Olá Pessoas,
estou repassando uma carta escrita por um professor da rede estadual,
amigo meu, que está no movimento de greve, espero que ajude a entender
um pouco do que se trata a luta dos professores e profissionais da
educação estadual que se encontram em greve, assim como outras
categorias do funcionalismo público.
A luta por uma educação de qualidade diz respeito a toda sociedade,
faça parte. Quem tem interesse em participar de alguma forma (melhor
que seja indo pras ruas reeivindicar conosco), pode assessar o blog do
acampamento dos professores
http://acampagreveprj.blogspot.com/?psinvite=ALRopfU8rlMdknaRk6TUEggaHz0Q3HSwYsR4ZLJbv1_ksu42VOJrowdiUcJwsG7HIDoIeyk4xb6nNtohXIe8Ino-3FXV4JL0fA.
A GREVE CONTINUA!!
CABRAL A CUPA É SUA!!
Nao é meu, mas é de um amigo muito querido. Gostaria que divulgassem o
máximo que puderem.
Carla Fernandes
-
Colegas,
Venho neste momento dar o meu pitaco na discussão a cerca do
andamento da greve, etc, etc.
Acabo de voltar da assembléia do SEPE, realizada na Fundição
Progresso, e, em lá estando, ouvindo as
considerações de outros colegas da rede - e uma série de pequenos
pilantras oportunistas que sabemos
que se valem de momentos como esse para promover seu partido, sua
candidatura, sua patota, o diabo
que seja! - , pensei muito sobre o nosso movimento, sobre o que temos
feito em nossa escola.
Não sei se compartilho da opinião ou das espectativas dos colegas,
mas, imagino que ser professor
é das profissões mais difíceis que existem. Professor público, pior
ainda. Talvez seja uma das ocupações
humanas de maior teor político existente em uma sociedade moderna dita
democrática, soberana e
republicana. Lidamos diretamente com aquilo que se propõe chamar de
"projeto de nação". Construímos
efetivamente nosso país em sua cidadania e participação civil a cada
dia de nosso trabalho. Somos a
encarnação do estado de direito, transformando individualidades em
coletividade. O estado se faz presente
no indivíduo, através de nossa atuação. E se o fizermos de maneira
democrática, assim construiremos
uma sociedade democrática. Se o fizermos de maneira participativa,
assim construiremos uma
sociedade participativa. Se o fizermos de uma maneira cidadã, assim
construiremos uma sociedade
cidadã. Ipso Facto.
Mas é isso que nós temos feito? Pense bem.
Novamente, não sei se compartilho essa experiência com os colegas,
mas venho observando há algum
tempo, o esfacelamento moral a que vem se sujeitando o profissional de
educação. Parece haver uma
impressão geral de que professor é otário, no melhor dos casos, e
tarado, pedófilo, safado, no pior. Poderia
estar ganhando mais dinheiro em outro setor? Talvez. Poderia estar
ganhando mais dinheiro ensinando
uma meia dúzia de filhinhos de papai a passar de ano no Ph?
Certamente. Mas toda vez que essas
questões se colocam, tentando me fazer sentir um fracassado, a frieira
no pé da bactéria presente no cocô
do cavalo do bandido, me lembro:
a) Do imenso orgulho que tenho quando vejo ex-alunos hoje ingressando
em universidades públicas, assegurando
ao menos uma possibilidade concreta de melhorar suas vidas, crescendo
como pessoa e como cidadão;
b) Do magrelo espinhento que ingressou na universidade com o sonho de
que é possível melhorar esse mundo
através da educação;
c) Do compromisso que assumi comigo mesmo, ao ter meu filho em meu
colo pela primeira vez, de lhe entregar
um mundo melhor do que o que me acolheu, e entregar ao mundo um garoto
melhor do que eu fui.
Isso me faz dormir tranquilo. Tenho um - desculpem-me o termo -
PUTA orgulho de ser professor. Eu ESCOLHI
sê-lo. Poucos podem dizer o mesmo.
Mas nos encontramos em um momento crítico de nossa história
profissional. Observem como debates acerca
da educação vêm tomando conta do noticiário, das mídias, do cotidiano
dos pobres mortais como eu e você.
O depoimento da professora Amanda Gurgel é muito oportuno. Mas é
novidade para você? Será que você já não ouviu
algo desse tipo. Melhor, será que você já não DISSE algo assim? No
entanto, acho que cometemos o pecado de
pregar para convertidos. Ou seja, do ponto de vista prático, cruzamos
os braços e esperamos uma melhoria
significativa milagrosamente cair dos céus. Ainda do ponto de vista
prático, pergunto: tem funcionado?
Deflagrou-se a greve. A reboque do movimento dos bombeiros,
pode-se discutir, equivocada, pode-se argumentar,
mas, fato: a greve esta aí. E, fato também: com uma surpreendente
força como jamais vi em meus parcos 7 anos de
magistério estadual. É um fato animador.
Fatos também:
1) A SEEDUC proclama aos quatro ventos que cerca de 1% apenas dos
profissionais aderiram à greve.
2) Por outro lado, a SEEDUC toda poderosa negociando com apenas 1%
dos profissionais? Nossa! Imagine se nós
conseguíssemos, sei lá, DOBRAR, esse percentual! Imagine o que não
faríamos com 2%! Nossa! 2%!!!!
3) Acompanho DIARIAMENTE o noticiário da greve, e DIARIAMENTE
encontro novidades, tanto de veículos de mídia
do conglomerado global, quanto da Record, do grupo EJESA, etc. Esse
estardalhaço todo por cauda de 1%? Nossa!
4) Direto do site R7, de notícias
(http://noticias.r7.com/rio-de-janeiro/noticias/apos-55-dias-em-greve-secretario-anuncia-de-reajuste-a-professores-grevistas-20110801.html)
A Seeduc ressalta, ainda, que tem, à disposição, 2.100 contratos
temporários autorizados para professores a
partir de 1º de agosto. Esses docentes poderão ser contratados no caso
de haver necessidade de reposição de aulas.
5) 2100 contratos para cobrir 516 grevistas xexelentos?
6) 3,5 % de aumento proposto pelo governo equivale a
aproximadamente R$ 26,00. Com esse dinheiro você pode:
a- Comprar 2 Kg de Alcatra, Maminha ou Contrafilé,
no Prezunic em promoção
b- Comprar o livro Histórias de Professores que
Ninguém Contou, de Gabriel Chalita - o Fabio Junior da pedagogia
c- Comprar uma camisa falsificada da seleção
brasileira para assistir à copa do mundo que será realizada aqui!
Está bom pra você? Pra mim não.
A sua inação está nos custando 22,5% de reajuste EMERGENCIAL!
A sua inação está nos custando mais 3 parcelas do Nova Escola
A sua inação está respaldando a meritocracia capenga e
mal-adaptada de um mundo empresarial/corporativo que NÃO É O NOSSO!
A sua inação está respaldando uma avaliação externa, criada por
uma empresa PRIVADA de FORA DO NOSSO ESTADO, e que está,
certamente, fazendo alguém sorrir de orelha a orelha, e, surpresa! Não é você!
A sua inação corrobora a opinião geral de que professor é um bando
de fracassado, recalcado fadado a um infarto ou um avc, pra deixar
de ser otário.
A sua inação está custando o ORGULHO de ser educador, numa
sociedade que, a cada dia que passa, premia mais e mais a esperteza
a ambição, o consumo e o individualismo, em detrimento de valores
como honestidade, solidariedade e participação.
Essa é a hora em que o medo vira raiva! É a hora de entrar com
tudo. De dizer CHEGA! Sou um educador e EXIJO ser tratado com
respeito!
Se você é mais um desses "abnegados" que não aderem à greve para
não "prejudicar meus alunos de 3º ano, que tal pensar:
"O que será desses meninos quando eles se
forem? Irão para uma universidade? Ou serão mais um
McEscravo? Um Bob'sBobão - NA MELHOR DAS HIPÓTESES?"
Que tal ser REALMENTE abnegado, e, lecionar para seus alunos em
praça pública? Ou lecionar para seus alunos, mas EXIGIR o código 61?
Você está garantindo que seus alunos farão um bom vestibular (se é
que vestibular é bom) e ainda assim, estará dentro do movimento!
Você tem dúvidas quanto a validade da greve? Eu também! Você teme
o corte de ponto? Eu também! Mas como diz a citação,
Antes a
tristeza da derrota, que a vergonha de nunca ter tentado!
Nossa luta é justa. É por dignidade. É pelo nosso orgulho! É por
respeito. É para que, daqui a muitos anos, eu possa olhar para trás e,
na certeza
do dever cumprido, saber que nada disso foi em vão. Esta greve não nos
garante absolutamente NADA, a não ser nosso direito de nos indignar.
Parece pouco, mas acredite: há coisas muito mais importantes que dinheiro.
-Waine Vieira Junior
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"O que nos faz aprender a viver, a melhorar, é justamente a
necessidade ou a possibilidade de entender o outro, aquele que é,
aparentemente, diferente de você" (W.S)
Carla Fernandes e Souza