Noel Rosa veio ao mundo em 11 de dezembro de 1910. Nasceu para sofrer. Mas no lugar do lamento, escolheu outro caminho, aprendeu o violão sozinho, e transformou
sua dor em poesia. 0 rapaz franzino, estranhamente sem queixo e pulmão doente, com a angústia e o desamor castigando seus dias, contribuiu para levar o samba, do
morro, para o rádio, o teatro e toda mídia.
O menino nasceu para a música, aos 13 anos tocava de ouvido o bandolim. Mas sua verdadeira paixão era o violão.
O instrumento não era novidade em sua casa, tinha
seu pai e amigos para ensinar-lhe. Em 1925, já tocava com maestria, acompanhando o irmão em serenatas pelo bairro de Vila Isabel, no Rio de Janeiro.
Como uma antena, Noel capturou os sinais de seu tempo e os transformou em sucessos populares, brilhantes crônicas de sua época. Da Vila Isabel, bairro de classe
média, foi buscar na periferia e nos morros cariocas suas parcerias: Ismael Silva, Cartola, Kid Pepe, Donga, Zé Pretinho, Heitor dos Prazeres. Sem decidir entre
o morro e a cidade, Noel utilizou o samba para, falando de amor, promover a união. Prova disso, está na canção Feitio de Oração.
O samba na realidade não
vem do morro
Nem lá da cidade
E quem suportar uma paixão
Sentirá que o samba então
Nasce no coração
VILA ISABEL E NOEL
No carnaval de 1931, a música mais tocada foi Com que roupa? de Noel, que aos 20 anos conheceu o sucesso. A letra era autobiográfica: samba, malandragem, amor, falta
de dinheiro e a promessa de mudar de vida.
Agora vou mudar minha conduta, eu vou pra luta, pois eu quero me aprumar
vou tratar você com força bruta, pra poder me reabilitar
Pois esta vida não está sopa e eu pergunto: com que roupa? Com que roupa que eu
vou pro samba que você me convidou? Agora, eu não ando mais fagueiro, pois o dinheiro
não é fácil de ganhar Mesmo eu sendo um cabra trapaceiro, não consigo ter nem pra gastar
Desde então, Vila Isabel e Noel, além da rima, viraram quase sinônimos. Ele mudou a vida do bairro. Quem passava pelas ruas e botequins cariocas da vila procurava
pela figura antológica do pequeno jovem curvado com o violão na mão, vivendo a boêmia que cantou nos sucessos, mas também seria a tragédia de seu precoce fim.
DAMA DO CABARÉ
Noel foi de muitos amores, mas foi pouco correspondido. Suas musas eram reais e inspiraram suas poesias. Logo aos 17 anos, a primeira decepção. Conheceu Clara, um
namoro rápido. Anos depois, a jovem, acompanhada, o ignorou numa festa. Então, Noel transformou em versos - Prazer em Conhecê-lo - sua decepção.
Ainda me lembro que ficamos
de repente
Frente a frente
Naquele instante mais frio
do que gelo
Mas, sorrindo, apertaste minha mão
Dizendo então:
Tenho muito prazer em conhecê-lo
O ano de 1934 marcou sua vida, pois foi quando conheceu Ceci. Num cabaré da Lapa, Noel viu a jovem dançarina de
16 anos, que foi a paixão de sua vida e musa inspiradora de Dama do Cabaré, e de muitos outros sambas. Foi num cabaré da Lapa Que eu conheci você Fumando cigarro,
Entornando champanhe No seu soirée [reunião social noturna]
A união durou pouco, as noitadas na Lapa castigavam a saúde do sam-
bista. Ceci distanciou-se, casou e mudou. Em 1934, o sambista - mesmo apaixonado por
Ceci - casou-se com Lindaura. Mas o compromisso matrimonial não pôs fim às
noitadas de Noel, que adoeceu gravemente dos pulmões. No ano seguinte, ele foi para Minas Gerais buscar novos ares.
Então, Ceci viajou ao estado mineiro em busca de notícias do sambista. Quando soube do fato, Noel cantou sua mágoa no samba Só pode ser você.
E pelas informações que recebi
Jàvi
Que essa ilustre visita era você
Porque não existe nessa vida
Pessoa mais fingida
Do que você
Mas Noel não vivia apenas da boêmia. Ele tinha estilo, conhecia a pobreza e desconfiava dos ricos, que com avareza faziam do Brasil um país de contradições. No campo
social, também tinha em sua letra - como em Filosofia -, sempre com leveza, o canto da denúncia.
Não me incomodo que você me diga Que a sociedade é minha inimiga Pois cantando neste mundo Vivo escravo do meu samba, muito embora vagabundo Quanto a você da aristocracia
Que tem dinheiro, mas não compra alegria Há de viver eternamente sendo escrava dessa gente Que cultiva hipocrisia
ÚLTIMO DESEJO
Marcado pela avanço da doença, Noel brincava até com a morte. No cotidiano do cabaré, entre um trago e um gole, cantou seu próprio fim, em Fita Amarela. Até na morte
tinha esperança, ao invés do nada ou do inferno, o poeta imaginou a sobrevivência da alma. Quando eu morrer, Não quero choro nem vela, Quero uma fita amarela
Gravada com o nome dela Se existe alma Se há outra encarnação Eu queria que a mulata Sapateasse no meu caixão
Preso à cama, ditou vacilante a melodia ao amigo e parceiro Oswaldo Gogliano, conhecido como Vadico. Surgia o samba Último Desejo. Noel despedia-se de
Ceci, seu
amor de sempre.
Em março de 1937, Noel Rosa compôs Último Desejo que soa como um testamento, o fim não só de um amor, mas de uma vida dedicada ao samba.
Se alguma pessoa amiga Pedir que você lhe diga Se você me quer ou não Diga que você me adora Que você lamenta e chora A nossa separação E às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto, Que o meu lar é um botequim E que eu arruinei sua vida Que eu não mereço a comida Que você pagou pra mim
Depois da despedida, Noel fez Eu sei sofrer, sua última canção. Foram versos de sofrimento. Aracy de Almeida estava gravando essa canção, no estúdio, exatamente
no dia em que o "poeta da Vila" morreu. Era 4 de maio de 1937.
Quem é que já sofreu mais
do que eu?
Quem é que já me viu chorar?
Sofrer foi o prazer que Deus me deu,
Eu sei sofrer sem reclamar
Saber sofrer é uma arte E pondo a modéstia de parte, Eu posso dizer que sei sofrer Tanta gente que nunca sofreu,
Sem saber quantos prantos verteu...
Rita de Cássia Mendes
Mil por cento noelista
Mil por cento corintiana...