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Um
roteiro que começa em Santo Amaro
Baianamente
descompromissado, o disco Temporada de Verão nasceu naquele
ano de um show que fizeram Caetano, Gil e Gal no Teatro
Vila Velha, em Salvador. Dali saíram regravações bem-sucedidas de
"Acontece", de Cartola com Gal, "Cantiga do Sapo", de Jackson do
Pandeiro e Buco do Pandeiro com Gil, e "Felicidade", de Lupicínio
Rodrigues com Caetano Veloso. Mais um ensaio proveitoso para o que
viria em Doces Bárbaros.
O
ano de 1975 foi um duplo ano "sim" de Caetano Veloso. Além de fazer
uma contribuição musical aos poemas dos concretos Augusto de Campos
e Julio Plaza, lançada em um compacto encartado em Caixa
Preta, depois de dois anos sem gravar o artista paga a dívida
com os fãs em dobro.
Acomodado
confortavelmente com Dedé e Moreno num apartamento no Leblon, que
seria por muito tempo seu QG, Caetano pariu quase duas dezenas de
canções e ideias de regravações, dividindo-as entre discos que se
opunham e, ao mesmo tempo, se complementavam.
Experimentalismo
Joia
ficou com o que seria mais experimental, e Qualquer Coisa
com canções de estruturas mais clássicas de acabamento. Dois LPs
distintos lançados ao mesmo tempo e separadamente aparecem, então,
no mercado. Intencionalmente opostos, Joia trazia o lado
indie novamente à tona. A começar pela capa, que estamparia
a família Veloso (o artista, a mulher e o filho) completamente nua.
A censura proibiu. O próprio Caetano criou então, a partir da foto,
uma pintura, colocando pombas nas partes "imorais". Não passou. A
capa acabou saiu somente com as pombas, mas foi recuperada na
íntegra nos relançamentos posteriores à distenção completa da
censura. Esse seria o único ponto de atrito com o regime. Restava
apenas o "risco" do experimentalismo. Dessa vez, talvez por ter
vertido boa parte da ira da volta do exílio em Araçá Azul
e, ao mesmo tempo, tendo um público agora mais aberto e habituado a
novas experiências sensoriais vindas do baiano, o disco chegou a
estabelecer canções até hoje cultuadas por seus fãs, como "Lua, Lua,
Lua, Lua", "Canto do Povo de um Lugar", "Pipoca Moderna", todas de
Caetano Veloso, sendo a última em parceria com Sebastiano C. Biano.
Importante destacar em Joia a releitura acústica de "Help",
dos Beatles, com tintas dramáticas ressaltando seu conteúdo lírico,
muito antes de Tina Turner fazer a sua na mesma
direção.
O
capista Rogério Duarte ajudou Caetano a montar um tributo ao álbum
Let It Be, dos Beatles, na capa de Qualquer Coisa.
Em vez dos quatro de Liverpool, quatro caetanos semidesfigurados
pela impressão desencontrada que proporcionava tons diferentes a
cada quadro da mesma foto do artista. Fazia sentido. Regravando sete
canções alheias, três delas eram de Lennon & McCartney: "Eleanor
Rigby", "For No One" e "Lady Madonna". Entre as reminiscências
cubanas da infância radiofônica estava "Drume Neguinha", versionada
pelo artista para ninar Preta Gil, filha de Gilberto Gil. A
regravação de "Jorge da Capadócia" lança luz sobre o compositor
vigoroso que o Brasil tem em Jorge Benjor. Há ainda a bela releitura
acústica para "Samba e Amor", de Chico Buarque, que até então não
havia chamado tanta atenção no repertório do compositor. O sucesso
do disco foi "pra lá de Marrakech" com "Qualquer Coisa", de Caetano,
que dá nome e abre o disco. |
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1. Lua de São
Jorge (Caetano Veloso)
2. Oração ao Tempo (Caetano
Veloso)
3. Beleza
Pura (Caetano Veloso)
4. Menino
do Rio (Caetano Veloso)
5. Vampiro
(Jorge Mautner)
6. Elegia
(Péricles Cavalcanti / Augusto de
Campos)
7. Trilhos
Urbanos (Caetano Veloso)
8. Louco
por Você (Caetano Veloso)
9. Cajuína
(Caetano Veloso)
10.Aracaju
(Vinícius Cantuária / Tomas Improta / Caetano
Veloso)
11. Badauê
(Moa do Catende)
12. Os
Meninos Dançam (Caetano Veloso)
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