Oração ao Tempo (Caetano Veloso)

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Café com Letras

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May 25, 2012, 10:00:50 PM5/25/12
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CAFÉ COM LETRAS CLUBE

Cinema Transcendental

"Série: Grande Discoteca Brasileira"

(1979) Caetano Veloso

Texto: Ricardo Moreira 

Um roteiro que começa em Santo Amaro 

Baianamente descompromissado, o disco Temporada de Verão nasceu naquele ano de um show que fizeram Caetano, Gil e Gal no Teatro Vila Velha, em Salvador. Dali saíram regravações bem-sucedidas de "Acontece", de Cartola com Gal, "Cantiga do Sapo", de Jackson do Pandeiro e Buco do Pandeiro com Gil, e "Felicidade", de Lupicínio Rodrigues com Caetano Veloso. Mais um ensaio proveitoso para o que viria em Doces Bárbaros.

O ano de 1975 foi um duplo ano "sim" de Caetano Veloso. Além de fazer uma contribuição musical aos poemas dos concretos Augusto de Campos e Julio Plaza, lançada em um compacto encartado em Caixa Preta, depois de dois anos sem gravar o artista paga a dívida com os fãs em dobro.

Acomodado confortavelmente com Dedé e Moreno num apartamento no Leblon, que seria por muito tempo seu QG, Caetano pariu quase duas dezenas de canções e ideias de regravações, dividindo-as entre discos que se opunham e, ao mesmo tempo, se complementavam.

Experimentalismo

Joia ficou com o que seria mais experimental, e Qualquer Coisa com canções de estruturas mais clássicas de acabamento. Dois LPs distintos lançados ao mesmo tempo e separadamente aparecem, então, no mercado. Intencionalmente opostos, Joia trazia o lado indie novamente à tona. A começar pela capa, que estamparia a família Veloso (o artista, a mulher e o filho) completamente nua. A censura proibiu. O próprio Caetano criou então, a partir da foto, uma pintura, colocando pombas nas partes "imorais". Não passou. A capa acabou saiu somente com as pombas, mas foi recuperada na íntegra nos relançamentos posteriores à distenção completa da censura. Esse seria o único ponto de atrito com o regime. Restava apenas o "risco" do experimentalismo. Dessa vez, talvez por ter vertido boa parte da ira da volta do exílio em Araçá Azul e, ao mesmo tempo, tendo um público agora mais aberto e habituado a novas experiências sensoriais vindas do baiano, o disco chegou a estabelecer canções até hoje cultuadas por seus fãs, como "Lua, Lua, Lua, Lua", "Canto do Povo de um Lugar", "Pipoca Moderna", todas de Caetano Veloso, sendo a última em parceria com Sebastiano C. Biano. Importante destacar em Joia a releitura acústica de "Help", dos Beatles, com tintas dramáticas ressaltando seu conteúdo lírico, muito antes de Tina Turner fazer a sua na mesma direção.

O capista Rogério Duarte ajudou Caetano a montar um tributo ao álbum Let It Be, dos Beatles, na capa de Qualquer Coisa. Em vez dos quatro de Liverpool, quatro caetanos semidesfigurados pela impressão desencontrada que proporcionava tons diferentes a cada quadro da mesma foto do artista. Fazia sentido. Regravando sete canções alheias, três delas eram de Lennon & McCartney: "Eleanor Rigby", "For No One" e "Lady Madonna". Entre as reminiscências cubanas da infância radiofônica estava "Drume Neguinha", versionada pelo artista para ninar Preta Gil, filha de Gilberto Gil. A regravação de "Jorge da Capadócia" lança luz sobre o compositor vigoroso que o Brasil tem em Jorge Benjor. Há ainda a bela releitura acústica para "Samba e Amor", de Chico Buarque, que até então não havia chamado tanta atenção no repertório do compositor. O sucesso do disco foi "pra lá de Marrakech" com "Qualquer Coisa", de Caetano, que dá nome e abre o disco.


1. Lua de São Jorge (Caetano Veloso)

2. Oração ao Tempo (Caetano Veloso)

3. Beleza Pura (Caetano Veloso)

4. Menino do Rio (Caetano Veloso)

5. Vampiro (Jorge Mautner)

6. Elegia (Péricles Cavalcanti / Augusto de Campos)

7. Trilhos Urbanos (Caetano Veloso)

8. Louco por Você (Caetano Veloso)

9. Cajuína (Caetano Veloso)

10.Aracaju (Vinícius Cantuária / Tomas Improta / Caetano Veloso)

11. Badauê (Moa do Catende)

12. Os Meninos Dançam (Caetano Veloso)


Letra 

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo

Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo

O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo

"Oração ao Tempo" poderia ser uma espécie de barganha com Chronus, deus do tempo da mitologia grega. Em vez de imolar virgens, o artista oferece elogios em troca do prazer legítimo e o movimento preciso quando o tempo for propício. Bordado com o acordeom mágico de Dominguinhos, essa beleza de poema musical foi redescoberta 28 anos depois para a trilha de uma novela da TV Globo, provando que o tempo é absoluto para os mortais e relativo para os gênios.

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GRANDE DISCOTECA BRASILEIRA
1. TROPICALIA OU PANIS ET CIRCENCIS (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Os Mutantes, Nara Leão) 2. MEUS CAROS AMIGOS (Chico Buarque)
3. IDEOLOGIA (Cazuza) 4. CLUBE DA ESQUINA (Milton Nascimento & Borges) 5. CINEMA TRANSCENDETAL (Caetano Veloso) 6. ACABOU CHORARE (Novos Baianos) 7. SECOS & MOLHADOS (Secos & Molhados) 8. CABEÇA DINOSSAURO (Titãs) 9. A TÁBUA DA ESMERALDA (Jorge Benjor) 10. FRUTO PROIBIDO (Rita Lee & Tutti Frutti) 11. EXPRESSO 2222 (Gilberto Gil) 12. TUDO AZUL (Lulu Santos) 13. A DIVINA COMÉDIA OU ANDO MEIO DESLIGADO (Os Mutantes) 14. FALSO BRILHANTE (Elis Regina) 15. PÉROLA NEGRA (Luiz Melodia) 16. A VOZ E O VIOLÃO DE DJAVAN (Djavan) 17. AS AVENTURAS DA BLITZ (Blitz) 18. GONZAGUINHA DA VIDA (Gonzaguinha) 19. SELVAGEM? (Os Paralamas do Sucesso) 20. DANÇA DA SOLIDÃO (Paulinho da Viola) 21. SOMOS TODOS IGUAIS NESTA NOITE (Ivan Lins) 22. CAÇA À RAPOSA (João Bosco) 23. CAVALO DE PAU (Alceu Valença) 24. CANTAR (Gal Costa) 25. ZÉ RAMALHO (Zé Ramalho)
25 DISCOS QUE FIZERAM HISTÓRIA!
 

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A todos, muito obrigado.
Roberto Ferro. robert...@hotmail.com

 
 
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