar a sorte no periquito sem ouvir ou
ler sobre a última façanha de Ronaldo ou Messi -- e são muitas.
Somam-se os seus golos, tiram-se médias, estabelecem-se percentagens.
Passa-se uma interminável matemática ao redor deles. Claro, são génios
do futebol e também me incluo entre os seus fãs. Só acho prematuro
compará-los com Pelé. Quando encerrarem a carreira, aí, sim,
poder-se-á contar as vitórias, os troféus, os mundos que conquistaram.
Fala-se muito da velocidade e da marcação do futebol atual, superior à
da época de Pelé, mas quero crer que, no tempo dele, houvesse outras
dificuldades. A bola e as botas, por exemplo, eram de couro autêntico,
e, a cada pontapé, ecoavam o último mugido do animal de que
descendiam. Eram grosseiras, pesadas e, com a relva molhada, passavam
a pesar o dobro do seu peso inicial. Os relvados, por sinal, eram
péssimos, cheios de aclives e buracos -- a tal ponto que o uniforme dos
guarda-redes incluía terríveis joelheiras e almofadas na camisola para
proteger os cotovelos. Não apenas as dos guarda-redes, mas as
camisolas de todos os jogadores eram de uma malha que acumulava litros
de suor e também pesava no corpo -- ao fim dos 90 minutos, era como se
cada jogador estivesse carregando um companheiro nas costas. Imagine a
diferença que isto fazia, digamos, nas cabeçadas -- na quantidade de
esforço para a impulsão.
Antes de 1970 (e Pelé começou em 1956), não existiam os cartões
amarelo e vermelho. Podia-se bater à vontade, e um jogador só era
expulso de campo se provocasse uma fratura exposta ao adversário.
Ninguém poupava Pelé -- iam-lhe às pernas o jogo inteiro. Na verdade,
nem precisavam se revezar para acertá-lo ou puxar-lhe a camisa, porque
os juízes não tinham como contar o quanto cada um batia. Pelé apanhou
tanto que teve de também aprender a bater. É irresistível imaginar
como seria se, desde o começo de sua carreira, ele tivesse beneficiado
dos cartões, que tanto ajudam os atuais goleadores e dribladores -- ou
os adversários o deixavam jogar ou seriam expulsos, pela quantidade de
faltas sobre ele.
Também não havia a televisão como hoje. Os times enfrentavam
adversários que nunca tinham visto jogar. Nenhum avançado sabia nada
sobre o homem que iria marcá-lo -- se era um jogador técnico, violento,
rápido ou lento. Teria que descobrir no decorrer da partida. Hoje,
antes de qualquer jogo, os 22 titulares e reservas do time X sabem
tudo sobre os 22 idem do time Y e vice-versa -- e tanto faz que esses
times sejam o Asa de Arapiraca ou o Bayern de Munique.
Finalmente, Pelé jogou numa época em que tinha de dividir os
refletores -- e nem eram tantos refletores assim -- com sumidades como
os brasileiros Garrincha, Didi, Tostão, Gerson, Rivelino e Jairzinho,
o húngaro Puskàs, o argentino Di Stéfano, o russo Igor Neto, o inglês
Bobby Charlton, os franceses Kopa e Fontaine, os portugueses Coluna,
Eusébio e Simões, o alemão Gerd Müller, os holandeses Cruyff e
Neeskens, e muitos mais, para ficarmos apenas entre os meias e
avançados. E os guarda-redes que Pelé tinha de vencer? Os brasileiros
Gilmar, Castilho e Manga, o russo Yashin, o argentino Domingues, o
inglês Banks, o alemão Mayer, o português Costa Pereira, o uruguaio
Mazurkiewicz, o italiano Zoff. E os defesas? Os alemães Beckenbauer e
Breitner, o inglês Bobby Moore, o italiano Fachetti, o português
Vicente, o uruguaio Forlan, o argentino Perfumo, o holandês Krol.
Certifique-se do tamanho de cada um desses jogadores em seus países.
Pelé não ganhou sempre, claro. Deixou a Copa de 1966 depois de uma
derrota justa e inapelável para Portugal. Deve ter sido um bonito
momento de humildade -- mais adequado a Edson -- para o homem que já
fora campeão do mundo pelo Brasil em 1958 e 1962 e voltaria a ser em
1970, conquistara pelo Santos todos os títulos regionais, nacionais,
continentais e mundiais possíveis, e estava a caminho dos 1200 golos
que marcaria na sua carreira.
Mesmo assim, discute-se -- sempre se discutiu. Em 1958, quando Pelé
tinha 18 anos, discutia-se quem seria o maior jogador do mundo, se ele
ou Di Stéfano, então ainda o deus do Real Madrid. Nos anos 80, quando
Pelé já parara de jogar havia muito, a pergunta era se Maradona era
maior do que ele. Agora, no século XXI, a comparação é com Messi e
Cristiano Ronaldo.
Pelé não liga para essas coisas. Mas Edson deve estar se perguntando:
quem será o próximo?
Uma anterior versão deste texto foi publicada no livro Os Garotos do
Brasil' (Foz Editora, 2014)
Uma vénia ao Reí
TEXTO FRANCISCO FERREIRA
Pelé', documentário de Ben Nicholas e David Tryhorn sobre o astro
brasileiro do futebol, começa pela lenda antes de chegar ao homem. Ele
está sozinho em estúdio, com as dificuldades motoras que lhe são
conhecidas da atualidade, fala, recorda e chora, batuca a caixa do
engraxador de sapatos que ele foi em menino para ajudar a família, à
medida que vamos somando as suas proezas e glórias e também alguns
fracassos -- mas este filme é acima de tudo um documento celebratório
de um dos valores indiscutíveis do desporto rei, ele mesmo chamado de
Rei, como todos sabem, sempre que se fala de bola. O documentário da
Netflix põe a sua vida e carreira em retrospetiva contextualizando
aquilo que Pelé foi e aquilo que as suas vitórias significam para o
Brasil. Tal como se está a tornar hábito neste tipo de obras
biográficas, o filme é ainda uma proeza digital' pelo modo como
recupera e edita todo um património televisivo outrora registado em
película e que é dado a ver com um esplendor que não era tecnicamente
possível há alguns anos.
Comecemos pela lenda, pelo Mundial do México de 1970 que traça,
digamos assim, o arco dramático do filme, chamado ao início e na
conclusão. Pelé perseguia então a vitória no seu terceiro Campeonato
do Mundo (permanece o único jogador a ter atingido tal façanha), toda
a gente dizia que, aos 30 anos, o filho do Dondinho' (o seu pai
também havia sido jogador de futebol no Fluminense) estava arrumado,
longe da estrela que outrora fora. E depois dá-se a volta do
Super-Homem', como resumirá Mário Zagallo mais tarde: aquele é o
momento em que Pelé chega ao topo. Ao longo dos seus 108 minutos,
Pelé' adota uma estrutura similar ao recente The Last Dance' sobre
Michael Jordan, procurando no veterano uma empatia imediata com os
seus feitos, espreitando momentos de intimidade e de comoção que só
podem nascer com o decorrer da conversa. E enquanto vão passando pelo
ecrã depoimentos de Maria Lúcia, a irmã que guarda na sala os
encontros de Pelé com três Papas, e de ex-jogadores como o já citado
Zagallo, Pepe, Dorval, Amarildo, Edu, Jairzinho ou Rivellino, todos
eles glórias da seleção brasileira e alguns do Santos, a equipa de
futebol menor' que Pelé transformou em Campeão do Mundo (foi em 1962,
numa final ganha contra o Benfica), aquilo que começa a desenhar-se em
Pelé' é, de facto, uma história de duas décadas dos Campeonatos do
Mundo de futebol. Primeiro, a derrota histórica do Brasil contra o
Uruguai no Maracanã em 1950, tinha Pelé 10 anos: foi um grande
fracasso nacional do nosso país', recorda o escritor Roberto Muylaert.
De seguida, o torneio de 1958 na Suécia, onde nas ruas de Estocolmo as
crianças acariciavam o rosto de Pelé e sorriam porque nunca tinham
visto um negro na vida. Pela primeira vez, o Brasil era campeão do
mundo, e ali despontava, aos 17 anos, um génio. Campeonato seguinte:
Chile 1962. Seria o de Garrincha desta vez, Pelé sairia lesionado, mas
com a alegria de um bicampeonato no currículo e a esperança de um
Brasil que podia dar certo', fala o ex-Presidente da República
Fernando Henrique Cardoso. E Pelé' também passa pelo Mundial de 1966
de Inglaterra em que a Equipa das Quinas de um certo Eusébio (aqui
esfregamos nós as mãos...) cilindra os brasileiros na fase de grupos,
3-1 resultado final, golos de Simões e bis' do Panterá luso. Êxito
de uns, tristeza de outros: o homem que então já se havia transformado
numa instituição nacional' ainda hoje não esquece como foi amarga
essa derrota contra os portugueses.
A reconstrução da sua vida no documentário segue quase sempre uma
linha cronológica até voltar, no desfecho, ao Campeonato do México de
1970, precisamente aquele em que Pelé tem um dos maiores confrontos
pessoais da sua vida, com o treinador João Saldanha, com quem mantinha
uma relação muito difícil. Zagallo, ex-colega de seleção, seria depois
chamado para esse lugar. De fora fica muita coisa: a fase final da
carreira e a passagem pelo Cosmos de Nova Iorque, ou a sua
participação cinematográfica e o apogeu no tão famoso filme de John
Huston que dispensa apresentações, Fuga Para a Vitóriá.
Pelé', contudo, não é apenas um filme sobre o futebol. O filme
procura retratar uma imagem do próprio Brasil a partir do futebolista
e a vitória em Estocolmo daquela seleção nacional mestiça rima na voz
de vários intervenientes como um momento-chave da afirmação do país no
resto do mundo. O Pelé emerge como o cara que começa a resolver o
complexo brasileiro do vira-latas', afirma um dos intervenientes. Até
então, o brasileiro tinha habituado a diminuir-se na cena
internacional.' Como todos os ídolos, Pelé era um sinal de esperança
naqueles finais da década de 50/início de 60, prova viva de que um
miúdo pobre e negro podia dar corpo a novos ventos de mudança. Através
de Pelé, construía-se uma identidade do povo brasileiro. Tudo isto cai
por terra com o golpe militar de 1964 e a chegada da ditadura ao
Brasil, momento a que os realizadores Ben Nicholas e David Tryhorn dão
particular destaque. Pelé nunca quis envolver-se em política (ao
contrário de um Muhammad Ali e, noutro contexto, de um futebolista
como Maradona...), foi neutral, e por isso submissa a sua relação com
o regime militar. Também ele receberia os louvores do sinistro Emílio
Garrastazu Médici nos anos de chumbo' do governo do general que
coincidiram com a vitória no México 1970. Mas tinha Pelé alternativa?
A comissão técnica da seleção brasileira era quase toda formada por
militares e a equipa estava envolta de mensagens de propaganda
nacionalistas', recorda o filme. Ditaduras são ditaduras e só quem as
viveu sabe como ardem.'
Documentário de corte clássico, com uma qualidade de produção notória
e acesso a um abundante material de arquivo, Pelé' é o modelo acabado
de um filme-celebração sem particulares vontades de inovar formas, mas
que cumpre amplamente o objetivo a que se propõe. E não deixa de ser
um documentário sobre um homem humilde que, perto do final, nos deixa
com esta frase profunda: O grande presente que você ganha na vitória,
não é a joia, é o alívio.' O mito de Pelé é o mito do Brasil. E o
filme deixa-o na infância, com a sua caixa de engraxador de sapatos.
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