Trilhos Urbanos (Caetano Veloso)

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Café com Letras

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May 17, 2012, 10:59:03 PM5/17/12
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CAFÉ COM LETRAS CLUBE

Cinema Transcendental

"Série: Grande Discoteca Brasileira"

(1979) Caetano Veloso

Texto: Ricardo Moreira 

Um roteiro que começa em Santo Amaro 

Caetano, naquele mesmo ano, casa com Dedé Gadelha (de minissaia) com tintas contraculturais na cerimônia que vai direto para as páginas das revistas de todo o país, mostrando que o compromisso do artista com a revolução estética e comportamental da Tropicália não se atinha aos festivais ou aos sulcos dos vinis.

Chega 1968. No pano de fundo, há um mundo em convulsão, chacoalhado pelos movimentos estudantis, pelo desbunde hippie, por assassinatos de líderes libertários e pelo recrudescimento dos regimes ditatoriais espalhados pela América do Sul. O baiano de Santo Amaro lança seu primeiro disco solo - Caetano Veloso. O disco é povoado de referências àquele tempo em "Alegria Alegria", composição de Caetano para o festival da Record do ano anterior pela primeira vez em LP, "Soy Loco Por Ti, América", de Gil e Capinan, em homenagem velada a Che Guevara, e "Tropicália", que preparava o terreno para a revolução do disco homônimo.

E a revolução começa quando Caetano e Gil alistam Gal, Os Mutantes, Nara Leão, ex-musa da bossa-nova, o arranjador Rogério Duprat, Tom Zé e os poetas Torquato Neto e Capinan para o disco-manifesto Tropicália ou Panis et Circencis. O álbum é um dos mais importantes projetos coletivos de todos os tempos e foi fundo nas questões de ordem do Estado-Maior Tropicalista. Imbuídos da ideia de não reprisar preguiçosamente uma sub-bossa-nova a partir do que já havia sido genialmente difundidod por João Gilberto e Tom Jobim, Caetano e Gil decidem fazer a pedra da MPB voltar a rolar, assimilando influências externas do rock, Beatles e Jovem Guarda.

Várias barras

Enquanto os estudantes franceses "botavam pra quebrar", literalmente, nas ruas de Paris com um "E Proibido Proibir", Caetano recebia vaias com o mesmo slogan no III Festival Internacional da Canção da TV Globo, também de 1968. Uma numerosa ala reacionária de jovens brasileiros não se conformava com a ruptura tropicalista de Caetano e Gil, interpretada como influência colonialista americana, com suas guitarras e comportamento pop. A fúria do discurso de Caetano Veloso foi tão veemente em seus argumentos que acabou saindo no lado B do compacto simples da canção com o subtítulo de "Ambiente de Festival": "Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?... Vocês são iguais sabem a quem? Aqueles que foram no Roda-viva e espancaram os atores! Vocês não diferem em nada deles, vocês não diferem em nada... se vocês, em política, forem como são em estética, estamos feitos!" vociferou contra a platéia e contra o júri que era "muito simpático, mas incompetente". Caetano era um dos artistas mais talentosos e irrequietos da cena sessentista, e o vanguardismo de suas ideias tinha o dom de incomodar em escala crescente os dois lados da moeda de um país divido entre opressores e oprimidos, alienados e engajados.

Em novembro do ainda interminável ano de 1968, os compositores Caetano e Gil descolam o terceiro lugar com "Divino Maravilhoso", na voz de Gal Costa no IV FMPB da Record, e um programa homônimo estreia na TV Tupi de São Paulo, liderado por eles com toda a trupe tropicalista em seu elenco barbarizando geral. A censura federal manda recolher o compacto duplo de Caetano com "A Voz do Morto". A repressão fechava seu cerco.


1. Lua de São Jorge (Caetano Veloso)

2. Oração ao Tempo (Caetano Veloso)

3. Beleza Pura (Caetano Veloso)

4. Menino do Rio (Caetano Veloso)

5. Vampiro (Jorge Mautner)

6. Elegia (Péricles Cavalcanti / Augusto de Campos)

7. Trilhos Urbanos (Caetano Veloso)

8. Louco por Você (Caetano Veloso)

9. Cajuína (Caetano Veloso)

10.Aracaju (Vinícius Cantuária / Tomas Improta / Caetano Veloso)

11. Badauê (Moa do Catende)

12. Os Meninos Dançam (Caetano Veloso)


Letra 

O melhor o tempo esconde, longe, muito longe
Mas bem dentro aqui, quando o bonde dava a volta ali
No cais de Araújo Pinho, tamarindeirinho
Nunca me esqueci onde o imperador fez xixi

Cana doce Santo Amaro, gosto muito raro
Trago em mim por ti, e uma estrela sempre a luzir

Bonde da Trilhos Urbanos vão passando os anos
E eu não te perdi, meu trabalho é te traduzir

Rua da Matriz ao Conde no trole ou no bonde
Tudo é bom de vê, seu Popó do Maculelê

Mas aquela curva aberta, aquela coisa certa
Não dá prá entender o Apolo e o rio Subaé

Pena de Pavão de Krishna, maravilha, vixe Maria
Mãe de Deus, será que esses olhos são meus ?

Cinema transcendental, Trilhos Urbanos
Gal cantando o Balancê
Como eu sei lembrar de você

Foi de "Trilhos Urbanos" que o título do disco foi tirado: "... cinema transcendental, trilhos ubanos, Gal cantando Balancê...". Através da levada característica de Caetano, que imita a batida de um coração, a canção descreve um passeio cinematográfico por onde passava a Companhia de Bondes Trilhos Urbanos de Santo Amaro. Uma viagem.

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GRANDE DISCOTECA BRASILEIRA
1. TROPICALIA OU PANIS ET CIRCENCIS (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Os Mutantes, Nara Leão) 2. MEUS CAROS AMIGOS (Chico Buarque)
3. IDEOLOGIA (Cazuza) 4. CLUBE DA ESQUINA (Milton Nascimento & Borges) 5. CINEMA TRANSCENDETAL (Caetano Veloso) 6. ACABOU CHORARE (Novos Baianos) 7. SECOS & MOLHADOS (Secos & Molhados) 8. CABEÇA DINOSSAURO (Titãs) 9. A TÁBUA DA ESMERALDA (Jorge Benjor) 10. FRUTO PROIBIDO (Rita Lee & Tutti Frutti) 11. EXPRESSO 2222 (Gilberto Gil) 12. TUDO AZUL (Lulu Santos) 13. A DIVINA COMÉDIA OU ANDO MEIO DESLIGADO (Os Mutantes) 14. FALSO BRILHANTE (Elis Regina) 15. PÉROLA NEGRA (Luiz Melodia) 16. A VOZ E O VIOLÃO DE DJAVAN (Djavan) 17. AS AVENTURAS DA BLITZ (Blitz) 18. GONZAGUINHA DA VIDA (Gonzaguinha) 19. SELVAGEM? (Os Paralamas do Sucesso) 20. DANÇA DA SOLIDÃO (Paulinho da Viola) 21. SOMOS TODOS IGUAIS NESTA NOITE (Ivan Lins) 22. CAÇA À RAPOSA (João Bosco) 23. CAVALO DE PAU (Alceu Valença) 24. CANTAR (Gal Costa) 25. ZÉ RAMALHO (Zé Ramalho)
25 DISCOS QUE FIZERAM HISTÓRIA!
 

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O PROJETO CAFÉ COM LETRAS CLUBE — UM SÍTIO SEM FINS LUCRATIVOS — tem como objetivo divulgar a música popular brasileira. Aguardamos dos amigos leitores e ouvintes críticas, comentários e sugestões.
A todos, muito obrigado.
Roberto Ferro. robert...@hotmail.com

 
 
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