As eleições do Chile e a América Latina - Sadi Dal Rosso

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Raquel Moraes

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Mar 15, 2010, 12:05:02 PM3/15/10
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As eleições do Chile e a América Latina
Tipo de conteúdo: Notícias
Autoria: Sadi Dal Rosso - UnB - POLÍTICA INTERNACIONAL - 15/03/2010 - Por: Raquel Moraes ( Guará-DF ) Visitas a este conteúdo: 1
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As eleições do Chile e a América Latina

Sadi Dal Rosso

http://www.unb.br/noticias/unbagencia/artigo.php?id=242

Uma forma simplificada, porém eficaz para a compreensão dos rumos da política na América Latina consiste no recurso à noção de ciclos. Ciclos são empregados para descrever e sintetizar períodos. O passado é seu principal uso, mas nada impede que seja aproveitado para analisar o presente e investir em possíveis rumos para o futuro.

As recentes eleições presidenciais no Chile apontariam para o fim de um ciclo político na América Latina, de acordo com esta linha de pensamento.

Os anos 1970 e 1980 foram a época das ditaduras militares, que mantiveram a ferro e fogo as nações sob o controle do regime capitalista. O ciclo das ditaduras militares expandiu-se muito além da América Latina, incluindo países da África, da Ásia e do Oriente Médio. Em nome da liberdade de empresa e do combate ao comunismo, a democracia foi queimada nos porões da tortura e nas prisões. Mandela é o nome mais ligado ao fim dos regimes ditatoriais e de apartheid.

No continente latino-americano, a transição dos regimes militares para os civis foi realizada sob controle da direita. Com a desintegração do comunismo e a confirmação da hegemonia norte-americana mundial, o sistema da democracia representativa é restaurado em muitos países.

A direita neoliberal manteve-se no poder durante os anos 1990 e início do século XXI. Não chegou a manter o poder até a crise mundial do neoliberalismo iniciada em 2008, quando a esquerda já assumira a maioria dos governos latino-americanos.

Como a direita neoliberal não conseguiu responder aos anseios e às expectativas da massa latino-americana marginalizada, a esquerda ascendeu ao poder com tais promessas.  Dividindo-se entre moderada e radical, a esquerda entra o século XXI assumindo o poder para realizar uma tarefa que a direita não conseguira: incluir milhões de marginalizados das favelas e das periferias latino-americanas aos direitos humanos e sociais.

Neste contexto de um ciclo de esquerda da América Latina, as eleições do Chile devem ser analisadas. Se o golpe de Honduras poderia sinalizar o retorno às ditaduras militares, o resultado das eleições do Chile recolocando no poder a direita poderia ser interpretado como o início do fim do ciclo da esquerda na América Latina.

Porque a direita ganhou as eleições presidenciais no Chile e qual o significado destas eleições para o futuro da América Latina?

O taxista, eleitor da direita, que entrevistei deu-me sua versão sob a forma de uma piada. Durante a campanha eleitoral perguntaram a Eduardo Frei, candidato da situação, porque queria ser presidente do Chile uma segunda vez. Ele respondeu que ainda tinha muitos países do mundo a conhecer, gargalhou o taxista. Uma crítica mordaz ao candidato da Concertación.

O motorista que dirigiu a van até o aeroporto, eleitor de Eduardo Frei, disse que as classes média e baixa foram penalizadas pelas políticas oficiais com mais impostos e por isso teria mudado seu voto para um aventureiro de direita que prometeu, entre outras coisas, equalizar salários entre homens e mulheres.

No restaurante “La Casa en el Aire” em Santiago, o garçom da noite era também professor de filosofia de março a dezembro. Nas férias de final de ano, aumentava como garçom os parcos ganhos do professor. Para ele, estaria em funcionamento no Chile o sistema de rotatividade típico da democracia representativa. A rotatividade foi acionada porque o candidato da Concertación já fora presidente e não fizera um bom governo, segundo o professor-garçom.

O gerente do Hotel de Punta Arenas interpretava a vitória da direita também sob a ótica da rotatividade. A vitória da Concertación representaria a permanência dos mesmos nomes na política e a manutenção de privilégios para grupos econômicos já beneficiados.

A guardadora de estacionamentos de quarteirão, assalariada de empresa concessionária de serviços públicos, explicou diferentemente. Eduardo Frei, o candidato da centro-esquerda e ex-presidente, fizera um governo de privatização de serviços e empresas públicas. Os custos das privatizações recaem sobre os assalariados, uma vez que os grandes empresários tem mil maneiras de repassar seus custos. Assalariados, pequenos prestadores de serviços e autônomos sofrem as conseqüências da privatização do ensino, da saúde, de inúmeros serviços públicos, das aposentadorias.

Independentemente da explicação, as eleições do Chile podem ser interpretadas como o início do fim de um ciclo. Para a esquerda permanecer no poder na América Latina ou em qualquer lugar do mundo, não basta colocar a máquina da economia a funcionar, como no caso do Chile. A população quer participar dos resultados do crescimento. Ou será alçada a bandeira do retorno à direita, volver!

 

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