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Um
roteiro que começa em Santo Amaro
Caetano,
naquele mesmo ano, casa com Dedé Gadelha (de minissaia) com tintas
contraculturais na cerimônia que vai direto para as páginas das
revistas de todo o país, mostrando que o compromisso do artista com
a revolução estética e comportamental da Tropicália não se atinha
aos festivais ou aos sulcos dos vinis.
Chega
1968. No pano de fundo, há um mundo em convulsão, chacoalhado pelos
movimentos estudantis, pelo desbunde hippie, por
assassinatos de líderes libertários e pelo recrudescimento dos
regimes ditatoriais espalhados pela América do Sul. O baiano de
Santo Amaro lança seu primeiro disco solo - Caetano Veloso.
O disco é povoado de referências àquele tempo em "Alegria Alegria",
composição de Caetano para o festival da Record do ano anterior pela
primeira vez em LP, "Soy Loco Por Ti, América", de Gil e Capinan, em
homenagem velada a Che Guevara, e "Tropicália", que preparava o
terreno para a revolução do disco homônimo.
E
a revolução começa quando Caetano e Gil alistam Gal, Os Mutantes,
Nara Leão, ex-musa da bossa-nova, o arranjador Rogério Duprat, Tom
Zé e os poetas Torquato Neto e Capinan para o disco-manifesto
Tropicália ou Panis et Circencis. O álbum é um dos mais
importantes projetos coletivos de todos os tempos e foi fundo nas
questões de ordem do Estado-Maior Tropicalista. Imbuídos da ideia de
não reprisar preguiçosamente uma sub-bossa-nova a partir do que já
havia sido genialmente difundidod por João Gilberto e Tom Jobim,
Caetano e Gil decidem fazer a pedra da MPB voltar a rolar,
assimilando influências externas do rock, Beatles e Jovem
Guarda.
Várias barras
Enquanto
os estudantes franceses "botavam pra quebrar", literalmente, nas
ruas de Paris com um "E Proibido Proibir", Caetano recebia vaias com
o mesmo slogan no III Festival Internacional da Canção da
TV Globo, também de 1968. Uma numerosa ala reacionária de jovens
brasileiros não se conformava com a ruptura tropicalista de Caetano
e Gil, interpretada como influência colonialista americana, com suas
guitarras e comportamento pop. A fúria do discurso de
Caetano Veloso foi tão veemente em seus argumentos que acabou saindo
no lado B do compacto simples da canção com o subtítulo de "Ambiente
de Festival": "Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o
poder?... Vocês são iguais sabem a quem? Aqueles que foram no
Roda-viva e espancaram os atores! Vocês não diferem em nada
deles, vocês não diferem em nada... se vocês, em política, forem
como são em estética, estamos feitos!" vociferou contra a platéia e
contra o júri que era "muito simpático, mas incompetente". Caetano
era um dos artistas mais talentosos e irrequietos da cena
sessentista, e o vanguardismo de suas ideias tinha o dom de
incomodar em escala crescente os dois lados da moeda de um país
divido entre opressores e oprimidos, alienados e
engajados.
Em
novembro do ainda interminável ano de 1968, os compositores Caetano
e Gil descolam o terceiro lugar com "Divino Maravilhoso", na voz de
Gal Costa no IV FMPB da Record, e um programa homônimo estreia na TV
Tupi de São Paulo, liderado por eles com toda a trupe tropicalista
em seu elenco barbarizando geral. A censura federal manda recolher o
compacto duplo de Caetano com "A Voz do Morto". A repressão fechava
seu cerco. |
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1. Lua de São
Jorge (Caetano Veloso)
2. Oração ao
Tempo (Caetano Veloso)
3. Beleza
Pura (Caetano Veloso)
4. Menino
do Rio (Caetano Veloso)
5. Vampiro
(Jorge Mautner)
6. Elegia
(Péricles Cavalcanti / Augusto de
Campos)
7. Trilhos
Urbanos (Caetano Veloso)
8. Louco
por Você (Caetano Veloso)
9. Cajuína
(Caetano Veloso)
10.Aracaju
(Vinícius Cantuária / Tomas Improta / Caetano
Veloso)
11. Badauê
(Moa do Catende)
12. Os
Meninos Dançam (Caetano Veloso)
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O melhor o tempo esconde, longe, muito longe Mas
bem dentro aqui, quando o bonde dava a volta ali No cais de
Araújo Pinho, tamarindeirinho Nunca me esqueci onde o imperador
fez xixi
Cana doce Santo Amaro, gosto muito raro Trago em
mim por ti, e uma estrela sempre a luzir
Bonde da Trilhos Urbanos vão passando os anos E
eu não te perdi, meu trabalho é te traduzir
Rua da Matriz ao Conde no trole ou no bonde Tudo
é bom de vê, seu Popó do Maculelê
Mas aquela curva aberta, aquela coisa certa Não
dá prá entender o Apolo e o rio Subaé
Pena de Pavão de Krishna, maravilha, vixe
Maria Mãe de Deus, será que esses olhos são meus ?
Cinema transcendental, Trilhos Urbanos Gal
cantando o Balancê Como eu sei lembrar de
você |