Uma forma simplificada, porém eficaz para a compreensão dos
rumos da política na América Latina consiste no recurso à noção de
ciclos. Ciclos são empregados para descrever e sintetizar períodos. O
passado é seu principal uso, mas nada impede que seja aproveitado para
analisar o presente e investir em possíveis rumos para o futuro.
As
recentes eleições presidenciais no Chile apontariam para o fim de um
ciclo político na América Latina, de acordo com esta linha de
pensamento.
Os anos 1970 e 1980 foram a
época das ditaduras militares, que mantiveram a ferro e fogo as nações
sob o controle do regime capitalista. O ciclo das ditaduras militares
expandiu-se muito além da América Latina, incluindo países da África, da
Ásia e do Oriente Médio. Em nome da liberdade de empresa e do combate
ao comunismo, a democracia foi queimada nos porões da tortura e nas
prisões. Mandela é o nome mais ligado ao fim dos regimes ditatoriais e
de apartheid.
No continente
latino-americano, a transição dos regimes militares para os civis foi
realizada sob controle da direita. Com a desintegração do comunismo e a
confirmação da hegemonia norte-americana mundial, o sistema da
democracia representativa é restaurado em muitos países.
A direita
neoliberal manteve-se no poder durante os anos 1990 e início do século
XXI. Não chegou a manter o poder até a crise mundial do neoliberalismo
iniciada em 2008, quando a esquerda já assumira a maioria dos governos
latino-americanos.
Como a direita neoliberal
não conseguiu responder aos anseios e às expectativas da massa
latino-americana marginalizada, a esquerda ascendeu ao poder com tais
promessas. Dividindo-se entre moderada e radical, a esquerda entra o
século XXI assumindo o poder para realizar uma tarefa que a direita não
conseguira: incluir milhões de marginalizados das favelas e das
periferias latino-americanas aos direitos humanos e sociais.
Neste
contexto de um ciclo de esquerda da América Latina, as eleições do
Chile devem ser analisadas. Se o golpe de Honduras poderia sinalizar o
retorno às ditaduras militares, o resultado das eleições do Chile
recolocando no poder a direita poderia ser interpretado como o início
do fim do ciclo da esquerda na América Latina.
Porque a
direita ganhou as eleições presidenciais no Chile e qual o significado
destas eleições para o futuro da América Latina?
O
taxista, eleitor da direita, que entrevistei deu-me sua versão sob a
forma de uma piada. Durante a campanha eleitoral perguntaram a Eduardo
Frei, candidato da situação, porque queria ser presidente do Chile uma
segunda vez. Ele respondeu que ainda tinha muitos países do mundo a
conhecer, gargalhou o taxista. Uma crítica mordaz ao candidato da
Concertación.
O motorista que dirigiu a van
até o aeroporto, eleitor de Eduardo Frei, disse que as classes média e
baixa foram penalizadas pelas políticas oficiais com mais impostos e
por isso teria mudado seu voto para um aventureiro de direita que
prometeu, entre outras coisas, equalizar salários entre homens e
mulheres.
No restaurante “La Casa en
el Aire” em Santiago, o garçom da noite era também professor de
filosofia de março a dezembro. Nas férias de final de ano, aumentava
como garçom os parcos ganhos do professor. Para ele, estaria em
funcionamento no Chile o sistema de rotatividade típico da democracia
representativa. A rotatividade foi acionada porque o candidato da
Concertación já fora presidente e não fizera um bom governo, segundo o
professor-garçom.
O gerente do Hotel de Punta
Arenas interpretava a vitória da direita também sob a ótica da
rotatividade. A vitória da Concertación representaria a permanência dos
mesmos nomes na política e a manutenção de privilégios para grupos
econômicos já beneficiados.
A guardadora de
estacionamentos de quarteirão, assalariada de empresa concessionária de
serviços públicos, explicou diferentemente. Eduardo Frei, o candidato
da centro-esquerda e ex-presidente, fizera um governo de privatização
de serviços e empresas públicas. Os custos das privatizações recaem
sobre os assalariados, uma vez que os grandes empresários tem mil
maneiras de repassar seus custos. Assalariados, pequenos prestadores de
serviços e autônomos sofrem as conseqüências da privatização do
ensino, da saúde, de inúmeros serviços públicos, das aposentadorias.
Independentemente
da explicação, as eleições do Chile podem ser interpretadas como o
início do fim de um ciclo. Para a esquerda permanecer no poder na
América Latina ou em qualquer lugar do mundo, não basta colocar a
máquina da economia a funcionar, como no caso do Chile. A população
quer participar dos resultados do crescimento. Ou será alçada a
bandeira do retorno à direita, volver!